UM CIRCO SEM A MÍNIMA GRAÇA

por Mateus Ribeiro

Quando era adolescente, era fanático por tudo que envolvia futebol. Colecionava revistas, álbuns de figurinhas, assistia a todos os programas esportivos e partidas possíveis. Era realmente um vício, a ponto de me sentir chateado quando passava um dia sem ver a bola rolando.

Hoje, tudo é mais fácil. TV por assinatura, Internet, tudo possibilita que informações apareçam aos milhões, a qualquer hora, em qualquer lugar. Antigamente, essas facilidades eram apenas um sonho distante na minha cabeça. A distância desse sonho me aproximou de uma das maiores paixões que tive na vida: o rádio! Todo domingo acordava cedo para ficar grudado em um velho aparelho ouvindo Milton Neves segurando o rojão durante um plantão que durava horas. Milton e sua equipe conseguiam unir uma competência ímpar com uma dose de humor que deixava todos os públicos satisfeitos. Inclusive eu, um jovem que apesar de apaixonado, pouco entendia de bola. Comecei a gostar muito do mundo da comunicação, e a acompanhar com um olhar mais crítico tudo que envolvia o jornalismo esportivo. Bom, pelo menos tudo o que estava ao meu alcance.

Continuei ouvindo rádio, assistindo Cartão Verde, Super Técnico, o saudoso Show do Esporte, e tantos outros programas. Esperava pelo dia que a tecnologia chegasse logo, e com ela, eu pudesse ter opções mais variadas no meu já grande cardápio esportivo. A tecnologia chegou, e com ela, um oceano de decepções.

Comecei o texto dessa maneira para mostrar que antigamente, com muito menos recursos, a qualidade era alta. Óbvio que tinha muita, mas muita coisa ruim. Porém, acredite se quiser, até o Globo Esporte era legal. Me referi ao Globo Esporte pelo fato do jornal da hora do almoço ser uma das principais vítimas daquele que é um dos principais inimigos da inteligência humana: o jornalismo engraçadinho.

O modelo adotado pelo programa era terrível: um apresentador descolado, brincadeiras sem o mínimo de graça, e reportagens irrelevantes. Um negócio constrangedor mesmo, mas que poderia ser superado. Infelizmente conseguiram, com aquela desgraça intitulada Jogo Aberto.

 Renata Fan e Denílson

Renata Fan e Denílson

Comandado por uma dupla tão carismática quanto uma folha de papel vegetal, o programa é um absurdo em todos os aspectos. Mas o absurdo reside no fato de que exista quem consiga achar graça na dupla, e pior ainda, quem enxerga humor nas brincadeiras (muitas vezes maldosas) praticadas por Renata Fan e seu escudeiro Denílson. Como se não bastasse tudo isso, colaboram com a tragédia o fato de tudo no programa ser absolutamente previsível. A cereja em cima do bolo é o fato do ex-jogador cantar a apresentadora ao vivo, em rede nacional, em toda oportunidade. O que mais machuca a alma é saber que essa aberração (um verdadeiro desserviço) possui um grande número de fãs, que acha engraçado essa mistura de humor raso, informações vazias e clubismo velado travestido de piada. O programa falha em tudo, porém, como sempre existe um sapato velho para um pé cansado, existe quem perde tempo com esse aborto da natureza.

Já bastante cansado de tudo, imaginei que a referida atração fosse o fundo do poço. Descobri que era apenas a ponta do iceberg. Com a chegada da internet e o boom das redes sociais, tudo piorou. De uns tempos pra cá a coisa ultrapassou todos os limites da inteligência e da paciência humana.

Você está duvidando que a situação está insuportável? Siga estes dois passos:

1 — Ligue sua TV;

2 — Assista ao programa “É Gol”, transmitido pela Sportv.

O terceiro passo é a decepção por ter perdido 60 minutos de sua vida. Tudo de pior do jornalismo infantiloide está ali contido. Linguagem jovem da Internet, aquelas piadinhas dignas de show de stand up, e o tal do Zé Carniça.

Enfim cheguei no ponto que queria: tal qual em TODOS os jogos do campeonato transmitidos na TV, um dos assuntos mais abordados no tal “É Gol” é o nosso querido e estimado jogo Cartola FC. Eu escalo meu time e brinco em algumas ligas. O jogo é legal. Porém, a paciência vai para o espaço cada vez que algum apresentador, repórter ou comentarista faz alguma intervenção falando do jogo. E não são poucas as vezes. E você acha que esse é o pior que o jogo pode proporcionar? Ledo engano. O Cartola apresentou ao mundo a pior coisa que o futebol me proporcionou: o tal do Cartolouco.

 Cartolouco

Cartolouco

Vou poupar o estômago de quem está lendo e não vou me prolongar muito nesse assunto. Tudo o que posso dizer é que essa onda engraçadinha já deu. Sério. Ninguém com o mínimo de cérebro e sentimentos tem paciência para aturar essa palhaçada. E o tal do Cartolouco (que não faço ideia de onde brotou) consegue juntar tudo de pior dessa onda que de engraçada não tem absolutamente nada.

Enquanto isso, milhares de pessoas competentes e sérias passam horas criando conteúdo de qualidade em sites independentes, páginas no Facebook e afins. Duvida? Acesse as páginas do Sem Firulas, do Museu da Pelada, ou o site do Trivela, que apesar de tratar o futebol como coisa de nerd, tem seus bons momentos. O que é inadmissível é saber que o que é sério e bom não tem espaço, ao mesmo tempo que essa enchente de incompetência e mediocridade aparece na TV, na Internet, no rádio, e onde mais for preciso.

Chego a sentir saudades do Debate Bola, que tinha profissionais que tinham o dom para saber brincar. Coisa que essa turma que sentei a mamona no texto não tem. Nem o dom de saber brincar, tampouco o de informar.

Resta ver o que pode vir pela frente. Pelos rumos atuais, é provável que tudo piore nesse circo que virou a imprensa esportiva. Infelizmente, um circo sem a mínima graça.