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Pelada

VELHOS BOLEIROS E BOLEIROS VELHOS

por Maurílio Paixão


Chegam aos poucos por volta das 18h. Trabalho, rotina doméstica e problemas de saúde vão desparecendo a caminho do clube e somem ao se deparar com o campinho não mais de terra batida e sim de grama sintética. 

Profissionais liberais, empregados, empresários, aposentados, desempregados e demais “coroas” acima de 45 anos se juntam para a prática da melhor das terapias… O rachão semanal.

Vestir o calção, enfaixar os pés, passar aquela pomadinha milagrosa que tira as dores do tempo, usar a camisa sagrada de seu clube. Chutar e gritar gol como se fosse o ídolo que tanto sonhou ser.

Quando a bola rola, a idade diminui e a experiência aumenta; conhece o atalho do campo, corta caminho e antecipa a marcação, tem o drible irresistível e o toque requintado.

Porém, quando o lançamento é longo e o campo curto; o velho boleiro, de joelheira gasta, da artrose perene, da barriga objetiva, reclama do último toque do beque, da bola que não saiu e do juiz que pra variar não apitou a falta sofrida.

A felicidade é tamanha que por um momento é um menino, gritando, rindo, reclamando. Por um instante, ouve a mãe chamar para o almoço, para o banho da tarde, pra tarefa escolar e é feliz porque o dia seguinte vai ter bola de novo, campinho, companheiros… Saudade boa, saudade sadia.

Convoco os velhos boleiros que penduraram as chuteiras que retornem aos gramados e voltem a ser por 20 minutos boleiros velhos, pois, muito do que os incomoda, será pouco diante do que esperarão da vida após o apito final.

 

O MELHOR CAMPINHO DA CIDADE

por Ricardo Dias


(Foto: Custodio Coimbra)

A empreiteira rebaixou e aplainou o terreno. Uns 3 metros de baixo, tamanho justo para assentar as fundações. A obra demorou para sair, os operários já tinham aproveitado o terreno à volta para fazer uns barraquinhos, economizar na passagem é importante. Chegou o Natal, nada de obra, resolveram aproveitar a visita da família e jogar uma peladinha no terreno. Organizar não foi tão simples. Sem Camisa X Com Camisa, impensável; ninguém tinha camisa para gastar numa pelada. Com Calça X Sem Calça? Não dava. Índio – que era índio mesmo – resolveu tecer um pedaço de capim e fazer uma pequena braçadeira, e resolvido: um time com, outro sem braçadeira de capim. Então um time se chamou Capim, para efeitos de torcida, e o outro Careca, por conta do jogador incumbido do par ou ímpar para escolher os times. Um Natal feliz, regado a cerveja barata e churrasquinho.

Passou um ano, a comunidade cresceu e se fixou. A empreiteira meio faliu, obra parada, e o campinho – já apelidado de Buracão – seguia firme e forte como o melhor lazer das redondezas. As visitas voltaram, e refizeram o grande clássico natalino. Capim se recuperou e venceu o Careca, numa sensacional virada.

A cada ano a festa se repetia. A obra esquecida, enredada em diversas questões judiciais, e o campinho já tinha um esboço de arquibancada, escavada à volta do terreno. De vez em quando um despencava dali, mas era uma queda pequena, nada grave. Balizas de PVC recheadas com cimento, rede tecida pelo Índio, que sabia fazer essas coisas, e vinha gente de longe ver e participar das peladas. Mas o grande momento era no Natal, Capim X Careca. Basicamente os mesmos times, uma ou outra ausência, já com camisas compradas (na verdade doadas pelo dono do bar que abriu ao lado), vinha gente de longe ver o jogo. A partir de determinada época até juiz havia devidamente xingado ao entrar em campo.

No ano em que começaram a aparecer os vendedores de biscoito e refrigerante, o Careca morreu. Todos usaram um paninho preto no braço, fizeram um minuto de silêncio, a torcida respeitou. Na parede do bar um retrato dele foi entronizado. Um ex-jogador criou um projeto social que reunia todas as crianças das redondezas, algumas foram aproveitadas em times da capital. A comunidade crescia, e a frequência no Buracão crescia junto. A especulação imobiliária ia destruindo os campinhos da cidade, aquele era um dos últimos. Um clube pagou pela iluminação do local. Fraca, mas suficiente para a pelada de Natal ser feita de noitinha. Começou com dia claro, e quando escureceu todos pularam e gritaram quando as luzes se acenderam, como se fosse um belo gol. A vistosa camisa verde do capim fazia um lindo contraste com o vermelho vivo do Careca. Foi um Natal inesquecível.

