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Nelinho

NELINHO, O CANHÃO DA LATERAL DIREITA

por Luis Filipe Chateaubriand 


Nelinho era um lateral direito como poucos. Vigoroso no ataque, fazia cruzamentos fortes e precisos. Mas, especialmente, desferia chutes fortes e precisos contra o gol adversário.

Marcou época jogando pelo Cruzeiro e, depois de curta passagem pelo Grêmio, acabou no grande rival cruzeirense, o Atlético Mineiro. Grande jogador que era, foi ídolo das duas torcidas antagonistas entre si. 

Uma passagem memorável do futebol de Nelinho foi o duelo que ocorreu com o goleiro Manga, do Internacional de Porto Alegre, na decisão do Campeonato Brasileiro de 1975, que este signatário só viu por imagens recuperadas. 

Mas o escriba teve o privilégio de ver, pela televisão, o gol que Nelinho fez na disputa do terceiro lugar da Copa do Mundo de 1978: tiro desferido com muita força e a meia altura para o gol a partir da intermediária direita, parecia que a bola ia para fora, passando a alguns metros da meta; contudo, durante a trajetória para o gol, a bola faz uma curva inacreditável, mudando de rumo e indo morrer, sorrateira, no fundo das redes do goleiro Zoff. Uma trivela inacreditável, feita pelo mago dos chutes certeiros. 

Nelinho será lembrado com o cara que, no futebol, fez dos chutes quase sempre indefensáveis sua marca registrada.

Luis Filipe Chateaubriand é Museu da Pelada!    

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA NELINHO


Enquanto o país inteiro ainda estava sob o ‘luto’ pelo ‘Maracanazo’ da derrota do Brasil para o Uruguai, por 2 a 1, na Copa do Mundo, em 16 de julho de 1950, nascia dez dias depois dessa tragédia, no subúrbio do Méier, no Rio, um certo Manoel Rezende Matos Cabral, filho do casal de portugueses Seu Manoel e D. Rosa.

Para provar, que o ‘mundo é mesmo uma bola’, quis o destino, que o Manoel crescesse como Nelinho (diminutivo do nome do pai Manoel e do padrinho, também Manoel), e virasse jogador de futebol; e que aos 20 anos, ainda como aspirante no Fluminense assistisse seu ídolo, o lateral direito Carlos Alberto Torres, o ‘Capita’, fechar o ‘caixão’ da Itália com um golaço na decisão do Tri no México.

Quatro anos depois, a ‘bola continuou girando’ e Nelinho, o filho da portuguesa D. Rosa, era convocado para substituir o seu ídolo ‘Capita’, cortado por contusão, na Copa da Alemanha, em 1974.

Para fechar o ‘giro da pelota do planeta futebol’, em 1978, na Copa do Mundo da Argentina, estava lá Nelinho, como se incorporado pelo espírito do ídolo Carlos Alberto Torres de oito anos atrás, marcando um dos gols mais bonitos de todas as Copas, justamente numa vitória que valia o título de ‘Campeão Mundial Moral’, contra a ‘freguesa’ Itália.

Nelinho, que marcou 180 gols, se tornando o lateral que mais vezes estufou as redes adversárias na história do futebol mundial, conversou com o ‘Museu da Pelada’ e é o nosso segundo personagem para a série ‘Vozes da Bola’, em comemoração ao Dia Nacional do Futebol, celebrado em 19 de julho.

por Marcos Vinicius Cabral 

Você estava em seu último ano como aspirante do Fluminense em 1970, quando foi contratado pelo América-RJ. O que houve ali?

Joguei no Fluminense no infanto-juvenil e o Pinheiro era o treinador. Nessa época eu iria subir para o aspirante do Fluminense e receberia uma ajuda de custo. Mas, o América me procurou e me propôs pagar um salário mínimo da época. Então, quer dizer, eu disputei o aspirante pelo América, ou seja, o último ano de aspirante pelo clube. Depois disso, não teve mais no Rio de Janeiro campeonato de aspirantes.

No mesmo ano, por indicação do técnico Otto Glória (1917-1986), você foi jogar no Barreirense F.C. de Portugal. Jogou por quase um ano no clube português, mas por conta de uma contusão voltou para o Brasil. Como foi essa época?

