ENTRE O AMOR E O ÓDIO, BARBOSA FOI UM GIGANTE. UM ÍDOLO!

A despeito do Maracanazo na Copa de 50, Barbosa, que faria anos hoje, foi um goleiro seguro, um grande defensor de pênaltis, como aquele da final do primeiro Campeonato Sul-Americano de clubes campeões, em 1948, no Chile, contra o River Plate, que consagrou o Vasco como o primeiro campeão continental da história. “Ele aumentou nosso moral e demoliu o dos argentinos”, recordou o amigo e artilheiro Ademir de Menezes. A biografia abaixo integra a enciclopédia “Ídolos – Dicionário dos craques do futebol brasileiro, de 1900 aos nossos dias”, que um dia (quem sabe...) pretendemos lançá-la. Boa leitura!

por André Felipe de Lima

Jogadores uruguaios e brasileiros perfilados ouvem os hinos de seus países. No mastro, hasteadas as bandeiras nacionais. A do Brasil, de cabeça para baixo. Somente uma pessoa, em meio a 200 mil pessoas que lotavam o estádio do Maracanã, reparou o descaso com o pavilhão verde e amarelo. Era Barbosa. O grande goleiro da Seleção. Foi ali, naquele instante, que ele pressentiu o pior.

O jogo começa mordido. O Brasil tem a vantagem do empate. Friaça marca aos 47 minutos da primeira etapa. Tudo indicava o que era óbvio à miopia brasileira. Seríamos campeões. No segundo tempo, Schiaffino, o meia deles, de família abastada e que esnobava os companheiros fora dos gramados, empatou para a Celeste Olímpica. O título ainda estava conosco. Era o que imaginávamos até Bigode e Juvenal falharem na marcação.

O ponta-direita uruguaio Alcides Ghiggia avança na área do Brasil e chuta a bola em diagonal, que passa entre a trave e o goleiro Barbosa. Gol do Uruguai. Fim de um sonho que se transformou no maior pesadelo das vidas de 22 jogadores e de um técnico, Flávio Costa [1906–1999]. Um dia, 16 de julho de 1950, que nunca será apagado do inconsciente da Nação Brasileira: a perda da Copa do Mundo, dentro de casa, no Estádio do Maracanã. E o goleiro Barbosa foi, por muitos anos, injustamente acusado de responsável pela maior tragédia da história do futebol no País. Afinal, o arqueiro vascaíno é considerado, de forma indelével, um dos maiores jogadores de todos os tempos que surgiram nestas paragens. Mesmo assim, sempre foi lembrado pela maldição daquele 2 a 1 da Celeste sobre o Brasil. Mas há quem o defenda com o ardor de um advogado diante das causas mais complexas de um tribunal. “E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera”, assim escreveu o cronista Armando Nogueira [1927–2010] a respeito da euforia exacerbada que tomou conta da Seleção e da imprensa e, sobretudo, de Barbosa, o maior goleiro que o Vasco da Gama já teve em sua história e um dos maiores que já vestiram a camisa número um da Seleção Brasileira. O arqueiro, entretanto, nunca se absolveu diante do tribunal da torcida verde-amarela: “Quando um homem cumpre 30 anos de prisão, sai livre. Eu, quase 50 anos depois, ainda pago a minha pena”. Um fantasma que o assombrou para o resto da vida, como o próprio Barbosa descreveu ao jornalista Roberto Muylaert [autor de “Barbosa – um gol silencia o Brasil”] – que, então com apenas 15 anos, esteva no Maracanã entre os cerca de 200 mil espectadores, naquela tarde deplorável. O cálculo do goleiro sobre a jogada de Ghiggia foi rápido, mas errado.

“Quando eles fizeram 2 a 1... aquele silêncio pesou... o Ghiggia avançou, vislumbrei o centro da área e ali havia três carrascos babando, à espera da bola... o Bigode vem atrás do Ghiggia, Juvenal tenta fazer a cobertura, indo ao encontro de Ghiggia. Mas na entrada da área só têm eles, ninguém da defesa, se ele centra não tem como pegar, é gol na certa. Fico esperando Ghiggia centrar, dou um passo à frente, porque com certeza ele vai fazer a mesma jogada do primeiro gol. Ele sente que estou fora, embora viesse de cabeça baixa como um touro miúra, mete o peito do pé na bola e eu ainda toco nela, crente e que foi para escanteio, afinal foi um chute mascado, bateu no gramado, subiu e desceu. Nesse átimo de segundo, dou um passo lateral e salto para a esquerda com todo o impulso... Quando senti o estádio em silêncio total, tomei coragem, olhei para trás e vi a bola de couro marrom lá dentro.”