O ano seguiu tranquilo, havia boatos que uma estação de TV iria fazer em dezembro, no mês seguinte, uma reportagem sobre a história do último campinho da cidade.

Mas a empreiteira, após muitos anos, se recuperou judicialmente. Retomou o direito sobre o local e, sem aviso prévio, cercou o Buracão. Derrubou tudo em tempo recorde, cercou e espalhou cartazes sobre o novo empreendimento, que traria classe e sofisticação ao local.

Não houve mais O jogo, nem nenhum outro. Os moradores passaram seu último Natal sob a árvore brilhante da empreiteira, que convidava todos para serem felizes num condomínio seguro, com piscina e quadra de tênis.

TOCA A BOLA AÍ, CARA

por André Felipe de Lima


A pelada está entranhada até o último fio de cabelo da gente. Nem precisa gostar muito de futebol. Todos — sem distinção — já disputaram uma pelada na vida. Uma que seja. No colégio, defronte a casa dos pais, na pracinha do bairro, no quintal dos avós, enfim, pelo menos uma vez na tosca vida de todos nós jogamos uma pelada.

Nem precisamos ser craques de verdade, embora frisássemos sempre sermos “craques de verdade”. Quem quisesse acreditar, que acreditasse. Isso nunca importa para um peladeiro juvenil, que já crescido continuará sempre contando vantagem. Mas sem isso não há alma de peladeiro. O peladeiro é melhor que qualquer outro ser da terra. Nada o supera. Jamais o superará. Em qualquer lugar da vida em que esteja, o peladeiro faz da fantasiosa e criativa memória seu impoluto campo de futebol. Imaculado. Dribla para lá, para cá; dá uma bicicleta; voleio. Cabeçadas e tiros certeiros. Dribles? “Ora, é o que de melhor sei fazer”, responde o “craque de verdade”. Ninguém ousaria bater melhor na bola que ele.

No pensamento? Perpassam somente suas jogadas. “As do quintal dos avós foram as melhores”, costuma dizer. Mas há hora que impeça a santa pelada? Não. Não há.

Mesmo no turbulento e violento centro da cidade do Rio de Janeiro há um “Maracanã” lindo, em um largo em meio a camelôs e gente apressada, estressada e infeliz. Mas quem disse que peladeiro é apressado e infeliz? Ele para ali. Sim, naquele “Maracanã” lindo, idealizado e florido por um monte de peladeiros e torcedores genuínos, iguaizinhos os da geral de antigamente do nosso Maracanã. Pobre Maracanã perdido no tempo.

O almoço pode esperar. O patrão também. E bola lá, bola cá. Alguns ansiosos na “arquibancada”, fazendo a “de fora”, loucos para entrar naquela “grama” cinzenta. A hora chegará, peladeiro… pode esperar, porque, afinal, a pelada é eterna e o relógio, para os meninos e meninas peladeiros, não tem ponteiro. Nunca teve. Toca a bola aí, cara!

A INCRÍVEL HISTÓRIA DE ZÉ ROSCA

por Jonas Santana Filho


Ninguém no bairro sabia seu nome. Todo o mundo só conhecia por Zé Rosca. Diferentemente do nome, o apelido descrevia exatamente uma característica do então recém-chegado naquele lugar. 

Nas peladas ou onde houvesse uma bola e dois ou três correndo lá estava ele. Zé Rosca não perdia uma oportunidade de esbanjar seu talento no chute de três dedos com a parte externa do pé, conhecido como “trivela, três dedos ou de rosca”. Daí a origem de seu apelido. Não exista bola que resistisse ao pé de Zé Rosca. Ele poderia não ter o dom do drible, mas metia uma “rosca” na bola como ninguém.

Embora os amigos do futebol vivessem pedindo para ele jogar “normal”, eram olimpicamente ignorados quando o assunto se referia a “redonda”. Não tinha jeito. E Zé Rosca cresceu ali no bairro e foi conquistando a galera até conseguir uma vaga no meio-campo do time da Rua B. 

