A TRILHA SONORA AINDA É NOSSA

texto: José Roberto Padilha | foto: Marcelo Tabach

Nossa dinastia esportiva está pagando um preço alto diante da tecnologia. Como levar meu neto para jogar bola, e dar seguimento a saga iniciada pelo seu avô, se o Playstation conseguiu organizar uma partida de futebol, com todos os requintes e emoção, sem que saíssem do quarto com ar condicionado? Quando eles, Eduardo e Felipe, decidiram qual seriam os seus presentes do Dia das Crianças (tamanha as suas personalidades e sabedoria, definem logo suas prioridades, deixando de ficar à mercê de um par de meias da titia, aquela cueca titular da vovó) já tomei um susto: PES 2016, da Playstation, a ultima geração do futebol padrão FIFA. Minha primeira reação seria vender o carro, mas minha filha acalmou-me dizendo que era apenas uma fita do sonho de consumo deles, já adquirido ano passado em 12 meses sem juros. Na véspera do dia das crianças, fui até lá entregar o presente e assistir a partida inicial com eles. Quem sabe poderia ajudar com alguma intervenção esportiva?

Em dois minutos instalaram o jogo, escolheram campeonatos ao redor do mundo e, entre milhares de equipes, o clássico escolhido foi Argentina x Alemanha. São os dois primeiros do ranking da FIFA e como poderia sugerir um Fla x Flu? Tal era a nitidez da imagem, a semelhança dos jogadores e a perfeição com que subtraíram gestos, características individuais de cada um, que já estava pronto a jogar a toalha. O que poderia contribuir uma velha raposa da bola se a Sony já criara em laboratórios o que levamos uma vida dento e foradas quatro linhas para conhecer?

Meio sem graça, saia de fininho pela porta carregando uma frustração esportiva acumulada, que nem um minuto foi por eles notada, reforçada pela minha total incapacidade de entender os fundamentos daquels manetes que dominavam como se fossem a extensão dos seus dedos, com botões que chutavam, o outro que dominava a bola e aquele maior que concluía em gol. De repente, uma luz no túnel acendeu naquele gramado digital quando foi iniciada a partida. “Está valendo!!”, gritou o narrador da partida. Parei diante da porta do quarto e retornei: seria mesmo a voz de Silvio Luis, um narrador esportivo da minha época? Foi aí que o chute da Argentina do Felipe acertou a trave da Alemanha do Eduardo e a telinha soltou a mais bela das sinfonias da bola: “No pau!!!” E repetiu: No pau!!!

Estava zero a zero e Silvio Luiz traduzia assim o placar: “Ninguém é de ninguém!!” Meus netos notaram então minha presença e, em silêncio, recorreram a ajuda de um Zé Tradutor por que o Google Tradutor não reconhecia esta gíria. De nada valeria. Era Cristiano Ronaldo plastificadoque preparava o chute, mas era “Espeta, meu filho” que ecoava conservando as nossas raízes. Quando acabou o jogo e o time do Edu perdeu, ele, cabisbaixo, perguntou: o que significava “a vaca ter ido pro brejo com badalo e tudo”!  Expliquei que era a tradução de uma derrota de mentirinha para uma narração de uma vitória de um jogo de verdade. Mal pode reclamar com o irmão por um gol em impedimento, porque a narração insistia em dizer que o Messi estava na banheira. Mas, o que seria estar um atacante na banheira?

Neste dia das crianças, colocaram dentro do meu presente todo o avanço digital do mundo, mas preservaram a voz que começou comigo num campo de terra batida. Deram um banho de loja virtual no futebol, mas deixaram-lhe o perfume da várzea. De lá para os estádios de futebol, foi traduzida uma linguagem única, peculiar que nem a Sony, ou o padrão FIFA, ousaram ocultar. Obrigado Silvio Luis, Waldir Amaral, Jorge Cury, Luciano do Valle, Januário de Oliveira, Mario Vianna, Osmar Santos e José Carlos Araújo, entre outros narradores brasileiros, por sua inimitável arte. E “Ripa na Chulipa”, “Pimba na Gorducinha”, que “Voltei!” para casa todo feliz “Nas águas da galera!”.