Gol de LETRAS

por André Mendonça

O artilheiro do bem

capaocoronel

"Eu escrevo errado, falo errado, mas faço o certo!" A frase é de um peladeiro com um coração gigante: Paulo Roberto Souza da Silva, o Paulinho. O craque trava uma batalha diária por um mundo melhor e diz que o filme "A Corrente do Bem", dirigido por Mimi Leder, mudou a sua vida. "Temos que nos unir mais. Se os pequenos se unirem, vão ficar fortes e ninguém vai derrubar." Recentemente, lançou o livro "A bola é o melhor brinquedo do mundo", onde conta histórias emocionantes sobre sua trajetória. Segundo ele, a bola é o melhor brinquedo do mundo porque dá a chance de conhecer a amizade, a "trairagem", a bondade, a ruindade e a covardia.

A paixão de Paulinho pelo futebol surgiu aos sete anos. "Comecei a jogar bola com meu primo no asfalto e no paralelepípedo. Faltava muita aula. Me arrebentava todo, mas comecei a pegar gosto pelo negócio." Com 11 anos, a brincadeira começou a ficar mais séria e o craque passou treinar na Portuguesa, da Ilha. O treinador era Zerildo, chamado de Zé Grande por conta de seu pezão. O "professor" gostou do futebol de Paulinho e prometeu aproveitá-lo no time infantil. Por pressão da mãe, no entanto, o menino teve que, infelizmente, deixar a bola de lado para estudar e trabalhar.

O tempo passou e um dia Paulinho reencontrou Zerildo. "E aí, menino? O que você está fazendo? Abandonou o futebol?", perguntou o treinador. Triste, o garoto voltou a dizer que precisava estudar e que a mãe o impedia. Foi aí que Zerildo chamou Paulo Ferreira, supervisor de futebol do Olaria, e disse que Paulinho precisava ser aproveitado. Como já era de se esperar, a mãe do craque não deu o aval. Após muita insistência, Paulinho conseguiu convencê-la. Chegou ao Olaria em um sábado, foi escalado como titular no coletivo e estreou no domingo, contra a Portuguesa. Mesmo atuando como volante, o jogador conseguiu marcar um gol. "Fiz um gol de cabeça. Apesar de não ser tão alto (1,76m), a maior virtude que eu tenho é a cabeçada. Fiz muitos gols assim".

No Olaria, Paulinho criou amizade com um dos maiores craques do futebol mundial: Romário. Com muita moral na equipe, Paulinho pediu a Zerildo que subisse o "baixinho", um ano mais novo, para o time de cima, pois o garoto estava arrebentando e o atacante da equipe não vinha numa boa fase. "Zerildo, tem que colocar o cabeção pra jogar!". Cabeção era a forma como um chamava o outro. O treinador ouviu as palavras de Paulinho e promoveu Romário. Antes do jogo de estreia, o "baixinho" apostou que driblaria todo mundo. "No primeiro lance, driblou quatro marcadores, o goleiro, mas chutou para fora. Depois do jogo veio cobrar a aposta, dizendo que tinha driblado todo mundo", revelou Paulinho, gargalhando.

Na favela Nova Holanda, no subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde Paulinho nasceu e deu os primeiros chutes, o mundo era cruel. "Perdi muitos amigos." Contudo, tomou as escolhas certas, sempre optando pelo futebol e pela bola na rede. "A bola faz milagres. É capaz de parar uma guerra." No livro, conta uma história em que foi parado pelos "rapazes do lado ruim" quando entrava na favela. Apesar de não conhecê-los, o craque foi reconhecido. "É o Paulinho, artilheiro do Elite, pode deixar passar", disse um deles. Tal fato mexeu muito com o goleador. "O mundo precisava saber dessa história".

Depois do ocorrido, Paulinho conversou com Mônica, a mãe de suas filhas, que o aconselhou a fazer alguma coisa para tirar essas crianças do mundo do crime. Daí surgiu a ideia de criar o "Projeto Social Lucelles na Bola", que começou com três crianças e em poucos meses já tinha mais de 200. O problema, no entanto, estava na parte financeira.  Sem nenhuma ajuda dos comerciantes vizinhos, Paulinho teve que se virar. "Comprava as coisas para os moleques mesmo sem dinheiro. Ficava devendo para todo mundo. Não tenho vergonha de falar isso", comentou. Com o tempo, a situação foi ficando cada vez mais complicada e o projeto social foi interrompido. "As crianças ficaram muito tristes, mas sozinho estava difícil".