O Otto Glória era o nosso treinador no América e me indicou para o Bairrerense, porque o técnico lá era o Edsel Rodrigues, que havia trabalhado com ele como preparador físico do América. Aí, ele foi e me levou. Cheguei lá no final de julho e voltei em fevereiro do ano seguinte. Comecei bem, jogando como titular, mas aí tive uma contusão na virilha que eu não curava de jeito nenhum. Nesse meio tempo ele mandaram embora o treinador que me levou e coincidentemente eu parei de jogar por estar contundido, e eles achavam que eu estava fazendo corpo mole. Nessa briga eu pedi meu passe e não sendo atendido, vim embora e depois peguei o passe, pois depois eles precisaram de um documento assinado pelo meu pai, que exigiu isso deles. Aí fiquei com o passe livre. Em seguida, já em 1972, disputei o campeonato carioca pelo Bonsucesso, e começando o Brasileirão, fui contratado pelo Remo já com o campeonato em andamento. Nos últimos jogos me transformei numa espécie de ‘curinga’ do time. Não era titular absoluto, mas aí o Aranha, lateral direito se machucou e fui para a lateral e joguei bem os últimos três jogos. Inclusive, o último foi contra o Cruzeiro, quando chamei atenção da diretoria do clube e me convidaram para em 1973 assinar um contrato com eles. 


Em 1983 você recebeu pela quarta e última vez o prêmio Bola de Prata, da Placar. O que significou esse prêmio para você?

Recebi essa Bola de Prata jogando pelo Atlético Mineiro, e receber um troféu desse quilate sendo oferecido por uma revista conceituada no meio esportivo, como a Placar, foi uma satisfação muito grande. É o reconhecimento do que você fez na temporada, né? Significou muito para mim pela carreira que tive.

Você era office-boy no Centro do Rio e saía todo dia de casa com marmita e tudo. Sua mãe só ficou sabendo que você estava no América/RJ quando seu chefe ligou para sua casa perguntando por você. Como foi essa história?

Eu estudava no Pedro II, na Tijuca, e repeti o segundo ano colegial duas vezes seguidas. Aí, minha mãe falou: “Você não quer estudar não? Então, você vai trabalhar!”, e arrumou um trabalho para mim no Centro do Rio de Janeiro, de office-boy, numa empresa, não sei se era americana, sei lá,  chamada Arnico. Estava trabalhando nessa empresa quando recebi o convite, quando eu treinava no Fluminense escondido, em vez de ir trabalhar eu ia para o Fluminense. Então, nessa época, não estava no América, e sim no Fluminense, e aí o meu chefe ligou para minha mãe e falou assim: “Dona Rosa, o seu filho está doente? Por que doente?, respondeu ela. É que ele não tem vindo trabalhar! Como assim, se ele sai todo dia de casa com sua marmita para ir trabalhar? É mais não está vindo para cá não!”. Cheguei em casa depois de um treino e tive que explicar para ela que havia recebido um convite, que estava jogando futebol e que estava ganhando o mesmo que ganhava como office-boy. Ela me perguntou se era aquilo que eu queria para minha vida, eu respondi que sim e ela mandou eu ir com tudo. Aí saí do emprego e assumi a carreira no futebol.

Um ‘talho’ de cinco centímetros num dos tornozelos foi a causa de você não ter sido contratado pelo Botafogo, quando defendia o Bonsucesso. O que aconteceu de verdade?

