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Pedro Redig

NOVO FENÔMENO CHAMADO JESUS

por Pedro Redig, de Londres


Nos estádios, nos bares e pubs todo mundo só fala do novo craque do Campeonato Inglês: Gabriel Jesus! O menino brasileiro já está fazendo tanto successo no Manchester City que começa a ser comparado com Ronaldo ‘Fenômeno’ quando jovem.

O começo avassalador na poderosa Premier League, inclusive, derruba dogmas sobre os jogadores do país pentacampeão mundial. 

– É um mito achar que os brasileiros não são fortes fisicamente – diz o ex-lateral do Manchester United Gary Neville.

Neville e outos comentaristas estão impressionados com a valentia, a determinação e a energia do jovem de 19 anos que lembra o vigor de Ronaldo na mesma idade.

Até agora, tudo parece um grande sonho para o atacante da seleção comandada por Tite. Depois de três gols em dois jogos na Premier League pelo Manchester City, a adoração dos torcedores não para de aumentar.

– Jesus está sempre no momento certo. Exuberante! É um prazer vê-lo jogando com aquele grande sorriso – emenda o ex-centroavante irlandês Niall Quinn, que vestiu a camisa dos ‘Citizens’ na década de 90.


O novo “Brazilian Boy” da Premier League acaba de dar sua primeira entrevista exclusiva desde que chegou à Inglaterra. Ele contou que está realizando um sonho e que escolheu o Manchester City porque recebeu uma atenção especial do novo chefe.

– O Guardiola telefonou para mim. Foi o único técnico que ligou para falar comigo – disse Jesus à ‘Sky’ britânica.


A gentileza do catalão encheu o brasileiro de moral, e Jesus tem deixado o ex-genro de Maradona Sergio Aguero no banco, com cara de poucos amigos, aliás. O técnico que contratou a chamada “jóia brasileira” está mais do que satisfeito.

– Estou muito contente com o que ele vem fazendo – disse Guardiola. “É um lutador e tem faro de gol. Perguntado se Jesus fica no time se continuar marcando, o comandante do City ironizou: “O que você acha?”

Dentro de campo ele esquenta correndo muito, mas Jesus admite estar sofrendo para se adaptar ao temido mau tempo de Manchester. 

– Tô tentando me acostumar, mas é frio, muito frio.

Ele lembrou aos ingleses que veio de uma família ligada ao futebol e que jogava bola na rua de manhã, de tarde e de noite.

– Às vezes eu ficava o dia todo sem comer – brinca o atacante. 

Jesus admite que chega a se surpreender com a trajetória fulminante, já que, há um ano, ainda estava despontando no Brasil.


– Há quatro anos eu estava jogando na várzea, depois veio o Palmeiras, o ouro olímpico e agora o Manchester City.

Jesus impressiona pela confiança, pelo futebol direto, por correr atrás e estar sempre alerta. No City, ele tem jogado de centroavante, enfiado na área. Os dois gols na vitória de 2 a 1 sobre o Swansea foram marcados quase debaixo da trave.


Fora das quatro linhas, o companheiro Fernandinho tem ajudado na adaptação de Jesus e funcionado como tradutor para a nova atração brasileira da Premier League.

– Até agora tudo tem sido melhor do que eu esperava. Todo mundo tem me apoiado e essa boa vinda é importante – finaliza o brasileiro, sorridente com o primeiro de muitos troféus de ‘Craque do Jogo.’ 

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Pedro Redig cresceu driblando paralelepípedos na rua da concentração dos aspirantes do Botafogo. Foi da Globo, Reuters e continua levando fintas da alegria que só o futebol traz. É correspondente do Museu, em Londres
 

A RAPOSA ENGOLIU A ZEBRA

por Pedro Redig, de Londres


“Dilly ding, dilly dong”, opera, rap, elogios de políticos, pizza, batata frita, frio de menos 135 graus, chuva e calor.  Foi assim que o Leicester chegou ao glorioso título de campeão inglês, botando os gigantes da Premier League no bolso.