Houve quem o absolvesse depois daquele match: Máspoli, o goleiro do Uruguai: “... o goleiro Máspoli também me defendeu, disse que eu levei o gol Ghiggia porque conheço futebol demais, por isso me coloquei na posição melhor para a jogada mais provável, que não saiu, sabem que eu poderia ter visto que o ângulo em que o Ghiggia veio no segundo gol era bem mais fechado que o do primeiro, embora todo mundo diga que as duas jogadas foram iguaizinhas, não foram não, o Nélson Rodrigues também inventou, criou a história do frango eterno do Barbosa”.

PERTUBADORA POLITICAGEM

A manhã na concentração da Seleção, no estádio de São Januário, já dava sinais de que algo estava errado. Barbosa acordou às 8h e, enquanto tomava café, assustara-se com a infinidade de ônibus em volta do estádio do Vasco da Gama, com faixas cujos dizerem era um só: “Viva os campeões mundiais”. Incomodado com todo aquele prematuro alvoroço, voltou para o quarto e pensou no que viria pela frente, contra o Uruguai. “Comecei a pensar em tudo. Por exemplo: por que a troca de concentração, já que estávamos muito bem instalados na Casa das Pedras, no Joá, onde ninguém nos perturbava? Ficamos 40 dias no Joá e, na véspera da decisão contra o Uruguai, resolveram nos levar para São Januário, onde os políticos em campanha presidencial podiam circular mais facilmente [...]. Foi uma loucura tudo aquilo”.

Antes do jogo, Barbosa queria fazer uma pequena refeição na concentração, mas o assédio de cartolas, políticos e jornalistas no vestiário o impediram. “Lembro que comi apenas um pouco de salada e um pedaço de bife, já que os políticos entre eles o Ademar de Barros e o Cristiano Machado, nos interromperam para fazer discursos”.

Flávio Costa queria privacidade e, sendo assim, rumou ao Maracanã antes da hora prevista. Não era o dia da Seleção e tampouco de Barbosa. No caminho ao estádio, o ônibus que conduzia a delegação brasileira enguiçou. Todos desceram para empurrá-lo.

De que valeu, contudo, o título de melhor goleiro da Copa do Mundo de 1950? Antes, fosse o pior; e o Brasil, campeão. Seu fardo seria mais leve. Infinitamente mais leve. Sofreu preconceitos de todos os matizes. Era negro. Racismo que somente um bravo como Barbosa suportaria.

Meses após a final da Copa. Barbosa foi acusado de comunista por ter assinado um manifesto do Partido Comunista Brasileiro, na época, ilegal perante o Governo Federal. Chegou a depor no Departamento de Ordem Política e Social [DOPS]. Logo Barbosa, o goleiro favorito de Getúlio Vargas. “Apareceu na concentração [da Seleção de 1950] do Joá um grupo de rapazes e moças com um abaixo-assinado que deveríamos assinar porque era a favor da paz, pelo bem da coletividade. Assinamos o documento. E sabe o que era? Um manifesto comunista! Quatro ou cinco meses depois da Copa, fomos chamados ao DOPS: tínhamos de dizer se éramos comunistas ou não. A que ponto chegamos! Nós entramos nessa sem saber; assim como entramos na propaganda de candidatos nem sei por quê”.

Fim de jogo, Barbosa cumprimentou os vencedores, deixou o estádio e seguiu para São Januário, onde foi recebido pela esposa Clotilde, em prantos. Estava faminto. Não conseguiu comer na concentração horas antes do jogo. “Tudo estava deserto. Não tinha ninguém na rua [...]; não chorei, mas senti [...], eu senti, mas não extravasei. Tive que conter minha mulher e meu compadre, porque os dois é que choravam muito”.

No estádio do Vasco da Gama, em seu carro De Soto Luxo, sua esposa e o compadre seguiram para Ramos, onde Barbosa morava. Deixaram o veículo na casa do goleiro e seguiram para uma praça próxima, na qual o aguardaria uma grande boca-livre que preparara com a ajuda dos vizinhos. Quando chegou ao local, não havia ninguém, apenas cadeiras, mesas e a comida. Um cachorro era o único a espreitá-lo.

Na manhã seguinte, a comida da festa que não houve ainda estava lá, em cima das mesas, quando o dono dos pratos foi recolhê-los. A comida foi para o lixo sob um pesaroso olhar de Barbosa, que se virou para Clotilde e pediu: “Se veste que nós vamos sair”. Ela ainda tentou alertá-lo: “Você ficou maluco, Barbosa?”. O marido insistiu: “Você não disse que queria um faqueiro?”.

