MEDROSO? JAMAIS! CORAGEM NUNCA FALTOU
por Fabio Lacerda

A semana começou com a celebração do aniversário do Zico, um dos 50 homens mais conhecidos da história da Humanidade. É verdade! O senhor Arthur Antunes Coimbra, com 71 verões às costas, tornou-se ídolo de todas as torcidas bem depois de pendurar as chuteiras. A afirmação é para você, fã do Museu da Pelada, e que poderá ratificar o escrito acima ao adquirir o livro “O efeito Zico – como obter índice de rejeição zero na sua profissão”, de autoria do jornalista e biógrafo de craques, Marcos Eduardo Neves.
Este texto não é para falar de Zico, e sim, do seu sucessor que conseguiu a proeza de ser ídolo de dois rivais da mesma cidade e um dos maiores jogadores da história do futebol mundial.
Em meados da década de 1980, aquele menino baiano, fala mansa, tímido, sensível, franzino no corpo, mas uma fortaleza como profissional para aguentar milhões de vozes o provocando, começou a fazer jus à fama de craque.

Bebeto passou por todas as provações que um jogador extrassérie poderia passar. Xingado pelos adversários e taxado de “chorão”, ele foi mostrando à imprensa e torcedores que o Flamengo poderia estar otimista quando Zico se aposentasse. Antes do adeus oficial de Zico, Bebeto teve a chance de jogar com seu ídolo e dar algumas voltas olímpicas com o camisa 10 da Gávea. Foi assim no Campeonato Carioca, controverso, em 1986, para variar, e na Copa União do ano seguinte.
Aquele jovem soteropolitano mais carioca que existe, habilidoso, rápido, veloz nos pensamentos e que jogava com dois toques na bola, já tinha casca para aguentar as cargas e pressões passionais dos torcedores rivais.

Bebeto nunca colocou “galho dentro” para zagueiros viris, agressivos e muitas vezes desonestos no fair play. Mas Bebeto não permitia que os “açougueiros”, com suas travas, o achassem. Sua capacidade de jogo era tanta que parecia ter dons da capoeira! Zagueiros procuravam, mas não encontravam Bebeto.
Em 1989, no decorrer da Copa América, que Romário leva a fama por ter feito o gol contra o Uruguai na final, numa jogada que o nascedouro sai dos pés do bom baiano, ele vinha sendo o melhor jogador do time de Sebastião Lazaroni. Foi protagonista por tirar o Brasil da fila de 40 anos sem levantar a Copa América. E além da sua coragem dentro de campo, trazendo a torcida para o lado da seleção no momento crucial da competição, Bebeto, da noite para o dia, ou do dia para a noite, deixou a Gávea rumo a São Januário no maior chapéu da história do futebol brasileiro juntamente com a ida de Ademir Menezes para as Laranjeiras ao sair do Vasco a pedido do técnico Gentil Cardoso – “Deem-me Ademir que lhes darei o campeonato”.
A efeito de comparação, a saída de Romário, do Barcelona para o Flamengo, em 1995, notoriamente, sensibilizou a torcida do Vasco. Porém, a ferida foi muito maior aos flamenguistas que viram e não acreditaram que o “sucessor do Zico” estava indo para o rival escolhido pelo Flamengo desde 1923. Bebeto, em ato de coragem, digno dos grandes campeões e grandes exemplos, não titubeou em sentir a ira rubro-negra.
A culminância desta fortaleza chamada Bebeto, campeão no Flamengo com Zico, e campeão no Vasco com Roberto Dinamite, deu-se na Copa do Mundo de 1994. Meses antes, Bebeto, que era o cobrador de pênaltis do La Coruña, negou-se a cobrar a penalidade contra o Valência no estádio Riazor que daria o primeiro título espanhol ao time azul e branco da Galícia, região pobre da Espanha no que diz respeito aos assuntos demográficos. Foi achincalhado, caracterizado com termos pejorativos que jamais couberam ao jogador pelo fato de não ter sentido à vontade para cobrar o pênalti naquela temporada 1993-1994 do Espanhol. Até nesta situação, Bebeto mostrou coragem. O defensor Djukic cobrou mal, perdeu o pênalti e viu o título escapar como grãos de areia entre os dedos. Se Bebeto tivesse cobrado, não tenho erro em dizer, seria filó.
Por mais que a imprensa, as torcidas dos mais diversos times e leigos metidos a entender de futebol quisessem taxá-lo de um jogador medroso ou mimado, Bebeto nunca se escondeu dos jogos, principalmente, os decisivos. E zagueiros que piscassem de forma lenta, era tarde! Bebeto já havia passado por eles, e a bola beijado a rede adversária.
Falar de Bebeto é homenagear o Galinho de Quintino também.
CALENDÁRIO? QUE CALENDÁRIO?
por Péris Ribeiro

