HELENO DE FREITAS BRIGOU COM O MUNDO, JAMAIS COM O BOTAFOGO

por André Felipe de Lima

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No pé do mastro da bandeira alvinegra está Antônio Ferreira Franco de Oliveira, o folclórico Neném Prancha. Ele chora, só. Uma lágrima silenciosa. Uma dor particular. Ao fundo, a bandeira do Botafogo hasteada a meio pau em sinal de luto. Neném lamenta por Heleno de Freitas, que naquele dia 8 de novembro de 1959 morrera em um sanatório de Barbacena, no interior mineiro. Estava louco, com o cérebro tomado pela sífilis tardiamente descoberta pelos médicos que o tratavam nos derradeiros anos de sua vida, esta marcada de glórias e desatinos dentro e fora dos gramados. Uma reportagem da revista O Cruzeiro assinada pelo hoje cineasta Luiz Carlos Barreto, fervoroso torcedor do Botafogo, mostra a dimensão trágica da morte de Heleno. Barretão, como é conhecido no universo cinematográfico, ouviu Neném Prancha, que foi quem praticamente descobriu nas areias da praia de Copacabana o talento de Heleno para o futebol. “Com os olhos cheios de lágrimas, [Neném Prancha] falou do menino Heleno que um dia, chegando do interior de Minas, entrou numa pelada e logo garantiu seu lugar no time da turma do Pôsto 4: ‘Era um bom garôto. Nas peladas da praia era um exemplo de disciplina. O que êle não gostava era de perder, mesmo jôgo de brincadeira [...] Fama demais estragou o menino Heleno que, mesmo crescido e cheio de glórias, nunca deixou de ser um meninão”. Um meninão que cresceu nas peladas de São João Nepomuceno, mas, apesar do “gorro rubro-negro” que usava quando criança, sempre apreciou o Botafogo de Carvalho Leite, Martim Silveira, Benedicto Menezes e Nilo Murtinho Braga. Era fiel.

Ninguém, talvez nem mesmo Garrincha, encarnou tão profundamente a alma enigmática, para não dizer mística, do Botafogo. Somente um Heleno, apesar da distância que o separava do Rio, para se tornar um mito do clube da estrela solitária. “No dia em que morreu Heleno, escrevi um texto. No momento em que São João Nepomuceno revive o filho querido, permito-me transcrever parte da crônica que, então, publiquei no JB: ‘O futebol, fonte de minhas angústias e alegrias, revelou-me, ao longo dos anos, em Heleno de Freitas, a personalidade mais atormentada que conheci nos estádios deste mundo’”. Palavras de Armando Nogueira, que “conheceu” Heleno no dia 10 de setembro de 1944, quando, recém-chegado ao Rio, vindo de sua cidade natal, Xapuri, no Acre, um primo o levou ao estádio de General Severiano para assistir um Botafogo e Flamengo, aquela partida que ficou conhecida como o “jogo do senta”.

Outro grande homem das letras confessou ao escritor e jornalista Sérgio Augusto idolatria a Heleno. Filho de Orígenes Lessa, o então garoto Ivan, pelos idos de 40, não perdia os rachas na faixa da praia de Copacabana entre as ruas Bolívar e Domingos Ferreira. “Sou Botafogo porque tive um béguin pelo Heleno lá pelos dez anos de idade”. Geralmente, o craque falante comparecia, encantando a molecada. Ora, apenas admirando-a da calçada, ou, o que era mais comum, fazendo a de fora. E lá estava Heleno em meio a meninos que o reverenciavam das arquibancadas. Raramente um mito dos gramados se aproximava tanto da torcida. O que as crianças não percebiam é que por detrás da simpatia de Heleno se escondia o motivo que deflagraria um traumático destino. Há, contudo, quem tenha presenciado gestos menos simpáticos de Heleno com seus fãs. Como escreveu Marcos Eduardo Neves, responsável por primorosa biografia de Heleno, os amigos Sérgio Porto e Mario Carvalho de Oliveira, com os quais o jogador conviveu na juventude, concordavam que lidar com Heleno não era fácil. Ele, em algumas situações, tratava mal as pessoas nas ruas, rechaçando garotos ávidos por autógrafos. Após uma de suas grosserias, Eduardo Henrique Martins de Oliveira, o comandante Edu, grande amigo de Heleno, puxou-o pelo braço e o obrigou a assinar o papel para um menino.

