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Cesar Oliveira

ÁRBITRO DE VÍDEO: O FUTEBOL ENTRA FINALMENTE NA ERA DA TECNOLOGIA. OU A CONFUSÃO VAI AUMENTAR?

por Cesar Oliveira


Livro de regras do futebol

O futebol talvez seja o esporte que mais resiste à mudança de regras. As primeiras, de 1863, eram de um tempo em que o association e o rugby se confundiam.

Em 1865, a revista Bells Life publicou 14 regras, formuladas em reunião da Federação Inglesa de Futebol, em 26 de outubro de 1863, e que serviriam de base para a formulação das 17 regras atuais.

Meu ídolo-mór no futebol, João Alves Jobim Saldanha, que estaria completando centenário de nascimento no próximo dia 3 de julho, era um ferrenho adversário dos “velhinhos” da International Board.

A International Football Association Board – IFAB é o órgão que regulamenta as regras do futebol. A associação foi fundada no dia 6 de dezembro de 1883, após um encontro em Manchester da The Football Association (Inglaterra), da Scottish Football Association (Escócia), Football Association of Wales (País de Gales) e da Irish Football Association (à época, representando toda a Irlanda; hoje, somente a Irlanda do Norte).

Segundo ele, os “velhinhos” não estariam dispostos a permitir qualquer modificação nas regras, de modo a fazer o futebol acompanhar os tempos, e se tornar moderno, sem perder as regras jamais.

Essa questão que está sendo levantada agora sobre o árbitro de vídeo no futebol me levanta muitas e graves dúvidas sobre as regulamentações que a corrupta FIFA propõe implantar até a Copa de 2018.

Sentem-se à mesa de um botequim os boleiros, entendidos, jornalistas, enfim, as centenas de milhões de brasileiros que entendem mais de futebol do que o mundo inteiro, e não se chegará, jamais, a um consenso.

O QUE DIZEM AS REGRAS


A Regra 5 das leis do jogo – a respeito do “árbitro central”, deixa claro que “cada partida será controlada por um árbitro, que terá a autoridade total para se fazer cumprir as regras de jogo na partida para a qual tenha sido designado” e que “as decisões do árbitro sobre fatos em relação com o jogo são definitivas”.

Mas ele não pode voltar atrás?

Pode e está na Regra 5: “O árbitro poderá mudar sua decisão unicamente se perceber que sua decisão é incorreta ou, se o julgar necessário conforme indicação de outro membro do quarteto de arbitragem, sempre que ainda não tenha reiniciado a partida”.

Os velhinhos do Board vão ficam doidinhos, agora que decidiram aceitar a modernidade, para descobrir como fazer isso acontecer sem lhes encherem os pacovás de mimimis e chororôs.

É isso que pretendemos discutir aqui. Para isso, levantei opiniões de amigos boleiros, principalmente a turma do Memofut – Grupo de Literatura e Memória do Futebol (que se reúne uma vez por mês, no auditório do Museu do Futebol, no Pacaembu, para apresentar trabalhos e discutir ideias), e os companheiros do grupo “Apreciadores do Futebol”, que se comunicam pelo WhatsApp. Meus agradecimentos a eles, pelo debate sadio, em benefício do futebol, nossa paixão.

AS PRIMEIRAS EXPERIÊNCIAS

A primeira tecnologia deste tipo parece ter usada no atletismo, nos Jogos Olímpicos de Verão de 1932. Mas tempos registrados automaticamente só passaram a ser aceitos oficialmente nos Jogos Olímpicos do México-68. E a experiência deu certo em outros esportes.


No turfe, o “photochart” mostra quem chega à frente. Antes, tinha aquele suspense enquanto a imagem (filme) era revelada, até que Theóphilo de Vasconcelos, o locutor oficial do Jóquei Clube Brasileiro, informasse que os bookmakers poderiam pagar as apostas. Hoje, é pá-pum, imediato.

O sistema virou “photofinish” e é um sucesso. Atletismo, automobilismo, vários esportes se beneficiam da tecnologia.


No tênis, já tem tempo, se a bola bateu na linha, saiu ou não saiu, é mole pro “olho de águia” resolver. Deu certo também no vôlei, onde os técnicos têm um determinado número de “desafios” por “set”.

ABREM-SE AS CORTINAS, COMEÇA A DISCUSSÃO

E é por aí que a gente pode começar a discutir como isso seria implantado no futebol. Porque os sistemas hoje adotados, em todos os esportes, resolvem as questões sem deixar margem a dúvidas. Matam a cobra e mostram o pau. Funcionam às mil maravilhas, e todos aceitam as suas decisões, porque elas são sempre corretas.

O “chip” na bola deu certíssimo. Nunca mais um árbitro vai ter dúvida de que a bola entrou, porque o relógio-sensor no seu pulso vai vibrar e a TV vai confirmar depois. Poderia ter também no telão dos estádios, em tempo real.


CHORORÔS E MIMIMIS

Confesso que, quase aos 65 anos, e sabendo como o submundo do futebol pode ser um negócio sujo, eivado de subornos, manipulação de resultados, arbitragens compradas e, agora, sites espúrios de apostas, fico com um pulgueiro inteiro atrás da orelha. Se a coisa não for acachapantemente boa, vai dar zebra. Porque, no futebol, é assim.


Jogadores marrentos, técnicos chatos e, por que não dizer, árbitros corruptos, sabendo das mumunhas que podem criar, vão adorar ter a tecnologia à disposição pra puxar a brasa pra sardinha dos seus clubes. E, aí, vão conseguir fazer a tecnologia fracassar.