O planejamento irracional dos dias de hoje – que, cinicamente, insistem em chamar por aí de calendário -, praticamente matou o tradicional (e tão necessário) intercâmbio entre a Europa e a América do Sul. Assim, deixaram de existir os festejados torneios de verão da Espanha, e também o charmoso Torneio de Paris. Competições que tanto fizeram a alegria e o encanto dos amantes do futebol-arte nas décadas de 1950, 60 e 70.
Aliás, esses torneios eram as mais cobiçadas vitrines da época. Era neles que os maiores craques do planeta se exibiam. E era neles, também, que se apresentavam as mais gratas revelações europeias e sul-americanas.
Para quem não sabe, não custa lembrar que foi nos “Ramon de Carranza” e “Tereza Herrera” da vida que despontaram campeões como o Flamengo de Zico, o Real Madrid de Di Stéfano e o Benfica de Eusébio. E foi no Torneio de Paris que o Santos de Pelé, bicampeão em 1960/61, começou a encantar o mundo.
Ah, quanta saudade daqueles anos dourados… Ainda mais que, naqueles tempos de glórias, o futebol brindava a velha Europa com esquadrões quase invencíveis. E, em cada um deles, havia sempre o brilho de craques que se tornariam imortais.
O BRASIL NA COPA DO MUNDO DE 1938 – A BATALHA NA LAMA E O GOL DESCALÇO
por Victor Kingma

França, 1938. O Brasil fazia a sua estreia na terceira Copa do Mundo contra a Polônia com enorme expectativa da torcida.
Até porque o time era formado por uma constelação de craques da época, com destaques para os lendários Domingos da Guia e Leônidas da Silva. A seleção era uma das favoritas ao título.
Ao entrar em campo no dia 5 de junho daquele ano, o otimismo da torcida parecia se confirmar: a seleção começa dominando totalmente o jogo e vai para o intervalo vencendo por 3 x 1, com gols de Leônidas, Romeu e Perácio. Szerfke descontou para os poloneses, num pênalti cometido por Domingos da Guia.
No segundo tempo, entretanto, uma forte chuva tornaria dramática a partida. Com o gramado totalmente enlameado, o avante Willimowski marca duas vezes e empata a partida: 3 x 3!
O Brasil reage e novamente Perácio, aos 26 minutos, volta a marcar: 4 x 3. Resultado que classificaria o time para as quartas de final. Naquela época todos os jogos eram eliminatórios.
Tudo parecia controlado quando, aos 44 minutos, Willimowski, um dos maiores artilheiros da história da seleção da Polônia, empata novamente: 4 x 4. E o dramático jogo vai para a prorrogação. Se persistisse o empate seria necessária a realização de outra partida, dois dias depois.
Mas aí, logo no primeiro tempo da prorrogação, brilhou de vez a estrela de Leônidas da Silva, o artilheiro com 7 gols e melhor jogador da Copa.
O astro maior da seleção marca duas vezes, tranquilizando seus companheiros. Com 6 x 4 no placar, o Brasil passa a tocar a bola e administrar o resultado.
No finalzinho, com os jogadores exaustos, Willimowski ainda fez o seu quarto gol na partida, que terminou 6 x 5. Até hoje foi o jogador que mais gols marcou contra a seleção brasileira numa Copa do Mundo.
Um fato, no entanto, só revelado pelo próprio Leônidas anos depois, poderia ter mudado o resultado da histórica partida e o destino do Brasil naquela Copa em que terminou em terceiro lugar:
Em meio ao lamaçal, sua chuteira tinha soltado a sola e ele não tinha outro par. Enquanto os membros da delegação tentavam a todo custo conseguir outra com o seu número, pois ele calçava apenas 36, continuou em campo só de meias. Devido à chuvarada o juiz não percebeu. Então, após o rebote de uma falta na barreira, emendou de primeira e marcou descalço, como nos tempos de pelada, um dos gols da vitória da seleção. Fato totalmente inusitado numa Copa do Mundo.
O LEGADO DE GARRINCHA O DESCASO ENTERROU
por Zé Roberto Padilha