TEMPERAMENTAL MENINO DO GORRO RUBRO-NEGRO

O filho mais ilustre de São João Nepomuceno nasceu em 12 de dezembro de 1920. Parto difícil, por pouco não morreram ele e a mãe, Maria Rita, dona Miquita, que prometeu que o rebento, fosse menino ou menina, receberia o nome da santa da qual era devota: Helena. Ficou Heleno.

Desde pequenino, molecote com sete anos, era tinhoso, porém uma criança introvertida. Lia sozinho. Passava horas devaneando diante de um livro. Hábito que conservou até a fase adulta. Tinha predileção por Dostoievski, especialmente a obra “Crime e castigo”.

Quando os amigos dos pais visitavam os Freitas, no interior mineiro, Heleno fazia discursos inflamados de enrubescer um pastor que marcava ponto para o café na casa dos Freitas. Heleno tinha nove anos, apenas. E a oratória de um adulto. De um doutor.

De todos os filhos dos Freitas, era o mais mimado. Roupas? Um brinco. Nada de peão ou bola de gude na terra batida. Sem nata no café com leite. Ficava possesso. Hora de almoço, o feijão, sem casca... arroz papa, nem pensar. Bife deveria ser sempre fino, sem gordura e cebola. Sentia nojo de cebola. Tanto que muitos o provocavam por causa disso nas concentrações.

Era uma criança mimada. E isso teria um preço alto no futuro.

Queria a atenção para si. Seja no colégio ou no infantil do Mangueira, o menino Heleno sempre arrumava confusão, na maioria das vezes com os irmãos mais velhos. Costumava comprar a briga dos outros.

O irmão Heraldo, que tinha o dobro de sua idade, invariavelmente o expulsava do campo de jogo. O moleque altivo respondia sempre que do campo não sairia. Em uma daquelas ocasiões, Heraldo perdeu a paciência e arrastou Heleno na marra. Manteve-o imóvel, com um pé sobre o seu pescoço, enquanto dirigia o resto do treino. Oscar, o irmão do meio, quis defender Heleno. Instaurou-se um bate-boca. Por pouco não desceram a mão um no outro, como descreveram Marcos de Castro e João Máximo, os primeiros biógrafos de Heleno. Uma briga ali e outra acolá, Heleno chegou ao juvenil do Mangueira. Admirava um craque, dizem, de nome, Joaquim Mangueira. Quem sabe, o fundador do seu primeiro time.

Com 13 anos, Heleno foi estudar no Grêmio Mineiro, em Barbacena, e namorava Margarida, filha de seu professor e a menina mais cobiçada da região. O filho do seu Oscar usava um gorro de crochê que intrigava a garotada. Era o único do colégio que portava o adereço na cabeça. Todos queriam imitá-lo. O adolescente era líder. Mas por trás da moda de Heleno há uma história, que, por coincidência, foi recuperada pelo psiquiatra José Theobaldo Tollendal, médico formado no Rio de Janeiro e sócio-atleta do Botafogo em 1940, que conviveu com Heleno durante a adolescência e — por obra do acaso — cuidou do craque durante os seus últimos anos de vida em Barbacena. “Vi o Heleno pela primeira vez no Grêmio Mineiro, aqui em Barbacena. Era muito marrento, puxava o xis [sic] e usava um gorrinho vermelho e preto por causa do Flamengo. Mas ninguém é perfeito [risos], pois nessa época eu era meio Bangu”, contou Tollendal aos repórteres Maurício Miranda e Pedro Blank, que também ouviram o hoje barbeiro Florivaldo Ferreira Lima, com quem Heleno também conviveu no Grêmio Mineiro: “Ele era senhor de si, esnobe, não dava bola para ninguém”. Dava sim, apenas ao Flamengo. E pensar que o craque — como sempre se acreditou — era alvinegro desde criancinha... caiu, portanto, um mito.

Filho de Oscar de Freitas, negociante de café e dono de refinaria de açúcar, nascido em Pombal e de Maria Rita, de Cataguazes, professora, criada em Ouro Preto, Heleno teve sete irmãos: Heraldo, Oscar, Marina, Rômulo, Vera, Lúcio e José, os dois últimos eram gêmeos e morreram ainda pequenos. O pai não curou uma pneumonia e morreu em 11 de novembro de 1931, deixando Maria Rita com a árdua missão de completar sozinha a criação da vasta prole. Quem mais se perturbou com a morte do pai foi Heleno. Tinha insônia e lia muito para ocupar as noites em claro.