Eu estava jogando no Bonsucesso no final de 1972, no Campeonato Carioca. O último jogo foi contra o Botafogo, no antigo campo do Mourisco, e eu fiz um gol de falta. Eu levei uma pancada no calcanhar e ficou doendo muito, mas eu joguei os noventa minutos. Quando terminou o jogo, ao tirar a chuteira, estava toda ensanguentada. Tinha um talho grande no calcanhar e precisei levar pontos. Fui para casa, pois meu contrato com o Bonsucesso tinha acabado, o Botafogo teve interesse em me contratar, mas como estava cheio de pontos no calcanhar não pude assinar e eles não quiserem esperar minha recuperação. Aí fiquei em casa e veio a proposta do Remo, já com o campeonato estadual deles em andamento em 1972. No ano seguinte, em 1973, cheguei ao Cruzeiro, após ter jogado muito bem por sinal contra ele antes, e fui muito bem no campeonato mineiro e no brasileiro. Em 1974, estava na lista dos 40 para a Copa do Mundo e o Carlos Alberto Torres se machucou e fui no lugar dele, ou seja, de reserva no Remo no final de 1972, titular em 1973 no Cruzeiro, e em 1974 já estava numa Copa do Mundo. No futebol não pode nunca desistir e tem que acreditar, porque se você enfrentar o primeiro problema e não seguir adiante, você pode se lamentar lá na frente. Isso felizmente não aconteceu comigo. Eu prossegui minha carreira e acabou dando certo.

Você enfrentou o ‘Carrossel Holandês’ comandado por Cruyff, na Copa de 1974? Acha que aquela maneira de jogar revolucionou o futebol?

Nesse jogo contra o ‘Carrossel Holandês’ eu não joguei e nem na reserva fiquei. Estava na arquibacanda do estádio assistindo. Realmente, foi a última grande mudança no futebol mundial e de lá para cá não existiu nenhuma novidade. Eles mudam a nomenclatura,  mas o futebol continua do mesmo jeito com os 3-5-2, 4-5-1, 4-4-2 e sei mais lá o quê, só muda isso, mas o jeito de jogar não. Ou seja, tem a bola joga e não tendo marca, é assim, não mudou absolutamente nada. Às vezes eu fico impressionado quando vejo os comentaristas inventando moda, sabe? Ficam inventando explicações, não têm. O futebol é simples e continua tudo no mesmo depois desse ‘Carrossel Holandês’.

Teve um Cruzeiro x Atlético em que você brigou com o Éder no início do jogo e foi expulso. Era 1982 e na época, a imprensa disse que essa briga foi o motivo para você não ter sido convocado para a Copa do Mundo da Espanha. Você concorda com a imprensa ou acha que não foi esse o motivo de Telê não ter te levado?

Não, eu acho que não. O Cruzeiro não vinha bem nesse ano e eu também não. Por outro lado, o Edevaldo, do Fluminense, estava em excelente fase, sem falar do Leandro. Então, eu acho que a convocação dos dois foi correta é nada tenho a reclamar sobre isso. Muita gente comenta sobre essa briga, que se não tivesse brigado com o Éder eu talvez poderia ter sido convocado, mas particularmentebnão  penso assim. Acho sim, que a convocação já estava pronta independentemente daquele jogo.

No dia 19 de julho é comemorado o Dia Nacional do Futebol. O que o futebol representou para o Nelinho?

Representou tudo na minha vida. Se não fosse o futebol, eu nem sei o que teria sido na vida, que carreira escolheria seguir e como eu abandonei os estudos no segundo ano colegial, eu seria o quê? Não sei, só Deus sabe o que iria acontecer comigo. Mas, com certeza o futebol me salvou e fez com que eu, hoje em dia, tenha uma família estruturada. Hoje posso dizer que foi graças ao futebol que consegui tudo na vida e pude, a partir daí, montar minha academia e viver dela. Infelizmente o momento não é bom para as academias, mas espero que melhore.

Você sempre é lembrado como um dos grandes laterais direitos de todos os tempos do futebol brasileiro, ao lado de Djalma Santos, Carlos Alberto Torres e Leandro. Na sua opinião, quem foi o maior da posição?

É difícil responder essa pergunta, pois tivemos muitos bons laterais como o Cafú, Daniel Alves, Jorginho, Leandro, Djalma Santos, Carlos Alberto Torres. Mas para mim, que eu era fã, o melhor deles todos foi o Carlos Alberto Torres. Me espelhei muito nele e nas coisas que ele fazia dentro de campo. Mas o principal dele na minha opinião era que ele simplificava as jogadas, e em vez de dar dois toques na bola e passá-la para o companheiro, ele fazia isso com um toque só. E isso eu procurei fazer enquanto fui jogador profissional. Existem jogadores que dominam a bola e dão um, dois, três toques na bola para depois passar. E isso aí o Carlos Alberto Torres me ensinou a fazer diferente.