 O craque ficou 12 anos sem entrar na favela, após o fim do projeto. O retorno, no entanto, foi em grande estilo. Paulinho voltava para lançar seu livro. Ficou um bom tempo juntando dinheiro e conseguiu bancar a obra. Na favela, deu palestra e distribuiu alguns exemplares para as crianças. "O objetivo do livro é passar uma boa mensagem para elas". O mais curioso é que o dinheiro arrecado será revertido para a reconstrução do projeto social, interrompido. Além disso, confeccionou 120 camisas para serem comercializadas, com o intuito de arrecadar para o projeto social. As vendas foram um sucesso e Paulinho busca agora recursos para produzir uma segunda edição.

De acordo com o artilheiro, o caminho para o bem da humanidade está na origem, quando a criança tem sete, oito anos. "Depois que vira um problema fica complicado reverter." O livro foi uma forma de chamar a atenção para uma causa tão relevante. Queria mostrar para as crianças os valores, a importância de respeitar os pais, para que elas não se tornem um problema no futuro. "É a reflexão de um cara revoltado, mas consciente de que as coisas podem mudar. Não adianta colocar a culpa só no governo. Todo mundo precisa dar um passo adiante".

A batalha de um coronel peladeiro

capaocoronel

Recentemente, o peladeiro Carlos Alberto de Lima lançou o livro “O coronel e o fantástico mundo do futebol”, obra recheada de histórias divertidas da vida de um militar apaixonado por esporte, que fazia de tudo para conciliar as atividades e sempre dava um jeitinho para jogar a sua pelada. O coronel seria apenas mais um dos milhões de brasileiros apaixonados pelo esporte, se também já não tivesse a honra de ter atuado ao lado do maior ídolo de seu time de coração e maior artilheiro do Maracanã: Zico. Os dois jogaram juntos algumas vezes na equipe de pelada Novolar, uma loja de eletrodomésticos com diversas filiais no bairro da Leopoldina.

O Galinho, inclusive, escreveu o prefácio do livro, destacando a amizade dos dois e lembrando o apelido que colocou no veloz ponta-direita.  “Como eu atuava como meia-atacante, a possibilidade de municiar os atacantes aparecia constantemente e quando precisava desafogar nosso meio campo, sem precisar olhar, era só lançar a bola para a ponta direita e ter a certeza de que nosso ‘Frango Veloz’ chegaria sempre na frente do seu marcador”, escreveu Zico.

Nascido em Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 1950, Carlos Alberto sempre se destacou nas atividades esportivas, sobretudo no futebol. Jogava peladas em um campinho de terra, perto de casa e, devido ao alto rendimento, passou a jogar com garotos mais velhos. A grande movimentação e velocidade do peladeiro, características fundamentais de um bom ponta, possibilitou que Carlos Alberto chegasse a ser jogador da equipe de base do Fluminense.

A história é curiosa. A velocidade era tanta que o menino se destacava também em outras modalidades. O desempenho acima da média lhe rendeu uma vaga na equipe de atletismo do Fluminense. Como treinava perto do campo de futebol e recebia constantes convites para fazer um teste, um dia aceitou. Sem avisar ao treinador, foi flagrado no campo, de chuteiras, decretando o fim da carreira na modalidade. A passagem pelo time juvenil do Fluminense foi curta, mas significativa. No clube, teve a oportunidade de ser treinado pelo mestre Telê Santana.

No ano seguinte, em 1968, entrou para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas, São Paulo. Como a instituição tinha um regime de internato, o jovem, com 18 anos na época, só conseguia retornar para casa nas férias. No livro, o coronel descreve a sua infância com saudosismo. Gostava de soltar pipa, jogar futebol de botão, totó e, principalmente, das peladas de rua. Segundo ele, a fissura era tanta que até uma lata vazia servia de bola. A vocação pelos esportes também lhe renderam conquistas nas competições militares, tanto no atletismo, quanto no futebol. No final de 1971, após concluir o curso da EsPCEx apresentou-se à Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), em Resende, onde também destacou-se nos esportes.

Por conta de sua profissão, Carlos Alberto morou em diversos lugares do Brasil. Em Apucarana, município do Paraná, apresentou-se no 30º BIMtz (Batalhão Motorizado). Na pequena região, já era conhecido antes mesmo de chegar porque um amigo havia divulgado as habilidades futebolísticas do “Frango Veloz”. Durante os três anos que passou no município, jogou o campeonato local e foi convidado para fazer parte da seleção de futebol de salão da cidade, que disputaria a Copa Tagibi.

Em Brasília, Carlos Alberto viveu um drama. Quando chegou, o futebol de salão estava proibido entre os militares por ser uma atividade com alto risco de contusões. Fominha, o “Frango Veloz”, com os outros militares, conseguiu demover o comandante para a alegria da turma. A equipe era excelente e em pouco tempo conquistaram alguns títulos. Na capital, além de jogar, Carlos Alberto concluiu o curso de árbitro de futebol de salão e passou a apitar no Campeonato Brasiliense. Como militar, também teve experiências inesquecíveis em Brasília. Realizou o curso de Batedor Militar (motociclista) e teve a oportunidade de fazer a escolta do Papa João Paulo II, na primeira visita ao Brasil.

