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Pelicanos Azuis

OS PELICANOS

por Sergio Pugliese

A rapaziada buscava uma luz no fim do túnel, uma benção divina. Conheceram-se no grupo jovem da Igreja do Santo Cristo dos Milagres, no Fonseca, em Niterói, e aprofundaram os laços de amizade num retiro em Maricá. Ali, durante uma caminhada, entre “pais nossos” e “ave marias”, tiveram uma visão celestial: um campinho de futebol!!! Dividiram-se irmamente, seis para cada lado, e lavaram a alma!!! O único problema — Deus perdoe esses cordeiros!!! — foi a secura por uma “estupidamente gelada” após a pelada.

— Beber num retiro não dava, né. Seria pagar pecado pelo resto da vida — brincou Bruno, um dos fundadores do time, em divertido encontro, no Itajubar, na Tijuca.

Depois dessa peladinha, a galera resolveu carregar Jesus no coração, sem a obrigatoriedade de frequentar as missas dominicais. Pelo nome do time, batizado no retiro de “Danados”, percebia-se que os anjinhos ainda necessitariam de um intensivão religioso. Mas eles só queriam compromisso com a bola. Para não ficar tão mal na fita com o Altíssimo, resolveram rebatizar o time. Na resenha, surgiu de tudo até que Moacir, mais “pra lá do que pra cá”, levantou-se, exibiu os cambitinhos, fez a posição do quatro e disparou: “Já sei!!!! Pelicanos!!!!”.


A cabeça da turma deu um nó. Pelicano tem pernas compridas e finas, matutou Gabriel Figueiredo, famoso pela lentidão no pensamento e, principalmente, nos campos. No jogo de mímica, chutariam garça, flamingo, nunca pelicano. Mas ficou Pelicanos. Pelicanos Azuis! O azul era para homenagear o inglês Chelsea e intimidar os adversários.

— O Pelicanos caiu bem porque éramos todos magrinhos, na época, em dezembro de 2004 — explicou Diogo Jambo, o Sandro Silva, alguns quilinhos a mais.

Hoje, corpinho pelicano, só Dedé, o torcedor que virou jogador numa emergência e nunca mais saiu do time. Não é fácil manter a medida certa com as resenhas fartas de churrasco e geladas em sequência. E as rodadas etílicas aumentaram consideravelmente, em 2006, quando iniciaram-se os amistosos e as inscrições para os torneios de Fut 7. A galera come a bola, mas tem uma atração especial pelos botecos. Perdendo ou ganhando, os “irmãos” passam horas e horas num deles jogando conversa fora e cantando os sambas incendiários de Jorginho Cara de Cavalo, o zagueiro que bate e depois canta.

— Queremos estar juntos, o resto é o resto — resumiu Renatinho Família Dez e Faixa.

Entenderam o apelido acima? Nem desenhando entendi, mas deve fazer algum sentido. Também não captei porque o Luquinha foi afastado por falta de massa muscular. Deixa pra lá! Mas integram o grupo Oirthon, Márcio Beckerman, que só chuta de trivela, Robinho, Thiago Zamorano, Tiago Guimarães, Matheus Careca, o goleiro peso-pesado Daniel Dogão, Thiago Falcão, Bruno, Moacir, João Canário “do A Praça é Nossa”, Gabriel “Burocrático” Figueiredo, Dedé, Anderson, Matheus Geléia, Michel Mezinho, Paulinho e João Gun, que imita todas as trapalhadas do zagueiro tricolor. Também tem o maior incentivador do time, Marcio Soares Figueiredo, pai de Gabriel e lenda nos campos de Santa Teresa.

— Ele nos incentiva a tomar mais uma — esculhambou Dentinho.


E tomam uma, duas três, dezenas!!! Figurinhas carimbadas do Candongueiro, reduto de samba niteroiense, celebram a vida e amizade a cada encontro. O clima é família, e as amadas também prestigiam as rodinhas. Dedé leva Daiane e Dentinho, Marcela. Bruno não desgruda de Juliana e Gun é um amor só com Carla. Renatinho Família Dez e Faixa, olha ele aí de novo!!!, derrete-se por Bruna Gatinha e Gabriel “Burocrático” Figueiredo festeja suas lentas atuações com a doce Gláucia. Oirthon preferiu omitir o nome da deusa que povoa os seus sonhos.

— Meu coração está em paz — declamou.

Os Pelicanos trocaram a missa dominical pela bola, é verdade, mas o espírito de paz vivido no retiro permanece embalando as resenhas. Os craques, hoje, só se benzem quando entram em campo, mas a cada vitória agradecem aos céus. Deus continua pertinho. Na verdade, eles não abandonaram a igreja, foram liberados pelo Senhor, receberam alta, afinal essa galera já nasceu abençoada.


Texto originalmente publicado no Jornal O Globo em 9 de julho de 2015.

