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Marcos Vincius Cabral

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA LEANDRO


Certa vez, em 1987, sentado na bola, Leandro chamava a atenção pela forma que observava seus companheiros correndo no gramado da Gávea. Apesar de um belo par de olhos esverdeados e difíceis de não serem notados como seu futebol, o olhar escondia, até aquele momento, uma tristeza – a mesma que lembrou o episódio quando foi considerado acabado para o futebol e reprovado nos exames médicos no Internacional, em 1979, numa transação de empréstimo – que abalaria mais ainda o jogador de 20 anos à época.

Vítima de problemas crônicos nos joelhos – artrose no direito e tendinite no esquerdo – o imortal camisa 2 e 3 rubro-negro poderia ter ido mais longe na carreira. Como todo craque, era diferenciado. Tanto que não treinava em dois turnos como os demais. Fazia apenas exercícios específicos de peso, como por exemplo, fortalecimento muscular em que levantava 25 kg com a perna direita e 15 com a esquerda, 250 vezes.

“Cada partida disputada por Leandro é uma obra de arte do departamento médico do clube”, diria certa vez com semblante leve o falecido e lendário médico rubro-negro, doutor Giuseppe Taranto, sublinhando que Leandro se submetia às ondas eletromagnéticas – a famosa corrente russa -, laser, ultrassom e gelo, muito gelo em ambos os joelhos.

Tudo isso para combater (ou tentar) o “Mal de cawboy”, que segundo especialistas, só seria possível se o jogador tivesse usado gesso com aparelho ortopédico entre os dois e cinco anos, além de ser submetido a uma cirurgia até os dez. Embora com todas essas dificuldades, não lhe faltaram adjetivos, elogios, aplausos e títulos, muitos títulos, que se devem porque Leandro era dotado de uma qualidade técnica inesgotável e de infinitos recursos.

Clássico, jamais desleal – em 415 jogos na carreira, foi expulso uma única vez, naquele 23 de novembro de 1983, quando se desentendeu com o ponteiro Ado do Bangu, no Campeonato Carioca daquele ano -, Leandro é o típico jogador que tinha a lisura e a lealdade como aliadas à sua incontestável habilidade com os pés, pernas, cabeça, peito, ombros, menos as mãos.

Encerrou sua brilhante carreira vestindo apenas a camisa do Flamengo – com exceção da Seleção Brasileira – ao longo de 12 anos como profissional. Mas Leandro merecia mais. Muito mais! O futebol também. O torcedor do Flamengo e o apaixonado pelo esporte bretão mereciam vê-lo por mais tempo em campo. A bola chorou por essa separação quando o Peixe-Frito, desamarrou os cadarços de suas chuteiras e deixou ali em um canto qualquer do vestiário no estádio Proletário Guilherme da Silveira Filho, popularmente conhecido por Moça Bonita. Era a despedida de um craque que por ser tão leal na execução das regras e lisuras do jogo, saiu de cena de forma simples, coisa que o seu futebol nunca foi.

O Vozes da Bola traz um dos maiores laterais-direitos de todos os tempos. Não somente no Brasil. E sim no mundo. Leandro, cabofriense de carteirinha, é nosso 32° personagem, que em março deste ano, soprou velinhas e comemorou 62 anos de vida. E de muitas histórias.

Texto: Marcos Vinicius Cabral

Edição: Fabio Lacerda

O que representou o Fla-Flu de 1969 na sua vida? Você ouvia o jogo pelo radio na companhia do seu pai e foi no banheiro rezar pela virada. Fale sobre esse momento quando você tinha dez anos.

Eu já acompanhava jogos do Flamengo, mas acho que ali senti algo diferente no meu coração e na alma com aquele gol do Dionísio. Eu falei para o meu pai que ia no banheiro fazer xixi e acabei me ajoelhando na sala, rezando, pedindo a Deus para o Flamengo empatar e alegrar o meu pai. Na minha volta do banheiro, o Flamengo acabou empatando, mas infelizmente, depois levamos o terceiro gol que culminou na perda do título. Mas lembro que quando eu ouvi o Jorge Curi narrando aquele golaço do Dionísio, pô, me deu uma emoção tão grande em ver meu pai tão feliz que ali nasceu esse sentimento forte com o Flamengo.

Relate sobre sua chegada ao Flamengo. Deu frio na barriga sair de Cabo Frio para chegar à Gávea?


Eu morava na Praça da Bandeira, Zona Norte do Rio, e fui fazer o pré-vestibular na época. Aí, pegando o ônibus com um primo chamado Nonato, o ponto final era na Praia do Leblon, praticamente, em frente ao Flamengo. E aí esse meu primo teve a ideia de sugerir para eu pedir para fazer um teste na Gávea. E como eu era muito envergonhado, falei que se ele pedisse eu treinaria sem problemas. Como ele era insistente, fomos lá e ele pediu para eu treinar. Aí, o “seu” Orlando, diretor de esporte amador, perguntou: “Você joga em que posição?”. Respondi que jogava de lateral-esquerdo. Ele continuou: “Mas você é canhoto?”. Disse: “Não, eu sou destro”. Aí meu primo se intrometeu e falou: “Seu Orlando, ele bate com as duas e muito bem”. O “Orlando” olhou assim, meio desconfiado, mas marcou um treino às 14h do dia seguinte. Compareci, e apesar da dificuldade de arrumar uma chuteira, pois eu fui pego de surpresa, e como não tinha, consegui com muito custo uma par emprestado com dois números acima do meu. Enchi com algodão molhado e fui para o teste. Me saí bem, fiz dois gols e fui aprovado para voltar no dia seguinte. Foi aí que começou minha história até chegar nos juniores.

Há uma curiosidade que pouca gente conhece envolvendo você e o Júnior. Quando você chegou ao Flamengo, em 1976, jogava na lateral-esquerda e acabou sendo deslocado para a direita, e o Júnior em 1974 era lateral-direito e foi deslocado à esquerda. Você já imaginou disputar posição com o Júnior?