O arrogante José Mourinho, despedido durante a temporada pelo Chelsea e queridinho da mídia esportiva inglesa, dá lugar ao irreverente Claudio Ranieri.

É um triunfo duplo e inédito nos 23 anos da divisão de elite. O italiano venceu o primeiro campeonato nacional depois de 29 anos e o Leicester faturou o primeiro título em 132 anos de existência.

Antes dos “Foxes”, como são apelidadas as “raposas”, o último time a vencer pela primeira vez foi o Nothingam Forest em 1978. O triunfo do Leicester já rendeu amistosos contra os poderosos e milionários PSG e Barcelona e o clube agora pode agora surpreender na Liga dos Campeões.

O milagre do romano Ranieri, comparado ao imperador César e ao poderoso chefão, começou na verdade no fim da temporada passada. Depois de passar 140 dias na lanterna, o time então comandado por Nigel Pearson arrancou sete vitórias nos últimos nove jogos para escapar de fininho do rebaixamento.

Por conta disso, o Leicester era cotado a 5000 por 1 libra para ser campeão este ano. Quem apostou 100 libras, teve direito a meio milhão, ou seja R$ 2,5 milhões de reais. O sucesso no campo virou um tremendo prejuízo para as casas de jogos.

Da noite para o dia, o clube passou a 12º mais rico da Inglaterra e ficou em 24º lugar do ranking mundial. O Leicester gastou um total de £52,8 milhões de libras para montar o time campeão – menos do que o Manchester United pagou apenas para ter o atacante frances Anthony Martial. O título vai render ao clube um mínimo de £150 milhões de lbras, cerca de £750 milhões de reais.

“Dilly ding, dilly dong” foi o jeito que o impagável Ranieri encontrou para manter os jogadores na ponta dos cascos nos treinamentos. Quem tivesse meio distraído, ouvia este som de campainha berrado pelo treinador de 64 anos que também levantou a moral do time bancando pizza para todos os jogadores.

– Eu sou um cara que pensa e não um maluco – desabafou Ranieri depois de conquistar o título com duas rodadas de antecedencia. “Dilly ding, dilly dong, nós estamos na Champions League,” emendou o italiano todo feliz.

O Leicester não gastou quase nada mas comprou muito bem em relacão ao rivais que desembolsaram centenas de milhões sem conseguir superaro modesto clube da regiao central da Inglaterra conhecida como Midlands.

O artilheiro Vardy e o meio-campo Mahrez custaram juntos £1,5 milhão. O atacante foi pescado de uma liga semi-amadora em 2012 e o argelino veio do Le Havre da segunda divisão francesa. Mahrez começou a ganhar fama atuando em peladas num estacionamento em Paris e está agora na mira do Real Madrid.

 Outra peça-chave foi o frances Kanté, festejado como o melhor volante da Premier League. Isso sem falar no goleirão Kasper Schmeichel, herdeiro da categoria do pai Peter, considerado por muitos como um do melhores goleiros de todos os tempos.  O capitão Morgan também foi destaque num time em que a maxima era “um por todos, todos por um.”

A façanha do Leicester mereceu elogios do novo presidente da FIFA Gianni Infantino e do primeiro ministro inglês David Cameron com palmas no Parlamento e um deputado de cachecol azul e branco – as cores do novo campeão.

O jornal ‘The Guardian’ publicou na primeira página um poema como se o rei Ricardo III tivesse fazendo uma elegia ao Leicester. Os mais supersticiosos acreditam que o restos mortais do monarca inglês enterrados na cidade há pouco mais de um ano foram o talismã que faltava para o Leicester.

Cantores de rap locais encheram a bola de todos os jogadores, um coro festejou a glória do time em ritmo de gospel e o tenor Andrea Bocelli abriu a festa da entregada taça com uma interpretação emocionada de “Nessun Dorma”, vestido com a camisa do Leicester.

