Ronaldo

RONALDO É UM FENÔMENO

por Serginho 5Bocas

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Ronaldo era uma máquina programada para matar, o jogo. Dos jogadores brasileiros que vi jogar, foi possivelmente o que mais se aproximou do rei Pelé no cenário mundial, pois também foi a quatro Copas mas em vez de três, venceu duas, em contrapartida fez mais gols em Copas, conseguindo inclusive uma artilharia, é muita coisa para quem jogou em alto nível por um tempo bem menor, por conta dos problemas físicos. 

Mas por que Ronaldo era chamado de fenômeno? 

Porque em 1993, aos dezesseis anos, já era o principal jogador do time do Cruzeiro e foi o artilheiro da equipe no Campeonato Brasileiro, inclusive fazendo 5 gols em uma partida contra o Bahia do “goleirassu” uruguaio Rodolfo Rodrigues. Além disso, marcou 44 gols em 47 jogos pela equipe mineira.

Porque no ano seguinte chamou a atenção do técnico Parreira que acabou convocando-o, e logo em seguida estreou na seleção e marcou contra a Islândia, seu primeiro gol, credenciando-se para ir a Copa dos Estados Unidos como reserva de Romário, onde sagrou-se campeão do mundo pela primeira vez, apesar de não jogar um minuto sequer. 

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Porque foi para o PSV da Holanda, fez 54 gols em 57 jogos e jogou tanta bola que chamou a atenção do Barcelona rapidamente e por isso foi comprado sem nem ter tempo de aumentar seus números e feitos na Holanda.

Porque foi rei na Espanha muito jovem, jogando pelo Barcelona, fazendo uma super temporada que o credenciou para receber seu primeiro título de melhor jogador do mundo ainda aos 20 anos, após ter feito inúmeros gols de placa, como o contra o Compostela, quando arrancou do meio de campo sem ninguém conseguir pará-lo, feito uma locomotiva a todo vapor. 

Porque ao chegar no duro campeonato italiano, logo em sua primeira temporada, foi o estrangeiro que fez mais gols na temporada de estreia até então, anotando 25 gols, superando o recordista anterior, que era ninguém menos que Zico que detinha a marca de 19 gols desde 1983. Aliás, foi por essa razão que recebeu a alcunha de “fenômeno”, muito merecida por sinal.

Porque foi considerado o principal culpado pela derrota do Brasil na Copa de 1998 na França, sendo chamado de amarelão, e mesmo após ter ficado quase dois anos sem jogar por motivo de contusões gravíssimas nos dois joelhos, quando ninguém mais acreditava, voltou em grande estilo, como uma ave fênix, sendo campeão do mundo de 2002 na Coréia/Japão, sendo o artilheiro da competição, além de ter abocanhado todos os prêmios de melhor jogador do ano de 2002, uma aula de superação. 

Porque mesmo quando visivelmente fora de forma em 2005, conseguiu dar suas arrancadas fulminantes e deixar sua marca com seu estilo inconfundível, nas eliminatórias da Copa de 2006 contra a Argentina, quando arrancou três vezes e sofreu três pênaltis, marcando os três gols e decidindo a partida. 

 Porque ainda teve fôlego de ir a sua última Copa, a de 2006 e lá fez três gols, com direito a pedalada no goleiro gânes, quebrando o recorde de gols em Copas naquela época, que depois foi superado pelo alemão Klose.

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 Que com todo o excesso peso e já em seu ocaso, conseguiu fazer gol no São Paulo, ganhando na corrida desde o meio de campo do zagueiro Rodrigo e vencendo o goleiro Bosco.  

Porque apesar de todas as contusões que abreviaram sua carreira, tornou-se o segundo maior artilheiro da seleção brasileira com 67 gols, a frente de Zico e de Romário e atrás apenas do rei Pelé, além de ser o segundo maior artilheiro da história das Copas do Mundo com 15 gols em 3 copas jogadas. 