Jamais! Caramba, eu nunca pensei nisso. Na verdade, quando eu cheguei no Flamengo, eu já sabia que o Júnior jogava na lateral-direita, tanto que até hoje lembro daquele golaço que ele fez do meio de campo na decisão do Campeonato Carioca contra o América, em 1974, na vitória por 2 a 1. Mas eu cheguei na Gávea como lateral-esquerdo, porque eu era lateral-esquerdo em Cabo Frio, entende? Mas te confesso que ia ser uma complicação enorme ali na disputa pela titularidade. Ainda bem que o professor Américo Faria teve uma visão boa quando se machucou o lateral-direito, e ele me deslocou para a posição oposta da minha origem. Fui bem, me adaptei e graças a Deus não precisei disputar nada com o Júnior, pois te confesso, ia ficar muito complicado.

Você ganhou quatro títulos brasileiros pelo Flamengo (1980, 1982, 1983 e 1987). Qual foi o mais difícil?

Nenhum título é fácil. Todos os títulos têm suas dificuldades e seus pesos. O Flamengo de 1980, 1982, 1983 e 1987, só enfrentou timaços. Em 1980, eu participei muito pouco, quer dizer, quase nada. Fiquei uma ou duas vezes no banco, apesar de ter concentrado. Fiz parte do plantel. Em 1983, foi um campeonato difícil e na reta final da partida eu fiz um gol importante na final contra o Santos. O time estava muito bem, mas já não era o mesmo e tínhamos as entradas do Júlio César e do Élder. Em 1987, já foi uma equipe mais mesclada com experiência de alguns como eu, Edinho, Andrade, Zico e Renato, com jovens promessas como Zé Carlos, Jorginho, Leonardo, Ailton, Bebeto e Zinho, e lembro que começamos a Copa União muito mal e depois melhoramos e partimos para a conquista do título. Mas eu acho que o de 1982, foi pancada, porque nós pegamos o Grêmio em duas partidas seguidas, no estádio Olímpico. Empatamos por 1 a 1, no Maracanã, depois por 0 a 0, em Porto Alegre, e ficamos uma semana para disputar o terceiro jogo lá no Olímpico. Fizemos 1 a 0, gol de Nunes, depois sofremos uma pressão enorme, torcida em cima, um Grêmio com jogadores técnicos e de grande habilidade, mas conseguimos vencê-los. Esse título de 82 foi sofrido, foi complicado. Vamos dizer assim, porque todos os títulos de Campeonatos Brasileiros tiveram suas dificuldades.

Como foi ter jogado numa geração tão vitoriosa do Flamengo que começou na reta final da década de 1970?

Isso aí é uma coisa que muita gente fala, pergunta: Se não era melhor ter nascido agora e jogar com esses jogadores atuais que estão ganhando tanto dinheiro? Uns falam que eu estaria milionário, que eu jogaria em alto nível, que seria isso, conquistaria aquilo, mas vou te confessar uma coisa: eu agradeço a Deus por ter nascido naquela época, por ter convivido com tantos jogadores maravilhosos e jogado numa geração fantástica. Antes de 1976, joguei com muita gente boa de bola, vi muito ‘cracaço’ jogar, e se tivesse nascido agora, ou fizesse parte agora do futebol, não teria esse privilégio. Então, eu posso revelar para vocês do Vozes da Bola que foi uma honra, um privilégio imenso e eu só tenho que ficar grato por todos esses jogadores dos quais fizeram parte da minha história e eu da história deles.

Qual foi o melhor time do Flamengo que você jogou?

Essa pergunta não tem nem como não ser o time de 1981, né? Nem é preciso pensar muito: Raul; Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.

Como foi ganhar a Bola de Prata, prêmio concedido pela revista Placar em 1982 como melhor lateral-direito do Brasileirão e em 1985 como melhor zagueiro?


Pois é, rapaz, a concorrência era grande em 82 e 85, assim como em outros anos também. Para ganhar esse troféu é necessário você jogar em uma equipe boa, ser regular na competição toda, já que é um campeonato longo, mas Bola de Prata é Bola de Prata, né? Já a Bola de Ouro era complicado, mas cheguei a disputar com o Marinho do Bangu, que só foi decidido no último jogo entre Flamengo e Bangu, no Maracanã. O Marinho levou com méritos e foi escolhido o melhor jogador de 1985. Mas eu tenho as duas aqui na minha pousada com muita honra e muita satisfação em ter sido escolhido entre os melhores dos Campeonatos Brasileiros de 1982 e 1985.

Quem foi o ponta-esquerda mais difícil que você marcou? E também o centroavante?

Talvez não tenha sido o mais habilidoso, porque nós tivemos muitos, mas eu achava o Zé Sérgio fantástico. Um ponta que driblava para dentro e para fora com a mesma facilidade, mas esse eu nunca marquei, ainda bem. Mas marquei muitos outros enjoados, O mais chato, o mais carrapato, o mais perturbado era o João Paulo, do Santos, que depois jogou no Flamengo. Esse não tinha medo de porra nenhuma! Vinha para cima, dava uns tapas no fundo para correr, cruzava de efeito por trás das minhas pernas. Esse era complicado de marcar. E centroavante, marquei muitos e bons, foras de série. Mas o Roberto Dinamite, o Careca e o Romário, no início de carreira, foram os atacantes mais difíceis.

Certa vez você disse o seguinte sobre Brasil x Itália de 82: “Vira e mexe me pego pensando no que podia ter feito a mais. De vez em quando revejo o jogo, mas paro quando o placar está 2 a 2. Não consigo ver o terceiro gol deles, nem o final da partida”. Na sua opinião, o que vocês fizeram de errado naquela derrota conhecida como ‘Tragédia do Sarriá’?