Sabiamente Maria Rita deduziu: se os filhos, logo que atingirem a maioridade estudariam no Rio, porque não antecipar a jornada? Ainda em 33, ela chega a então capital federal, mais precisamente à rua Conselheiro Lafayette, número 29, terceiro andar, apartamento sete. O prédio ficava na altura do posto seis da praia de Copacabana. Moraram também na Pensão Paulista, no Leme, mas por pouco tempo, pois voltaram ao posto seis. Todos ficaram com a mãe, menos Heraldo, que tempos depois regressou a Minas. Como escreveram João Máximo e Marcos de Castro, Heleno terminou o curso ginasial no colégio São Bento enquanto o irmão Oscar tornou-se dentista na mesma época.

Logo que a família Freitas aportou em Copacabana, Heleno e o irmão Oscar procuraram um campo para jogar bola. Encontraram a areia da praia que em nada parecia com a terra batida da várzea de São João Nepomuceno e de Barbacena. Moravam no Posto Seis, mas era no Posto Quatro onde havia um time de futebol dirigido por Neném Prancha. No elenco dos praieiros, muitos peladeiros ligados ao Botafogo.

Heleno poderia ter ingressado logo no time de Neném Prancha, onde jogavam notórios botafoguenses, como João Saldanha, Sandro Moreyra e Sérgio Porto [mais tarde famoso pelo codinome Stanislaw Ponte Preta], mas era tímido, tinha vergonha de pedir para jogar. No começo, o próprio Prancha desconfiava se o garoto tinha tino para jogar bola. Receio que duraria até o menino mineiro mostrar o que fazia com uma simples laranja. Neném viu a pérola que estava sob os seus cuidados, como destaca Antônio Falcão: “Na fantasia, o folclórico Neném Prancha, misto de filósofo e técnico, punha-se atrás de um tabuleiro de laranjas como se fora vendedor no areal de Copacabana. E para cada garoto jogava uma fruta. Pela reação, separava o craque do cabeça-de-bagre. Heleno de Freitas, mineiro de 12 anos [na verdade, já tinha 13], amorteceu uma laranja na coxa, deixou-a cair no pé, fez embaixada, levou-a à cabeça, trouxe de volta ao pé, que deu ao controle do calcanhar. E Neném viu que descobrira o mais fino, inventivo e temperamental craque do País. Por isso, até a morte, Prancha levou na carteira de cédulas a foto desse que brilharia como ninguém no Botafogo de Futebol e Regatas — muito mais que o fulgor da gloriosa estrela solitária do alvinegro carioca”.

Mas quem disse que só viviam de praia? Todos os irmãos, inclusive Heleno, trabalhavam para ajudar a mãe no sustento da casa. Heleno dividia o tempo entre as peladas no time de Neném Prancha e a labuta na Hime e Cia., empresa que pertencia a botafoguenses ilustres, como Gilbert Hime, ídolo dos primórdios alvinegro.

TUDO COMEÇOU NA PRAIA

O seu destino era, no entanto, ser jogador de futebol. E tudo começa em 1935, quando realiza a sua primeira partida oficial pelo Botafogo, com apenas 15 anos, no time juvenil que derrotou o São Cristóvão por 3 a 2 em um jogo preliminar do time principal do Botafogo contra o Santos [9 a 2 para o Alvinegro... carioca!], no dia 3 de agosto, em General Severiano. Fora apresentado ao técnico Kanela pelo amigo João Saldanha. Naquele jogo contra o time paulista, atuara como half-esquerdo.