Em 1981, foi transferido para Boa Vista, em Roraima. Já no posto de capitão, chegou à cidade com 32 anos e, como de costume, logo procurou as peladas na região. Apesar de mais velho,  ainda mantinha a boa forma e foi convidado para fazer parte do Grêmio Atlético Sampaio, equipe formada sobretudo por militares. O GAS, no entanto, não tinha bons jogadores e o clube ficava constantemente nas últimas posições do torneio. A passagem de Carlos Alberto pela equipe foi lembrada por Zico no prefácio do livro. Segundo o Galinho, a equipe era uma das piores do Brasil, concorrendo com o íbis, de Pernambuco.

No dia 6 de fevereiro de 1985, se apresentou na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais (EsAO), no Rio de Janeiro. Totalmente dedicado ao curso, não tinha muito tempo para desfrutar das peladas. Mesmo assim, no aniversário da escola, disputou um torneio de futebol como técnico e jogador, mas o resultado não foi dos melhores. No fim desse mesmo ano, concluiu o curso e retornou para Boa Vista.

Na região, teve o mesmo êxito de sempre nos esportes: campeão no vôlei e destaque no futebol de salão. Voltou a atuar no Grêmio Atlético Sampaio, equipe que, segundo ele, só piorava. No dia 25 de dezembro de 1988, foi promovido a major e transferido, posteriormente, para o Gabinete do Ministro do Exército, em Brasília.

De volta à capital do país, em 5 de fevereiro de 1989, retomou algumas atividades esportivas, inclusive a de arbitragem de futebol de salão. Participava ainda da equipe de futebol society do gabinete e disputava alguns torneios contra outras entidades civis.

No livro, Carlos Alberto lembra de um artigo publicado na famosa coluna “A pelada como ela é”, de Sergio Pugliese. Neste, o militar que trabalhava numa missão de paz da ONU, em Nicarágua, descreve a saga, sem sucesso, para assistir o duelo entre Brasil e Suécia, pela Copa do Mundo de 1990, na Itália. Vale destacar que, além de Nicarágua, o coronel também integrou missões de paz da ONU, em Honduras, El Salvador e Costa Rica.

No final de 1993, foi aprovado no concurso de admissão para estudar na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), na Urca. Apresentou-se em fevereiro e, em maio, foi promovido ao posto de tenente-coronel. As atividades físicas eram limitadas, apenas corridas e algumas peladas no campo alugado do Instituto Benjamin Constant.

Em novembro de 1995, se transferiu para Porto Alegre depois de ser classificado no Comando da 6ª Divisão do Exército. Na capital gaúcha, reencontrou vários amigos. Com os coronéis Tomás e Arthur Teixeira, formou uma excelente equipe de futebol de salão e disputou alguns amistosos pela cidade.

Posteriormente, se transferiu para o Rio de Janeiro onde realizava corridas e participava de uma pelada aos sábados pela manhã. Em 1998, participou de um curso para treinador de futebol, coordenado pela Associação Brasileira de Treinadores de Futebol, realizado nas instalações da EsEFEx, na Urca.

No final de 1998, se tornou comandante do 16º Batalhão de Infantaria Motorizado, em Natal, no Rio Grande do Norte, já no posto de coronel. Mesmo veterano, os dois anos no comando do batalhão foram os mais intensos ligados às atividades físicas e desportivas de sua carreira militar. Restaurou uma quadra de tênis e construiu um excelente campo de futebol society no batalhão. A construção do campo, aliás, rendeu boas histórias que são contadas pelo coronel no livro.

Ainda em Natal, soube de uma franquia do CFZ, escolinha de futebol de propriedade do Zico, e que o Galinho faria uma visita ao local. Decidiu, então, entrar em contato com a direção do CFZ e fazer um convite para homenagear o maior artilheiro do Maracanã, no 16º Batalhão. O craque aceitou e houve uma grande festa na cidade.