Cometemos erros naqueles 90 minutos. Mas é bom ressaltar que jogamos contra uma equipe muito técnica e que cresceu dentro da competição. Sinceramente falando, pelo nosso time tinha jogadores fantásticos com um quarteto magnífico no meio de campo, laterais que apoiavam muito, um zagueiro que saía sempre para explorar a jogada aérea como Luizinho. Apenas Waldir Perez e Oscar ficavam lá atrás. O Brasil era um time que jogava para frente o tempo todo, mas eu acho que se nós tivéssemos entrado com um pouquinho mais de consciência, vamos dizer assim, que o empate já nos dava a classificação, acho que se segurássemos um pouquinho mais e esperássemos a Itália, a gente teria mais espaços e eles ficariam nervosos e o resultado teria sido outro. Mas o time do Brasil era aquele negócio de querer ir para cima, para cima, para cima, e se fizesse três queria fazer quatro. Mas era o estilo de futebol praticado pelos seus jogadores. No entanto, eu acho que tinha de ter um pouquinho mais de preocupação nessa hora. Ainda mais naquela fase que era mata-mata e passando ali era semifinal. A gente se descuidou nesse sentido.

A eliminação da Seleção no Mundial de 1982, e a renúncia à Copa de 1986 em solidariedade ao corte de Renato Gaúcho, são os capítulos mais tristes na sua carreira?

Pode ser. Acho que derrotas são tristes, contusões nos deixam tristes, perdas de companheiros de profissão nos marcam a vida e deixam um vazio triste na gente. A Copa do Mundo de 1982, a tristeza foi por diversos motivos. O povo brasileiro com aquela alegria toda, a gente muito confiante na conquista do título e muitos jogadores do nosso time que mereciam ser campeões do mundo pelo tanto que fizeram pelo futebol brasileiro. Com certeza foi uma tristeza muito grande naquele dia lá, foi um silêncio que machucou de verdade. Em 1986, a tristeza foi por não ter participado, porém, sem remorso da decisão que tomei naquele episódio. Não me arrependo de nada e faria tudo da mesma forma, entendeu? Mas a eliminação de 82 foi brabo.

Voltando a falar da sua ‘primeira pele’, a rubro-negra: e o golaço no Fla-Flu de 1985?

“Golaço aço aço aço!” Foi assim que Jorge Curi narrou, resgatando aquele gol do Dionísio de 1969 narrado por ele também. Naquele jogo, o Flamengo massacrando o Fluminense no segundo tempo e a bola não entrava. Eu lembro que fomos para cima, eu atacando, o Cantereli jogando praticamente no meio-campo, a gente procurando, insistindo e eu sabia que ia acontecer alguma coisa. A todo instante eu falava com Andrade para continuar tentando, incentivava o Jorginho a não desistir, só não sabia que ia acontecer comigo e que seria predestinado. Mas aquela bola, quando o Andrade cruzou para a área e o Washington rebateu de cabeça para a intermediária, ela veio quicando e, tinha o Jorginho na direita, eu pensei em tocar para ele mas vim com tanta confiança que aquele chute ou vai lá fora do estádio ou na gaveta, sabe? Mas pegou na veia e ia entrar direto, mas o Paulo Victor ainda tocou nela e a sorte foi que bateu na trave e nas costas dele e entrou mansamente. Não foi o gol mais importante, é verdade, mas foi o mais emocionante. Esse Fla-Flu foi um dos dias mais importantes na minha vida dentro do futebol.


Uma semana depois, o locutor esportivo Jorge Curi, faleceu em um acidente automobilístico quando ia passar o Natal na cidade de Caxambu-MG. Rubro-negro, ele narrou o último gol do Flamengo marcado por você no Fla-Flu. É verdade, que um parente dele te ligou e disse que o radialista era seu fã? E pediu que você mandasse uma camisa para velar o corpo?

Naquela época, quando a gente viajava, era normal ficar no saguão dos aeroportos ou nos hotéis e encontrar esses ícones do radiojornalismo. A gente conversava muito com o Jorge Curi, com o João Saldanha, com o Waldir Amaral, era uma coisa normal encontrá-los nesses lugares. Mas eu não sabia dessa admiração do Jorge Curi por mim e fiquei sabendo quando ele faleceu. Um parente dele ligou para minha casa dizendo que ele era muito meu fã, que falava muito de mim, que como rubro-negro era apaixonado pelo meu futebol e que aquele gol havia emocionado muito ele. Perguntou se eu podia ceder a minha camisa para o corpo dele ser velado. Pô, imagina! Eu quase chorei com esse pedido. Isso era uma honra para mim e entreguei a camisa para este parente do lendário e saudoso locutor esportivo. Foi isso. É verdade essa história.

Qual foi o gol mais importante que você marcou pelo Flamengo ao longo dos seus 12 anos como profissional?

Fiz um gol contra o Sport em 82, lá em Recife, que foi importante na campanha do título de 82. Na verdade fiz dois, mas um foi anulado. Se a gente perdesse por 2 a 0, estaríamos eliminados, e com esse meu gol, o jogo terminou 2 a 1 e acabou nos classificando. Mas o gol na final do Campeonato Brasileiro de 83, sem dúvida, foi o mais importante. E o engraçado é que na manhã do dia do jogo, eu havia falado que venceríamos por 3 a 0, com um gol meu, do Adílio e do Zico. Não foi nessa ordem mas acertei o placar e os autores dos gols (risos).

Você foi campeão da Copa União, em 1987, ao lado do Edinho. O ex-tricolor foi um dos seus melhores parceiros na formação do miolo de zaga em toda carreira?

Edinho foi um ‘cracaço’, jogador de três Copas do Mundo pela Seleção Brasileira. Foi uma honra ter jogado ao seu lado e ter sido campeão em 1987. Mas joguei com muita gente boa, como Figueiredo, Aldair, Guto, Zé Carlos II, mas para mim o Mozer foi o meu melhor companheiro de zaga. Lembro que quando passei da lateral à zaga, essa transição complicada para todo jogador, ele me ajudou muito e nos entrosamos rápido. Para de ter uma ideia, a nossa dupla foi tão boa que o saudoso João Saldanha escreveu numa coluna no Jornal do Brasil que foi a melhor dupla de zagueiros que ele viu jogar. Mas o Edinho foi um monstro como zagueiro e quando acertamos, crescemos juntos com o time e acabamos conquistando o Brasileiro de 87.