Mas o trabalho na Hime e os estudos no ginasial do colégio São Bento impediam uma dedicação integral ao esporte bretão. Em 1936, o Botafogo extinguiu o departamento juvenil do clube. Preguinho [grande ídolo tricolor] o convida para ingressar no juvenil do Fluminense, que na ocasião papava tudo no futebol do Rio. Lá, jogavam no time principal Tim [de quem se tornaria grande amigo], Brant, Russo, Hércules... um timaço. Só matava aula no São Bento em dias de jogos pelo Fluminense ou das peladas no Posto Seis. O menino Heleno despontou como half no juvenil Tricolor e o técnico uruguaio Carlomagno, apesar de ser fã do rapaz, não ouviu os conselhos do jogador argentino Santamaria para que escalasse Heleno como center-forward. Preguinho interveio e vaticinou “Esse menino tem pinta de atacante”. Ninguém melhor que Preguinho para opinar sobre o tema. Foi um dos melhores atacantes da história do futebol brasileiro.

Carlomagno, como escreveu Marcos Eduardo Neves, acatou a indicação de Santamaria e Preguinho. Heleno, porém, não gostou muito. Achava que estava sendo perseguido. Durante um treino, esbravejou diante de Carlomagno: “E aí, seu gringo, vamos parar logo com essa merda?”. Carlomagno não recuou e partiu para cima de Heleno, que ouviu um clarão do técnico. Em outro treino, situação semelhante, com Heleno agora descarregando sua fúria contra os companheiros. Carlomagno o advertiu. A resposta foi imediata: “Não fode, gringo!”. O inusitado aconteceu. Permaneceu no clube e o argentino decidiu seguir destino longe das Laranjeiras.

Apesar da saída do desafeto, não mudou a postura. Ondino Vieira aportou no clube e pediu calma ao jovem talentoso, mas Heleno foi se cansado do Fluminense e o Fluminense dele.

Apesar do apreço que nutriu na infância pelo Flamengo, como confirmou o amigo José Tollendal, Heleno sempre afirmou ser Botafogo “desde criancinha”. Mesmo jogando pelo Fluminense, com o qual conquistou o campeonato carioca juvenil de 1939, caso seguisse nas Laranjeiras, disputaria a liga profissional. Mas ao ser abordado em Copacabana por João Saldanha em outubro de 1939 decidiu ingressar no Botafogo, que participava da dissidência amadora do futebol carioca, como assinalou Marcos Eduardo Neves, o biógrafo do Heleno de Freitas.

Com a unificação do campeonato carioca em 1940, prevaleceu a paixão pelo Botafogo, que era o time de seus amigos de pelada e boemia, entre os quais João Saldanha por quem nutria uma grande amizade. Chegaria a defendê-lo, anos mais tarde, para que policiais não o levassem preso. Era madrugada e os dois estavam na esbórnia. Ambos dividiam o aluguel de um apartamento no bairro para o qual levavam mulheres. Sua vida estava entre General Severiano, a Faculdade de Direito, que cursava em Niterói e onde se formou em 1946, e Copacabana. A amizade com Saldanha ficaria estremecida em 1943 após brigarem feio durante uma pelada no Posto Seis. Heleno disse que Saldanha “era um merda” e apanhou do amigo. Passou a freqüentar a praia, mas nada de futebol na areia.

Desde 1937, apesar de vestir a camisa tricolor, o Botafogo já via em Heleno um provável substituto do ídolo Carvalho Leite, goleador do tetracampeonato estadual, de 1932 a 35. Nos contratos com o Alvinegro, constavam cláusulas pesadas, que exigiam o pagamento de multa em caso de indisciplina. Com mais dinheiro em caixa, o jogador começou a ostentar. Comprou um suntuoso automóvel Chrysler. Só ele e o famosíssimo Leônidas da Silva tinham um igual. Nas concentrações, gostava de um carteado. E apostava alto. Era um jogador incomum. Dentro de campo era craque. Já jogara uma barbaridade em uma partida, realizada em abril de 1940, contra o São Cristóvão, na qual substituiu Carvalho Leite e marcou dois gols. Estava pronto para ocupar a vaga do ídolo alvinegro.

“Vi-o jogar, tantas vezes, fosse pelo Botafogo, fosse pela seleção nacional. Foi o meu primeiro ídolo, no futebol, quando cheguei ao Rio, em 1944.”, confessou Armando Nogueira, que na mesma crônica, estendeu o fascínio que a figura de Heleno sempre exerceu nele e em outros milhares de torcedores: “Viveu em conflito com o universo do futebol, amado como um Deus, renegado como o demônio: era o espantalho dos árbitros, o gênio da bola, o desafeto das torcidas. Era, também, o galã irresistível das mocinhas de Copacabana que lhe namoravam a elegância, no traje, a rebeldia, o anel de doutor e a celebridade. [...] Heleno de Freitas realizava todas as virtudes de craque com um toque de beleza. Tinha, contudo, a psicose da perfeição: o erro do homem derrotava o artista — e Heleno perdia a cabeça, perdia a razão, perdia o jogo. Transtornado, acabava expulso. Fora de campo, era um cavalheiro, apesar de ter sido sempre marcado por uma sombra de narcisismo que é, por sinal, um dos grandes abismos do ídolo”.

