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Reserva

O MENINO E O ÍDOLO

por Claudio Lovato


O menino está no estádio ao lado do pai. 

O menino olha para o banco de reservas e não entende por que seu ídolo está lá. 

Não entende por que ele está lá e por que só tem entrado no fim dos jogos, quase sem tempo para tocar na bola uma vez sequer.

 O pai já tentou lhe explicar: “Ele está voltando de lesão”.

Aquelas palavras nada significaram para o menino. Ele só quer ver de novo seu grande herói em campo, fazendo gols, como se acostumou a ver.  

O pai, em outra ocasião, tentou ser didático (“Ele tem um problema chamado fascite plantar”) e chegou a procurar a definição técnica na internet para mostrar ao filho: Inflamação de uma faixa espessa de tecido que liga o osso do calcanhar aos dedos. Os sintomas incluem dor aguda perto do calcanhar.

Para o menino, aquelas palavras também não diziam nada. Coisa nenhuma. Nada, absolutamente nada que se tente explicar hoje fará diminuir o inconformismo e a frustração e a angústia do menino. Ele olha para o banco de reservas e quer de volta a emoção de ver seu atacante preferido, seu ídolo, seu herói, marcar outra vez, apenas isso.

Um dia ele vai entender – um dia; não agora. Um dia ele vai entender que as coisas acontecem na vida simplesmente porque podem acontecer, e que a realidade tem suas imposições.

E que essas imposições da realidade são quase sempre poderosas, volta e meia intransponíveis, mas sempre – sempre, sempre! – passíveis e merecedoras de enfrentamento e persistência, persistência, persistência, persistência, persistência, persistência, e assim por diante.  

O BLUES DO RESERVA DA VÁRZEA

por Marcelo Mendez


(Foto: Rogério de Moura)

De todos os personagens que formam o maravilhoso universo do futebol de várzea, um dos que mais me chama atenção sem duvida é o do reserva:

O reserva de futebol de várzea.

Se no mundo glamoroso do futebol profissional ele já é secundário, imaginem, amigos leitores, como seria nos terrões. Que shakespearianos são os nossos amigos que sentam ao banco de nossos times varzeanos. Já começa a diferença por aí; O banco.

Nada de estofados, nada de coberturas de acrílico, nenhum conforto, nada do tipo. Na várzea, salvo raras exceções, o espaço é um coberto de concreto, uma típica “casinha”, com uma pedra dura para sentar. Algumas vezes com muita sorte, pode ter alguma sombra, mas, maioria das vezes, a dita casinha fica de frente para um sol absurdamente quente.

Quando as equipes adentram o campo, vem o blues da coisa. Enquanto os titulares, posudos, munidos de toda a sorte de caneleiras, chuteiras coloridas e outras mandingas do estrelato varzeano ocupam a cancha, aos reservas sobra o total anonimato. Poucos são os que observam.

De rosto colado no alambrado, o torcedor não se interessa muito em sequer olhar para aquele reservado rústico que os espera. A eles, quase se esquece de dar nomes.

– Ô 18, como você é ruim!  

– Fulano, onde você arrumou esse camisa 15 aí? Ta doido, que cara ruim! – e por aí vai.


(Foto: Reprodução)

Na várzea, o reserva é tão somente um número sem muito estilo, sem muita pompa, sem nada que sequer chegue perto de tirá-lo de todo secundarismo que lhe é imposto. Mas ao contrário de todo o entorno, eu, cronista ávido por vidas e sonhos, há muito os observo.

Em geral seus rostos são desprovidos de emoções frívolas, baratas, de falsidades que as conveniências acabam por nos condenar. O reserva do futebol de várzea é autêntico. Olha para o campo com desejo mordaz de estar ali.

Espera por sua vez, tal e qual um menino virgem espera pela primeira paixão, por seu primeiro beijo na boca. De sua maneira, escolhe um jeito de ajudar e cria a sua melhor forma de fazer parte do jogo.

Alguns viram auxiliares do técnico. Gritam, vociferam táticas, incentivam os titulares, lhes açoita de recomendações que ao seu juízo são perfeitas.

– Cicrano, fica esperto com esse lateral direito deles, fecha essa diagonal!

Outros são torcedores, fazem suas figas, fecham os olhos quando os adversários atacam, oram, clamam pela ajuda de um Deus o qual eles têm plena convicção de que, de fato está ali a observar toda aquela pantomima ludopédica. São plenos.

