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Elcio Venâncio

MOISÉS, O XERIFE

por Elso Venâncio


Um dos personagens mais marcantes do futebol brasileiro é Moisés Mathias de Andrade. Ele nasceu em Resende, no dia 30 de novembro de 1948, e aos 17 anos já era titular do Bonsucesso. Jogou no Flamengo, Botafogo, Vasco, Corinthians, Paris Saint-Germain, Fluminense e Bangu. Ainda vestiu a camisa da seleção brasileira na vitória sobre a União Soviética por 1 a 0 em Moscou.

Fora de campo, o Xerife era um cara alegre, de bem com a vida. Hilário contador de histórias, sempre foi um sujeito superengraçado. Mas nos jogos era um autêntico líder. Sabia jogar, mas não brincava em serviço. Com ninguém. Um dos zagueiros mais duros, mais violentos do nosso futebol:

“Dividiu, é minha!”

“Nenhum árbitro expulsa antes dos 15 minutos.”

“Zagueiro que se preza não ganha o Belfort Duarte.” *

Era rápido no gatilho: tinha sempre frases de efeito e vivia cercado pela imprensa.

Um amigo o aconselhou a entrar para a Política:

– Você é popular e pode se eleger vereador.”

Resposta:

– Sou Castor Futebol Clube. Só faço política com ele.

Verdade. O bicheiro Castor de Andrade, patrono do Bangu e da Mocidade Independente de Padre Miguel, o adorava.

Não à toa, quando Moisés parou de jogar, foi imediatamente chamado para dirigir o Bangu. Ficava sentado ao lado do campo, fumando e conversando. Não estava nem aí para o treino. De repente, chegava Neca, o supervisor do clube, alertando:

– Doutor Castor chegou! O Doutor chegou!


Pronto. Moisés se levantava rapidamente e ia a contragosto para o treino, que na realidade não passava de uma pelada de luxo:

– Marinho… quero você em diagonal, pro Mário te lançar. Tipo Rivelino e Gil. Vamos ensaiar isso.

Castor chegava de chapéu, revólver na cintura e cercado por capangas. Entrava em campo e se impressionava com o improvisado treino tático. Dé, o Aranha, conta que várias vezes Moisés pegava o papel no vestiário para anunciar a escalação e, sem óculos, tinha dificuldade para ler:

– Essa letra do Doutor é fogo…

A gargalhada era geral.

Nas finais do Brasileiro de 1985, acompanhei o Bangu de perto. Um dia cheguei cedo em Moça Bonita para o treino da tarde e me avisaram de uma briga feia que rolou na sala da imprensa. Ao conferir, vi tudo quebrado: troféus, cadeiras, mesas… um estrago.

Moisés tinha discutido com Simas, um ex-policial segurança do Castor, e os dois fecharam a porta para brigar. Silas era gigante. Todo musculoso, andava sempre com um grosso cordão de ouro no peito e camisa aberta. Moisés demorou a chegar para dar o treino. Apareceu de óculos escuros e hematomas no rosto. A imprensa o questionou e a resposta saiu naturalmente:

– Foi um pequeno entrevero, com escoriações, fato totalmente superado.

Simas nunca mais apareceu no clube. Moisés seguiu como técnico.

Zico voltou ao Flamengo e, em um jogo com o Bangu, pelo Campeonato Carioca, foi duramente atingido pelo lateral Márcio Nunes, que voou de forma criminosa com os dois pés, estourando o joelho esquerdo do ídolo rubro-negro. Magoado, o Galinho de Quintino insinuou que a ordem para quebrá-lo veio do banco. A contusão o prejudicou muito na Copa de 1986, no México, quando ficou visível sua falta de condições para jogar 100% do que sabia.

Moisés foi destaque no Corinthians. Idolatrado pela torcida, é um dos heróis do título paulista de 1977, conquista que interrompeu um longo jejum de 23 anos sem títulos. Na finalíssima, vitória por 1 a 0, gol de Basílio, sobre a Ponte Preta. O time entrou com Tobias, Zé Maria, Moisés, Ademir e Wladimir; Ruço, Basílio e Luciano; Vaguinho, Geraldo e Romeu. O Técnico era Oswaldo Brandão.

Na ‘Invasão Corintiana’, contra a ‘Máquina Tricolor’, um ano antes, Moisés já era zagueiro dos paulistas e marcou um gol na decisão por pênaltis. Sempre foi notícia, ainda mais em época de Carnaval. O Xerife saía no Bloco das Piranhas, que ele próprio fundou, e levava, de quebra, vários jogadores consigo. Como Brito, Dé, Alcir Portela e Joel Santana, entre outros.