Garrincha, como tantos, surgiu do futebol do interior. Com ligas desportivas estruturadas, as competições aconteciam entre todas as categorias. Os melhores a seu tempo, respeitando o ciclo familiar, afetivo e educacional eram convidados a realizar testes nos grandes clubes.
Noventa e dois municípios formavam importantes laboratórios que abasteciam à exaustão as divisões de base que, hoje, saturadas, até atletas em container são alojados.
O Ninho do Urubu e Xerém não suportam mais ninguém e acabam jogando pelos ralos os sonhos de alguém.
O futebol do interior é, além de uma fábrica de craques e oportunidades, uma opção de lazer e entretenimento. Como o teatro, a missa, o culto e o cinema. Meu neto é o primeiro da família a crescer sem ver seus pais colados no alambrado.
O máximo que chegam perto do palco onde atua é na porta do quarto onde Real Madrid X Chelsea se enfrentam pelo Playstation, da Sony. Um desperdício porque América FC e Entrerriense FC não suportaram taxas a serem pagas a CBF, Fifa, vans trazendo a arbitragem. E foram desfiliados.
Como tantos em nosso estado.
Quem ganha com isso quando tantos perdem? Oportunidades, renda, turismo, esportes na vida das pessoas, lazer, diversão…
O futebol do interior precisa ser respeitado. Oferecer ajuda aos seus clubes, dar apoio, recursos e não sobrecarregá-los com taxas de todas as ordens. Sob pena de, ao não produzir craques in natura, depender do talento artificial que vivem a inundar nosso gramado de atuações modestas e previsíveis.
Uma solução seria, primeiro, conceder anistia a todos clubes filiados. Sem exceção. Em segundo, reativar as ligas desportivas. Terceiro, organizar um campeonato de seleções do interior. Sub-17 e sub-20. Para que as cidades possam organizar seus arsenais e recolocar em campo o que foi esquecido pelas autoridades desportivas do nosso estado.
DE VEZ EM QUANDO A GENTE ACERTA
por Zé Roberto Padilha

Em nosso livro “Futebol: a dor de uma paixão”, cuja quarta edição a Universidade de Vassouras pretende lançar, escrevemos a respeito dos Cartolas.
Aquele cidadão anônimo, que tem poder, grana influência, mas seus feitos não alcançam os jornais. Talvez um dia, em letras garrafais, a seção do Obituário. E um dia descobrem que sendo sócio de um clube de futebol podem alcançar suas páginas esportivas, que não são poucas.
Daí se enturmam na sauna, doam prendas para o Bingo, pagam o cloro da piscina e logo colocam seu nome em uma chapa. E viram presidente sem saber nada de futebol.
Até Marcos Braz chegam a ser.
A solução? Entregar a direção do futebol a um ex-atleta com história de liderança, disciplina e equilíbrio para lidar com o vestiário. Depois que Mário Bittencourt se cercou de ex-atletas como Deley, a quem escuta bastante, o Fluminense parou de errar.
Não troca treinador, nem se desfaz de um elenco vitorioso. Não vende o André, nem traz de volta o Thiago Silva.
Nosso livro é de 1986. Tem um tempinho, mas nunca é tarde para se ouvir, seguir os conselhos, de quem colocou sua chuteira na dividida e seu pulmão para defender o seu clube do coração.