Em janeiro de 2001, foi transferido para a Diretoria de Assuntos Culturais (DAC), no palácio Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. No fim do mesmo ano, depois de mais de 33 anos de serviços prestados ao país, aposentou-se e diminuiu a frequência das atividades físicas, mas nunca às peladas. Passou a jogar no CFZ, no futebol organizado por Zico. A velocidade e o vigor físico continuavam fazendo diferença e o “Frango Veloz” ganhava elogios na pelada do Galinho.

capaminhahistoria

Um tricolor apaixonado

O craque Tailton Menezes lançou seu livro Minha História de Amor com o Flu, no último sábado, no Clube Costa Brava, em São Conrado, no Terceiro Encontro de Ex-Jogadores do Fluminense. Vale a leitura! Custa R$ 35 e é vendido pelo Facebook

sagrada pelada de sexta

A equipe do Museu está numa felicidade só, afinal o boleiro Rogê, um de nossos ídolos musicais, organizou uma roda de samba, no Clube Federal, com exclusividade para registrarmos. Foi uma noite e tanto e não cansamos de ouvir a carioquíssima canção “Sagrada Pelada de Sexta”, composta por ele. A casa estava cheia, cerveja gelada e churrasco comendo solto!!! Formavam a roda e o corinho, Deio, o presidente, no tantan, Bahia, no surdo, Alex, repique, De da Rocinha e Delorme, no pandeiro, Fabinho Primeiro Amor, banjo, Octávio, Sebastian, Thiago, Leandrinho e Marcelinho Moreira. Valeu, Rogê!!!!!!!!!    

DJANIRA, SEM FIRULAS

Vivemos um tempo de simplificação da comunicação, da vida, buscando o que realmente importa. Como no caso do Google, em sua recente reestruturação visual. Meu futebol são as tintas e tenho o privilégio de ser amigo do Pelé da ilustração, o Benício, que deixou sua marca, por exemplo, no primeiro Rock in Rio e em centenas de cartazes de cinema. E tenho conversado com ele exatamente sobre esta busca da simplicidade no trabalho, afinal ele é o maior craque no assunto. A conclusão dos papos é sempre uma gostosa gargalhada!

– É fácil, se você busca!

Domingo passado fui ao Museu Nacional de Belas Artes matar saudades, pois há muito não ia. O Museu é o meu Maracanã, que frequento desde os 12 anos. Eu ia sozinho, sem defesa a zaga aberta, sem seguranças, ia direto na arte italiana e francesa. Minha escalação: Bernardelli e Taunays me impressionavam, queria jogar como eles!  Trinta anos depois chego sem expectativas e entendi que cada um tem o seu jeito de jogar. E me deparo com esta tela de Djanira (pintora, ilustradora e gravadora, 1914-1979) “Futebol: Fla x Flu”, de 1975, e começo a rir sozinho!

Genialmente simples e contemporânea, me fez sentir como se eu fosse a rede do gol, presenciando os 22 jogadores entrando com bola e tudo! A simplicidade explícita, o goleiro vendido e a defesa do Flamengo marcando em cima. Não se enxerga a linha branca da meta. Será que foi gol?

Foi! Golaço de Djanira, que certa vez se auto definiu: “Sou jornalista, sou Brasil, sou Djanira”. E era mesmo! Na década de 70, foi para Itabira, em Minas, conhecer o serviço de extração de ferro e, Santa Catarina, vivenciar a vida dos mineiros de carvão. Antes, conviveu com os índios do Maranhão e também pintou o painel “Candomblé”, na casa do escritor Jorge Amado. No Rio, liderou o movimento Salão Preto e Branco, um protesto de artistas contra os altos preços do material para pintura. Enfim, a história de Djanira é belíssima!

Vale visitar a exposição “Você está aqui! Rio de Janeiro” e conferir de perto!

 

  • Exposição: " Você está aqui! Rio de Janeiro"
  • Período: 16 de dezembro de 2015 até 07 de fevereiro de 2016.
  • Curadoria: Amauri Dias, Anaildo Baraçal, Daniel Barreto, Euripedes Junior e Laura Abreu
  • Visitação: terça/sexta de 10h às 18h;  sábado, domingo e feriado de 12h às 17h.
  • Ingresso: R$ 8,00 inteira, R$ 4,00 meia e ingresso família(para até 4 membros de uma mesma família) a R$ 8,00. Grátis aos domingos.
  • Museu Nacional de Belas Artes: Avenida Rio Branco, 199 – Cinelândia -Tel:  (21) 3299-0600.

“Pelé é um merda”

por Lucio Branco

Destaquei, na minha última contribuição à “Futebol Arte”, um trecho da “Nota à 2ª edição” de O negro no futebol brasileiro escrito pelo próprio autor, Mario Filho: “Daí a importância de Pelé, o Rei do Futebol, que faz questão de ser preto. Não para afrontar ninguém, mas para exaltar a mãe, o pai, a avó, o tio, a família pobre de pretos que o preparou para a glória”. E emendei: “Complexo. Fica a promessa de uma crônica futura a respeito. Nesta não há espaço”.

Decidi não adiar a promessa.