Durante mais de 20 anos, só jogadores e ex-jogadores, todos vestidos de mulher, desfilavam no sábado momesco pelas ruas de Madureira. Moisés gostava de se vestir de Marilyn Monroe, com direito a peruca loura. Batom, brincos e muita maquiagem. Figuraça!

Ele considerava Pelé e Jairzinho os atacantes mais desleais e valentes que enfrentou. Morreu cedo, aos 60 anos, vítima de câncer no pulmão. Fumava muito, muito mesmo!

Admitia, sempre bem-humorado, quando alguém o alertava sobre os males do cigarro, que gostava de viver a todo vapor e perigosamente. Viveu. E se tornou um ídolo eterno do futebol brasileiro.

*Premiação oferecida pela CBF ao atleta que ficasse 10 anos seguidos sem ser expulso de campo.

CONVULSÃO DE RONALDO EM 1998

Fatos que merecem um livro, uma série ou um documentário

Por Elso Venâncio


Na Copa de 1998, na França, Ronaldo Luís Nazário de Lima era o maior jogador do planeta. Aliás, melhor do mundo por dois anos consecutivos: 1997 e 1998.

Aos 21 anos, no auge da forma e da fama, o mundo se prepara para vê-lo em ação na sua primeira decisão de Mundial, no Stade de França. Inclusive, ele já tinha sido eleito pela Fifa o craque do Mundial, mesmo antes da grande final.

Há poucas horas do jogo, realizado no dia 12 de julho, porém, o atacante sofreu uma convulsão. Quase morreu.

Ele estava no quarto 290 do Chateau de Grande Romaine, em Lesingny, que acabaria virando atração turística. Foi socorrido pelo lateral-esquerdo Roberto Carlos, que dormia na cama ao lado, além de Edmundo e César Sampaio, que repousavam no 291 e foram chamados às pressas. Edmundo lembra:

“Desenrolaram a língua dele, deram um banho e o colocaram pra dormir.”

Na hora do lanche, Ronaldo aparece caminhando lentamente, meio abobado, meio sonolento. Toma um suco de laranja e come um bolo, sem sequer parecer se lembrar do que lhe houvera ocorrido. Ao falar ao celular, todos observaram o garoto, que há um ano tinha recebido o apelido de Fenômeno, durante sua experiência vitoriosa na Internazionale de Milão. O meia Leonardo, momentos depois, chamou Ronaldo e, caminhando pelos jardins do hotel, com habilidade, comunicou ao jovem a gravidade do acontecimento. Em seguida, o maior enigma da história das Copas.

Na porta do Chateau ficavam sempre mais de mil jornalistas – brasileiros e estrangeiros – acompanhando a seleção de futebol mais poderosa do mundo. Dentro do hotel havia um estúdio exclusivo da TV Globo. A qualquer sinal de saída de alguém, os jornalistas se movimentavam em busca de notícias.

Aí o grande mistério…

Já vetado do jogão, Ronaldo deixou o hotel com o médico Joaquim da Marta, mas ninguém o viu sair. O careca mais famoso do futebol, que se preparava para confirmar ao planeta todo o seu gigantesco talento, foi levado a um hospital de Paris sem que ninguém o reconhecesse.

Ninguém noticiou esse fato. Algo, para mim, surreal.

A Globo acompanhou a saída da seleção e o helicóptero da emissora seguiu o ônibus até a chegada ao estádio. Eu costumava ligar para alguém da delegação quando ela ia para os jogos, para checar se estava tudo bem. Nesse dia liguei para o Junior Baiano:

“Não posso falar” – ele desligou, repentinamente.

Achei estranho, mas não desconfiei de nada. Foi a única vez na história que não houve batuque no ônibus. Ninguém puxou o samba. Silêncio geral.

No estádio, Tino Marcos registrou ao vivo:

“Desce Bebeto, Dunga, Rivaldo, Edmundo, Roberto Carlos… Zagallo conversa com Lídio Toledo…”

E o Ronaldo? Como não sentir a ausência dele? Inexplicável.

Considero esse fato o maior erro, a maior gafe da imprensa brasileira e mundial. E me incluo nessa. Estava ao lado do Eraldo Leite, da Rádio Globo, na cobertura da seleção e entrevistamos um alegre e descontraído Fenômeno na véspera, após o treino. Lembro que o Mario Magalhães “Mariguella” apontou para um churrasco que a comissão técnica fazia ao lado do campo:

“O poderoso Américo Faria virou churrasqueiro!”