Como tem enfrentado esses dias de isolamento social devido ao coronavírus?

Olha, para mim, esse isolamento tem sido tranquilo demais. Por que? Eu vivo em comunidade com filhas, genros e netos, e temos nos cuidado bastante. O convívio diário entre nós faz com que as coisas fiquem bem amenas em relação às outras famílias que não têm essa oportunidade.

Quem foi seu grande ídolo do futebol?

Na lateral direita foi o Carlos Alberto Torres, mas não tenho um ídolo apenas, tenho vários. Os craques do futebol brasileiro eu gostava de vê-los jogando, alguns enfrentei ou joguei a favor, e antes de ser jogador eu era torcedor, né? Era morador do Rio e vascaíno, e tinha muitos deles como ídolos, além dos outros como Garrincha, Didi, Nilton Santos, Dida e Moacir do Flamengo… Nossa, só craques! Então eu não tenho um único ídolo a não ser o Pelé que foi o maior de todos, mas não, sempre gostei de ver os craques jogando.

O Maracanã completou 70 anos recentemente. Quais são as suas lembranças do estádio?

Minha primeira recordação do Maracanã foi jogando no aspirante do América/RJ contra o São Cristóvão, se não estiver enganado. Foi a primeira vez que joguei no estádio. Mas antes, já tinha pisado como torcedor, pois era um menino, e o Olaria foi treinar com o Santos, na véspera da decisão do mundial contra o Milan/ITA, e seu Duque, treinador, me levou. Foi inesquecível, pois entrei em campo, bati bola, cobrei pênalti e infelizmente nesse dia o Pelé nem treinou porque estava machucado e também não jogou essa decisão.

Qual foi o melhor treinador com quem você trabalhou?

Tive vários. Seu Zezé Moreira (1907-1998), nosso treinador na conquista da Libertadores pelo Cruzeiro; Telê Santana (1931-2006), com quem trabalhei no Atlético; e Osvaldo Brandão (1916-1989), gente finíssima, além de ser ótimo treinador, um cara maravilhoso para se lidar. Era brincalhão, dava moral para o jogador. Esses três foram os melhores, claro, sem esquecer do Zagallo, meu treinador em 1974 na Copa do Mundo.

Você teve uma longa e bonita história no Cruzeiro, não foi?


Foi bonita porque eu era um reserva do Remo/PA e no Cruzeiro eu conquistei tudo que um jogador profissional poderia conquistar. Sou muito grato ao clube por me proporcionar isso. E se eu consegui meus objetivos foi porque o Cruzeiro era um senhor clube e contava com excelentes jogadores como Raul, Piazza, Dirceu Lopes, Zé Carlos, Palhinha, Joãozinho… enfim, qualquer um que chegasse ali para jogar naquele time ia ter uma facilidade maior. Mas o Cruzeiro foi muito importante para mim e sou eternamente grato por isso.

Nelinho, aquele seu gol contra a Itália, na Copa de 1978, foi extraordinário. Foi desenvolvido nos campos da ‘Boiada de Olaria’?

É. A ‘Boiada de Olaria’ foi o início de tudo. A gente chegava lá,  três, quatro meninos para jogar e não tinha número para fazer time contra, então azíamos chutes a gol. Eu particularmente,  passei a gostar de ficar chutando e quando cheguei aos profissionais me especializei. Mas o começo de tudo foi na ‘Boiada de Olaria’

Você, Éder ou Roberto Carlos. Quem foi o maior chutador do futebol brasileiro?

Esse negócio de maior ou melhor chutador do futebol brasileiro é muito difícil você apontar um. Cada um tem sua característica, sabe? Mas eu considero grandes batedores de falta aqueles que fizeram muitos gols. O Éder eu sei que fez, o Roberto Carlos eu já não sei, porque ele jogou muito tempo lá fora, mas eu incluíria o Marcelinho Carioca, como um dos maiores batedores  de falta de todos os tempos. Esse cara batia de toda forma e de qualquer lugar e se assemelhava muito como eu gostava de bater também, com lado interno, externo, peito de pé, de perto e de longe e de todos os lugares do campo. Então, para mim, apesar do Éder ter sido um grande cobrador de faltas, tínhamos o Zico e o Roberto Dinamite que batiam uma bola mais colocada. Mas o maior foi o Marcelinho.