Entraram no carro e foram ao Largo da Carioca. Barbosa estacionou o veículo e seguiram a pé à Praça Tiradentes, onde ficava a loja. Bastou Barbosa entrar, que o estabelecimento ficou apinhado. Ninguém o abordou. Era um silêncio sepulcral. Ao saírem da loja, decidiram espairecer no cinema. Na fila, dois rapazes comentaram algo que Barbosa não ouviu. Mas três senhores escutaram direitinho e repreenderam os jovens incautos: “Vocês não têm vergonha na cara, não?”. Fora o primeiro de uma eternidade de constrangimentos.

Estava difícil. Barbosa decidiu desligar o telefone para não ser importunado. A única forma de o comendador Vieira de Castro, amigo do casal, falar com Barbosa foi enviar um emissário à casa do goleiro, na Leopoldina. O rapaz bateu à porta e foi recebido por Clotilde a vassouradas. Ela imaginava ser mais um inconveniente querendo azucrinar Barbosa. Nada disso. O jovem queria apenas entregar um bilhete do comendador no qual ele oferecera sua casa em Itacuruçá, no Sul do Estado do Rio de Janeiro para que Barbosa e Ademir [Marques de Menezes] esfriassem a cabeça.

Os dois aceitaram a generosa oferta e embarcaram em um trem. Por precaução, compraram o “Jornal dos Sports” para esconder o rosto. Na poltrona em frente, dois camaradas espinafravam a Seleção, especialmente Bigode. Barbosa estava se contendo até ouvir seu nome na conversa. “Sabe de uma coisa, cara, se eu encontro aquele crioulo pela frente nem sei o que faço com ele”. Barbosa ficou possesso, levantou-se e disse: “Por acaso, o senhor está me procurando?”. O outro empalideceu. Esperava ver naquele dia até o Papa, nunca Barbosa. Todos no vagão começaram a cochichar. Barbosa distraiu-se e percebeu que o cara havia descido. Mas o passeio valeria a pena. Na casa de Vieira de Castro, Ademir e Barbosa jogaram vôlei, cartas e curtiram doses de uísque diante de uma fogueira noturna. Nada de jornais, rádio e, muito menos, futebol.

Barbosa foi – parafraseando Jung – transformado em réu eterno pelo inconsciente coletivo. Culpá-lo pela derrota de 1950 configurou-se, ao longo dos anos, em lastimável fenômeno cultural. Se há heróis, há vilões. Barbosa, para as gerações que nasceram após aquela final no Maracanã, foi o antagonista, o bandido da história. Em setembro de 1993, o jornal “O Globo” publicou uma reportagem sobre o jogo entre Brasil e Uruguai que valeria o passaporte para a Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Seria chover no molhado discorrer sobre o que aconteceu naquele jogo e o que se definiu naquele Mundial. Pode-se resumir, porém, toda aquela trajetória em único nome: Romário. Mas a reportagem, além de citar os preparativos de Romário & Cia., denunciava que Barbosa, às vésperas do embate entre as duas seleções, teria sido impedido pelo então técnico Carlos Alberto Parreira e pelo auxiliar Zagallo de visitar os jogadores na concentração. Os motivos especulados pela imprensa é que Parreira e Zagallo, movidos por uma infundada superstição, barraram o ex-goleiro.

A despeito do Maracanazo, Barbosa era um goleiro seguro, um grande defensor de pênaltis, como aquele da final do primeiro Campeonato Sul-Americano de clubes campeões, em 1948, no Chile, contra o River Plate. “Ele aumentou nosso moral e demoliu o dos argentinos”, recordou Ademir de Menezes.

O craque argentino Ángel Labruna chutou, mas Barbosa estava lá, firme e elástico, para impedir o gol e garantir o placar de 0 a 0 que consagrou o “Expresso da Vitória” do Vasco da Gama como o primeiro time campeão da América do Sul. “O Labruna bateu forte e rasteiro, mas fui certinho na bola. Conhecia sua fama e sabia que ele preferia bater no canto esquerdo”.

Em março de 1950, três meses antes da fatídica Copa do Mundo, o ídolo confessou à revista “Mundo Esportivo” que “a maior tristeza, até então, em sua carreira foi ter perdido o primeiro jogo da final da Copa Roca para os argentinos, quando Flávio Costa o escalou no lugar de Oberdan Cattani [Palmeiras] e Ary [Botafogo], que estavam machucados”. Antes fosse, Barbosa, antes fosse...

