Ronaldo

O CORPO, O ELEMENTO, CARREIRAS E DESTINOS

por Eliezer Cunha

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Ainda muito jovem, nas minhas peladas rotineiras pelo bairro e nas minhas paixões futebolísticas, sempre assisti ocorrências envolvendo um elemento do Corpo Humano. Denomina-se joelho e toda a sua estrutura responsável em fazer a ligação entre Fêmur e tíbia, além de articular movimentos e amortecer quedas (definição particular).

Não sabia de fato a sua importância para a coordenação dos movimentos atléticos e, o que poderia a sua inoperância provocar para a carreira de um jogador de futebol. Afinal era muito jovem, e quando você é jovem nada te impede, nada te convence a não ser sua vontade. Carreiras futebolísticas foram afetadas por problemas neste elemento.

Falavam muito no joelho do mestre Garrincha, mas, de fato, somente assisti a um sofrimento mais próximo, com meu ídolo Zico e suas idas e vindas para o futebol, pós-cirurgias. Talvez, ou com certeza, perdeu a oportunidade de conquistar uma Copa. Além de ter perdido a oportunidade de ter chegado aos tão sonhados 1000 gols.

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Segundo episódio, e segundo carma; Ronaldo, o fenômeno. Este até teve a felicidade de conquistar duas Copas, porém perdeu a oportunidade de concluir os 1000 tentos. Mas vamos aos fatos: o que levaram ambos a este estado? Foram origens diferenciadas? Sim. Zico uma entrada fatal de um “companheiro de trabalho”. Ao Fenômeno, restou só e somente só, o excesso de carga em que o elemento não suportou todo o ímpeto que ele queria propiciar a jogada e veio a se romper, se desligando do organismo corpo humano.

O que me provocou e estimulou relatar esses fatos? A antecipação e a interrupção de duas carreiras que deveriam ser tão mais promissoras, a falta de imponência em seguir uma carreira sem desvios, comprometendo o seu próprio histórico, do clube e de uma nação.

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Ainda antes do colapso humano, temos registradas várias arrancadas e jogadas de ambos, partindo de seu campo para a conclusão, ou quase, da jogada em gol. Após os respectivos traumas, era nítida toda a dificuldade em concluir uma jogada, em que antes seria tão simples e lógica.

Como dizem os mais sábios, nem tudo nesta vida é perfeito.

O APAGÃO DE RONALDO

por Zico

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Vocês podem me cobrar isso daqui a 30 anos: eu não estava presente quando aconteceu o problema com Ronaldo. Assim que acabou o almoço, fiquei conversando com Gilmar e Evandro. Mais ou menos por volta de 14h30, Ronaldo teve uma convulsão e saíram gritando que ele estava morrendo.

Por volta das 16h, estava indo para o meu quarto, pra me trocar, porque às 17h tinha lanche e, depois, a preleção. Wendell me chamou:

- Acho que aconteceu alguma coisa com o Ronaldo. Melhor você ir lá em cima ver.

Quando cheguei no quarto do Ronaldo, estava o Joaquim da Mata em pé, Ronaldo sentado na cama e Roberto Carlos na outra cama.

- Dr. Joaquim, o que houve?

- Ah, ele teve uma convulsão. Dr. Lídio já sabe, ele esteve aqui, passe no quarto dele pra saber o que ele acha.

- Zagallo já sabe?

- Acho que não.

Perguntei ao Ronaldo se estava tudo bem. Ele parou, me olhou e se deitou.

Dr. Joaquim sugeriu que o deixássemos descansar pelo menos uma hora. Roberto Carlos estava com os olhos arregalados de susto. Fui ao quarto do Lídio:

- Você conhece Zagallo melhor do que eu. Vamos falar pra ele agora, quando está descansando.

- Não se preocupe, vou lá no quarto dele e falo. Sei como vou dizer.

Aí fui para o meu quarto, Às 17h, fui para o refeitório com o Ronaldo andando na minha frente. Ele parou na porta e tentou fazer uns exercícios. Falei:

- Ô, Ronaldo, o jogo é às 21h e você já se aquecendo às 17h.

- Olha, acho que aconteceu alguma coisa comigo. Estou todo doído, parece que levei alguma surra! - ele disse.

Calculei que ele não sabia o que tinha acontecido. Deu 17h30, os jogadores no lanche, apreensivos, Joaquim da Mata foi caminhar com o Ronaldo, Lídio reuniu a gente:

- Aconteceu isso e isso, Ronaldo não tem a menor condição de jogar, está fora.

Às 18h, veio a preleção. Joaquim da Mata tinha conversado com Ronaldo:

 - Olha, aconteceu isso com você, vai ter que pro hospital fazer exames! - ele foi numa boa.

Zagallo fez uma ótima preleção:

- Brasil foi campeão do mundo sem o Pelé, ele se machucou, não pôde jogar, mas o time superou. Seria bom se o Ronaldo estivesse aqui, mas Edmundo está escalado.

No ônibus, todo mundo preocupado, principalmente o Leonardo, que a cada dez minutos perguntava:

- Ele corre risco de vida? Esse problema tem alguma consequência?

Nós, da Comissão Técnica, não sabíamos que César Sampaio tinha ido ao quarto do Ronaldo, que tinha puxado a língua dele, que Edmundo saíra gritando "Ronaldo está morrendo". Só soube disso pelas entrevistas dos jogadores. O grande erro foi esse. Eu, pessoalmente, acho que às 14h todo mundo deveria ter sido chamado, inclusive Ricardo Teixeira, e tudo esclarecido.