Realmente complexo o que afirma Mario Filho, também autor de Viagem em torno de Pelé. Quando redigiu essa “Nota à 2ª edição”, corria o ano de 1964, o mesmo em que fora lançada a biografia da encarnação pública – e mítica – de Edson Arantes do Nascimento. Com certeza, o jornalista se sentia muito familiarizado com o biografado para pontificar sobre o que fosse a respeito da sua imagem e da sua carreira. Admito que não a li, por rara que é a sua presença em sebos. Ao que consta, após algumas poucas edições iniciais, ela nunca mais foi publicada. Esse desconhecimento pode comprometer, em parte, o meu parecer. Mas, pelo trecho da “Nota”, não é difícil concluir que o autor defende uma versão particular da negritude do Rei que, muito provavelmente, é a mesma do livro.

Eis um bom teste para os cronômetros: na velha polêmica sobre quem é o “maior jogador de todos os tempos”, medir a velocidade da aparição do veredicto final “Pelé é um merda”. Quase fatalmente ela comparece para castrar qualquer possibilidade de debate. Em seu próprio país de origem, prefere-se não falar por muito tempo sobre Pelé. Corre-se até o risco de acabarem o elogiando como jogador...

Cabe então perguntar: se Pelé é um “merda”, o que é a sociedade que o pariu?

O racismo de fundo encerrado nessa sentença, embora nunca declarado, é fruto de um ressentimento que serve como um desses raros resumos pertinentes do Brasil. Digo resumo, não redução. A imagem do país se tornou indissociável à imagem de Pelé desde que, em 1958, ele o ajudou a pô-lo definitivamente no mapa. Todas as gerações de torcedores que vieram após a sua consagração mundial na Suécia nunca puderam lhe ficar indiferentes. Teria sido ele um astro beneficiado pelo fato de ter coincidido o início da sua carreira com o advento da era da comunicação de massa? Afinal, há quem sustente que Leônidas da Silva e Zizinho, para citar dois craques nacionais de gerações anteriores, só não receberam o mesmo título de realeza porque a repercussão midiática de suas jogadas era inevitavelmente menor. Mal havia TV, o rádio tinha menor alcance, os cinejornais que cobriam o futebol eram mais escassos etc. Mas não foi apenas essa a vantagem de que tirou proveito a sua consagração. No caso do mais popular camisa 10 da história, ser um gênio que se destacava entre tantos outros no Brasil e no mundo contribuiu bastante para a conversão dos fatos em lenda. Ou vice-versa. O vídeo-tape, contrariando o irmão mais novo de Mario Filho, ignora a burrice ao reexibir a sua antologia de feitos que seriam pouco críveis caso não fosse o seu sempre solícito testemunho.

É mais que sabido que Pelé, ao longo da vida pública, cultivou uma persona à sombra do equívoco. Pouco tempo antes do seu recente afastamento dos flashes, ele renovou o seu repertório de ditos que se sairiam melhor se fossem não-ditos. A esquizofrênica polarização entre Pelé e Edson até pode fazer sentido pontualmente, mas também diz muito do seu malfadado senso de autopromoção. Sua condescendência com regimes autoritários e federações desportivas idem não tem como não desabonar a sua reputação. Um entranhado conservadorismo (que Mario Filho involuntariamente detecta na referida glorificação da sua família) é, sem sombra de dúvida, a bússola dos seus descaminhos pelo território da opinião livre. Agora, bater única e exclusivamente nessa tecla, como se faz quase sempre, é outra coisa. Parece mais um exercício bem-pensante isento de autocrítica. Um vício de classe média no seu presumido papel de formadora de opinião. Jogadores brancos com perfil ideológico semelhante, ou até mais sectário, não são tão execrados. O Brasil é o único país em que se odeia Pelé consciente ou inconscientemente em igual medida. Em outros, o seu nome inspira restrições mais refletidas. Até na Argentina se elabora melhor a crítica ao maior do mundo – apesar de, por motivos óbvios, não o reconhecerem nesse patamar.

Pelé e Medici.

Pelé e Medici.

Num período de maior lucidez, em 1978, Caetano Veloso, numa longa entrevista conjunta com Chico Buarque, Aldir Blanc, Edu Lobo e outros artistas para a Revista Homem, questionou os seus pares sobre a expectativa de genialidade de Pelé também fora das quatro linhas: “Pedir a ele mais que isso seria pedir energia demais a quem já dá energia em demasia” – disse ele. Realmente, esperar que o mundo esportivo gerasse um outro Muhammad Ali é até perverso. Tamanha sintonia nesse grau de potencialidade entre corpo e intelecto não é um fenômeno assim tão assíduo na espécie. Mais inimaginável ainda numa mesma geração. O campeão dos pesos pesados, que sempre fez questão de superlativar a própria excelência, também fez questão de se curvar à majestade de Pelé na sua despedida do Cosmos.