Nas peladas de fim de semana, quando se enfrentavam os times da Rua A contra a rua B (onde Zé Rosca morava) ele mostrava sua arte. Bola no pé de Zé Rosca era certeza, tanto para a galera quanto para os companheiros de time, que ali viria um “três dedos”, muitas vezes salvador, fulminante, muitas vezes matador. Sim, quando acertava era uma maravilha aqueles lançamentos longos que Vevé (Everaldo era seu nome) dominava e partia para cima do marcador, que geralmente era Zé Luís (mais conhecido como Todo Duro), um zagueiro que batia mais que dona Zefa no bife de segunda. Quando Vevé, Lila, ou Pedro Preto pegavam na pelota, geralmente recolhendo um lançamento de “rosca” era quase impossível o adversário não levar o gol. Também quando errava a torcida não poupava o camisa 8 (sim, ele jogava com a oito) de elogios, capaz de enrubescer até os caras do stand up comedy de hoje.

A galera gostava e a rua B era a sensação do conjunto residencial, naquele campo de grama cuidada naturalmente pelo tempo, fincado bem na última rua da COHAB, onde a diversão do domingo de manhã depois da missa era assistir a jogos da Rua A Contra B ou contra C.E quando tinha torneio era sopa de letrinhas. Para a grande maioria dos proletários do lugar ali era diversão, possivelmente a única. E o campo lotava e Zé Rosca se empolgava. Quando acertava um drible então, com a elegância e altivez de Nilton Santos ele erguia a cabeça e a la Gerson soltava a trivela (não tinha jeito ele era o cara da “rosca”). E tome Vevé a correr e dominar  o capotão. E tome Zé Rosca a exibir sua especialidade. 

E foi numa dessas manhãs, em que o sol já está a pino que o fato inusitado aconteceu: jogo contra a rua Z, finaldo Torneio Seu Maneca, o patrocinador e nome da bodega do local. Enquanto Vevé, Todo-Duro (já estava jogando com a rua B, pois havia casado com a filha de seu Gumercindo, o polícia), Lila e todo o time suavam para garantir o empate, Zé Rosca estava inspirado. Bola prá lá, bola prá cá, a rua B na final e a bola cai na área. Lila domina e toma um tranco de Orlando Touro (o nome já diz) que nem de VAR o juiz precisou: Pênalti claro. Quem vai bater? Todo o estádio se levanta gritando o nome de Zé Rosca. E ele pega a bola e coloca na marca fatal, o juiz apita e o chute sai assoviando, até chegar nas mãos de Quiabo, o goleiro comprido e magrelo, mas muito efetivo até ali. Bola encaixada, decepção total.

Toda a torcida começa a vaiar o batedor, a vitória garantiria o troféu, uma caixa de cerveja e mil reais para otime campeão. Nessa altura todo o time já estava em cima de Zé Rosca, afinal o relógio marcava quarenta e cinco do segundo tempo e seria provavelmente o último lance.  E Zé Rosca tranquilo enquanto os apupos e xingamentos atingia até sua oitava geração, principalmente de Todo –Duro, que a todo custo tentava dar uns empurrões no craque.

O empate daria o troféu para o time da rua Z que tinha em Progoló o seu melhor jogador e que tinha sido até “profissional do juvenil” do clube da cidade.  E eles já comemoravam. Enquanto isso Zé Rosca demonstrava uma tranquilidade inexplicável diante de tão contundente complexo fato.

Ânimos acalmados, Quiabo vai repor a bola para recomeçar o jogo. (Vale dizer que o juiz nunca tivera tanto desejo de terminar assim que a bola rolasse).   Assim o goleiro coloca a bola dentro da pequena área para alçar o petardo quando, de repente, a bola começa a assoviar de novo e entra. Incontinente o juiz dá gol da rua B e aponta o centro do campo. O dantes xingado é carregado nos braços, todos gritando “É campeão”, jogadores se abraçando, alguns chorando, outros ajoelhados, emoção à toda.

Zé Rosca caprichou no chute. E deu um chute de rosca, como sempre fazia. Mas fez com tanta perfeição que deu a “rosca” interna e quando o goleiro foi recolocar a bola em jogo esta deu seguimento a sua trajetória. E viva Zé Rosca. 

Depois daquele título Zé Rosca ainda tentou, mas futebol não era sua prioridade. Soube por esses dias que ele estava num interior, onde tem uma padaria.   

 

Jonas Santana Filho, gestor esportivo, escritor, funcionário público. Apaixonado e estudioso do futebol.  

Jonassan40@gmail.com, Skype – jonassan50

 

A FOME ALIMENTADA PELOS PÉS

por Marcos Vinicius Cabral


Sem chuteiras, meiões arriados, massageando as coxas, acariciando os joelhos com as pontas dos dedos e sentado no banco de reservas, Sandrinho ia municiando com cadarços suas “armas” de fazer gol.

Matador como poucos na cidade com mais de um milhão de habitantes, ele não via a hora de entrar naquela partida.