TUDO COMEÇOU NA PONTA-DIREITA

Filho de Emídio Barbosa e Isaura Ferreira Barbosa, o ídolo Moacyr Barbosa Nascimento nasceu no dia 27 de março de 1921, na Rua Major Sólon, nº. 27, em Campinas [SP]. Teve dez irmãos. Ainda criança, ingressou na escola primária com a ajuda de Adeliza, sua irmã mais velha, com quem morou na capital paulista a partir dos 14 anos. Sempre fora ótimo aluno, fosse no curso primário em Campinas, fosse no Colégio Arquidiocesano, onde cursou até o terceiro ano secundário. O pai pensara matriculá-lo no Colégio Bento Quirino, onde o filho aprimoraria seu talento para o ofício de marceneiro. Afinal, o garoto Moacyr já produzia pequenas peças em madeira.

Quando ainda era rapaz, Barbosa sofreu pela morte de dois irmãos. Mário, o mais velho depois de Adeliza, era um extraordinário ponta-esquerda que morreu em consequência de um acidente durante um jogo de futebol. Tinha apenas 20 anos. Honorato, também morreu com apenas 14 anos. Mas o baque maior na vida de Barbosa foi a perda do pai, em 1935, depois dele levar um coice de um cavalo e fraturar a espinha dorsal. Emídio, que era administrador da Fazenda Santa Gertrudes, nas proximidades de Campinas, não resistiu ao gravíssimo ferimento. Era o maior incentivador dos estudos de Moacyr. Orgulhava-se de ter um filho tão inteligente. Com a morte do pai, Moacyr mudou-se para São Paulo. Tinha de arrumar trabalho para ajudar a família. O que não imaginava é que a bola seria o seu destino.

Ao se mudar para a cidade de São Paulo, mais precisamente para a Rua Siqueira Campos, 131, na Liberdade, o grande goleiro que seria começou – por ironia do destino ou, quem sabe, presságio – como ponta-direita. Ghiggia, que viria a ser o seu algoz, atuava ali, naquela faixa do campo.

Barbosa era ponta do Almirante Tamandaré, um time de várzea, do bairro onde morava. Mas o “ponta” já esboçava talento no gol durante peladas contra outro time da Vila Maria. Queria ser o goleiro, mas insistiam com ele no ataque: “A turma não deixava, pois eu tinha um chute muito forte e era preciso alguém assim lá na frente para decidir”.

Como era pobre e precisava ajudar a família, órfã de seu Emídio, tinha de trabalhar muito. Arrumou um emprego no Laboratório Paulista de Biologia, em 1940. Foi um ano especial para Barbosa, que casou com a paulista Clotilde Melônio e começou a estudar Química Farmacêutica. O goleiro dividia os estudos e o trabalho, com a bola. Era o titular do time do laboratório. As peladas chamaram a atenção de olheiros do Clube Atlético Ypiranga, que o convidaram, em 1942, para o profissional, onde atuaria ao lado do ponta-esquerda Rodrigues Tatu, que fez história no Palmeiras. O patrão deu força para que aceitasse o convite do Ypiranga. Barbosa ouviu o conselho.

Em um dos jogos no Campeonato Paulista, em 1943, Domingos da Guia [1312–2000], o maior zagueiro de todos os tempos do futebol brasileiro, encantou-se pelas defesas de Barbosa. E sinalizou ao Vasco da Gama que ali, no Ypiranga, estava o maior goleiro do Brasil. Em 1944, iniciou sua trajetória – uma das mais ricas – no clube carioca.

Em São Januário, estádio que o projetou internacionalmente por ser o arqueiro do inigualável “Expresso da Vitória”, Barbosa jogou de 1945 a 1955 e de 1958 a 1960. Foram duas décadas de muitos – mas muitos mesmo! – títulos com o time da cruz-de-malta. O goleiro foi, ao lado de craques como Ademir [Marques de Menezes], Ipojucan, Chico [Francisco Aramburu], Rafanelli, Friaça, Augusto, Jorge, Ely do Amparo, Danilo Alvim, Tesourinha [Osmar Fortes Barcellos], Jair Rosa Pinto e Maneca [Manuel Marinho Alves], protagonista dos períodos em que o Vasco da Gama conquistou mais campeonatos ao longo de sua centenária história. Se contar o total de troféus do Campeonato Carioca, foram seis [1945, 1947, 1949, 1950, 1952 e 1958]. Podemos escrever também na lista o Torneio Rio–São Paulo de 1958. Foram 448 partidas pelo Vasco da Gama e 490 gols sofridos. Defendeu quatro pênaltis e jamais foi expulso com o Vasco, como ressalta o pesquisador Alexandre Mesquita. Foi um dos goleiros que por mais tempo foi titular da Seleção Brasileira.