Pelé e Muhammad Ali.

Pelé e Muhammad Ali.

Não é desconhecido que há outras obras sobre a vida de Pelé além da biografia de Mario Filho. Entre os filmes, há Isto é Pelé, que repassa a sua carreira para apresentá-lo promocionalmente aos EUA, justamente quando da sua contratação pelo Cosmos. E, mais recentemente, Pelé eterno. Neste documentário, para corresponder ao que estava textualmente no script, Pelé ecoa tardiamente o Mario Filho da “Nota” de 1964: muito convicta e oportunamente, afirma ter orgulho de ser negro. O discurso teve que ser reescrito ao longo do tempo. Não poderia mais repetir aquele evasivamente conciliatório que adotara então no auge da forma e da decorrente e inesgotável conquista de títulos. Mas o tom é velho conhecido, revela-se na clara intenção de calar ou satisfazer a patrulha contra ele, apenas. Antes, declara ter orgulho de ser brasileiro, como se a primeira afirmação atenuasse (ou desculpasse) a segunda. Tudo isso é bem perceptível para quem é atento aos sinais. Anos depois, Pelé regressaria aos braços da “democracia racial” ao desaconselhar a denúncia aberta do goleiro Aranha contra o racismo criminoso da torcida gremista. Mas a tal “democracia racial” não é simples. Suas dimensões são continentais, como as do país que a abriga. Falei em patrulha, anteriormente. Tomo cuidado para não reproduzi-la, eu próprio. Afinal, cobrar orgulho racial de Pelé é como o futebol brasileiro no período amador pesquisado por Mario Filho: um esporte praticado principalmente por brancos.

O fato é que há um racismo autorizado no Brasil cuja senha é Pelé. E pior: além de não ferir a tão cara instituição da “democracia racial”, não é considerado racista quem o pratica. E vou além: a garantia de apoio é imediata, na maioria das vezes. É um incansável apedrejamento público. Nada mais culturalmente legitimado do que canalizar todo o ódio racial contido na nossa formação histórica sobre a sua imagem. Não há Rei cuja entronização pudesse ser mais indesejada por uma tão larga faixa de súditos. Por aqui, a sua deposição é um evento longamente esperado. Em favor da mais pura aversão, o fator local é, inclusive, deixado de lado. Se é Maradona o candidato mais cotado na linha sucessória, que o cetro vá logo parar em suas mãos. É esse o raciocínio que prevalece. A igualmente pusilânime rivalidade Brasil X Argentina passa a contar com a inesperada adesão da nação adversária: fazer o elogio de Maradona, mesmo não pondo muita fé no que se diz, é a melhor forma de desqualificar o Atleta do Século. 

Mais perto do fim da carreira, Diego Armando Maradona revelou ter a mesma habilidade de craque num outro domínio onde o seu concorrente brasileiro, apesar do esforço, é um rematado pereba: a autopropaganda. O argentino intuiu que ela é a alma do negócio. Negócio não no sentido do business, é certo, mas de angariar um capital político que Pelé nunca poderia ter – ou, como é notório, mesmo querer. O que é o engajamento à esquerda de Maradona senão o resultado da descoberta da fórmula de encarnar a antítese de um Pelé sempre servil aos interesses mercadológicos que cercam o esporte que o consagrou? Sua consciência contra os arbítrios da FIFA e outras instituições mafiosas é bem tardia. Antes dela, a alienação era a regra da sua condição de nouveau riche do futebol mundial. Sua passagem pelo Nápoles foi o auge do seu deslumbramento. Vamos condená-lo? Seria injusto. Antes de atirar a primeira pedra, seja um gênio precoce catapultado da plebe mais anônima para o mais súbito e cintilante estrelato. Quem está preparado para tanto em tão pouco tempo? Maradona não foi o primeiro e nem será o último. E, vejam: estou falando de Maradona. É humanamente compreensível sucumbir à combinação “juventude & contrato milionário” que agracia alguns raríssimos talentos da bola. Bravamente, ele conseguiu chegar onde muita gente não acreditava que conseguiria: sobreviver. Enfim, é possível haver quem ache que ser Don Diego é fácil?

A questão é que Maradona soube como erigir a sua imagem em oposição a de Pelé. Para melhor construí-la, era melhor, no mínimo, desconstruir a do rival –quando não tentar destruí-la. Os golpes, não raro, foram baixos. Sabedor de antemão da inegável simpatia que a manobra surtiria, procurou se colocar na contramão da trajetória de um jogador que ele próprio definiu como o único em condições de disputar com ele a posição de maior de todos. Os citados Leônidas e Zizinho, mais o seu conterrâneo Di Stefano, e Garrincha, Puskas, Cruyff, Beckenbauer, Zico e outros, automaticamente, foram rebaixados a um outro plano de importância.

