A QUEDA

:::: por Paulo Cezar Caju ::::

Morro de medo de avião. Trauma de infância. Aos 15 anos, já jogava futebol profissional na Colômbia, levado por meu pai, que treinava o União de Madalena de Santa Marta e, depois, Junior de Barraquilla. Volta e meia íamos para Medellín. O avião sempre tremia por ser uma região montanhosa e eu ria para disfarçar o medo. Ri algumas vezes, mas numa delas, em Manizales, o piloto mandou colocarmos o travesseiros entre as pernas e protegendo a cabeça. Rezei quando soube que o avião aterrissaria de barriga, mas ri quando deu tudo certo.

Tinha uma pureza que não me deixava enxergar o tamanho do perigo. Queria ver, agora, todos os jogadores da Chapecoense rindo do susto. Mas a maioria morreu e levou junto o sonho da conquista. Será que também serão considerados campeões? Os dirigentes da Sul Americana poderiam pensar nessa possibilidade.

Esse acidente me atingiu emocionalmente por alguns aspectos. Pela tragédia em si, óbvio, mas por já ter enfrentado vários riscos aéreos, como turbulências, pousos forçados e a aeronave arremetendo. Também por adorar Santa Catarina e, recentemente, ter trocado o Rio por Florianópolis: minha mulher Ana tem dois filhos que moram em Floripa, Felipe e Diogo.

Todos estávamos na torcida pela Chapecoense!!! E, claro, por Mário Sérgio. Tínhamos gênios parecidos e, apesar de amigos, também vivemos momentos de turbulência. Olha ela aí novamente! A primeira vez em que nos enfrentamos foi no salão, infantil, eu como ala direita do Flamengo e ele ala esquerda do Fluminense. Depois, nos aspirantes do Flamengo, foi campeão, com o meu irmão Fred. Joguei contra ele novamente, eu pelo Fla e ele no Vitória, no Maracanã, Brasileiro de 72, 1 x 0, gol meu de peixinho. O lateral direito do Vitória era o Valdir Espinosa. Depois jogamos juntos na primeira Máquina, em 75: Búfalo Gil, eu Rivellino, Manfrini e ele. Tá ruim?

Num jogo contra o Madureira, ele comeu a bola e o presidente Francisco Horta foi ao vestiário cumprimentá-lo. Esticou a mão com ele no banho. Mas Mário Sérgio era rebelde e puxou Horta, de terno e tudo, para baixo do chuveiro. Kkkkk!!!

Em 78, formamos o ataque do Botafogo: Búfalo Gil, eu, Nilson Dias, Dé e ele. Tá ruim? Em 83, fomos campeões mundiais pelo Grêmio e Valdir Espinosa, agora técnico, na fase de preparativos, foi esperto e nos colocou no mesmo quarto durante 12 dias. Ficamos próximos, apesar das diferenças e formas de pensar. Era um craque, rebelde, barbudo, cabeludo, irreverente. E quem não era naquela época? A rapaziada contestava mais, tinha atitude, opinião, e era normal um bater de frente com o outro.

Também vi Caio Júnior começar e se firmar como técnico. Era um meia-direita muito criativo e fez sucesso no Grêmio. Agora tinha chance de ser campeão na Chape, um time bem organizado administrativamente e com muitas ambições.

Dos times de Santa Catarina o Joinville é o time com mais dinheiro e caiu para a Série C. Ou seja, dinheiro não é tudo. A Chape, com menos, vinha avançando e conquistando o país. Torcemos para que continue avançando porque a vida não pode ser feita só de turbulências.