Tudo indicava uma vitória e o título de pentacampeão. Clima leve, descontração.

No dia da decisão, antes de seguirmos para Paris – a 35 km de Lesigny –, passamos na concentração e nada vimos de anormal. Engano nosso. A escalação oficial saiu a uma hora da decisão e de imediato liguei para o Gilmar Rinaldi, que passava pela pista de atletismo. Perguntei, aos gritos:

“E o Ronaldo?”

“Ele joga!”,garantiu, seco, dando fim à conversa.

Na verdade, Gilmar estava a caminho de Ricardo Teixeira, o presidente da CBF, para lhe comunicar a confusão ocorrida recentemente no vestiário.

Ronaldo chegara do hospital poucos minutos antes da seleção entrar em campo. Na verdade, quando os jogadores iniciavam o aquecimento. Foi direto vestir o material de jogo, já que os roupeiros chegam cedo e não sabiam de nada. O capitão Dunga bateu pé dizendo que Edmundo jogaria. Zagallo, inclusive, mudara a tática, não contava mais com o titularíssimo camisa 9. Ronaldo retrucou. Declarou que os exames nada apontavam de grave:

“Vou jogar!”

Reunião no vestiário. Ricardo Teixeira, Zico, Zagallo e Lídio Toledo presentes. Pesou a opinião do presidente:

“Se ele tá bem, por que não jogar?”

Em campo, desde o apito inicial assistimos a um Ronaldo pálido, apático, e a seleção visivelmente preocupada com o estado emocional e físico do ídolo, que absorvia aquele baixo astral. Pior, no comecinho da partida veio um choque brusco dele com o goleiro Barthez, numa disputa na área. Aquela trombada assustou nosso time inteiro.

Zidane, que ainda não havia marcado gols na Copa, fez logo dois, e de cabeça, fato raríssimo em sua carreira. O craque francês organizava o jogo, armava, mas não era muito de concluir. No final, França 3 a 0. Os donos da casa eram os novos campeões do mundo!

Boatos absurdos surgem após a derrota acachapante. Alguns garantem que o Brasil entregou a decisão em troca de dinheiro. Que a seleção deu a Copa de bandeja para poder sediar o Mundial de 2014. Para uns, a Nike impôs a escalação de seu garoto-propaganda, que não tinha a menor condição de jogar.

O futebol é o esporte que mais movimenta dinheiro no mundo. As receitas globais, segundo a empresa Sports Value, são superiores a 300 bilhões de dólares. A Copa é uma mina de ouro, por isso a FIFA sonha em realizá-la a cada dois anos.

Na coletiva de imprensa, um transtornado Zagallo chega assustado, rosto todo vermelho, e apontou para o companheiro Mauro Leão, do jornal O Dia:

“Tá satisfeito?”

Mauro balança a cabeça negativamente e responde.

“Eu não, alegre tá o Aime Jacquet…”

Jacquet era o treinador da França.

De repente, ninguém fala nada. Parecia um velório. Zagallo respira fundo e ninguém o questiona. O técnico, em seguida, encara uma surpresa imprensa cujo teor único dos questionamentos era o drama vivido por e com Ronaldo às vésperas do grande jogo da sua vida até então.

Esses fatos, o dia em que o “melhor do mundo” passou mal e isso influiu diretamente na derrota brasileira em uma final de Copa, merece um livro, talvez um documentário ou mesmo uma minissérie. Espero que não morra assim, sem maiores apurações, do nada, algo que mudou do dia para a noite a história da última Copa do penúltimo milênio.

MAESTRO JUNIOR

por Elso Venâncio


Leovegildo Lins Gama Junior foi quem mais vestiu a camisa rubro-negra, atuando em 876 jogos. O craque, paraibano de João Pessoa, chegou ao Rio aos 5 anos e das peladas na areia de Copacabana foi jogar futsal no Monte Líbano. Em 1973 estava no Flamengo, onde logo se tornou titular entre os profissionais.

No ano seguinte, Junior passou a titular da lateral direita e fez um gol no América, que tinha um timaço, no triangular decisivo do Carioca. Dois a um, gols de Junior e Zico. Ou seja, já chega campeão, após uma disputa com Vasco e América.