Ronaldo era diferente e se distinguia como centroavante, pois ninguém no mundo teve estilo parecido, ou fez jogadas rápidas e inteligentes com a qualidade que ele produziu. Ronaldo conseguia carregar a bola colada aos seus pés em altíssima velocidade, aliada a dribles curtos e muitos gols. Só mesmo um fenômeno poderia fazer coisas deste porte e ser tanto em tão pouco tempo.

Ô saudade boa da bola indo na direção da locomotiva e ela arrancando em direção ao gol ou alguém já se esqueceu da sua atuação contra a Holanda na semifinal da Copa de 1998? Impressionante como os zagueiros Stam e Frank De Boer ficaram loucos com o moleque de 21 anos.

 Sinceramente, não fossem os problemas nos joelhos nem sei aonde poderia ter chegado...queria muito saber!

O CORPO, O ELEMENTO, CARREIRAS E DESTINOS

por Eliezer Cunha

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Ainda muito jovem, nas minhas peladas rotineiras pelo bairro e nas minhas paixões futebolísticas, sempre assisti ocorrências envolvendo um elemento do Corpo Humano. Denomina-se joelho e toda a sua estrutura responsável em fazer a ligação entre Fêmur e tíbia, além de articular movimentos e amortecer quedas (definição particular).

Não sabia de fato a sua importância para a coordenação dos movimentos atléticos e, o que poderia a sua inoperância provocar para a carreira de um jogador de futebol. Afinal era muito jovem, e quando você é jovem nada te impede, nada te convence a não ser sua vontade. Carreiras futebolísticas foram afetadas por problemas neste elemento.

Falavam muito no joelho do mestre Garrincha, mas, de fato, somente assisti a um sofrimento mais próximo, com meu ídolo Zico e suas idas e vindas para o futebol, pós-cirurgias. Talvez, ou com certeza, perdeu a oportunidade de conquistar uma Copa. Além de ter perdido a oportunidade de ter chegado aos tão sonhados 1000 gols.

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Segundo episódio, e segundo carma; Ronaldo, o fenômeno. Este até teve a felicidade de conquistar duas Copas, porém perdeu a oportunidade de concluir os 1000 tentos. Mas vamos aos fatos: o que levaram ambos a este estado? Foram origens diferenciadas? Sim. Zico uma entrada fatal de um “companheiro de trabalho”. Ao Fenômeno, restou só e somente só, o excesso de carga em que o elemento não suportou todo o ímpeto que ele queria propiciar a jogada e veio a se romper, se desligando do organismo corpo humano.

O que me provocou e estimulou relatar esses fatos? A antecipação e a interrupção de duas carreiras que deveriam ser tão mais promissoras, a falta de imponência em seguir uma carreira sem desvios, comprometendo o seu próprio histórico, do clube e de uma nação.

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Ainda antes do colapso humano, temos registradas várias arrancadas e jogadas de ambos, partindo de seu campo para a conclusão, ou quase, da jogada em gol. Após os respectivos traumas, era nítida toda a dificuldade em concluir uma jogada, em que antes seria tão simples e lógica.

Como dizem os mais sábios, nem tudo nesta vida é perfeito.

O APAGÃO DE RONALDO

por Zico

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Vocês podem me cobrar isso daqui a 30 anos: eu não estava presente quando aconteceu o problema com Ronaldo. Assim que acabou o almoço, fiquei conversando com Gilmar e Evandro. Mais ou menos por volta de 14h30, Ronaldo teve uma convulsão e saíram gritando que ele estava morrendo.

Por volta das 16h, estava indo para o meu quarto, pra me trocar, porque às 17h tinha lanche e, depois, a preleção. Wendell me chamou:

- Acho que aconteceu alguma coisa com o Ronaldo. Melhor você ir lá em cima ver.

Quando cheguei no quarto do Ronaldo, estava o Joaquim da Mata em pé, Ronaldo sentado na cama e Roberto Carlos na outra cama.