Apesar de carioca, você foi o jogador que mais atuou no Mineirão, com 348 jogos. Além disso, despontou no Cruzeiro e encerrou a carreira no Atlético Mineiro. Que balanço você faz da carreira?

Quando eu conto para meus familiares e amigos sobre a minha história no futebol, e principalmente, para os que estão começando a carreira, eles se assustam. Porque teve muitos percalços, foi fácil não! Profissionalmente eu comecei no América/RJ, fui para Portugal e voltei por não ter dado certo, quase desisti da carreira, fui para a Venezuela, onde joguei com alguns que jogaram comigo no América/RJ, por um tempo lavei meu material de treino, quer dizer, não tinha estrutura nenhuma. Depois reiniciei pelo Bonsucesso, passei no Remo/PA e finalmente cheguei ao Cruzeiro. A partir daí é que as coisas clarearam mas até eu chegar no clube mineiro foi muito sofrimento, viu? Então, às vezes os caras que comentam sobre determinado jogador, como se ele não jogasse nada, eles esquecem que o jogador está no time errado, no momento errado do clube e acaba não rendendo. Aí ele sai dali e joga bem em outro clube e eles ficam se perguntando: “Pô, como esse cara não jogava isso no clube que ele passou?”. É isso, às vezes você passa por um clube e não está bem ou o clube não vive uma fase boa, o jogador não consegue produzir. No meu caso foi isso, eu cheguei no Cruzeiro na hora certa e o time estava embalado, e eu joguei tudo o que sabia. Mas antes, não! Por quê? Porque os clubes por onde eu passei não tinham a estrutura que  Cruzeiro tinha. E depois disso, quando fui para o Atlético/MG, foi quando o Cruzeiro estava sendo desmantelado, enquanto o Atlético/MG estava totalmente montado com Cerezo, Éder, Reinaldo, Luizinho… nossa, só grandes jogadores. Aí,  facilitou para mim e consegui encerrar minha carreira em altíssimo nível, justamente porque eu caí em um clube bem estruturado como o Atlético/MG. Posso dizer que a minha carreira profissional, a partir da minha chegada aqui em Minas Gerais foi que deslanchou. Antes disso, só sofrimento. Mas não tenho o que reclamar não. Serviu para minha vida pessoal.

Qual foi o gol mais bonito que você fez na sua carreira?

Não foi apenas o mais bonito, como foi o mais importante: o gol contra a Itália na Copa do Mundo de 1978.

A SIMETRIA E O MOVIMENTO

por Eliezer Cunha

Nelinho, Roberto Carlos e a bola…

A simetria justifica, estabelece e preserva as condições básicas para a concordância dos movimentos. Os aviões plainam no ar e os navios deslizam sobre as águas respeitando a condição elementar da geometria simétrica, e aí o movimento acontece naturalmente.

Um voleio, uma bicicleta e um peixinho são os movimentos sagrados do futebol. A simetria contribui também para que o futebol seja justo para ambas as equipes. A bola é simétrica o gol e o campo são simétricos, o jogador é simétrico e, o apito que pode decidir uma partida também é simétrico.


“Tudo que move é sagrado”, disse Beto Guedes.

Numa partida, a bola respeita a funcionalidade da simetria em concordância com o poder da gravidade, as jogadas podem então serem previsíveis e seus resultados também. Alguns jogadores diferenciados em um certo fundamento, o chute, podem contrariar essa teoria, Roberto Carlos e Nelinho são bons exemplos.

A bola movimentada por eles descrevia um movimento discordante e indeciso e, a princípio parecia que a jogada não se concluiria conforme desejado, mas, de repente, eis que a pelota ultrapassa jogadores e balizas e vai se acomodar definitivamente no fundo da rede. É o chamado efeito.

Em minhas humildes recordações e nas paredes de minha memória estão guardados o gol de Nelinho contra a Itália na Copa de 78 e Roberto Carlos contra a França em 1997. Os demais artistas da bola me permitem concluir, neste quesito, são lógicos e previsíveis.