Era o primeiro – dos dois jogos – que decidiria o 13° Campeonato Comunitário do Gradim de 2003.

A todo instante o camisa 9 olhava para o treinador Wallace e seu auxiliar Wellington, que à beira do campo davam instruções para seus jogadores.

Os pobres Tiago Pedalada e Waguinho, atacantes titulares naqueles 90 minutos, carregavam dentro de si uma tristeza que só uma vitória com V maiúsculo amenizaria.

Ambos sabiam da importância do reserva e viam em seus olhos, a tristeza e preocupação com seu joelho direito, vítima de LCA (ligamento cruzado anterior) e o esquerdo com tendinite aguda.

Porém, sua vontade de vencer a contusão era tão grande que contagiou a todos e de maneira poucas vezes vista em um time de várzea.

Todos, sem exceção, estavam “eletrocutados” a 220 volts!

– Tiago, marque a saída de bola deles garoto -, berrava Rogério – um dos membros do staff ao lado do roupeiro Fladilson e do massagista Ratinho – com a veia do pescoço sobressaltada e no peito a medalha de São Jorge banhada de suor pela adrenalina daquele 07 de dezembro de 2003.


Naquele domingo, no campo do extinto Gradim Futebol Clube – um dos primeiros clubes a se filiar à Liga Gonçalense de Desportos (LGD), em 1931, com a ajuda do saudoso prefeito Joaquim Lavoura (1913-1975) – Sandrinho, o atacante que exalava gols, não atuaria.

Coisa rara para quem nunca havia sentado à bunda num banco de reservas desde 1989, quando aos 15 anos começou a jogar futebol como goleiro de futsal no Colégio Municipal Presidente Castelo Branco, no Boaçu.

Ironias do destino à parte, de tanto ver César – outro grande centroavante dos gramados goncalenses – estufar as redes, tomou gosto pela coisa e decidiu fazer gols e não mais evitá-los.

E no ano seguinte, Alexandro Paiva de Oliveira trocaria em definitivo a camisa 1 pela 9.

Em 1992, pelo Coroensinho, sagraria-se campeão e artilheiro no extinto campo do Aterro – hoje sede da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), que fica às margens da Rodovia Governador Mário Covas, 101, KM 312, no Boa Vista, em São Gonçalo – contra o Biquinha.

– O time do Biquinha tinha vários jogadores que eu adorava ver jogar. Mas um dos maiores prazeres que o futebol me proporcionou, foi jogar contra e a favor de Paulo Rubens – disse ao Museu da Pelada.

E completa: – O que o Ronaldinho Gaúcho fez e o Neymar faz agora, ele (Paulo Rubens), já fazia naquela época.

Porém, preservado para os outros 90 minutos que decidiriam o título, o artilheiro tratava dos joelhos, que castigados por marcadores implacáveis, careciam de cuidados.

E foi dona Terezinha, que preparou o filho, considerado o pesadelo dos zagueiros, na semana que antecedeu à decisão.

Com o sucesso do tratamento e com o psicológico refeito nas conversas com Patrícia, sua noiva na época, o otimismo era inevitável: com ele em campo, as chances do Jovem Fla ser campeão aumentavam e muito.

– É nossa primeira vez nesse campeonato e no empenho demostrado pelos jogadores conseguimos superar os adversários e chegar até aqui – disse o confiante treinador Wallace à época para O São Gonçalo.


E não era para menos, pois em nove jogos, venceu seis, empatou dois e perdeu um.

Com uma campanha irrepreensível, a equipe formada por jogadores do Boa Vista, Boaçu e Rosane, bairros coimãos em São Gonçalo, chegara àquela final com méritos.

No primeiro jogo, um 0 a 0 insosso, muito estudado, tipo uma partida de xadrez, em que as equipes se respeitaram muito com medo de um Xeque Mate – jogada que representa o final da partida.

O JFFC teria que vencer o bom time do Santa Fé, que com Bigú, Julião e Jorginho, jogadores qualificados pelos títulos conquistados nos quatro cantos da cidade, era franco favorito.

Na segunda partida, ocorrida no dia 14 de dezembro de 2003, o campo parecia um formigueiro de gente.

Torcedores soltando fogos, balões com os escudos das equipes no céu, imprensa local fazendo a cobertura… enfim, cenário perfeito para uma manhã inesquecível.

Jogadores chegam em seus carros, alguns vem a pé, uns com fisionomia fechada e outros sorrindo tentando disfarçar o “frio na barriga”.

Os nervos estavam à flor da pele.