Quem foi sua grande inspiração no futebol?

Até então eu não tinha nenhuma inspiração, nenhum jogador que eu me espelhasse ou coisa parecida. Mas a partir do momento que o Zico começou a surgir no Flamengo, eu com meus 13 anos comecei a admirá-lo. E acabou se tornando fonte de inspiração.

Qual foi o treinador que você teve mais afinidade a ponto de achá-lo o melhor?

Eu nunca tive problema com treinador não! É lógico que a gente se dava melhor com um ou com o outro, em termos de empatia mesmo. Posso dizer que muitos treinadores foram importantes na minha carreira como o professor Américo Faria, o meu primeiro treinador, um cara fantástico, a quem devo muito a ele, o Lazaroni, que se tornou um grande amigo, o Carpegiani, que foi além de treinador, meu companheiro de time, o Cláudio Coutinho, que me lançou no profissional, o Joubert, outro excelente treinador. Como não falar do Carlinhos, o grande Violino, outro extraordinário treinador! Mas em termos de afinidade, eu cito o Carpegiani e o Lazaroni, mas o Telê Santana, apesar de não ter muita afinidade por ele ser um cara fechado, foi, ao lado do Américo Faria, os melhores deles todos, sem dúvida!

Na sua opinião, quem foi o maior lateral-direito do futebol brasileiro?

Rapaz, que pergunta complicada. Nós tivemos grandes laterais no futebol brasileiro, jogadores que eu nem vi jogar, ou se vi, foi pouco e que a gente sabe pela história contada. Como falar de grandes nomes da posição em que joguei sem citar o Djalma Santos e o Carlos Alberto Torres? Eu peguei no final de carreira o Nelinho e o Toninho Baiano, por exemplo, que foram maravilhosos. E o Carlos Alberto, que veio do Joinville, chamado de Mão Branca por nós? Cracaço de bola e que em recente conversa com o Tita, nos lembramos de um golaço que ele marcou na vitória por 4 a 3 contra o Coritiba, no Maracanã, pelo Campeonato Brasileiro de 1980. Mas tivemos outros espetaculares como Paulo Roberto, Luís Carlos Winck, Josimar, Cafu, que disputou três finais de Copas do Mundo. Da geração mais atual tivemos dois baitas laterais que foram o Maicon e o Daniel Alves, mas de todos eles, com todo respeito, o Jorginho para mim foi o melhor.

Como foi marcar o Romário iniciando a carreira e você prestes a pendurar as chuteiras na sua?

Enfrentei o Romário no começo da carreira dele e eu já no final da minha, já com problemas acentuados nos meus joelhos. Mas mesmo assim, que eu me lembre, nas vezes em que nos enfrentamos, dei uma única vacilada (risos) quando pisei em falso e fui recuar para o Zé Carlos e ele se antecipou. Como era rápido chegou antes do Zé, deu um balão e fez o gol. Mas era um jogador muito rápido e extremamente inteligente. Mas na época, o mais temido era o Roberto. No entanto, o Baixinho dava trabalho demais. Mas não queria enfrentar esse Romário mais maduro não, e ainda bem que isso não aconteceu. Eu parei antes. (risos).

Qual time você mais gostava de enfrentar? O Zico disse que foi o Botafogo, enquanto o Júnior citou o Vasco.

Eu acho que o Fla-Flu sempre teve a mística de ser charmoso, aquela história de ter surgido 40 minutos antes do nada, como dizia Nelson Rodrigues. Já Botafogo tinha aquela rixa da época do Garrincha e anos depois o 6 a 0 que o Zico pegou muito mais do que eu. Mas o Vasco, foi o clube que eu mais gostava de enfrentar. Recordo do Maracanã lotado, rivalidade e provocações de lado a lado, dois clubes com camisas de peso e tradicionais no futebol, além é claro, dos jogadores maravilhosos que os dois clubes tinham. Nessa eu estou com o Júnior, é o Vasco.

Como surgiu o apelido Peixe Frito?

Certa vez, eu estava de férias, e passou uma pessoa e me viu tomando uma cervejinha e comendo um peixinho numa barraca de um amigo em Cabo Frio. Coisa normal, já que eu estava na praia de férias do Flamengo. Só que essa história chegou aos ouvidos do Waldir Amaral ou Jorge Curi, como se a barraca fosse minha. Aí, começaram a me chamar de Peixe-Frito. E o apelido acabou pegando.

Qual foi sua reação quando foi colocado seu busto na entrada da sede social do Flamengo?


Emocionante demais! Minha família toda lá, meu pais, esposa, filhas, amigos de infância e ali você vê que todo seu esforço valeu a pena. A gente não faz nada pelo Flamengo pensando em algo em troca mas aquela homenagem em vida fica eternizado. Tenho que agradecer aos envolvidos neste busto que foi uma das maiores emoções que eu pude ter na vida (olhos lacrimejados).

Escale para os leitores do Museu da Pelada o Flamengo de todos os tempos.

O Flamengo de todos os tempos é complicado escolher, pois são muitos craques que vestiram a camisa rubro-negra. Agora se for para escolher o time, é o de 1981.

Como tem enfrentado esses dias de isolamento social devido ao coronavírus?

No início, reuni todos os familiares e ficamos na pousada, por cinco meses. Depois que as coisas foram se normalizando, aos poucos, saíamos apenas o necessário, como fazer compras, por exemplo. Mas estou até sentindo falta dos filhos que moram no Rio, dos tempos que passávamos juntos. Mesmo na pandemia, a oportunidade que tive de reunir todos aqui na pousada mantendo nossos cuidados, com álcool em gel, distanciamento, máscara. Nada de aglomeração.

Jornalistas esportivos de todo o mundo totalizando 140 escolheram o Cafu como o melhor lateral-direito da história do futebol de todos os tempos. Achou justo a escolha?

Cafu é sensacional. Em números, é inquestionável, imbatível, inalcançável. Queria poder um dia apertar a mão dele e lhe parabenizar por tudo o que ele representou para o futebol brasileiro e mundial. Ele é força e perseverança, e tem uma história fantástica.