Em 1945, foi convocado para o Escrete nacional. A estreia foi contra os argentinos, em São Paulo, onde Barbosa dividiu até 1943 os holofotes com Oberdan Cattani, goleiro palmeirense. Defendeu o gol do Brasil em 35 jogos. Foi campeão sul-americano em 1949 e das Copas Roca [1945] e Rio Branco [1947 e 1950].

Barbosa nunca foi expulso do gramado, performance que propiciou a ele o Troféu Belfort Duarte, em compensação, as divididas com os atacantes custaram-lhe muitas contusões: seis fraturas na mão esquerda e cinco na direita; mais tíbia, perônio e três costelas quebradas. A mais grave de todas foi em 1953, durante um jogo contra o Botafogo. O atacante Zezinho quebrou-lhe a perna. Seria o titular do gol na Copa da Suíça, em 1954. Surpreendeu-se, porém, com um gesto carinhoso dos fãs. Um grupo de meninos de um colégio do Rio de Janeiro foi visitá-lo no hospital. A garotada fez uma vaquinha para comprar biscoitos para Barbosa.

Muito tempo com a perna engessada fez o então técnico do Brasil, Zezé Moreira [Alfredo Moreira Júnior – 1907–1998], esquecê-lo. A mesma postura se fez notar nos dirigentes vascaínos. Recuperado, Barbosa foi transformado em reserva de luxo em São Januário. Sem espaço no Vasco da Gama, tentou a sorte em Recife, no Santa Cruz, em 1955, mas por pouco tempo. No dia 3 de junho de 56, o corpo de Barbosa estava em campo, mas o pensamento no Rio de Janeiro, preocupado com o estado de saúde da esposa Clotilde. A atuação do goleiro foi um desastre, com a defesa do Santa Cruz levando um gol atrás do outro do ataque do América local. No final, a torcida, estupefata com o placar de 6 a 3 para o adversário, gritava em uníssono: “Gaveteiro! Gaveteiro!”. Barbosa ficou horas preso no vestiário, protegido dos vândalos que o ameaçavam: “Ele não sai vivo daqui! Morte ao vendido!”. À noite, o presidente do Santa Cruz o levou para um lugar seguro, longe da ensandecida torcida. Hora de voltar definitivamente para o Rio de Janeiro.

No segundo semestre de 1956, Barbosa regressou ao Vasco da Gama, onde permaneceu, de forma intercalada, até 1962. Quando retornou de Recife, por pouco não se tornou técnico do Olaria. Ousou desafiar os seus 36 anos no gol do Bonsucesso, em 1957. Voltou ao Vasco da Gama, mas seus reflexos não eram mais os mesmos.

O dinheiro do futebol já não lhe bastava para as contas, embora mantivesse um pequeno patrimônio constituído por uma casa, um carro e alguns pequenos terrenos. No começo dos anos de 1950, chegou a manter uma casa em Olaria, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, dois imóveis no bairro do Ipiranga [São Paulo] e muitos terrenos em terras paulistas. A “fortuna” foi se esvaindo. Não se desfazia, contudo, de sua monumental coleção de discos de vinil: cerca de 1 mil 500. Era fã da boa música.

Em 1959, a imprensa especulava que, nas horas cada vez maiores de folga dos treinos e jogos, Barbosa trabalhava na loja de materiais de construções do seu “padrinho” Adriano Rodrigues, antigo cartola vascaíno.

Ainda houve tempo para defender o Campo Grande, em 1962. E foi no time da zona rural do Rio de Janeiro que Barbosa pôs um ponto final em sua história de goleiro, no dia 8 de julho daquele ano, em jogo com o Madureira. Saiu de campo contundido, carregado, deitado na maca. Sentiu uma forte dor na virilha, o mesmo problema que tirou Pelé da Copa do Chile, coincidentemente no mesmo ano. Cerca de 600 pessoas aplaudiram o ídolo, numa reverência merecida, mas que durante muitos anos resumiu-se àquele clássico suburbano. Barbosa merecia mais... muito mais.

Como acontece a todos os grandes jogadores, o momento de parar é a faceta mais difícil de se enfrentar na vida de um futebolista. Em 1963, Barbosa estava sem rumo e um completo desconhecido do mundo do futebol, sobretudo da imprensa. Na mente, ainda viva a imagem de Ghiggia e da bola marrom que teve de pegar no fundo das redes. Soube que a administração do Maracanã ia se desfazer das antigas traves de madeira. As mesmas que viram impassíveis a derrocada de Barbosa no dia 16 de julho de 1950. O ex-goleiro do Vasco da Gama e da Seleção recebeu a doação das balizas. Comprou carne, bebidas, e convidou os amigos para um churrasco em sua casa, na Rua João Romariz, 56, na Leopoldina, cuja finalidade era exorcizar definitivamente o Maracanazo. As antigas traves serviram de lenha para assar a carne. A ideia de queimá-las foi de Abelardo França, diretor da Administração dos Estádios do Estado da Guanabara [Adeg], órgão responsável pelos estádios do Estado entre 1960 e 1975. Mesmo assim não havia ontologia que explicasse os fantasmas que afligiam Barbosa.