De forma alguma se entregam ao pouco charme do ar blasé de quem não está nem aí. Fazem parte do jogo por pura profissão de fé e encanto. E quando o treinador os chama para entrar, nossa… É a consagração!


(Foto: Reprodução)

Em meio aos outros companheiros de pedra dura, o escolhido então se levanta e vem em direção ao Professor todo imponente, impávido, realizado. Uma luz divina, talvez enviada pelo Deus que ele rezava há pouco, o qual ele tinha plena convicção de que o ouvia, vem até ele e o ilumina. Nessa hora ele galga os degraus da divindade do mundo maravilhoso dos titulares. Ouve as instruções com atenção e quando autorizado pelo árbitro corre, como correria os que soubessem que no final do pique, vem a alegria.

E ela vem.

No instante em que a bola encontra o pé do reserva varzeano pela primeira vez, toda a sagração possível acontece e todo sorriso é farto e pleno.

E assim a várzea segue. De titulares e principalmente, de reservas…

PROFISSÃO: RESERVA

por Zé Roberto Padilha

O Teatro Muncipal não tem um banco de reservas como o do Maracanã. O ator ensaia durante a semana, decora o texto,  sobe no palco e dá o seu recado. Não serve como exemplo. No cinema, então, se estiver escalado no banco nem aparece na fita. Como explicar para os outros artistas a triste vida de um artista da bola escalado no domingo para ficar na reserva? Palavra de quem passou um bom tempo por ali: nada é pior na vida de um jogador que ser reserva da equipe. Só quem sentou no banco paraRogério Ceni alcança a extensão deste martírio.


O desconforto já começa quando as imagens percorrem aquele “fosso das ilusões perdidas” antes do começo da partida. Eles sabem que vai ter um engraçadinho na sala, no sofá junto à família torcendo e cornetando: “Olha lá os sujas roupas! Não fazem nada, recebem em dia e ainda ganham gratificações”. Cada close dado naquele amarelado grupo representa meio milhão de reais a menos no mercado da bola. Quando o time dana a ganhar, como o Vasco, que o Jorginho não é maluco, nem o Zinho, para mexer e onde ninguém se machuca para alcançar o pôster, os reservas vão definhando. No banco, na memória da mídia, dos torcedores e quando você procura…Cadê o Guinazu? Ouviram falar do Serginho? E para onde foi aquele centroavante que nos deu o título de campeão contra o Botafogo?

Depois que assinei meu contrato profissional, em 1972, fui reserva dois anos do Lula. Não tinha bola suficiente para concorrer com um ponta-esquerda da seleção brasileira. Quando ele era convocado, disputava uma Taça Guanabara, entrava nos amistosos excursionando pelo país. Se não fosse vendido ao Internacional, em 1974, e Carlos Alberto Parreira assumisse e me desse a brecha que sonhava, estaria hoje trabalhando no Bradesco. A paixão e a permanência em um banco seria maior que a vivida dos gramados.

Por ali vivi, sentado e apreciando, experiências inusitadas. Era novo, podia esperar, aprender os truques daquela fascinante profissão ao entrar aos poucos nas partidas. Mas tinha craque rodado impaciente e estressado. Já chegava com o dedo cruzado para secar o titular e esclarecia: “Escuta, menino, aqui não é local de hipocrisia. Torcer é na arquibancada. Não torço contra o Samarone, nem contra o Cláudio (que eram da sua posição), apenas desejo que eles joguem mal. Sofram uma leve lesão, nada séria, para que eu possa entrar.” E filosofava: “Na pior das hipóteses, uma derrota cairia bem. Treinador é tudo igual: vai ter que mexer no time e aí temos chances!” E finalizou: “Não estamos aqui para bater palmas para macaco dançar!”. Calma, Bernardinho, estou falando do banco de jogadores de futebol!

Para os que acham que acabou o martírio dos reservas junto ao texto, a tragédia avança depois da partida. Quando o juiz apita, ainda vem o preparador físico com o estádio vazio os aquecer para uma corrida. E tome abdominal, flexões, piques que poucos assistem com os refletores desligados. Ah, tem gente que presenciou sim. Quando um reserva chegou em casa, seu filho, gente boa, que permaneceu na arquibancada o esperando, ainda lhe deu uma força: “Treinou bem, hein pai!” Uma pena não ser no teatro, senão a gente pedia para fechar a cortina. E terminava com uma agonia que vai continuar no banco de reserva do nosso time já no próximo domingo.