Os jogadores vão entrando um a um e Sandrinho é o último a passar pela porta antes dela ser fechada.

Entre caneleiras, tornozeleiras, bolsa térmica com gazes, esparadrapos, algodão, merthiolate, gelo, água, e muita vitamina C das laranjas que eram chupadas pelos jogadores, havia naqueles 22 atletas, o desejo de fazer história.

No vestiário número 2, a tradicional corrente, palavras incentivadoras, escalação anunciada, um Pai Nosso orado a plenos pulmões e o tradicional grito de guerra: – Sososososo… sou Jovem Fla!”, repetido três vezes que extravassou em coro uníssono tão alto e estridente impressionando os jogadores adversário no vestiário número 1 ao lado.

Medo e respeito eram sinais notórios dos que enfrentavam o Jovem Fla.

O trio de arbitragem, comandado por Edílson Soares dos Santos – sósia de Michael Jackson como é conhecido e com a bagagem de ter arbitrado quatro finais dos Campeonatos Cariocas de 2002, 2003, 2004 e 2005 – entra no campo com o semblante fechado.


Em meio ao clima proporcionado pelo jogo, Sandrinho caminha olhando para o nada – entenda-se chão – em passos lentos, pois o banco é o seu destino mais uma vez.

No meio-campo, Ricardo e Julião, capitães de suas equipes, trocam olhares espúrios e um aperto de mãos pouco amigável no cara e coroa.

A guerra, ou melhor, o jogo, vai começar!

Apito soprado e dá-se início a grande final.

E logo nos minutos iniciais, o jogo se desenha numa equipe que precisa vencer para conquistar o tão sonhado título e outra que joga com o regulamento debaixo dos braços.

O nervosismo começa a ser o maior adversário, já que a cada volta do ponteiro do relógio, a pressão aumenta.

– Ivo, seu filho da puta, é sério porra! – esbravejava Wallace, com um copo de cerveja numa das mãos enquanto a outra esfregava a cabeça tamanha preocupação com o preciosismo do camisa 4.

E como diz o ditado no futebol, “quem não faz leva” e num contra-ataque, Bigú abre o placar para o Santa Fé.

Desespero de todos e serenidade no camisa 9 rubro-negro.

– Vamos lá matador, chegou a hora -, diz Wellington, mandado Sandrinho para o aquecimento.

Com o placar desfavorável, o treinador do Jovem Fla faz duas mexidas ousadas: saca os cabeças de área Ricardo e Alex, colocando o meia ofensivo Gaiato e Sandrinho.

O jogo incendeia.

As melhores oportunidades vêm dos pés de Sandrinho mas é com a cabeça que o temido atacante empata a partida.

– Eu me lembro que foi uma cabeçada indefensável após um belo cruzamento de Pablo -, diz o matador.

Com o 1 a 1, o empate daria o título para o Santa Fé.

Mas nos acréscimos, Sandrinho recebe belo passe de Juninho e após passar pelo marcador é calçado por trás dentro da área.

Todos viram, menos Michael Jackson, que assinalou falta e não a penalidade máxima.

Em seguida, a falta é cobrada por Rivaldo e passa tirando tinta do travessão.

O jogo termina e o Santa Fé é campeão pelo critério de saldo de gols.

Enquanto os campeões comemoram, os jogadores do Jovem Fla caminham cabisbsixos para o vestiário.

O sentimento é de dever cumprido numa competição tão acirrada como foi e é até hoje o Campeonato Comunitário do Gradim.

E para Sandrinho – mesmo tendo feito aquilo que todos esperavam dele -, fica a frustação pela não conquista do tão desejado título, de quem foi um dos maiores goleadores que São Gonçalo já conheceu.

– Um erro do juiz mudou a nossa história e nos custou o título. Principalmente para Sandrinho, que merecia sorte melhor e fez um esforço sobrenatural para jogar aquela final -, disse o meio-campista Marcos, camisa 8 e companheiro de time.

Passados dezesseis anos, a vida seguiu seu curso: Sandrinho desbravou outras zagas e foi artilheiro por onde pisou a planta dos seus pés enquanto o Jovem Fla viveu até 2006.

Hoje, ambos jazem nos corações dos que viram um dos maiores times de várzea ganhar tantos troféus (trinta e oito ao todo) e tendo seu imortal camisa 9 como protagonista em muitos deles.

Doces lembranças de quem fez história nesta cidade de 128 anos.

Felizes foram os que viram Sandrinho dentro das quatro linhas, um jogador com sede de vitórias e fome de gols.