Viveu um momento mágico no fim dos anos 70 e início de 80. Zico, Junior, Leandro, Raul, Mozer, Tita, Andrade, Adílio, Nunes e etc. conquistam três Brasileiros, uma Libertadores e um Mundial Interclubes, em 1981. A decisão contra o Atlético Mineiro, em 1980, é inesquecível. No time mineiro estavam Reinaldo, Cerezo, Luisinho, Chicão, Palhinha, João Leite, Éder e companhia. O Flamengo perde de 1 a 0 no Mineirão e vence por 3 a 2 no Maracanã, diante de 154 mil pagantes. Foi a grande decisão dos Brasileiros! Jogo que passou na TV ao vivo, fato que não era normal e parou o país.

O futebol tem alguns mistérios e o Brasil perde para a Itália em 1982, na Espanha. Essa derrota atrasa taticamente o esporte mais popular do país e sepulta o futebol-arte. Diria o nosso amigo Fernando Calazans:

“Se Zico e Júnior não ganharam a Copa, pior para a Copa do Mundo”.

Junior resolve passar um tempo no exterior e, atuando no meio-campo, sua nova posição, e brilha pelo Torino, além de manter o pequeno Pescara na primeira divisão do futebol italiano. Na Copa de 1986, no México, Telê Santana atende o pedido de Junior e o escala no meio-campo.


Em 1989, aos 35 anos e já realizado profissionalmente, depois de cinco temporadas na Europa, Junior volta ao Flamengo para virar o “maestro” da garotada e conquista uma Copa do Brasil, um Carioca e um Brasileiro. Ele foi o destaque da equipe no título nacional de 1992, inclusive nos dois jogos contra o Botafogo na decisão. O filho Rodrigo, entrando em campo para vibrar com o pai, ele que tanto pediu a Junior para voltar a jogar no Brasil, é uma cena emocionante! Histórica!

Esse período dele marcante é lembrado no livro que o próprio Junior escreveu junto ao pesquisador Maurício Neves de Jesus e que vai ser lançado hoje, às 18hs, na Gávea, na loja oficial do Flamengo, com o selo do Museu da Pelada, da Approach Editora.

Uma foto gigantesca ficava no Departamento de Futebol: Junior à frente de Paulo Nunes, Marcelinho, Rogério, Piá, Júnior Baiano, Djalminha, Fabinho, Nélio e Marquinhos, junto à frase “Craque o Flamengo faz em casa”. Pena que a diretoria, na época, negociou esses craques, por conta da dificuldade financeira que atolava o clube.

Lembro ainda que presenciei dois momentos marcantes do Junior que são pouco lembrados. Na Supercopa da Libertadores, em outubro de 1991, o Flamengo vence o Estudiantes por 2 a 0, na cancha do Huracán, em Buenos Aires. Estádio pequeno, jogo pegado, os argentinos provocando e abusando da violência a todo instante. Carlinhos saca Junior aos 42 do segundo tempo, para ele ser aplaudido. A torcida argentina, de pé, ovaciona a saída do mito. Foi a maior manifestação de carinho que vi dos argentinos a um jogador brasileiro.


Outro jogo inesquecível do Junior se deu na estreia de Bebeto no Vasco, que tinha um timaço superbadalado e acabou se tornando campeão brasileiro em 1989. Zico e Junior foram os destaques na vitória de 2 a 0, dois gols de Bujica. Bebeto não aguentou a pressão e foi expulso após o segundo gol, depois de chutar o goleiro Zé Carlos, compadre dele, no meio de campo. Ambos receberam o cartão vermelho.

Na véspera dessa partida, na Gávea, Zico, na bronca com o favoritismo do Vasco, fez uma declaração histórica no microfone da Rádio Globo:

“Bahia é o Campeão Brasileiro; Flamengo, da Taça Guanabara; Botafogo, do Estadual. Onde está o Vasco? O Vasco tem que comer muito feijão pra chegar perto do Flamengo.”

O comentarista Sérgio Noronha, o ‘Seu Nonô’, disse que nunca tinha ouvido uma declaração tão forte de Zico. Junior jogou de zagueiro e anulou Bebeto, que era o maior atacante do futebol brasileiro e tinha sido campeão e artilheiro da Copa América, com seis gols. Título que o Brasil não conquistava havia 40 anos. O técnico rubro-negro era Valdir Espinosa, que fora campeão com o Botafogo no mesmo ano.