Defina Leandro em uma única palavra?

Tenho que pensar. Sensível, emotivo (risos), amigo. Essa eu deixo para vocês.

AH, LAN, POR QUE VOCÊ SE FOI?

por Marcos Vinicius Cabral


Enquanto o Flamengo vencia por 3 a 2 o Athletico Paranaense na noite desta quarta-feira (4/11) e avançava às quartas de final da Copa do Brasil, Lanfranco Aldo, conhecido no humor gráfico brasileiro como Lan, perdia a luta pela vida.

Internado há dois meses no Hospital da Beneficência Portuguesa em Petrópolis, o italiano mais brasileiro que as folhas de papéis e tintas nanquim conheceram enfrentava problemas de saúde.

Normal para um senhor com quase um século de vida (na verdade, aos 95 ele disse tchau e simplesmente partiu).

Partiu sem que eu pudesse dizer meu muito obrigado.

Mas lembro com os olhos marejados que o mais próximo que eu cheguei do mestre de voz suave, cabelos e bigode brancos foi na faculdade Estácio de Sá, em Niterói.

Morador há mais de 40 anos do bairro Pedro do Rio, em Petrópolis, Lan buscava sossego longe da Cidade Maravilhosa, onde viveu por muitos anos.

Nascido em 1925 na cidade de Montevarchi, na região italiana da Toscana, o craque da caricatura trabalhou como jornalista gráfico na Argentina, França e Uruguai. 

Entre idas e vindas em solo verde e amarelo, em 1952, convidado por Samuel Wainer, começou a trabalhar no Última Hora, onde publicou um de seus trabalhos mais marcantes: uma caricatura do político Carlos Lacerda, em que retratava o arqui-inimigo de Getúlio Vargas como um corvo. 

Mais tarde, o animal foi incorporado pelo próprio Lacerda a suas peças de propaganda.


Mas desenhar figuras emblemáticas da nossa política e corvos,  não era a sua praia, embora mergulhasse em qualquer tipo de mar e surfasse com maestria nas ondas políticas, culturais, esportivas e figuras humanas.

Antes de se transformar no chargista _hors concours_ no humor gráfico nacional, entrou no departamento de artes do Jornal do Brasil pela primeira vez em 1962 – onde permaneceu por 33 anos – e em seguida, retratou com a percepção aguçada o cotidiano dos cariocas sempre bem ilustrado na coluna ‘Cariocaturas’, no O Globo.

Desbravador do caminho tortuoso dos cartuns, charges e caricaturas na imprensa carioca, foi ele com seu imenso talento e altruísmo peculiar, que abriu caminho para Henfil e Ziraldo.

Já o paulistano Chico Caruso – a quem trouxe para o Rio de Janeiro, em 1978 -, titular do O Globo desde 1985 e o matogrossense Ique – único chargista bicampeão do prêmio Esso em 1991 e 1992 – devem muito ao velhinho de cabeça branca e bigode fino que escondia o sorriso sincero de quem fez muito por muita gente.

Mas sua verdadeira paixão era pela boemia carioca e pela beleza das mulheres, sem dúvida!

No caso dele, especialmente as negras, desenhadas a exaustão por suas mãos que faziam como ninguém das curvas a marca mais inconfundível de seu estilo. 

Há seis décadas, era casado com Olívia Marinho, ex-passista do Salgueiro e da Portela, era integrante da Velha Guarda.

Lan será enterrado na tarde desta quinta-feira (5/11) no Cemitério de Itaipava, em Petrópolis.

Mas antes de fechar os olhos para a eternidade, o italiano mais rubro-negro do mundo pôde ver – graças a Deus no céu e a Jesus à beira do campo – os títulos do Brasileirão, Libertadores, Supercopa do Brasil, Taça Guanabara, Recopa Sul-Americana e o Campeonato Carioca.

Morreu feliz.

Lan não deixa filhos, porém, deixa órfãos nos quatro cantos do mundo pessoas que o consideravam o pai do humor gráfico.

Obrigado Lan, precisava escrever isso!

O DRIBLE SALVOU A SUA VIDA

por Marcos Vinicius Cabral 


“Júlio César era um personagem, aquilo era um monstro, onde eu botava o manto e virava aquilo. Eu queria driblar. Para mim, era como matar a fome”, disse certa vez Júlio César Uri Geller, ex-ponta esquerda do Flamengo.

Após mais um dia de aula no extinto Colégio Parque Proletário Número Três, na Comunidade da Praia do Pinto, o pequeno Julinho se preparava para mais um dia daqueles.

De manhã até o meio-dia, o menino aplicava dribles nos sóis, nas chuvas, nos olhares desconfiados das pessoas e duelava com a fome, seu mais duro marcador.

Com uma flanela nas mãos, tentava convencer os frequentadores do Clube de Regatas do Flamengo a lhe dar uns trocados por ter dado um ‘capricho’ em seus carros.

Era a garantia do almoço.

Com a barriga cheia, todo cuidado era pouco para não perder o dinheirinho arrecadado ao pular os muros altos da Gávea, para se juntar aos outros meninos, e assim, passar despercebido aos olhos de seu Zizinho, técnico do dente de leite do clube.

Não bastassem os treinos exaustivos na parte da tarde do dia, o menino franzino se desnudava das chuteiras, meiões e caneleiras, para atuar  noutra posição: vendedor de amendoins torrados.

Tudo isso para ajudar dona Carmita, sua mãe, nas despesas de casa.

Criado apenas pela poetisa – como era chamada pelo filho Julinho – a adversidade era grande.

Mas o destino, um duro marcador, quase reduziu a pó sua vida e as de outras nove mil pessoas.

Na ocasião, naquele 11 de maio de 1969, mil barracos na Favela da Praia do Pinto, zona sul do Rio de Janeiro, viraram cinzas em um incêndio onde as causas nunca foram reveladas.

Das centenas de milhares de pessoas atingidas pela tragédia, uma em especial não se curvou ao destino: Júlio César da Silva Gurjol.

