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Violência

O HORROR

por Claudio Lovato

O homem de terno escuro recolhe a sacola passada por cima da mesa pelo outro homem de terno escuro. A sacola está aberta e ele olha para dentro dela.

– Pode contar, fique à vontade – diz o sujeito que entregou a sacola.

– Confio em você – ele responde.

Ficam em silêncio por um tempo.

– Você está fazendo a coisa certa. Você tem que se remunerar, caramba! Olha a idade chegando, meu amigo! Eu já me remunerei, já não me devo mais nada! – diz o cara que entregou a sacola.

Disse isso, riu e então prosseguiu:

– O ginásio vai sair de qualquer jeito. A criançada não vai ficar sem ter onde jogar bola. E com atividades o dia inteiro! Educação física, futebol, o escambau! Pode ser que demore um pouquinho mais, porque agora o contrato vai ganhar uns aditivos, só isso.

Ele se levanta e sai, carregando uma sacola cheia e uma consciência vazia.


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Um menino salta sobre o esgoto que corre a céu aberto. Pés descalços, e a bola debaixo do braço. O vira-lata vem atrás, correndo e saltando, latindo para o mundo inteiro ouvir. Lá no terreno de terra batida, uma boa parte da garotada do time já está à espera dele. O helicóptero passa perto. Dá para ver o cara com o fuzil na porta. Começam a bater bola, mas aí aparece a mãe de um deles, chamando o seu menino para dentro de casa e dizendo aos outros para irem embora, já para casa.

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O homem entra em sua sala, tranca a porta, abre o armário, tira dali uma pasta de nylon preta e a coloca sobre a mesa, junto com a sacola. Transfere uma parte do conteúdo da sacola para a pasta e fecha as duas. Coloca a sacola no armário e passa chave. A pasta ele coloca no chão, ao lado da mesa. Senta e espera. Em menos de meia hora um homem aparecerá para pegar a pasta preta de nylon, igualzinha a que estará carregando quando chegar. Uma troca. Assim é.

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Lá na comunidade, o menino assiste desenho animado dentro da sala minúscula. Está sentado no sofá com os dois pés sobre a bola, e o cachorro ao lado, olhando para ele. O som das hélices do helicóptero continua, agora com a companhia dos tiros, que o menino há muito tempo aprendeu a identificar. A mãe foi trabalhar, com o coração na mão, por causa do seu menino. Ela não pode deixar de ir trabalhar e a escola dele é à tarde. As manhãs às vezes são um inferno.

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Depois de entregar a pasta de nylon preta ao homem de barba que acaba de sair apressado do escritório, deixando a pasta vazia e dizendo que tinha voltar logo para a repartição, ele tecla o número de casa. A esposa atende. Ele diz que não vai almoçar. Muitos compromissos hoje. A mulher diz “até a noite” e “te cuida, meu bem, te amo” e desliga. Em seguida, avisa a empregada que o patrão não virá para o almoço e que ela pode fazer apenas uma saladinha simples e um peito de frango grelhado, e a empregada diz “sim senhora” e pensa no seu menino, sozinho, dentro da casa alugada que Deus, amém, amém!, vai proteger de todos os males que os homens, de um jeito ou de outro, podem cometer e então, da cozinha, ela ouve a vinheta do plantão de jornalismo da emissora de TV e a patroa dizendo “que horror, meu Deus, esta cidade está perdida, nem criança escapa mais, que horror, minha nossa”, e, lá na cozinha, ouvindo a patroa dizer aquilo, lavando as folhas de alface americana, ela sente o coração parar de bater, mais uma vez.

FALHAMOS. DENTRO E FORA DE CAMPO

por Mateus Ribeiro

Sabemos que existem poucas verdades absolutas. Porém, uma delas não podemos contestar: o ser humano falhou miseravelmente durante seu processo de evolução.

No último final de semana tivemos mais algumas provas dessa máxima. O mais triste de tudo é que essas situações ocorreram durante partidas de futebol, que teoricamente deveriam garantir nossa diversão, mas ultimamente nos proporcionam mais medo do que qualquer outro tipo de emoção.

Começando pela tragédia que teve o pior desfecho, vamos até a Argentina. Não vamos nos aprofundar muito, até porque não somos apresentadores de jornal policial, é bom deixar claro.


(Foto: Reprodução)

Durante o clássico entre Belgrano e Talleres, um torcedor foi arremessado da arquibancada e faleceu. Foi jogado, como uma pedra, um copo descartável, ou um pedaço de papel. Tanto faz a “razão” pela qual o tumulto se iniciou. Tanto faz se o torcedor que já não está mais entre nós estivesse caçando o suposto assassino do seu irmão. A forma como tudo aconteceu entristece, choca, e mais uma vez, nos faz perder a fé na humanidade.

Algumas horas depois, durante o Domingo de Páscoa, que deveria ser um dia no mínimo tranquilo, tivemos um espetáculo repleto de barbaridade na França.


(Foto: Reprodução)

Antes da partida entre Bastia e Lyon, torcedores do time mandante começaram a provocar os atletas do Lyon que estavam aquecendo. Claro que ninguém tem sangue de barata, e alguns jogadores devolveram a provocação. Não foi a melhor atitude a ser tomada, ainda mais levando-se em consideração que existem torcedores de futebol que não são dotados de paciência e capacidade de raciocínio. O resultado? Confusão, e um grande número de vândalos invadiram o gramado para tentar agredir Depay e seus companheiros.

Depois de quase uma hora, a partida teve início. Uma grandiosa falta de responsabilidade por parte dos árbitros e de quem autorizou o início da partida, uma vez que a segurança não era garantida. Claro que as coisas poderiam ficar piores, e ficaram. Após o final do primeiro tempo, mais uma confusão, dessa vez envolvendo o goleiro titular. Após cenas horrorosas, o jogo foi suspenso. Menos mal que não houve nenhuma agressão mais pesada. Porém, o risco era gigantesco.


(Foto: Reprodução)

Vale lembrar que na última semana, o Lyon já havia passado por problemas em seu jogo contra o Besiktas. Situações deprimentes como as mencionadas viraram rotina. E existe quem ache legal torcedor brigar, jogador com discurso agressivo, e tudo que lembra a violência gratuita. Não precisa ser muito esperto para saber que isso está longe de ser aceitável, muito menos legal.

O mesmo torcedor que reclama que o futebol não tem emoção sente-se com medo de ir até o estádio e voltar com algum hematoma ou com algum trauma. Na verdade, o torcedor que realmente pensa em sua segurança fica na sua casa. E não importa se é torcida única, torcida mista, que seja. Selvagem existe em qualquer lugar. E a selvageria está sendo perdoada, e em alguns casos, exaltada.

Um ambiente que era para significar lazer e diversão passou a significar medo e apreensão. E isso não pode passar batido.

O que não pode passar batido também é o discurso de que tais cenas acontecem em países de terceiro mundo. Ledo engano. Imbecis e criminosos existem no mundo todo. Desde a Guiana Francesa até a Noruega.

Infelizmente, depois de um final de semana repleto de grandes partidas, o que chama a atenção são espetáculos tétricos protagonizados por imbecis que se perderam na Idade da Pedra.

A esperança é a única solução. Esperança em dias melhores e leis mais rígidas. Enquanto isso não acontece, nos resta assistir jogos no sofá com a garantia de que terminaremos o jogo com vida.