- Dr. Joaquim, o que houve?

- Ah, ele teve uma convulsão. Dr. Lídio já sabe, ele esteve aqui, passe no quarto dele pra saber o que ele acha.

- Zagallo já sabe?

- Acho que não.

Perguntei ao Ronaldo se estava tudo bem. Ele parou, me olhou e se deitou.

Dr. Joaquim sugeriu que o deixássemos descansar pelo menos uma hora. Roberto Carlos estava com os olhos arregalados de susto. Fui ao quarto do Lídio:

- Você conhece Zagallo melhor do que eu. Vamos falar pra ele agora, quando está descansando.

- Não se preocupe, vou lá no quarto dele e falo. Sei como vou dizer.

Aí fui para o meu quarto, Às 17h, fui para o refeitório com o Ronaldo andando na minha frente. Ele parou na porta e tentou fazer uns exercícios. Falei:

- Ô, Ronaldo, o jogo é às 21h e você já se aquecendo às 17h.

- Olha, acho que aconteceu alguma coisa comigo. Estou todo doído, parece que levei alguma surra! - ele disse.

Calculei que ele não sabia o que tinha acontecido. Deu 17h30, os jogadores no lanche, apreensivos, Joaquim da Mata foi caminhar com o Ronaldo, Lídio reuniu a gente:

- Aconteceu isso e isso, Ronaldo não tem a menor condição de jogar, está fora.

Às 18h, veio a preleção. Joaquim da Mata tinha conversado com Ronaldo:

 - Olha, aconteceu isso com você, vai ter que pro hospital fazer exames! - ele foi numa boa.

Zagallo fez uma ótima preleção:

- Brasil foi campeão do mundo sem o Pelé, ele se machucou, não pôde jogar, mas o time superou. Seria bom se o Ronaldo estivesse aqui, mas Edmundo está escalado.

No ônibus, todo mundo preocupado, principalmente o Leonardo, que a cada dez minutos perguntava:

- Ele corre risco de vida? Esse problema tem alguma consequência?

Nós, da Comissão Técnica, não sabíamos que César Sampaio tinha ido ao quarto do Ronaldo, que tinha puxado a língua dele, que Edmundo saíra gritando "Ronaldo está morrendo". Só soube disso pelas entrevistas dos jogadores. O grande erro foi esse. Eu, pessoalmente, acho que às 14h todo mundo deveria ter sido chamado, inclusive Ricardo Teixeira, e tudo esclarecido.

Às 20h, eu estava no campo, vendo o desfile e os jogadores trocando de roupa, quando me avisaram de uma reunião. Agora, 20h?

Lá estavam Ricardo Teixeira, Zagallo, Ronaldo de frente para o médico, de short, meia, com a camisa de aquecimento:

- Olha, estou bom, meus exames não deram nada, quero jogar.

O Lídio insistia:

- Você está bom mesmo? Não sente nada?

- Estou bom, estou legal!

Aí, Zagallo falou:

- Então, vai aquecer e jogar.

Assim foi decidido.

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Quando Ronaldo levou aquela trombada em campo, e caiu, eu fiquei preocupado. E todos os jogadores que sabiam do que tinha acontecido também se assustaram, principalmente o Cafu.

Conclusão: O Ronaldo deveria ter ficado internado no hospital. Todo mundo foi testemunha do que aconteceu com ele, e todos os médicos declararam que quando você tem uma convulsão, grave do jeito que nos foi passado, você tem que ficar 24 horas em observação. Mas imagina o que aconteceria se o Zagallo tirasse um jogador do quilate de Ronaldo da decisão, e o Brasil perdesse de 3 x 0. Só a autoridade médica evitaria que as coisas chegassem ao ponto que chegou.

O Lídio teve lá suas razões para liberar.

 

Texto publicado originalmente no livro Paixão e Ficção: contos e causos de futebol.