Há quem conteste a história. O jornalista Luiz Fernando Bindi [1973–2008] afirmou que as tais madeiras da baliza da final de 1950 estariam na Casa de Cultura de Muzambinho, em Minas Gerais, levadas para lá por Pedro Viola, rico empresário local.

Qual das duas versões seria, portanto, mito? Nenhuma delas. Ambas são verdadeiras. Enquanto Pedro Viola levou para casa a baliza do “gol de Ghiggia”, Barbosa recebeu a do “gol do Friaça”.

O tempo passou e a vida do craque nunca mais foi tranquila. Chegou a reencontrar Ghiggia, em 1970, na festa de 20 anos do Maracanã, em 1970. Os dois se abraçaram respeitosamente, visivelmente comovidos pela lembrança do dia 16 de junho de 1950. Ghiggia, vestido com terno e gravata, Barbosa com uma camisa da Adeg.

Muitos anos depois, um garoto, que sequer nascera em 1950, encheu-o de perguntas sobre a Copa. Todas impertinentes. Barbosa, então calado, interrompeu-o: “Escuta aqui rapaz, por que a vaca defeca um montão e o cabrito faz uma azeitoninha?”. O garoto disse ignorar o motivo. Foi o sinal para a resposta de Barbosa. “Se você não entende nem de merda, como vai discutir Copa do Mundo comigo?”.

Barbosa garantiu ter sido vítima de racismo apenas uma vez ao longo da carreira, quando estava em Porto Alegre, em 1948: “Eu tive, sim, uma experiência pesada de racismo uma vez que eu fui jogar em Porto Alegre e precisei cortar o cabelo, não quis ir a um lugar chique, sabendo que lá têm muitos estrangeiros e descendentes de alemão, que poderiam estranhar alguma coisa, então entrei numa rua secundária, mas discreta, e fui; era um prédio que tinha salão de barbeiro no porão, achei que ali era o lugar ideal para mim, quando entrei vi umas oito cadeiras, sentei na primeira que estava vazia, e veio um senhor louro lá do final da última cadeira, chegou e disse para mim: ‘aqui nós não atendemos preto’. Na hora me deu vontade de quebrar tudo, aí pensei que se quebrasse tudo o prejuízo iria ser meu, ele chamaria a Polícia, dizer que eu era preto arruaceiro. Saí dali tão transtornado que dei uma violenta trombada no meu próprio treinador, que passava na calçada; era o Ondino Vieira [Ondino Leonel Viera Palaserez – 1901–1997], que vira pra mim, assustado, e diz ‘O que há, Barbosa?’; respondo ‘nada’”.

Ao chegar ao hotel, o goleiro decide contar a verdade a Ondino, que fica indignado com o que ouve: “O quê? Aqui no Brasil, sua terra, o cara dizer uma coisa dessas a você?”. A história chegou aos ouvidos de Viriato Aranha, irmão do presidente do Vasco da Gama e homem influente no Rio Grande do Sul. Ele chamou um delegado e um escrivão e foi com Barbosa à barbearia. O delegado entrou no estabelecimento e disse: “Quem falou que não atende preto aqui?”. Barbosa apontou para o homem que o havia ofendido. O barbeiro ouviu um sermão tão forte na frente de todos, que até Barbosa ficou constrangido. “Se fosse eu preferia ter tomado porrada, pela vergonha que ele passou”. Como punição, branda por sinal, a tal barbearia ficou fechada durante trinta dias.

UM EMPREGO DE BILHETEIRO

Restou ao outrora grande goleiro Barbosa não mais os louros. Do futebol, nada sobrou. Dinheiro escasso, precisava fazer outra coisa para sobreviver. Arrumaram-lhe um emprego. Mas longe dos gramados. Quem chegasse à bilheteria do estádio do Maracanã, nos primeiros anos da década de 1970, sentir-se-ia traído pelos olhos. Ou, melhor, ouvidos. Afinal, era impossível ver o dono da mão que entregava os bilhetes para os jogos. Mas um ouvido atento reconheceria a voz do bilheteiro. Era Barbosa. Vinte anos antes, pagavam para vê-lo em campo. Agora, as mãos que tanto alegraram o futebol, estendiam ingressos para o torcedor.

