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Bruno Pereira Pinto

FAZER O CERTO DÁ TRABALHO

por Bruno Pereira Pinto


Que o Brasil talvez seja o maior centro exportador de mão de obra futebolística, isso não se discute. O país que revelou Arthur Friedenreich, Leônidas, Zizinho, Pele, PC Caju (não poderia esquecê-lo mestre) Zico, Romário, Ronaldo e mais recentemente Neymar, sem mencionar tantos outros, tem um potencial tremendo de produzir jogadores de alta capacidade técnica.

Mas hoje, vivemos uma crise sem precedentes.

As categorias de base dos clubes Brasileiros, uma vez capazes de nos agraciar com jogadores que nos levavam aos estádios, hoje são um celeiro de negociatas e sua efetividade é discutível.

Antes de fazer um passe no time profissional, garotos já tem empresários, assessores e um staff para cuidar da carreira. Staff esse que nada mais são que paparicadores, incapazes de apontar falhas para o crescimento pessoal e profissional do atleta.

Não só isso, mas as exigências de cartolas e mídia em relação as categorias inferiores são de um nível incompatível para a função da mesma; parece que títulos neste estágio são mandatórios, assim como no profissional. Não há um plano para o desenvolvimento e melhor aproveitamento dos jogadores da base. O Brasil sempre confiou na qualidade inata de seus jogadores. Mas não vemos um projeto sério de desenvolvimento do atleta do momento em que chega ao clube, até o momento em que integra o time profissional. Com isso, a fonte de talentos está secando.

Mas no mundo do futebol, existem aqueles que acreditam em um trabalho quase artesanal na confecção de um grande atleta. Um desses lugares é em Amsterdam, a casa do Ajax.

Quando cursei o Nível 1 do curso de treinadores da Federação Inglesa, comecei a estudar como trabalhar as categorias de base. Em quais os pontos focar para melhor desenvolver atletas. E um dos meus objetos de estudo foi a academia desse grande clube Holandês.

A integração entre os jovens e os profissionais começa no sistema de jogo; desde os tempos de Cruyff, o 4-3-3 é a formação base. O Ajax se prima por jogar de forma criativa e em velocidade, não importando qual o nível. Juvenil ou profissional, todos jogam da mesma forma. Assim, o atleta chega ao profissional já sabendo o que se espera dele taticamente. A ideia é desenvolver jogadores para o clube, com a mentalidade do clube.

Mentalidade essa trabalhada em detalhes. O chefe de desenvolvimento da base, Jan Olde Riekerink diz: “os atletas precisam ser “treináveis” e com vontade de aprender”. Ele continua: “o mais importante fator que podemos ensiná-los é responsabilidade pessoal. Eles podem ir para casa depois do treino ou ir ao Mc Donald’s. São crianças e não vou brigar com eles, mas precisam perceber que ser um profissional significa tomar as decisões corretas”.

A mentalidade trabalhada na base reflete no modo de jogar dos profissionais. Futebol é mais do que correr; todos querem jogar com a bola e não tem medo de fazê-lo. Jogam no mesmo sistema desde que chegam ao clube e, por isso, a adaptação ao time principal é muito mais fácil. Testes psicológicos ajudam a identificar o que precisa ser trabalhado nesta área, para que jogadores tomem melhores decisões durante o jogo.

A preocupação com o atleta se dá nos mínimos detalhes: um garoto que não vive perto de Amsterdam só é trazido quando, depois de um tempo sendo monitorado, o consideram pronto para a mudança e o colocam com uma família adotiva. Manter o máximo de normalidade é prioridade. 

Mas o fator que mais chama a atenção é o entendimento no processo de educação do jogador. Não tem como prioridade títulos na categoria de base, mas sim a educação técnica, tática e mental do jogador para que, ao chegar ao primeiro time, possa estar capacitado para aguentar a pressão e desenvolver seu trabalho.

O trabalho é tão compreensivo que todos são submetidos a um programa de habilidades atléticas. Em resumo, o clube desenvolve habilidades motoras que somente os treinamentos de futebol não são suficientes para o desenvolvimento pleno do atleta. A tecnologia de ponta utilizada na avaliação e desenvolvimento do atleta provê as informações necessárias para um trabalho extremamente metódico..

O investimento não e tão grande quanto parece. Os recursos do clube são bem aplicados e o trabalho é medido pelos resultados de longo prazo. 

Não é à toa que Ajax revelou, em anos mais recentes, Van Der Vaart, Snejider, Eriksen, Vertonghen, Alderwereild, De Ligt, De Jong and Van Der Beek. Voltando no tempo um pouco mais, Kluivert, Bergkamp, Davids,Frank e Ronald De Boer, para ficar nos mais famosos. 

Podemos concluir que, em um mundo onde dinheiro e imediatismo são fatores que regem o futebol, uma constante permanece: o trabalho longevo e frutífero do Ajax. 

Fazer o certo leva tempo e dá trabalho. Mas alguém tem prazer de fazê-lo.