FAMÍLIA PELICANO

por Sergio Pugliese

É praticamente impossível recusar os convites da galera do Pelicanos Azuis, de Niterói. A rapaziada é divertida por natureza e tem o espírito sintonizado com o que buscamos, do contrário não teria nos convocado para o evento “Onze anos sem títulos, onze anos de resenhas vitoriosas”. Em 2015, venceram apenas duas partidas, uma de WO e outra de um time “estranho”, que sequer lembram o nome. Mas os atletas não se abatem e as resenhas musicais estão cada vez mais concorridas. Participamos dessa última, em Guapimirim, na casa de Márcio e Nadir, pais do maestro do meio-campo, Gabriel Figueiredo, e comprovamos: os Pelicanos são show!!!!

– Quanto mais perdemos, mais nos unimos – resumiu o showman Diogo, o Sandro Silva, acompanhado da mulher, a estrela Mariana.

Nesse ponto, os Pelicanos também fazem a diferença: as esposas e namoradas não faltam nunca.

– Só perdemos, precisamos de carinho após os jogos – explicou o zagueiro Márcio Beckerman, braços dados com Thalita.

E é um tal de Gláucia “de” Gabriel, Júlia “de” Jorginho do Cavaco, Bruna “de” Renatinho Família, Walney “de” Lidiane. Teve até Sílvia “de” Pugliese. Em Niterói, eles gostam dessa forma carinhosa “de” tratamento. Mas e a Renatinha é “de” quem? Dizem que foi tentar a sorte, afinal tem muito “pelicano” solteiro na área. O pandeirista Oirthon é um desses, um eterno apaixonado em busca da amada. O amor faz milagres!!! Não acreditam? Basta olhar para o novo Dogão, de Kaká, algumas toneladas mais magro, modelo!!!!

– Resenha sem samba, cerveja e mulher não tem vez com os Pelicanos – atestou Paulinho, o Paulinóquio, de Marina.

E é verdade! Chegamos às 10h30 e o cantor Maycon, o cozinheiro Nico, o empresário Bruno, o roupeiro massagista Felipe “Menina”, o roqueiro, agora esbelto, Tiago Guima, e Teteuresminho, da cuíca, já estavam na piscina saboreando algumas geladas. Segundo Paulinóquio foram comprados 624 latões de cerveja. Seria verdade? Como acreditar em alguém com um apelido desses?  Os que ainda dormiam eram embalados pelo som de Reinaldo, o príncipe do pagode. A música tinha tudo a ver com uma rapaziada que não se abala com derrotas: “Samba, a gente não perde o prazer de cantar e fazem tudo para silenciar a batucada dos nossos tantãs”.  

– Não existe união igual a essa – garantiu Anderson, o camisa 10.1, acompanhado de Marcela.

E se alguém podia afirmar isso, era ele. Na noite anterior envolveu-se numa confusão de trânsito e acabou preso. Na delegacia, quase se engalfinhou com um policial, mas de repente lembrou-se da resenha no dia seguinte e virou um cordeirinho, desculpou-se, partiu para o abraço e só faltou distribuir flores aos envolvidos. Final feliz! Chegou Moacir!!!! Muita moral, afinal o “pelicano” mudou-se para São Paulo e veio exclusivamente para a resenha. Também teve festa para Gun, o pai do ano, e para Gláucia por ter acertado na Megasena ao conhecer o estiloso Gabriel, tatuagem gigante nas costas de um anjo com o rosto de Zico.

– Essa confraternização é a extensão da pelada – filosofou o capitão João Canário enquanto apontava para a piscina lotada de “pelicanos”.

Resenha pegando fogo, uma dúvida de Márcio, pai de Gabriel: por que o Pelicanos Azuis perde tanto? Tudo bem que o filho dele foi o principal responsável em algumas partidas, perdendo pênaltis, sonolento, mas melhor deixar quieto. Ou o excesso de churrasco e cerveja venha deixando os craques um pouquinho, quase nada, mais pesados. Só especulação. Mas nossa equipe consultou os orixás e eles chegaram a uma interessante conclusão. O símbolo do Pelicanos, que mais parece um flamingo, lembra o íbis, ave pernalta e de pescoço longo, que batiza o pior time do mundo. Outra curiosidade é que o íbis anuncia tragédias e é sempre a primeira ave a surgir após a tempestade passar. Ou seja, depois das goleadas já chega querendo uma gelada. 

– A verdade é que com nossa rapaziada não tem chororô – afirmou Jorginho do Cavaco.

Falou e disse!!! Na resenha dos “pelicanos” só quem chora é a cuíca, de preferência nas mãos do craque Teteuresminho, que ditou o ritmo enquanto a galera fazia o coro e entoava “a amizade, nem mesmo a força do tempo irá destruir, somos verdade, nem mesmo este samba de amor pode nos resumir….”.