Junior também jogou de zagueiro na despedida oficial de Zico, 5 a 0 no Fluminense, em Juiz de Fora. Junior e Zico! Zico e Junior! Os dois maiores ídolos da Nação Rubro-Negra. Vida longa aos dois!

ANDERSON SILVA, O BRUCE LEE BRASILEIRO

por Elso Venâncio


Ídolo mundial das artes marciais, Anderson Silva, o “Spider”, é o Bruce Lee brasileiro. No UFC, conquistou 17 vitórias seguidas, além de 10 defesas, em sequência, do título. O campeão deixou a Organização, foi para o boxe e sacudiu o mundo das lutas ao vencer Julio Cesar Chavez Jr.

O curioso é que, no boxe, Anderson recebe por luta mais do que ganhou em metade da sua espetacular carreira. Contra Julio Cesar, por exemplo, embolsou 500 mil dólares, fora um extra de US$ 100 mil pelo fato de o adversário não ter batido o peso. Isso sem falar no milionário pay-per-view, que é um mistério de valores não revelados.

Em seguida, Anderson novamente engordou as finanças ao nocautear Tito Ortiz. No UFC, vale dizer, ele só passou a ganhar fortunas após o surgimento do Conor McGregor, que enriqueceu em poucas lutas.

A partir de julho de 2013, na derrota para Chris Weidman, e tendo o falastrão irlandês como exemplo, o “Spider” passou a pedir uma grana preta. Era atendido, mas criou atritos com Dana White, que nunca deu boa vida ao brasileiro.

Em 2010 o UFC desembarcou em Abu Dhabi, território de ouro para grandes eventos. A ideia era encher os cofres e tornar o MMA popular nos Emirados Árabes. Anderson Silva foi escalado, mas já não vivia um bom momento com o patrão. Venceu Demian Maia numa luta bizarra em que provocava o adversário o tempo todo chamando-o de playboy. Não sei se queria irritar o oponente ou o chefe. Quem sabe os dois. Só não foi demitido por ser o carro-chefe da Organização.

Um ano antes, Anderson chegou a lutar a contragosto com Thales Leites, seu companheiro de treinamento na Nova União. Venceu, após os cinco rounds, e ainda recebeu uma punição! Teve que enfrentar o poderoso Forrest Griffin, ex-campeão da categoria acima. Acabou crescendo ainda mais: em pouco mais de três minutos, obteve o maior nocaute da história do esporte.

Com isso, veio outro desafio que mais soava castigo: ter que derrotar Vitor Belfort, missão dificílima, apesar dos apelos para não enfrentar atletas brasileiros. Um chute preciso e fulminante colocou de forma rápida o ‘Fenômeno’ para dormir…

Em guerra velada com a Organização e cansado das pressões, o supercampeão deixou Los Angeles, onde treina e mora, no fim de junho de 2013 para ir a Las Vegas enfrentar Chris Weidman. Não tinha a habitual motivação. Era muito sacrifício e pouco reconhecimento por parte dos chefes. Pelo menos, em sua conta bancária, alguns milhões de dólares entraram para dar aquela animada.

Nas minhas idas a Vegas, fiquei amigo de Guto Ormenezi, um paulista, sócio de uma agência de turismo, que está há anos radicado na cidade. Ele trabalha para o UFC acompanhando os lutadores brasileiros. Guto me falou da falta de concentração do Anderson. Na véspera da luta, chegou a ir à churrascaria Fogo de Chão e, após o almoço, numa sala reservada, ficou horas de papo com Ronaldo Fenômeno, Djalminha e outros dois brasileiros. Às seis da tarde, Guto deixou o ídolo no hotel; três horas depois, recebeu um telefonema dele. Anderson estava sem sono e queria ir, como foi, ao cinema sozinho.

Sábado, 7 de julho, dia do combate! MGM Grand Garden Arena. Mike Tyson sentado na primeira fila. No mesmo ringue, em 1997, ele mordeu a orelha direita de Evander Holyfield e a cuspiu em seguida. A entourage do UFC, fãs, turistas, todo mundo concentrado no gigantesco hotel. Acordo cedo para caminhar e vejo muita gente ainda nos cassinos. De repente, surge diante de mim um cara com roupão de lutador. Ele caminhava ao lado do seu treinador; ia para a academia sem sequer ser reconhecido. Era Chris Weidman.

Que naquela noite, na arena lotada e incrédula, chocaria o planeta ao nocautear a maior lenda do UFC.