Sorriso doce, olhar obstinado, herança da mãe, a vida lhe colocaria frente a frente com Adílio, em 1963.

Era Cruzada São Sebastião x Favela da Praia do Pinto.

Era Julinho x Brown.


“Disseram que um garoto jogava mais do que eu. Eu duvidei! Tínhamos seis ou sete anos. Foi aí que começou a nossa história”, conta Júlio César Uri Geller numa tarde dessas na Gávea.

História esta construída com muitos gols, jogadas, assistências e tabelinhas que, desde o dente de leite até os profissionais, foi interrompida pela convocação do camisa 11 para disputar pela Seleção, o Pan-Americano em 1975, em gramados mexicanos.

Mas nesse mesmo ano, o mundo conhecia Uri Geller, o ilusionista que deixou todos boquiabertos ao dobrar talheres, identificar objetos ocultos e parar ou acelerar ponteiros de relógios a distância.

A Rede Globo aproveitou e promoveu dois programas especiais ao vivo com o israelense: o primeiro, direto do Teatro Fênix, no Rio de Janeiro, no dia 15 de julho de 1976, uma quinta-feira, e o segundo, no Teatro Globo, na capital paulista, no dia 1º de agosto, um domingo.

Os dois programas fizeram muito sucesso e entraram na lista dos mais vistos daquele ano.

Mas, Júlio César também era visto.

Tão visto que no ano seguinte, disputou sua primeira (e única) Olimpíada, a do Canadá

O quarto lugar teve um sabor amargo que contrastou com o doce de seu empréstimo ao Remo em 1977.

Era sua redenção.

Porém, superou mais uma vez a adversidade e ganhou da revista Placar a Bola de Prata e voltou ao clube de coração em 1979, a pedido de Cláudio Coutinho (1939-1981).

– Agradeço muito ao Leão do Norte, por ter me dado a oportunidade de vestir aquela camisa e com ela ter sido escolhido o melhor ponta-esquerda do país! – diz orgulhoso. 

Mas foi em abril, naquele 1979, num amistoso contra o Atlético-MG no Maracanã, na partida que teve a renda revertida para as vítimas das enchentes em Minas Gerais, que o endiabrado ponteiro fez valer o prêmio de melhor ponta do país e deu um show de dribles desconcertantes.

Na ocasião, último jogo de Dadá pelo Atlético, que totalizou 290 partidas e 211 gols pelo Galo, Uri Geller fez, literalmente, chover para os quase 140 mil pagantes que foram ver Pelé e Zico juntos pela primeira vez, mas acabaram vendo um ponta-esquerda acabar com o jogo.

Resultado: 5 a 1 para o Flamengo. 

Com o ‘Manto Rubro-Negro’, deu tempo ainda de ganhar o primeiro título nacional em 1980, antes de colocar o monstro para fora que existia dentro de si, em gramados argentinos no ano seguinte. 


Já era chamado pelo radialista Jorge Curi (1920-1985) de ‘Uri Geller’, que entortava não os talheres como o enigmático mágico, mas sim, pobres marcadores.

Correu o mundo ao sair do ‘Mais Querido’ em meados de 1981 indo jogar no Talleres da Argentina, onde encantou os argentinos. 

– Menotti me chamou para a Seleção das Américas e ele tinha o sonho de me ver ao lado do Maradona. Me naturalizei mas o Passarela ‘me achou’. Quebrei os ligamentos e fiquei fora do mundial! – lamenta.

Com passagens também no futebol mexicano, no português, no América/RJ, no Athlético  Paranaense, no Grêmio e no Vasco, Uri Geller, a personificação de Garrincha, parou em 1990.

Se formou em Educação Física e viaja o Brasil com o Fla-Master, onde continua mostrando o futebol moleque de quem completou em março deste ano 64 anos.

– Antes que alguém ache que eu enlouqueci por causa da comparação que vou fazer, digo que não e não. Mas gosto de dizer aquilo que penso: Júlio César não ganhou o apelido de Uri Guiller à toa. Ele, de fato, entortava os seus marcadores. O que Garrincha fez durante anos com os seus ‘Joões’, Júlio César, em uma escala menor, é claro, fez com os seus adversários. Dava gosto vê-lo jogar. Ele praticava o puro futebol arte. Se aquele time inesquecível do Flamengo tinha a cara de Zico, Júnior, Andrade, Adílio… tinha também a cara de Júlio César.”

(Francisco Aiello – Radialista da Rádio Globo)

MANIPULAÇÃO DE UM SONHO

por Marcos Vinicius Cabral


Após colocar as luvas, uma breve folheada em algumas fotos antigas o faz voltar ao passado.

Nelas, histórias e mais histórias que o fazem lembrar das vitórias, dos amigos, da bola que jogava e porque não dizer, das injustiças que o futebol lhe proporcionou.

Lembrar disso se tornou uma rotina em sua vida, já que por pouco, muito pouco mesmo, Ricardo Concísio Sampaio, não seguiu adiante com o desejo de se tornar jogador profissional.

Com o capacete já colocado, o niteroiense acelera sua Honda Fan 160, desce a rua Plinio Gaia no Boa Vista em São Gonçalo e vai ao bairro Zé Garoto, onde trabalha há dez anos numa farmácia de manipulação como motofretista.


– Desde muito novo que sou apaixonado por futebol -, se declara o camisa 8 do Grêmio Recreativo e Esportivo Barabá, desde 2017.

E sempre foi mesmo.

Nascido em 1981 no Hospital São Paulo em Icaraí, Niterói, o habilidoso lateral-esquerdo chamava atenção no Campeonato Comunitário do Vila Lage, com apenas oito anos de idade.

Jogando pela equipe do Azulão Futebol Clube, exibiu um futebol vistoso no Campo do Cortume, do Gerdau, Do Zero, no extinto Jacarezão e no campo que leva o nome do time que jogou por quatro anos e onde acumulou respeito, apesar dos títulos não conquistados.

Com uma canhota produtiva, recebeu do professor José Augusto o convite para ingressar no time de futsal do Vila Lage.