Às 20h, eu estava no campo, vendo o desfile e os jogadores trocando de roupa, quando me avisaram de uma reunião. Agora, 20h?

Lá estavam Ricardo Teixeira, Zagallo, Ronaldo de frente para o médico, de short, meia, com a camisa de aquecimento:

- Olha, estou bom, meus exames não deram nada, quero jogar.

O Lídio insistia:

- Você está bom mesmo? Não sente nada?

- Estou bom, estou legal!

Aí, Zagallo falou:

- Então, vai aquecer e jogar.

Assim foi decidido.

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Quando Ronaldo levou aquela trombada em campo, e caiu, eu fiquei preocupado. E todos os jogadores que sabiam do que tinha acontecido também se assustaram, principalmente o Cafu.

Conclusão: O Ronaldo deveria ter ficado internado no hospital. Todo mundo foi testemunha do que aconteceu com ele, e todos os médicos declararam que quando você tem uma convulsão, grave do jeito que nos foi passado, você tem que ficar 24 horas em observação. Mas imagina o que aconteceria se o Zagallo tirasse um jogador do quilate de Ronaldo da decisão, e o Brasil perdesse de 3 x 0. Só a autoridade médica evitaria que as coisas chegassem ao ponto que chegou.

O Lídio teve lá suas razões para liberar.

 

Texto publicado originalmente no livro Paixão e Ficção: contos e causos de futebol.

CRAQUES DAS LENTES

Com enorme gratidão, continuamos recebendo lindos registros de parceiros espalhados pelo Brasil! Fotógrafo de “carteirinha” desde 79, quando conseguiu seu registro profissional, o flamenguista Marcos Tristão é a fera da vez! Com duas coberturas de Copas do Mundo e duas de Olimpíadas no currículo, o craque tirou suas primeiras fotos ainda na infância, por influência do saudoso Alaor Barretto, grande amigo do seu pai. A partir daí, o sucesso foi questão de tempo.

- Comecei a fotografar com a Nikon do meu pai. Depois, mesmo já tendo o registro como fotógrafo, ainda me formei em jornalismo.

Na grande imprensa trabalhou no Jornal O Dia e no Jornal O Globo, mas passou grande parte da carreira se dedicando aos “freelas”. A Copa de 94, nos Estados Unidos, foi sem dúvida um dos momentos mais marcantes da carreira de Tristão.

Ainda nas Eliminatórias para a competição, no famoso duelo entre Brasil e Uruguai no Maracanã, o fotógrafo registrou o exato momento em que Romário passou pelo goleiro uruguaio e carimbou o passaporte para os Estados Unidos. Embora o registro tenha sido “o resumo do jogo”, como o próprio fotógrafo define, o jornal optou por não publicá-lo.

- Essa foto foi publicada no Jornal dos Fotógrafos e o Romário também tem ela, não sei por que não foi publicada.

Escalado pelo Jornal O Dia para cobrir a Copa de 94, Tristão revelou que só tinha 15 minutos para fazer as fotos das partidas. O restante do tempo era dedicado ao, na época, longo processo de escanear e enviar as imagens para o Brasil. A correria era tanta que os fotógrafos se ajudavam, mesmo sendo de veículos diferentes.

De tanto ajudar o parceiro Sérgio de Souza, da Manchete, nesse processo de enviar as imagens para o Brasil, Tristão ganhou um belo presente do fotógrafo. Ao final do torneio, Sérgio deu a foto em que Bebeto faz a famosa comemoração “embala neném”, após o golaço contra a Holanda.

O presente dado por Sérgio de Souza

O presente dado por Sérgio de Souza

- O Jornal O Dia quis me premiar por esse registro, mas eu não aceitei de jeito nenhum! Costumo dizer que a foto é minha legalmente, pois eu tenho o negativo e tudo mais, mas moralmente não é minha.

Ronaldo brilhou na Copa de 98.

Ronaldo brilhou na Copa de 98.

Além da Copa do Mundo dos Estados Unidos, Tristão também cobriu o Mundial da França e as Olimpíadas de Atlanta e, mais recentemente, a do Rio de Janeiro. Esse último, sem dúvida, um evento muito mais tranqüilo do que a Copa de 94, devido aos avanços tecnológicos e por estar “jogando em casa”.

Os avanços tecnológicos, aliás, proporcionaram a facilidade de tirar fotos pelo celular, o que deixou todos “iguais” e causou uma banalização da fotografia. A diferença, segundo Tristão, está no olhar fotográfico.

- Hoje em dia todos têm uma câmera na mão, mas nem todos têm aquele olhar fotográfico apurado, que faz muita diferença.

Como um bom fotógrafo, Tristão vê a jogada antes dos demais boleiros e se utilizou muito dessa habilidade para parar os atacantes nos seus tempos de goleiro e zagueiro. Hoje em dia, dificilmente bate uma bolinha, mas lembra com carinho de uma pelada inesquecível.

- Participei do último jogo do antigo Maracanã. Meu time tomou uma goleada histórica, mas isso é o de menos! Eu tenho o orgulho de dizer que joguei no Maracanã! – finalizou.

No início da carreira, Ronaldinho Gaúcho já foi alvo dos cliques de Tristão

No início da carreira, Ronaldinho Gaúcho já foi alvo dos cliques de Tristão