Se foi mito a informação de que Heleno dormia abraçado a uma bola, não se pode dizer o mesmo de sua paixão pelo futebol. Isso não era lenda. Mesmo internado no sanatório jogava bola [de basquete] com as crianças de São João Nepomuceno. Volta e meia encontrava uma forma de escapar para disputar umas peladas. Não ia só. Dois enfermeiros ou os médicos que o tratavam acompanhavam-no.

Um dia, o Botafogo resolveu visitá-lo em 14 de outubro de 1956, para a inauguração do estádio Santa Teresa, o do Olimpic, de Barbacena. Geninho, grande craque do Cruzeiro e do Botafogo nos anos de 1940 e por quem Heleno tinha grande admiração, era o técnico provisório do Olimpic. O reencontro dos dois foi emocionante. Abraçaram-se e choraram copiosamente por alguns minutos, como relataram os repórteres Pedro Blank e Maurício Miranda.

Estiveram lá, entre outros, Nilton Santos, Didi e Garrincha. Heleno estava na arquibancada e viu a tudo sem poder fazer nada pelo Olimpic, que sofreu cinco gols. Xingou os companheiros e antes que a partida terminasse, deixou o estádio. Horas depois, recebeu os amigos botafoguenses em seu quarto na clínica e conversou com todos, exceto com o ex-ponta-esquerda Braguinha. Talvez porque os muitos passes errados na época de Botafogo ainda lhe vasculhavam a memória. Como o meticuloso Heleno brigava com o pobre Braguinha... e com o mundo.

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No período que fui repórter do Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro, tive o imenso prazer de ter como colega o monstro sagrado da imprensa carioca Carlos Rangel, o querido “Rangelão”, que, como denota o apelido, tratava-se de um camarada alto no tamanho e, evidentemente, na competência como repórter. “Rangelão”, infelizmente, não está mais entre nós e lamento profundamente nas várias vezes que conversamos, entre intermináveis doses de café no botequim em frente à redação, não termos abordado sobre a figura de Heleno de Freitas. Falávamos de política, economia e cultura, mas jamais sobre Heleno. Pena...

Carlos Rangel escreveu uma biografia sobre Heleno intitulada “O Homem que sonhou com a Copa do Mundo”. Livro que este jornalista incauto só leria muitos anos depois para escrever sobre Heleno para a enciclopédia “Ídolos-Dicionário dos craques”. Tanto os empenhos pioneiros de Carlos Rangel e, pouco antes dele, de João Máximo e Marcos de Castro foram fundamentais para que entendêssemos (ou começássemos, pelo menos) a incomum trajetória de Heleno. Mas foi a obra singular de Marcos Eduardo Neves, ao seguir o caminho da excelente investigação após um papo com Luiz Mendes, que revelou de vez quem foi Heleno de Freitas.

Fica a dica para quem ainda não leu “Nunca houve um homem como Heleno”: simplesmente leiam. Independentemente de gostarem ou não de futebol, a obra revela uma história dramática, da glória ao ocaso, que só poderia mesmo parar no cinema.

Heleno faria hoje, neste domingo, 98 anos. Poderia ter vivido um pouco mais. Morreu prematuramente, no dia 8 de novembro de 1959, vítima do impiedoso avanço da sífilis, que corroeu integralmente seu cérebro, deixando-o em um estágio indescritível de total insanidade.

ABAIXO, OS POUCOS REGISTROS DE HELENO EM VÍDEO:

GOL PELA SELEÇÃO CARIOCA (DÉCADA DE 1940)

https://www.youtube.com/watch?v=Vyt_fPue5sQ

HELENO NO BOCA JUNIORS
https://www.youtube.com/watch?v=Uz3NfPDY_9o
https://www.youtube.com/watch?v=LxP3wKpIiKI