CARLOS ALBERTO: COMO SURGIU O CAPITÃO? POR ELSO VENÂNCIO


Piazza para Gerson, que toca a Pelé. Clodoaldo recebe e com ginga dribla quatro italianos. Deixa a bola com Rivellino, que encontra Jairzinho pela esquerda. O “Furacão da Copa” corre em diagonal e passa ao Rei, que de forma genial rola instintivamente, rente a grama, para o lado direito. A bola dá um leve quique até surgir Carlos Alberto Torres batendo forte com o lado externo do pé. O chute transversal estufa as redes do goleiro Albertosi. Brasil 4 x Itália 1.

Considero esse gol do Carlos Alberto, o quarto dos tricampeões, que fechou de forma apoteótica o Mundial do México, em 1970, como o “Grande Gol das Copas do Mundo”. A meu ver, ele sintetiza e representa uma das últimas páginas do futebol-arte.

Carlos Alberto foi contratado pelo Santos, junto ao Fluminense, no início de 1965, aos 20 anos de idade. Custou 200 milhões de cruzeiros – a maior transação da história do futebol brasileiro na época, apesar dos protestos da torcida tricolor, que ameaçou incendiar a sede das Laranjeiras. O jovem lateral já havia sido campeão carioca em 1964 e foi medalha de ouro no Pan-Americano disputado em São Paulo.

Há cerca de 10 anos, fui almoçar no Real Astoria, antigo Sol e Mar, em Botafogo, com Carlos Alberto Torres e seu filho Alexandre Torres. Eu estava com os meus filhos Marcello e Rodrigo, além de Luiz Carlos Silva, meu sócio, e o amigo Juber Pereira. De repente, o papo se alonga e ele nos pergunta:

– Vocês sabem como surgiu o ‘Capitão’?

Resposta geral, menos de Alexandre, que sorriu:

– Não…

O Capita continuou:

– Eu tinha poucos meses de Santos e estava todo mundo na bronca porque a gente jogava muitos amistosos e somente o Pelé ganhava uma cota especial por partida. Os mais antigos e eu, que ainda era pato novo, reclamávamos entre nós. No grupo, vários campeões do mundo: Gilmar, Mauro, Zito, dentre outros. Não sei de quem partiu a ideia, mas fizemos uma reunião no meio do campo e decidimos não viajar mais. A não ser que houvesse divisão para todos da cota extra.

Nisso, surge, do nada, o presidente Athié Jorge Cury. Chega de gravata, sem paletó e, suando muito, pede a palavra. Aos gritos, começa a bronca:

– Estou sabendo que vocês não querem viajar por causa do bicho especial do Pelé. Saibam que vocês só fazem esses jogos e estão com os salários em dia porque temos o Pelé. E mais: quem não quiser viajar que levante agora o braço. Eu coloco a garotada toda jogando com o Pelé.

Os jogadores se entreolharam e apenas um ergueu a mão. Carlos Alberto.

Silêncio Geral no gramado, o presidente determina:

– Sr. Carlos Alberto, vá direto para o meu gabinete, por favor.

Carlos Alberto contou que uns três minutos o separavam do campo à sala da presidência. O trajeto, segundo ele, pareceu durar uma hora. Passou tudo pela cabeça: recém-casado, com filho pequeno, teria quem sabe o passe preso, passaria a treinar sozinho, isolado do grupo… Na época, os clubes faziam o que queriam com seus atletas.

Carlos Alberto bate na porta e entra. Athié, o mais vitorioso presidente da história do Santos, famoso tanto na política como no futebol, se impõe de início falando sério:

– Você foi o único homem entre esses moleques. Fizeram um pacto, mas apenas você teve a hombridade e o caráter de confirmar às claras. Por isso, agora sou eu quem te pergunto… Quer ser o capitão do Pelé?

Surpreso, o lateral respondeu:

– Aceito, Presidente!

– Outra coisa… Não fala para ninguém, mas só você e o Rei vão receber premiação extra nos amistosos. Topa?

– Topo, sim!

Surgia assim o maior capitão e líder em campo da história do nosso futebol.

Vendo Carlos Alberto desfilar sua arte, uma coisa me intrigava. Como pode um jogador ser o capitão do Pelé e batedor oficial de pênaltis do time onde o Rei jogava?

O ‘Capitão’, como era carinhosamente chamado, foi muito mais do que isso. Acabou eleito pela FIFA como o lateral-direito do Século XX!”

Confira a coluna da semana passada:

www.museudapelada.com/resenha/didi-o-mister-football