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GABRIELLE, QUE NOSSA PRIMEIRA VEZ SEJA INESQUECÍVEL

23 / janeiro / 2022

por Marcos Vinicius Cabral


Minha relação com o futebol sempre envolveu a necessidade de ter um filho para dividir com ele as emoções de ir a um estádio cheio para ver o Flamengo jogar, sentir o batimento cardíaco acelerar devido à ansiedade de não se atrasar para o início dos 90 minutos, suar frio tentando o plano B para fugir dos engarrafamentos e não bastasse tamanho sofrimento, tentar ainda na adrenalina desse roteiro de filme de aventura à lá Steven Spielberg, encontrar o flanelinha para estacionar o carro.

Fã confesso de Roberto Dinamite, não vivi isso com meu pai, vascaíno, que morreu na tarde de terça-feira (18), em São Gonçalo, mas pude a bordo do Chevette SL ano 78, primeiro táxi que ele trabalhou em Niterói, ir duas únicas vezes a um estádio de futebol: na primeira, ao Maracanã, aos 13 anos, quando Brasil e Paraguai se enfrentaram pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1986 e empataram em 1 a 1, gols de Sócrates, que só teve o trabalho de escorar um desvio de Casagrande em um córner cobrado por Éder, e Romerito, ídolo do Fluminense, que marcou um golaço em um sem pulo indefensável para Carlos, arqueiro brasileiro.

A outra, em uma tarde de domingo ensolarado no Estádio Caio Martins, em Niterói, novamente um outro empate de 1 a 1, entre Flamengo e Americano, partida válida pela 5ª rodada da Taça Guanabara de 86.

Mas se minha adolescência, na saudosa década dos anos de 1980, era obrigado a conviver com duas irmãs rivais que não serviam de companhia para minhas idas ao velho Maracanã – Flávia continua tricolor convencida e Suelen permanece vascaína resignada – faltou alguém para compartilhar essas emoções que seriam páginas da vida em capítulos especiais escritos pelas mãos do destino.

O maior erro do destino, se podemos assim dizer, foi ter me dado amigos que torciam para os rivais Botafogo, Fluminense e Vasco, enquanto os meus amigos flamenguistas, não queriam um guri metido a besta com eles.

O tempo passou e convivi com essa vontade de ir aos jogos do Flamengo acesa dentro de mim. Trabalhei, me casei, me formei e busquei, ao lado da minha adorável Raquel, minha mulher há 20 anos, tentar ‘engravidar’ de um filho para que eu pudesse ter a companhia dele nas minhas idas ao Maracanã.

Imaginem, nós dois subindo a rampa, mãos dadas, cantando o hino do clube, vestidos com o manto sagrado e ver as bandeiras tremulando e batendo em nosso rosto como brisas suaves que nos refrescariam pelo sentimento de vitória?

Era isso na minha imaginação!

Depois da difícil escolha tomada em tentar ser pai como quem escolhe em que lado bater a penalidade máxima em uma decisão de campeonato, o próximo passo era mostrar o filhão, meu parceiro, meu companheiro e meu amigo para o mundo, como um troféu nessa complicada partida que foi, sem dúvida nenhuma, a mais árdua de todas já disputadas.

Mas toda vitória requer esforço e muito suor. A cada volta no ponteiro do relógio ou a passagem de grão em grão da areia na ampulheta do tempo, os dias iam passando, passando, passando, e pasmem, o meu filho, que se chamaria Gabriel, não vinha.


Entretanto, o lado torcedor rugia feito fera ferida e em 1999, veio o título no gol de Rodrigo Mendes em cobrança de falta de longa distância que desviou na barreira e venceu Carlos Germano. Em seguida, no ano de 2000, Reinaldo e Tuta fizeram a alegria da torcida rubro-negra e nos deram o bicampeonato. Já no gol famoso de Petkovic, aos 43 minutos da etapa final, em 2001, o mais emocionante nesse tricampeonato em cima do Vasco, comemorei ainda esperando a chegada de Gabriel.

O tempo foi passando…

Cinco anos depois, na Copa do Brasil de 2006, sob o comando de Ney Franco, o lateral-esquerdo Juan decretava a vitória do Flamengo mais uma vez contra o Vasco e Raquel, feliz da vida, grávida de dois meses. Naquela noite, dormi sonhando com ele.

Dito e feito.

O sentimento era de euforia vendo a barriga dela crescer, crescendo e crescida, processo que acabou fazendo com que a ficha estivesse próxima, muito mais próxima de cair do que eu imaginava.

A emoção que eu sentia, lógico, na sua devida proporção, foi igual aos 508 gols que Zico, nosso inesquecível camisa 10, marcou diante da massa rubro-negra espalhada pelo Brasil, parecida com as 876 vezes em que Júnior, nosso Maestro, entrou em campo, equivalente ao amor e a dedicação que Leandro, flamenguista no ato e de fato, fez pelo Flamengo em 12 anos como profissional.

Eu era emoção, alegria, felicidade, tantos sentimentos dentro de um só coração, este, nas cores vermelha e preta.

“Ah, moleque, se prepara que iremos muito ao Maracanã e nos domingos pela manhã você vai para o campo comigo ver papai jogar bola. E pintar os quadros e desenhar, isso eu faço questão de te ensinar e vai se tornar um Charles Schulz, e inventar histórias maravilhosas como o americano fazia com o Snoopy”, acreditava.

Mas o bálsamo com a gravidez se tornou um furação quando descobri na ultrassonografia que era menina, sim, menina, o filho que eu tanto desejava.

Digeri, me confortei, aceitei as brincadeiras sem noção de muitos amigos mais sem noção ainda e comecei a conviver com a realidade de que seria pai de uma menina.

Vejam vocês, esperei 33 anos para ser pai e Deus, na sua onipotência, onisciência e onipresença, me dá uma filha.

Ah, meu Deus, o senhor é surpreendente!

Portanto, neste domingo (23), tudo o que eu havia planejado, idealizado, pensado em fazer, foi desfeito e refeito por Deus, e a Gabrielle, minha filha, que completa 15 anos de vida, é sem dúvidas, o meu bem mais precioso.


Hoje, essa criaturinha que eu amo de paixão, merece ouvir de mim, seu pai, o quanto ela é importante na minha vida e principalmente o quanto és importante para Deus.

Foi Ele quem a criou, acalmou o meu coração e me fez enxergar na minha insensatez e egoísmo barato, que o erro em querer ser pai de um menino, depois de 15 anos passados, é a certeza de que a minha filha é a melhor filha do mundo.

Meu anjo, que sua vida seja repleta de realizações e desejos realizados. Que você continue sendo essa menina doce, pura, amiga, estudiosa, inteligente, brincalhona, pata no Uno – jogo de cartas com regras especiais criado em 1971 nos EUA – e que possa assistir a um jogo do Flamengo comigo.

E sobre ir ao Maracanã, quem sabe, a gente não possa transformar essa parceria de pai e filha em uma tarde inesquecível, em que dois torcedores apaixonados por um clube vão juntos pela primeira vez, dividir a emoção de pisarem em um estádio de futebol.

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