Viver no Rio de Janeiro estava cada vez mais difícil. Mesmo assim, o grande Barbosa foi levando. “Joguei futebol na época do tostão. Boa parte dos jogadores que não tem metade do meu talento, ganha fortunas nessa época do milhão”, declarou o craque, em maio de 1980, já não mais como bilheteiro do estádio, mas como coordenador de ginástica para a terceira idade. Para compor a renda, restava-lhe um emprego de professor de futebol em uma clínica para deficientes mentais. O pouco que ganhava mantinha a casa em que morava, no bairro de Ramos.

O fotógrafo Orlando Brito o encontrou em 1991. Queria clicá-lo para a edição de um livro sobre personagens históricos do País. Mas se deparou com um Barbosa oscilante entre as gratas lembranças do Vasco da Gama e a amargurada memória da Seleção: “Em 1991, mesmo passados 41 anos da malfadada derrota para a equipe uruguaia, ele ainda carregava muito sofrimento. Fui fotografá-lo para ‘Senhoras e Senhores’, livro com homens e mulheres notáveis da História Brasileira. Barbosa me contou que, por volta de 1965, um antigo dirigente do Vasco da Gama, Agathyrno da Silva Gomes, lhe conseguiu um emprego na Suderj, órgão que administra os estádios do Rio de Janeiro. Entretanto, por capricho de sua sina, foi designado para trabalhar no Maracanã, o lugar que mais lhe trazia tristeza e desgosto. Não reclamava. Afinal, precisava do salário. Ficava no Maracanã no turno da manhã, mas não saía do escritório, jamais entrava no gramado ou passava pelas arquibancadas. Sentia-se amargurado quando olhava as traves em que Ghiggia marcou o gol que fez chorar milhões de torcedores. Fui encontrar o ex-goleiro do Vasco da Gama e da Seleção em um dos bairros cortados pela Avenida Suburbana, perto de Del Castilho. Era balconista em uma pequena loja de artigos de pesca. O “bico”, como ele dizia, era para complementar o orçamento. Mas, principalmente, para diminuir a dor do isolamento. Ali, as pessoas não tocavam no assunto e o chamavam de seu Moacyr e não de Barbosa. Impressionei-me com sua figura serena, mas também com a visível carga de angústia. Adorava falar do Vasco da Gama, detestava lembrar a Seleção. Tinha guardada uma camisa do clube do seu coração, com autógrafos dos principais ídolos do time de São Januário em várias épocas. Roberto Dinamite, Bellini, Ademir Menezes, Vavá, Pinga, Romário, Coronel, Andrada, Dunga, Bebeto, Brito, Tostão, Alcir, Abel, Moisés, Sabará, Orlando Peçanha, tantos... Disse-lhe que eu era vascaíno por causa dele. Quando eu tinha sete anos, ouvia no rádio os grandes nomes do futebol. E um desses craques era ele, Barbosa, o grande número um do Vasco da Gama. Portanto, ele estava diante de um fã. Estendeu-me as duas mãos com todos os dedos deformados e agradeceu a gentileza das palavras. E declarou-se um homem definitivamente amargurado: – O futebol me propiciou as melhores e as piores emoções de minha vida. Nos meus 26 anos de carreira, fui campeão 14 vezes. Viajei pelo mundo, fiz alguns amigos. Mas ao perdermos para o Uruguai passei a ser o brasileiro mais criticado da história. – Nunca consegui me livrar da sensação de fracasso”.

Desgostoso, deixou o Rio de Janeiro e mudou-se para um pequeno apartamento em Ocian, na Praia Grande, no litoral paulista. Em maio de 1997, Barbosa perdeu sua esposa, vítima de câncer na medula. O ex-goleiro desembolsou o pouco que lhe restou dos tempos de glória para tentar salvá-la. O baque foi muito forte. O apartamento em que morava com ela e uma cunhada foi vendido por um parente, e Barbosa passou a morar nos fundos da casa de um amigo.

Os amigos mais próximos ajudavam-o a comprar pão, leite ou os remédios que tomava para anemia e disritmia cardíaca. Vivia com R$86 mensais, que recebia como aposentadoria dos tempos em que foi administrador do Parque Aquático Júlio Delamare, no Maracanã, e funcionário da Suderj.

Tereza Borba, amiga que conheceu em Ocian, e dona do ombro no qual muitas vezes chorou, fazia a ponte entre ele e o Vasco da Gama para que o ex-clube não o abandonasse. A partir de 1998, a diretoria do clube carioca passou a enviar para Barbosa cerca de R$2.000 mensais, quantia que o ajudava a pagar o aluguel do imóvel em que vivia.

