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Jô Soares

JÔ E O FUTEBOL

por Claudio Lovato Filho

Humorista, apresentador, escritor, colunista, roteirista, ator e diretor, homem da música e das artes em geral, Jô Soares também era um cara do futebol. Amava o futebol.

Torcedor do Fluminense, conhecia a fundo história do Tricolor das Laranjeiras, mas, quando achava necessário, fazia suas críticas ao clube pelo qual era apaixonado desde a infância. Foi assim, por exemplo, quando o Fluminense liberou Gustavo Scarpa. Jô ficou inconformado e se manifestou. O tempo provou e continua provando que Jô tinha razão.

Como esquecer o personagem Zé da Galera, criado por Jô às vésperas da Copa de 82, para o programa Viva o Gordo? “Falando” com o técnico Telê Santana de um orelhão, Zé da Galera enunciava aquele que provavelmente foi o bordão mais repetido no Brasil naqueles tempos: “Bota ponta, Telê!” Jô achava que Renato – o Portaluppi, o Gaúcho – deveria estar ali. Jô sabia tudo.

Presente à final da Copa de 50, o Maracanazo, aos 12 anos de idade, Jô voltaria a ver o Brasil em campo na Copa seguinte, na Suíça. As memórias dessas experiências vividas quando ainda era tão jovem foram a base para a sua participação no livro “A Copa que ninguém viu e a que não queremos lembrar”, escrito em parceria com Armando Nogueira e Roberto Muylaert.

“Em 1950 eu tinha doze anos, mas participei intensamente da IV Copa do Mundo. Era um evento que mexia com o Brasil todo, mas muito especificamente com o Rio de Janeiro por causa da inauguração do Maracanã como o maior estádio de futebol do mundo, uma coisa monumental, um negócio extraordinário”, escreveu Jô. Sobre a final, relatou: “Eu saí chorando. Meu pai ficou triste, mas achou curioso e até um pouco engraçado um menino de doze anos ficar emocionado e chorar assim aos borbotões, por causa de um jogo de futebol. Para mim aquilo não era um jogo de futebol, era a minha primeira afirmação do Brasil como primeiro em alguma coisa. Qualquer afirmação de brasilidade lá fora me emociona, por mais boba que seja”.

Quatro anos depois, lá estava ele, na Copa da Suíça. Havia ido estudar no país em 52 e morava em Lausanne. Testemunhou a Batalha de Berna, em que o Brasil foi derrotado pela Hungria de Puskas. Voltando a 52, ano de seu desembarque na Suíça, Jô relembrou no livro papos com os novos colegas sobre o Maracanazo, o Rio e o Brasil. “(…) inventei uma história: garantia que, mesmo com 200 mil pessoas no estádio, não havia medo de invasão de campo. ‘Porque’, eu dizia, ‘há um fosso em torno de todo o campo com água e crocodilos’. Os moleques do colégio acreditavam. Alguns adultos também. O Brasil era uma coisa tão distante que as pessoas acreditavam em qualquer coisa. Pra eles, havia cobra nas ruas do Rio e de São Paulo. Dependendo do grupo, eu confirmava: ‘Claro. Mas não das venenosas’”.

Salve Jô Soares! Viva o Gordo!