– O salão me ajudou a aliar técnica com rapidez no raciocínio -, diz.

Mas era necessário alçar voos maiores e deixar de desfilar o talento apenas em solo gonçalense.


– Com onze anos treinei no Fluminense Futebol Clube e os treinos eram no Campo da Marinha na Avenida Brasil. Fui reprovado pelo técnico JJ – lamenta.

Não se deu por vencido.

– Voltei no mesmo ano e fui aprovado – recorda aos risos.

Porém, vestir a camisa 6 do tricolor na categoria infantil e treinar todos os dias em Xerém, se tornou um sonho impossível.

Desistiu.

Mas a bola não desistiria dele.

Dois anos depois, em 1994, incentivado pelos colegas Sérgio Lopes e Rômulo, que estudavam na sexta série na Escola Municipal Altivo César, chegou ao Canto do Rio Foot-Ball Club.

Lá, pelas mãos do treinador Jorge Tibau disputou o Campeonato Estadual Infantil como zagueiro, onde enfrentou o filho mais velho de Zico, Thiago Coimbra, que defendia o Barra da Tijuca Futebol Clube.

No tempo em que comandou a zaga do Cantusca, se dividiu como pôde entre os estudos e a bola.

Não deu.

Acabou indo parar no América/RJ em 1997 e não conseguindo conciliar mais uma vez os treinos com as salas de aula, sepultou de vez a possibilidade de ser jogador de futebol, aos dezesseis anos.


Em compensação, fez história em São Gonçalo com o bicampeonato de 2001 e 2002, defendendo as cores do Ferrazão Futebol Clube.

– Ricardo era um jogador simples, de toques fáceis, dribles curtos e com uma virada de jogo como se fosse jogada de vídeo game -, elogia o ex-lateral do Ferrazão, Fabiano dos Santos Souza, de 42 anos.

Ainda teve fôlego para jogar nas equipes niteroienses do Barril Futebol Clube e do Rua 5 no ano seguinte e em seguida, em 2005, vestiria a camisa do Real Madrid do Boaçu.

– Tive o prazer de jogar com Ricardo. Jogador com uma habilidade incrível e uma personalidade muito forte dentro de campo – diz Flávio Henrique, meio campista do Rua 5, da Ilha da Conceição em Niterói.

Assim foi Ricardo, que teve sua história abreviada num esporte que nem sempre basta ser craque.


Atualmente, desfila elegantemente nas manhãs de domingo no Campo da Brahma, no Porto Velho em São Gonçalo.

E com quase 38 anos e envergando a 8 às costas, continua sendo o canhoto que produz um futebol aprazível aos olhos de quem Deus concedeu o privilégio de enxergar.

A FOME ALIMENTADA PELOS PÉS

por Marcos Vinicius Cabral


Sem chuteiras, meiões arriados, massageando as coxas, acariciando os joelhos com as pontas dos dedos e sentado no banco de reservas, Sandrinho ia municiando com cadarços suas “armas” de fazer gol.

Matador como poucos na cidade com mais de um milhão de habitantes, ele não via a hora de entrar naquela partida.

Era o primeiro – dos dois jogos – que decidiria o 13° Campeonato Comunitário do Gradim de 2003.

A todo instante o camisa 9 olhava para o treinador Wallace e seu auxiliar Wellington, que à beira do campo davam instruções para seus jogadores.

Os pobres Tiago Pedalada e Waguinho, atacantes titulares naqueles 90 minutos, carregavam dentro de si uma tristeza que só uma vitória com V maiúsculo amenizaria.

Ambos sabiam da importância do reserva e viam em seus olhos, a tristeza e preocupação com seu joelho direito, vítima de LCA (ligamento cruzado anterior) e o esquerdo com tendinite aguda.

Porém, sua vontade de vencer a contusão era tão grande que contagiou a todos e de maneira poucas vezes vista em um time de várzea.

Todos, sem exceção, estavam “eletrocutados” a 220 volts!

– Tiago, marque a saída de bola deles garoto -, berrava Rogério – um dos membros do staff ao lado do roupeiro Fladilson e do massagista Ratinho – com a veia do pescoço sobressaltada e no peito a medalha de São Jorge banhada de suor pela adrenalina daquele 07 de dezembro de 2003.


Naquele domingo, no campo do extinto Gradim Futebol Clube – um dos primeiros clubes a se filiar à Liga Gonçalense de Desportos (LGD), em 1931, com a ajuda do saudoso prefeito Joaquim Lavoura (1913-1975) – Sandrinho, o atacante que exalava gols, não atuaria.

Coisa rara para quem nunca havia sentado à bunda num banco de reservas desde 1989, quando aos 15 anos começou a jogar futebol como goleiro de futsal no Colégio Municipal Presidente Castelo Branco, no Boaçu.

Ironias do destino à parte, de tanto ver César – outro grande centroavante dos gramados goncalenses – estufar as redes, tomou gosto pela coisa e decidiu fazer gols e não mais evitá-los.

E no ano seguinte, Alexandro Paiva de Oliveira trocaria em definitivo a camisa 1 pela 9.

Em 1992, pelo Coroensinho, sagraria-se campeão e artilheiro no extinto campo do Aterro – hoje sede da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (CEDAE), que fica às margens da Rodovia Governador Mário Covas, 101, KM 312, no Boa Vista, em São Gonçalo – contra o Biquinha.

– O time do Biquinha tinha vários jogadores que eu adorava ver jogar. Mas um dos maiores prazeres que o futebol me proporcionou, foi jogar contra e a favor de Paulo Rubens – disse ao Museu da Pelada.

E completa: – O que o Ronaldinho Gaúcho fez e o Neymar faz agora, ele (Paulo Rubens), já fazia naquela época.

Porém, preservado para os outros 90 minutos que decidiriam o título, o artilheiro tratava dos joelhos, que castigados por marcadores implacáveis, careciam de cuidados.

E foi dona Terezinha, que preparou o filho, considerado o pesadelo dos zagueiros, na semana que antecedeu à decisão.