CRAQUES DAS LENTES

Com enorme gratidão, continuamos recebendo lindos registros de parceiros espalhados pelo Brasil! Fotógrafo de “carteirinha” desde 79, quando conseguiu seu registro profissional, o flamenguista Marcos Tristão é a fera da vez! Com duas coberturas de Copas do Mundo e duas de Olimpíadas no currículo, o craque tirou suas primeiras fotos ainda na infância, por influência do saudoso Alaor Barretto, grande amigo do seu pai. A partir daí, o sucesso foi questão de tempo.

- Comecei a fotografar com a Nikon do meu pai. Depois, mesmo já tendo o registro como fotógrafo, ainda me formei em jornalismo.

Na grande imprensa trabalhou no Jornal O Dia e no Jornal O Globo, mas passou grande parte da carreira se dedicando aos “freelas”. A Copa de 94, nos Estados Unidos, foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes da carreira de Tristão.

Ainda nas Eliminatórias para a competição, no famoso duelo entre Brasil e Uruguai no Maracanã, o fotógrafo registrou o exato momento em que Romário passou pelo goleiro uruguaio e carimbou o passaporte para os Estados Unidos. Embora o registro tenha sido “o resumo do jogo”, como o próprio fotógrafo define, o jornal optou por não publicá-lo.

- Essa foto foi publicada no Jornal dos Fotógrafos e o Romário também tem ela, não sei por que não foi publicada.

Escalado pelo Jornal O Dia para cobrir a Copa de 94, Tristão revelou que só tinha 15 minutos para fazer as fotos das partidas. O restante do tempo era dedicado ao, na época, longo processo de escanear e enviar as imagens para o Brasil. A correria era tanta que os fotógrafos se ajudavam, mesmo sendo de veículos diferentes.

De tanto ajudar o parceiro Sérgio de Souza, da Manchete, nesse processo de enviar as imagens para o Brasil, Tristão ganhou um belo presente do fotógrafo. Ao final do torneio, Sérgio deu a foto em que Bebeto faz a famosa comemoração “embala neném”, após o golaço contra a Holanda.

O presente dado por Sérgio de Souza

O presente dado por Sérgio de Souza

- O Jornal O Dia quis me premiar por esse registro, mas eu não aceitei de jeito nenhum! Costumo dizer que a foto é minha legalmente, pois eu tenho o negativo e tudo mais, mas moralmente não é minha.

Ronaldo brilhou na Copa de 98.

Ronaldo brilhou na Copa de 98.

Além da Copa do Mundo dos Estados Unidos, Tristão também cobriu o Mundial da França e as Olimpíadas de Atlanta e, mais recentemente, a do Rio de Janeiro. Esse último, sem dúvida, um evento muito mais tranqüilo do que a Copa de 94, devido aos avanços tecnológicos e por estar “jogando em casa”.

Os avanços tecnológicos, aliás, proporcionaram a facilidade de tirar fotos pelo celular, o que deixou todos “iguais” e causou uma banalização da fotografia. A diferença, segundo Tristão, está no olhar fotográfico.

- Hoje em dia todos têm uma câmera na mão, mas nem todos têm aquele olhar fotográfico apurado, que faz muita diferença.

Como um bom fotógrafo, Tristão vê a jogada antes dos demais boleiros e se utilizou muito dessa habilidade para parar os atacantes nos seus tempos de goleiro e zagueiro. Hoje em dia, dificilmente bate uma bolinha, mas lembra com carinho de uma pelada inesquecível.

- Participei do último jogo do antigo Maracanã. Meu time tomou uma goleada histórica, mas isso é o de menos! Eu tenho o orgulho de dizer que joguei no Maracanã! – finalizou.

No início da carreira, Ronaldinho Gaúcho já foi alvo dos cliques de Tristão

No início da carreira, Ronaldinho Gaúcho já foi alvo dos cliques de Tristão