Indiretamente, a culpa é de Pelé. Mais poderoso que o seu marketing é o seu anti-marketing. Especialmente quando manipulado pelo seu maior interessado. Muito embora involuntariamente Pelé o promova, invariavelmente alheio da impopularidade de alguns dos seus gestos e falas. Paradoxalmente, “Pelé é marketing” é outra sentença regularmente alardeada no Brasil. Quem a profere costuma exibir uma expressão mais convicta que a de qualquer herói pátrio numa cédula. Isso, como se Maradona também, de outro modo, não se pusesse “à venda” na sua auto-projeção de rebeldia. O craque argentino soube quando e como se postar ao lado de Hugo Chávez no palanque do IV Cumbre de Las Américas, em Mar del Plata, em 2005. Ou como agradecer a medicina cubana por tê-lo salvo da morte, tatuando Fidel e Che. De resto, há quem diga que um idoso Pelé não convence nem mesmo como garoto-propaganda de remédio contra a impotência.

Maradona travestido de Che Guevara.

Maradona travestido de Che Guevara.

A resistência política em campo e fora dele produziu exemplos de maior envergadura e que não dão margem à suspeita. Falo de jogadores que pagaram o seu respectivo preço pelas atitudes que tomaram conscientemente no auge das suas carreiras, quando tinham muito a perder. Cada um a seu modo, e fazendo jus à escalação no time da dissidência, souberam dar mais e melhor o seu recado: Afonsinho, Paulo Cézar Caju, Nei Conceição, Sócrates, Wladimir, Reinaldo, Nando Antunes, Carlos Caszely, Cristiano Lucarelli, Cantona e outros.

O filão anti-Pelé funciona com muita facilidade. É aí que vem a maior curiosidade: patrícios em nada inclinados ao pensamento progressista compram sem hesitar a versão do “argentino revolucionário que não nega as suas raízes” contra o “negro de alma branca que se vendeu ao sistema”. (Por sinal, o uso indiscriminado desta expressão pode ser bem mais racista que o racismo que pretensamente acusa.)

No Brasil, Maradona passa por branco. Quando se trata dele, nosso complexo colonizado é suspenso: – abre-se mão de condenar as suas origens étnicas não europeias para cair no mais raso julgamento moralista sobre o seu comportamento. Para a ideologia do senso comum que, por estas bandas, é uma profissão de fé, a natureza patológica do vício é voluntariamente descartada. Um preconceito é substituído por outro, assim como se saca um jogador que não se encaixa muito bem no esquema para a entrada de um reserva. Nada mais afeito às regras do jogo – em ambos os casos.

Pelé e Maradona encarnam toda sorte de paixões populares, representações coletivas, expectativas sociais. É uma carga imensa sobre dois homens que também têm a sua dimensão de mortalidade. Queiram ou não, são mitos em vida, condição também reservada a alguns poucos humanos, não se pode esquecer. Foram condenados por força da própria genialidade a ocupar a boca de cena desde antes de completar a maioridade. Trataram de corresponder ao papel que se esperava deles na encenação tragicômica que a indústria do espetáculo produz. É uma fatalidade. Sob todos os holofotes, nunca sairão do palco, território da sua glória e solidão.

Ainda no terreno da representação, há Pelé eterno e Maradona by Kusturica. Os dois filmes pecam pelo excesso de reverência. Evidente que obras desse naipe não poderiam fazer a crítica dos retratados quando são eles próprios os seus colaboradores mais interessados. E, fatalmente, seus valiosos garotos-propaganda de contrato assinado. Ambos os documentários os abraçam a ponto de tentar refletir exclusivamente a sua visão de mundo. Certamente, uma condição também previamente firmada por contrato. OK, a isenção, tanto no cinema como na vida, é uma ilusão. Mas seria necessário que os cineastas em questão (Aníbal Massaini Neto e Emir Kusturica) tomassem um pouco do seu próprio partido. Ou seja, assumissem uma maior liberdade criativa, engajamento primeiro do artista, ao que ainda me consta. Mas talvez seja ingênuo esperar esse mínimo de projetos dessa natureza. (Para não dizer que não falei das flores: o mérito do primeiro é a pesquisa documental e, do segundo, o seu – embora óbvio – senso crítico.)