Com o sucesso do tratamento e com o psicológico refeito nas conversas com Patrícia, sua noiva na época, o otimismo era inevitável: com ele em campo, as chances do Jovem Fla ser campeão aumentavam e muito.

– É nossa primeira vez nesse campeonato e no empenho demostrado pelos jogadores conseguimos superar os adversários e chegar até aqui – disse o confiante treinador Wallace à época para O São Gonçalo.


E não era para menos, pois em nove jogos, venceu seis, empatou dois e perdeu um.

Com uma campanha irrepreensível, a equipe formada por jogadores do Boa Vista, Boaçu e Rosane, bairros coimãos em São Gonçalo, chegara àquela final com méritos.

No primeiro jogo, um 0 a 0 insosso, muito estudado, tipo uma partida de xadrez, em que as equipes se respeitaram muito com medo de um Xeque Mate – jogada que representa o final da partida.

O JFFC teria que vencer o bom time do Santa Fé, que com Bigú, Julião e Jorginho, jogadores qualificados pelos títulos conquistados nos quatro cantos da cidade, era franco favorito.

Na segunda partida, ocorrida no dia 14 de dezembro de 2003, o campo parecia um formigueiro de gente.

Torcedores soltando fogos, balões com os escudos das equipes no céu, imprensa local fazendo a cobertura… enfim, cenário perfeito para uma manhã inesquecível.

Jogadores chegam em seus carros, alguns vem a pé, uns com fisionomia fechada e outros sorrindo tentando disfarçar o “frio na barriga”.

Os nervos estavam à flor da pele.

Os jogadores vão entrando um a um e Sandrinho é o último a passar pela porta antes dela ser fechada.

Entre caneleiras, tornozeleiras, bolsa térmica com gazes, esparadrapos, algodão, merthiolate, gelo, água, e muita vitamina C das laranjas que eram chupadas pelos jogadores, havia naqueles 22 atletas, o desejo de fazer história.

No vestiário número 2, a tradicional corrente, palavras incentivadoras, escalação anunciada, um Pai Nosso orado a plenos pulmões e o tradicional grito de guerra: – Sososososo… sou Jovem Fla!”, repetido três vezes que extravassou em coro uníssono tão alto e estridente impressionando os jogadores adversário no vestiário número 1 ao lado.

Medo e respeito eram sinais notórios dos que enfrentavam o Jovem Fla.

O trio de arbitragem, comandado por Edílson Soares dos Santos – sósia de Michael Jackson como é conhecido e com a bagagem de ter arbitrado quatro finais dos Campeonatos Cariocas de 2002, 2003, 2004 e 2005 – entra no campo com o semblante fechado.


Em meio ao clima proporcionado pelo jogo, Sandrinho caminha olhando para o nada – entenda-se chão – em passos lentos, pois o banco é o seu destino mais uma vez.

No meio-campo, Ricardo e Julião, capitães de suas equipes, trocam olhares espúrios e um aperto de mãos pouco amigável no cara e coroa.

A guerra, ou melhor, o jogo, vai começar!

Apito soprado e dá-se início a grande final.

E logo nos minutos iniciais, o jogo se desenha numa equipe que precisa vencer para conquistar o tão sonhado título e outra que joga com o regulamento debaixo dos braços.

O nervosismo começa a ser o maior adversário, já que a cada volta do ponteiro do relógio, a pressão aumenta.

– Ivo, seu filho da puta, é sério porra! – esbravejava Wallace, com um copo de cerveja numa das mãos enquanto a outra esfregava a cabeça tamanha preocupação com o preciosismo do camisa 4.

E como diz o ditado no futebol, “quem não faz leva” e num contra-ataque, Bigú abre o placar para o Santa Fé.

Desespero de todos e serenidade no camisa 9 rubro-negro.

– Vamos lá matador, chegou a hora -, diz Wellington, mandado Sandrinho para o aquecimento.

Com o placar desfavorável, o treinador do Jovem Fla faz duas mexidas ousadas: saca os cabeças de área Ricardo e Alex, colocando o meia ofensivo Gaiato e Sandrinho.

O jogo incendeia.

As melhores oportunidades vêm dos pés de Sandrinho mas é com a cabeça que o temido atacante empata a partida.

– Eu me lembro que foi uma cabeçada indefensável após um belo cruzamento de Pablo -, diz o matador.

Com o 1 a 1, o empate daria o título para o Santa Fé.

Mas nos acréscimos, Sandrinho recebe belo passe de Juninho e após passar pelo marcador é calçado por trás dentro da área.

Todos viram, menos Michael Jackson, que assinalou falta e não a penalidade máxima.

Em seguida, a falta é cobrada por Rivaldo e passa tirando tinta do travessão.

O jogo termina e o Santa Fé é campeão pelo critério de saldo de gols.

Enquanto os campeões comemoram, os jogadores do Jovem Fla caminham cabisbsixos para o vestiário.

O sentimento é de dever cumprido numa competição tão acirrada como foi e é até hoje o Campeonato Comunitário do Gradim.

E para Sandrinho – mesmo tendo feito aquilo que todos esperavam dele -, fica a frustação pela não conquista do tão desejado título, de quem foi um dos maiores goleadores que São Gonçalo já conheceu.

– Um erro do juiz mudou a nossa história e nos custou o título. Principalmente para Sandrinho, que merecia sorte melhor e fez um esforço sobrenatural para jogar aquela final -, disse o meio-campista Marcos, camisa 8 e companheiro de time.

Passados dezesseis anos, a vida seguiu seu curso: Sandrinho desbravou outras zagas e foi artilheiro por onde pisou a planta dos seus pés enquanto o Jovem Fla viveu até 2006.

Hoje, ambos jazem nos corações dos que viram um dos maiores times de várzea ganhar tantos troféus (trinta e oito ao todo) e tendo seu imortal camisa 9 como protagonista em muitos deles.

Doces lembranças de quem fez história nesta cidade de 128 anos.

Felizes foram os que viram Sandrinho dentro das quatro linhas, um jogador com sede de vitórias e fome de gols.