ALMA DE FRAQUE E CARTOLA

por Rubens Lemos

O homem antiquado é um observador sem teorias para explicar a si próprio. Sou um dos tais a nunca me imaginar velho, dando trabalho aos outros. Procuro não infortunar ninguém em mais um tempo invadindo como um intruso a minha vida. Escolhi viver como se fosse um passageiro do meu saudosismo. Quando a ele retorno, é para lembrar o que ele me guarda de bom.

Só sei fazer o que faço aqui, todos os dias, e mais algumas pequenas variações do jornalismo. Considero-me de alma sossegada por haver passado pelos dois lados da moeda, o ataque e a defesa, na máquina de moer gente que é uma assessoria de imprensa de órgão público. Não me arrependo por saber na pele que foi preciso, para aprender.

Antiquado, sou um conservador, mas não me vejo, num divertido exercício de banalidade, um homem de longas horas em basílicas ou arcadas gregas , ou de detrás de balcões de quinquilharias. Gosto dos sebos, de visitá-los. É a minha tecla de retroceder espiritual.

O que me sobra de antigo é meu e não abro mão. Gosto de papéis, filmes sem atrativos atuais, modelares para comparar o tempo do meu tempo com o tempo do tempo do meus filhos e dos seus amigos. Que eles não saibam, mas o meu tempo foi muito melhor.

Menos moderno, menos acessível à tecnologia, porém superior no quesito gente. Sempre gostei mais de gente do que de me mostrar com dinheiro e patrimônio e talvez não tenha me tornado um rico pela própria vocação de achar mais agradável um livro, um disco, um jogo de futebol ou um suspense instigante.

Sou obrigado a dizer, nesta demorada delonga, que os meninos atuais viram bem menos do que assisti e hoje falam com aspectos de certo modo arrogantes. O futebol é a minha base de analogia. Comparo-o a qualquer assunto e termino com razão. Na vida, como no futebol, quem prefere se defender ou se esconder, perde por omissão, medo ou covardia. Quem tem coragem de lutar, é como um time jogando no ataque, driblando para frente, alegrando a platéia.

Tenho dó dos meninos com direito à TV paga que não se assemelham aos pobres frequentadores de campos interioranos, calvos de grama, imensos de paixão. Os pequenos do mato, das agruras e do pão contado têm no futebol a alegria bem mais autêntica do que o discurso teórico de algumas décadas passadas, quando, entre queijos e vinhos, sem riscos de delação ou tortura, falsos profetas discursavam para ouvidos imbecilizados.

Recitavam Neruda, bebiam bons vinhos e sentenciavam: o povo brasileiro gosta de pão e circo. E olhavam para os interlocutores, todos embevecidos pela falta de opção melhor. A retórica dos catedráticos punha o circo como guarda-chuva de todas as culturas consideradas inúteis por eles, os sábios que, ao passar dos anos, se transformariam em sabidos, no sentido sem graça da esperteza.

O circo dos intelectuais de festa impunha o futebol como ópio das classes dominadas. Esse tipo de arrogante continua achando assim. Com todas as minhas limitações antiquadas, nada é mais cultural do que o futebol, na sua prática que envolve a dança, a literatura expressada por nomes menos pedantes: Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Heitor Cony, João Máximo, João Saldanha, Luís Fernando Veríssimo, José Lins do Rêgo.

O futebol é uma cultura primordial de massa. Os gurus que tomavam vinho e teorizavam o que outros sentiam na pele e na prática perderam seu manifesto verbal e pedante: O futebol acabou para os humildes.

Nos ingressos a preços absurdos, em clubes proibitivos e na substituição do amor dos torcedores de verdade, pela baba elástica e odienta dos mentecaptos que escolheram um time para destilar suas frustrações de placenta. Palavra de antiquado. De uma alma de fraque e cartola.