Depois de 139 dias na liderança, o Leicester recebeu o troféu ao final de uma goleada de 4 a 1 sobre o Everton na penúltima rodada. A festa teve batata frita de graça para a galera debaixo das cadeiras. Foi o presente de um patrocinadorno estádio onde o Brasil jogou e ganhou da Jamaica por 1 a 0, gol de Roberto Carlos, em 2003, numa seleção que ainda tinha Ronaldo no comando de ataque.

O ‘enorme’ chefe da torcida e tocador de bumbo fez um strip tease para mostrar um baita escudo do clube tatuado nas costas. O torcedor do clube e veterano artilheiro Gary Lineker não cumpriu a promessa de aparecer de cueca no programa “Match of the Day” que apresenta, mas a imagem dele quase peladocirculou nas redes sociais. A direção do programa da BBC esclarece que Lineker prometeu aparecer no ar de cueca na primeira rodada da próxima temporada em agosto.

São muitos os segredos para uma conquista tão especial e uma das armas do Leicester foi um compartimento que é uma espécie de sauna ultra gelada capaz de produzir um frio de até 135 graus negativos. O choque térmico serve para recuperar os músculos e a energia dos atletas no intervalo entre os jogos.

Com a coroa do troféu na cabeça, Ranieri confessou que começou a acreditar que o sonho era possível quando perdeu de 2 a 1 com 10 jogadores mas deu um calor no Arsenal – o único time que venceu o Leicester duas vezes no campeonato.

– Jogamos com o coração, nao quero acordar e sim continuar sonhando – confessou Ranieri. 

Para ele, os favoritos de sempre falharam porque não mostraram a mesma consistência do Leicester. Desde a fundação em 1992, aPremier League só teve cinco campeões: Manchester United, Chelsea, Arsenal, Manchester City e Blackburn Rovers.

O Leicester agora pode fazer história na Europa. Assim como o Atlético de Madri, usa a tática dos boxeadores que absorvem os golpes, mas são capazes de ‘matar’ o adversário com um simples contra-ataque. O time inglês derruba o mito de que domínio ganha jogo.

Com menos posse de bola, chutes a gol, sofrendo mais e marcando menos gols por jogo do que a maioria dos outros campeões da Premier League, a raposa que engoliu a zebra vai em busca de novas presas.

Na base do bom humor, brincadeiras e muita solidariedade, Ranieri conquistou os jogadores e fez o mundo do futebol acreditar, espantado, que o impossível às vezes acontece. Parabéns aos novos campeões.

A PELADA COMO ELA NÃO É

por Pedro Redig, de Londres
Memórias de um brasileiro no reino da bola
 

Pelada na Inglaterra? Nem na cama! O país que inventou o futebol é também famoso pela frase “No sex please, we are English.” Mas a vida dos boleiros de plantão daqui tem muito pouco a ver com o que nós chamamos de pelada. 

A primeira grande diferença: com o terreno pesado por conta do mau tempo, a maioria dos craques amadores joga de chuteira. Com a chuva e o frio, aquele churrasco de congraçamento regado a muito bom humor também não existe.

Numa coisa os ingleses talvez superem os brasileiros: a cervejinha depois do apito final, consumida em copos de mais de meio litro chamados de ‘pints’ – medida imperial antiga que equivale a exatamente 568 mililitros. 

Se o Brasil tem mais de 8 mil quilômetros de litoral para bater uma bola, uma cidade como Londres tem centenas de parques. Enquanto a gente joga na areia, terra, cimento e campos artificiais, o que não falta por aqui são gramados naturais, verdinhos – ideais para a prática do velho esporte bretão. 

Nos fins de semana, espaços como o Regents Park e Battersea Park no centro de Londres estão sempre cheios de gente que gosta de correr atrás da bola. Muitos destes jogos são para valer e fazem parte de milhares de ligas que existem na Inglaterra.

Com uma presença enorme de estrangeiros, é muito comum ver times formados por gente que veio do mesmo país. No Battersea Park, existe um campeonato exclusivo de latinos: colombianos contra equatorianos, bolivianos contra peruanos, chilenos contra brasileiros e por aí vai.