O jornalista Armando Nogueira assim escreveu sobre o mais injustiçado dos grandes ídolos do futebol brasileiro: “Barbosa tinha uma aura de nobreza que lhe vinha da alma. Conheci-o pessoalmente. Tinha um humor refinado. Era esgalgo [alto e magro] e bonito. Os goleiros de então procuravam imitá-lo, no uniforme, sempre escuro, e nos gestos de puro balé. O Maracanã guardará, com saudade, a imagem dele, um perfil de príncipe emoldurado pelas traves do estádio mítico. Mãos curiosas que decifravam as bolas mais difíceis do jogo. Sempre vi o goleiro como a última esperança da equipe. Me lembro de Barbosa, ainda mocinho. Contemplava-o como uma espécie de anjo da guarda. Foi um arqueiro que seduzia pelo arrojo e coragem, o que lhe custou fraturas que motivaram o corte de seu nome da lista da Copa de 1954. No hospital, recebeu visita de um secretário de Getúlio Vargas, admirador inconteste de Barbosa. Cheguei a uma conclusão depois daquela Copa: a humildade é uma das coisas mais sublimes. Minha vida mudou depois de 1950. Eu me julgava um sujeito prepotente. Depois, cheguei à realidade, vi que nós somos o que somos – nada mais! Ninguém é mais nem menos do que ninguém”.

No dia em que o Brasil enfrentaria o Uruguai para se classificar para a Copa do Mundo de 1994, jornalistas da BBC de Londres, que produziam um documentário, levaram Barbosa para visitar, na Granja Comary, a concentração da Seleção dirigida por Parreira e Zagallo. Foi barrado. Ficou extremamente magoado e constrangido.

Barbosa viu, com melancolia, a Seleção se classificar e ser campeã mundial em 1994, mas não viu a virada do milênio. Morreria no dia 7 de abril de 2000, na Santa Casa da Praia Grande, em decorrência de problemas após um derrame sofrido dias antes. No velório, em uma capela local, os poucos que se despediram dele ignoravam que ali, naquele caixão, jazia o maior goleiro que o Brasil já conheceu.

A amiga [quase filha] Tereza pediu ao escritor Carlos Heitor Cony uma frase para a lápide de Barbosa. “Tenho uma foto dele, segurando minha filha que ainda não tinha um ano de idade. O Vasco da Gama mantinha uma concentração na Ilha do Governador, perto da casa de veraneio de meu ex-sogro. Barbosa viu a garota no carrinho. Perguntou se podia pegá-la. Tenho a foto até hoje. Naquele ano, Barbosa deu o título de campeão para o Vasco da Gama. Eu torcia pelo Fluminense, com exasperação, achava que meu time podia ser bicampeão, repetindo o título do ano anterior. Barbosa tirou o pão da minha boca. Nunca mais vi um time ser campeão por causa de um só homem. O Fluminense tinha a fama de ter os melhores goleiros: Batatais, Castilho e Veludo. Mas foi Barbosa o melhor de todos que vi jogar [...] Homem admirável, sempre sorrindo, homem bom que só o povo produz em seus melhores momentos, Barbosa sempre me encheu de assombro. Não saberei fazer uma frase para sua lápide. Como disse, admirei-o de longe, em silêncio, mas sempre tive orgulho daquelas mãos que seguraram minha filha. Ele, na certa, nunca se lembraria dessa foto circunstancial em que segurou uma menina. E nunca entenderia aquele pai que passou por ele e, sem nada dizer, deixou que a sua filha ficasse no colo de um homem bom. Repito: um homem bom, que só o povo produz em seus melhores momentos de povo”.

O anjo se foi e, do samba “Quando eu me chamar saudade”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, fica a lição para os que caluniaram Barbosa:
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidades
Quero preces e nada mais

No dia seguinte ao adeus de Barbosa, no cemitério Morada da Grande Planície, na Praia Grande, nada definiu melhor, em uma única frase, a dramática vida do ídolo. No alto da página do jornal “Folha de S.Paulo”, lia-se, com profunda tristeza e conformação: “Brasil assiste a 2º enterro de Barbosa”.

Personagens como Barbosa são considerados deuses do futebol. São inesquecíveis. Podem até morrer ou viver quando bem quiserem, que sequer a pecadora e desidiosa memória dos mortais lhes incomodará.

Nada como outro deus, de outro panteão, para louvar Barbosa. Assim, escrevera Nélson Rodrigues, em artigo publicado na revista “Manchete Esportiva”, de 30 de maio de 1959: “Ora, eu comecei a desconfiar da eternidade de Barbosa quando ele sobreviveu a 1950. Então, concluí de mim para mim: esse camarada não morre mais! Não morreu, e, pelo contrário: está cada vez mais vivo”.

Viva, Barbosa...