Para concluir, reafirmo que entre um fazer publicidade de estimulante sexual e o outro posar ao lado de Chávez mandando a ALCA “ao carajo”, não há assim tanta diferença. Envolver-se a sério nessa discussão extra-futebolística acaba, ao final, reduzindo-se a usufruir da “liberdade” reservada ao consumidor diante de uma concorrida prateleira. Ou você compra uma fantasia empacotada de juventude eterna, ou uma militância pouco confiável numa causa nobre. Aos que insistem na polêmica, resta o critério de decidir qual a propaganda menos enganosa. Creio ser bem mais recomendável que suspendam a polêmica e se atenham à bola. Com ela nos pés, ambos só ludibriavam os adversários. Assim, como gênios criadores que foram, ressignificaram a palavra “mito”.

Escrevi o que vai acima com a mesma serenidade que me inspira o tema desde muito cedo na minha relação com o futebol e o mundo onde ele se situa. Já sei que, caso me leiam, serei contestado por muitos logo de saída. Insisto: na grande maioria dos casos, será ainda a decrépita “democracia racial” a ditar essa reação.

É curioso. Numa nação vocacionada para o Barroco como o Brasil, defender o retrógrado Pelé pode ser uma tarefa libertária.

Maradona by Kusturica

CRAQUE DAS LENTES

por André Mendonça

No último sábado, dia 5, aconteceu a entrega da premiação do I Concurso de Fotografia Carlos Lacerda, em comemoração aos 50 anos da inauguração do Aterro do Flamengo. Palco de inesquecíveis e históricas peladas do Rio de Janeiro, o clima do parque foi muito bem captado por nosso parceirão Milton Montenegro. Com uma imagem magnífica, por trás da rede de um dos gols, o fotógrafo conquistou mais um prêmio em sua vitoriosa carreira.

De acordo com Milton, que precisou levar um segurança para proteger-se da violência, uma das principais queixas dos boleiros, além da falta de banheiros públicos, a foto não foi pensada com antecedência. “Foi coisa de momento. Eu fiz vários registros e andando por lá acabei chegando aos campos e fazendo algumas fotos”, explicou, sem esconder a felicidade pela conquista. E exaltou o momento da fotografia. “Cada vez que acontece um evento desses, fico contente porque é mais um dado de afirmação de nosso mercado.”

Apaixonado pela arte desde os sete anos, quando foi presenteado pela avó com uma câmera “caixote”, Milton morou em Londres, na década de 70, para estudar cinema. Na capital inglesa, ficou fascinado com os trabalhos de grandes mestres da fotografia e, um ano depois, voltou para o Brasil decidido a viver daquilo que o encantava desde criança.

No frio londrino, uma decepção. Torcedor do Fluminense, o estudante, na época, lia as notícias do Brasil com três dias de atraso e, por isso, não conseguiu acompanhar como gostaria a Máquina Tricolor, trituradora de adversários. Comandado por Rivellino, que vivia grande fase na carreira, o timaço encantava os amantes do futebol arte.  “Naquela época não tinha internet. Vi muito pouco tempo o Rivellino. Só fui compensar isso nos anos 80, com o Casal 20, Washington e Assis”, resignou-se.

O tricolor chegou a jogar algumas peladas nos parques ingleses. Mas, assim como muitos jogadores brasileiros, teve dificuldades e, por isso, acabou se afastando dos gramados. “Armaram uma pelada, mas começou no inverno e eu não consegui me adaptar. Jogar de calça era muito estranho”, revelou.

Sobre seu desempenho em campo, assim como Fio Maravilha, Milton teve humildade em gol. “Nunca fui um craque, mas um artilheiro esforçado”, assumiu. Com um “bico” potente e preciso, era um dos goleadores da pelada que jogava aos sábados na quadra da PUC, no Rio de Janeiro. Segundo ele, era um grupo bacana cheio de figuras folclóricas. Uma delas, o cantor Toni Platão, também tricolor, que entrega o apelido do amigo: Milton Bicanca.

Há pelo menos 10 anos, por conta das dores no joelho, o camisa 9 foi obrigado a pendurar as chuteiras. A pelada, no entanto, ainda não foi esquecida. “Eu jogo futebol só nos sonhos. Sonho muito com futebol, com as jogadas. Estou com 61 anos, meu joelho se aposentou antes de mim”, brincou. De acordo com ele, o impacto provocado pelo chão duro do futebol de salão levou muitos peladeiros para o  estaleiro precocemente. 

Frequentador assíduo do Maracanã, o craque das lentes assumiu que o saudosismo o afastou do estádio. “Ainda não tive coragem de ver a tal arena. Tenho medo de sentir a diferença. Vou adiando essa ida para não ter esse baque, essa perda do um dia maior do mundo. Mas eu volto, prometo, deixa o Fluminense melhorar um pouquinho.”


Milton Montenegro, fotógrafo, carioca, tricolor, ex-peladeiro, foi atacante esforçado desde o absurdo futebol jogado com pedrinhas no pátio de recreio do Colégio de Aplicação.