Em Cherry Tree Woods, o parque que fica em frente à minha casa, o que atrai mais a galera é o futebol em que adultos se misturam com crianças. Pais e filhos, tios, cunhados e primos, suando a camisa num ambiente descontraído e leal.

A pelada em família obedece a requisitos de organização de fazer inveja aos brasileiros. Cones marcam as laterais e bandeirolas de verdade assinalam o local para os escanteios. As traves muitas vezes são feitas de pedaços de cano de plástico enterrados na grama molhada pelo tempo inclemente.

Uma alternativa à tradicional pelada são as partidas disputadas em centros que alugam campos de grama sintética. Um dos maiores é a chamada Power League. A turma divide o dinheiro e aluga o campo por meia ou uma hora no máximo. Um destes espaços funciona, inclusive, do lado de fora do famoso estádio de Wembley.

Outro ritual exclusivamente inglês são as chamadas Sunday Leagues – campeonatos disputados aos domingos, organizados com promoção e rebaixamento por centenas de ligas ligadas aos diversos bairros da capital inglesa.

Quando eu cheguei na Inglaterra em 1986, aderi ao clube da vizinhança chamado Highgate Albion. Vi um anúncio num pub e me entreguei de corpo e alma à causa deste novo time de coração. Foram cinco anos de uma carreira amadora que acabou com uma contusão de profissional: ruptura do ligamento cruzado do joelho esquerdo aos 38 anos, num jogo no oeste de Londres contra uma turma de asiáticos excessivamente empolgados.

Em todas estas ligas, cada partida tem súmula, juiz, bandeirinha, impedimento, linha burra e jogadores nem tão inteligentes. Mas vale a pena. Eu acordava as 7 da matina para nadar e ficar alerta e esperto para a hora do jogo as 11 horas.  Era comum pisar os gramados cobertos de gelo com minha chuteira Puma King – um presente do Pelé para o saudoso Armando Nogueira que o filho dele e meu grande amigo Manduka doou para mim.

Cada um destes ‘clubes’ tem vários times, inclusive veteranos. Mas inglês nao é que nem brasileiro que vai envelhecendo na vida jogando sempre com os mesmos amigos – até muitas vezes depois dos 60 anos. A carreira média de um boleiro aqui resiste no máximo até os 50.

Meu futebolzinho modesto de lateral direito ou esquerdo não era lá grandes coisas mas contribui muito para o time. Numa viagem ao Brasil, consegui um jogo de camisas e chamei vários brasileiros que tinham atuado em divisões de bases – até no Santos – para fazer parte do time.

Esta história irreverente do futebol puramente amador não podia acabar sem uma lembrança do que foi a experiência de levar meu filho para uma escolinha inspirada no jeito de jogar brasileiro.

De uniforme azul e amarelo feito a nossa combalida Seleção, ele suava a camisa todo fim de semana num liga mirim do conhecido bairro de Camden Town.  O Luca era naquela época um menino esforçado. Mas não conseguiu aturar as constantes mudanças táticas.  Às vezes, ele começava jogando, saía no do primeiro tempo, ficava no banco morrendo de frio para voltar no segundo tempo e sair de novo.

Pais neuróticos gritavam à beira do campo e tudo não passava no fundo de uma grande paranóia. Nada de diversão ou deixar os garotos livres para se expressar ou improvisar do que jeito que bem entendessem. Os adultosreplicavam nas crianças o mesmo clima tenso que existe numa partida entre profissionais.

É claro que depois de uns três anos, o meu filho abandonou o time que tentava jogar inspirado no modelo do Brasil mas não chegava nem perto. Hoje com 20 anos, ele ainda disputa uns ‘rachas’ com os amigos ingleses no campo de uma escola que eles usam no fim de semana.

Para este botafoguense de fé, o prazer do futebol continua com a torcida pelo meu clube adotivo Tottenham Hotspur. Em 30 anos na Inglattera, posso concluir que a vida aqui teve dois tempos: o primeiro quando era feliz jogando bola. Neste segundo tempo, por conta do joelho bichado, tenho que me contentar em assistir à margem do campo – ou pela televisão.