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Ídolos & Épocas

UM ÍDOLO NO FRONT

Friedenreich não foi somente um gênio do futebol, o maior da era amadora brasileira. Foi também um bravo nos campos de batalha da Revolução Constitucionalista de 1932

por André Felipe de Lima


“Tudo por São Paulo num Brasil unido!”. Com esse clamor, em julho de 1932, fartamente publicado pela imprensa paulista da época, o maior ídolo do futebol de seu tempo, Arthur Friedenreich, convocava seus conterrâneos a aderirem à causa Constitucionalista de São Paulo. No dia 9 de julho, em que é lembrada a deflagração da Revolução dos paulistas, publicamos aqui trechos da biografia de Friedenreich que integra o primeiro volume de “Ídolos & Épocas: O amadorismo no futebol brasileiro (1900 a 1933)”, recentemente lançado pela Approach Editora, com selo do Museu da Pelada: “A igreja na qual foi batizado também denotava algo profético na vida de Friedenreich, que na pia batismal da Igreja de Santa Efigênia, a padroeira dos militares, foi abençoado. A proteção do “afilhado” estava garantida, sobretudo quando teria de se deparar com os sangrentos fronts da Revolução Constitucionalista de 1932. (…) Com Friedenreich, o São Paulo conquistou o campeonato paulista de 1931, com um elenco conhecido como “esquadrão de aço” formado por Nestor; Clodô e Bartô; Mílton, Bino e Fabio; Luizinho, Siriri, Araken Patusca, Friedenreich e Junqueirinha. No ano seguinte ao título do novo clube paulista, estourou a Revolução Constitucionalista de São Paulo contra o governo ditatorial de Getúlio Vargas. Friedenreich engajou-se na luta pela independência do estado, doando troféus, medalhas e prêmios em benefício da causa. Alistou-se e logo foi alçado à patente de sargento. Comandou uma tropa de 800 soldados esportistas, que ocupou as trincheiras de Eleutério. Um rapaz foi atingido na nuca por uma bala dos soldados governistas de Vargas. O jovem morreu nos braços de Friedenreich. Três meses após a revolta dos paulistas, El Tigre retornou a São Paulo, como tenente, mas nunca mais se recuperou do trauma pela morte do rapaz. Joanna Welker Friedenreich, a dona “Ninita”, companheira de Fried durante 57 anos, esposa de Fried, recordou detalhes do front contados a ela pelo tenente “Tigre”: “Os mineiros, ao verem o pelotão se aproximar, gritaram — ‘Cadê El Tigre, queremos matá-lo’. Ele apareceu, provocando tiros, distraindo os mineiros. Enquanto isso, metade do pelotão subia por trás e conquistava o morro.” (…) Em 1970, durante entrevista ao repórter Paulo Mattiussi, dona Joanna declarou: “Na Revolução [Constitucionalista] de 32, ele foi como sargento, voltou como tenente e herói. Comandava o pelotão dos esportistas e subiu um morro debaixo de tiros para tomar a posição.”

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UMA FORTALEZA CHAMADA LUÍS ‘CHEVROLET’ PEREIRA

por André Felipe de Lima


 Pisada para dentro, joelhos próximos um do outro. Olhando-o correr, temíamos que caísse a qualquer passo mais largo. Mas isso não acontecia. Permanecia firme, sem tropeços.  Quem imaginaria que um camarada assim, digamos, desengonçado, tornar-se-ia um dos melhores zagueiros de todos os tempos do Palmeiras e do Atlético de Madrid? Falamos do grande Luís Pereira, que comemora nesta segunda-feira (21) mais um aniversário.

O ídolo alviverde nasceu em 1949, em Juazeiro (BA), e começou a carreira no São Bento de Sorocaba. No clube paulista, passou a ser chamado de Luís “Chevrolet”, apelido que perduraria ao longo da carreira. Em 1968, seguiu para o Palmeiras. Foi para o Parque Antarctica, porém contrariado. Não queria deixar a namorada, a Marilu, em Sorocaba. Levou-a junto e com ela se casou. Não demorou muito, no entanto, para ocupar o lugar de Baldocchi, então tricampeão na Copa de 70.

Luisão deixava os treinadores com o cabelo arrepiado. Era um contumaz zagueiro-atacante. Partia desembestado para o ataque, sem mandar recado. E fazia até mesmo uns golzinhos. “Eu ataco porque gosto de ficar perto da bola. É que nunca tive brinquedos quando criança”, dizia o espirituoso Luís Pereira.

O ídolo sempre demonstrou essa bem-humorada característica de sua personalidade. Entre os amigos, companheiros e torcedores. Luís Pereira sempre teve vocação para ídolo. Mas essa nota carismática que sempre o moldou pode ter sido também o bálsamo para os momentos mais difíceis pelos quais passou na vida.


Em março de 1973, Luís Pereira se preparava para estrear pela seleção brasileira. Era um momento especial na vida dele e de Marilu, que esperava um filho do casal. Mas, poucos dias antes do zagueiro se apresentar ao escrete, a esposa perdera o filho durante o parto. O trauma foi intenso e devastador na família. O zagueiro não queria sair do lado da abalada esposa. Marilu, mesmo deprimida, convenceu Luís Pereira a seguir com a seleção. “Você deve ir. Vá e jogue por mim. Jogue muito”, pediu a esposa.

“Eu fui, mas ainda tinha vontade de ver o mundo se desintegrar. Eu queria que tudo sumisse num segundo. Depois de algum tempo fui entendendo melhor a vontade de Deus. Eu tinha que ser duro por fora e mole por dentro. Se eu desmoronasse, levaria tudo comigo. Um médico me ajudou muito a entender as coisas. Ele me mostrou um bebê de 18 meses, morto, e me fez entender que seus pais deviam estar sofrendo mais do que eu. Eles tiveram dezoito meses de convivência e nós tivemos nove meses de expectativa. A gente não esquece, mas tem de se conformar”, recordou o zagueiro, em entrevista concedida ao repórter José Maria de Aquino, um ano após o drama familiar.

Após uma passagem inebriante e recheada de conquistas pelo Verdão — três campeonatos nacionais e dois paulistas —, Luís Pereira rumou, em 1975, para o Atlético de Madrid, onde ficou famoso (e ídolo, claro!) de uma apaixonada torcida que o chamava carinhosamente de “El mago”.

Chevrolet, que foi o zagueiro da seleção na Copa de 74, voltaria o Palmeiras em 1981 sem, contudo, o brilho técnico de outrora, mas com o mesmo ímpeto e determinação marcantes na carreira daquele craque que, quando menino, era muito pobre, mas que jamais se abateu com os dissabores com os quais a vida às vezes nos surpreende. “Eu fui um menino feliz sem ter nada”.  Por ser essa fortaleza, o bravo Luís Edmundo Pereira tornou-se o maior zagueiro da história do Palmeiras, e um dos melhores exemplos de como deve ser um ídolo do futebol.

VEJA ALGUNS GOLS DE LUÍS PEREIRA PELO VERDÃO

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