FALSOS BRILHANTES

por Zé Roberto Padilha

Rodinei era lateral direito da Ponte Preta, de Campinas,  e foi destaque no ano passado no Paulistão. Certo dia passou por um comércio popular e se apaixonou por um relógio Rolex de 80 pratas. Coisas de jogador de futebol. Era grande e dourado, mas todos os jogadores lá no clube da Macaca saberiam que não era de verdade. Iriam zoar com a cara dele.

Rodinei em ação pela Ponte Preta

Rodinei em ação pela Ponte Preta

Precisava, então, se transferir para um time grande. Aí sim, com altos salários, quem duvidaria da procedência daquele adorno barato? E assim o fez. Comprou o relógio e veio jogar no Flamengo.

Com um futebol de verdade, e um relógio de mentira, chegou impressionando a todos. Muricy Ramalho, então treinador, gritava nos treinamentos: "Dá no neguinho que ele resolve!". E ele partia para cima da zaga do Resende, do Volta Redonda e da Cabofriense. Rodinei voava em campo e o relógio brilhava fora dele. Acabou se destacando também no estadual carioca.

Na primeira entrevista coletiva, porém, assustado diante de tantos repórteres, declarou: "Caramba, lá na Ponte não havia tantos jornalistas assim!". Já no Campeonato Brasileiro, apavorado com tanta gente presente ao embarque para enfrentar o Palmeiras, bateu na mesma tecla: "Até hoje não havia visto nada parecido com aquilo!" Quando soube, então, que o voo era fretado, declarou-se emocionado e deitou sobre uma fileira de poltronas como jamais imaginou um dia viajar.

Rodinei perdeu a posição para Pará no Flamengo

Rodinei perdeu a posição para Pará no Flamengo

Com o tempo, Rodinei descobriu que as praias da Cidade Maravilhosa, as noites da Lapa e o samba do Salgueiro não tinham também nada a ver com Campinas. E aí os papéis se inverteram perante tantos contrastes que surgiam e não soube lidar: era o torcedor do Flamengo, diante sua insegurança, que desconfiava. Não do seu relógio. Mas da autenticidade do seu futebol. Começou a chegar atrasado nas divididas, adiantado na marcação mesmo sem ter que parar os ponteiros já extintos do futebol. Quem o parou foi o Pará.

Moral da História: não são os relógios, as camisas Lacoste, os tênis Nike, nem o perfume Azarro que precisam provar que são de verdade para funcionar. E sim quem usa,  veste, perfuma e leva junto para o Rio de Janeiro, Campinas, qualquer lugar, a confiança num taco, ou uma bola, que tenha a grife da sua personalidade.