Não vou reclamar, aqui, de qualquer prejuízo ao meu clube do coração. A história está aí para mostrar que uns clubes e outros são prejudicados aqui e ali, deixando dúvidas se por ruindade mesmo, ou má-fé.

Confesso que ainda hoje me irrito com a jogada da gravata do zagueiro Vica, do Fluminense, no atacante Claudio Adão, do Bangu, na final do Campeonato Carioca de 1985.

E a imprensa esportiva sabe quais os casos escabrosos. Chegam a colecionar os primeiros momentos. Só falta o miau: https://goo.gl/64mA5A

Por isso, é fundamental que o “modus operandi” seja determinado depois de um consenso mundial e sério – se é isso que eles querem.

COMO VAI SER

No dia 5 de março de 2016, o projeto do “árbitro de vídeo”, elaborado pela CBF e ampliado com a opinião de outros países, foi aprovado pelo International Football Association Board (IFAB). Assim, o Brasil poderá testar o uso da tecnologia para acabar com dúvidas em lances decisivos.

 

 

RESUMO DO PROJETO

1.     As decisões do árbitro principal continuam soberanas

2.     O árbitro de vídeo tem que ser um árbitro do quadro da CBF, com nome na escala

3.     O árbitro principal deve ter comunicação direta com o árbitro de vídeo (N. do A.: não deveria para não haver o que a ética chama de “interferência externa”)

4.     As decisões dirão respeito exclusivamente a quatro itens já determinados

a.     Gol duvidoso (N. do A.: não deveria porque, para isso, existe o chip na bola)

b.     Pênalti duvidoso

c.      Cartão vermelho resultante de decisão duvidosa

d.     Identificação incorreta de infrator

5.     O árbitro de vídeo deve ter dez ou quinze segundos para avisar o árbitro de um lance duvidoso (N. do A.: não deveria para não haver o que a ética chama de “interferência externa”)

6.     O árbitro principal, ao receber uma chamada do árbitro de vídeo, deve fazer um sinal com as mãos para alertar o público de que a decisão está sub-júdice (N. do A.: não deveria para não haver o que a ética chama de “interferência externa”)

7.     O árbitro de vídeo tem que estar em sala isolada e não pode ter contato com transmissão de TV, tampouco utilizar celulares e/ou outros aparelhos que lhe permitam ver/ouvir o jogo

8.     A transmissão das imagens poderá ser da TV responsável

COMO DEVERIA SER, PELO BEM DO FUTEBOL


De cara, considero fundamental, que os “árbitros de vídeo” jamais se manifestem ou mantenham contato com o árbitro durante a partida. Principalmente, porque isso fere as Regras do Jogo. Esse headset que os árbitros principais carregam hoje em dia é, a meu ver, ilegal e antiético.

Fico desconfiado e acho lamentável que isso seja feito hoje em dia, sem que imprensa e torcedores tenham acesso ao áudio dessas conversas.

Já sei que, para manipular isso, podem incluir o “árbitro de vídeo” no grupo de arbitragem. OK, mas esse “árbitro de vídeo” não pode tomar a iniciativa de se comunicar com o árbitro principal, porque isso configuraria “interferência externa” e afronta às leis do jogo.

Lembre-se que a Fórmula 1 monitora e disponibiliza, para todos, o áudio das conversas de boxes e pilotos. No basquete, o sistema de vídeo fica à beira da quadra. No vôlei, todos vêem, no telão, o que está em julgamento. No tênis, também.

A GATUNAGEM QUE INCOMODA


Não se esqueçam que os sites de apostas entram cada vez mais firmes no futebol, com “patrocínios máster” em camisas importantes, propaganda nos estádios, e em transmissões e programas esportivos na TV.

Bom estar atento para o fato de que a corrupção na FIFA é endêmica, muitos presidentes e dirigentes estão em cana, o presidente da CBF não pode viajar pra fora do País, enfim a roubalheira come solta. E a coisa só estourou porque o Governo norte-americano identificou o uso do seu sistema financeiro para os golpes, e botou o FBI na rua para proteger os seus direitos


Por que não desconfiar de que jogos e resultados estejam sendo manipulados?

Lembrem-se que, outro dia, um árbitro foi “alertado” de que havia cometido um erro, dois ou três minutos antes, parou o jogo, ouviu o que diziam no ouvido dele, e voltou atrás, em flagrante interferência externa e infração às leis do jogo. Passou em branco, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

A CULPA É NOSSA

O multipremiado jornalista investigativo escocês Andrew Jennings, 74 anos, já havia cantado a pedra, com o apoio do jornalista Juca Kfouri, que o trouxe ao Brasil, com apoio da ESPN, para entrevistas e até uma sabatina no Congresso Nacional (outro antro…).

Quero lembrar a vocês uma declaração de Jennings à porta do Congresso, mais ou menos assim, e que a imprensa preferiu não repercutir, na época: “Não adianta mais mandar me matar, porque o dossiê sobre a corrupção no futebol foi entregue às autoridades brasileiras”.

Jennings apareceu várias vezes no programa de documentários Panorama, da BBC britânica. O mais importante foi FIFA’s Dirty Secrets, exibido pela primeira vez em 29 de novembro de 2010, uma exposição de 30 minutos, que investigou denúncias de corrupção contra alguns dos membros da FIFA e do comitê executivo que votou na escolha da sede da Copa do Mundo de 2018 (Rússia).

Jennings alegou que Ricardo Teixeira, presidente da CBF e do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014, Nicolás Leóz presidente da Conmebol e Hayatou Issa, presidente da CAF, receberam os subornos da empresa de marketing ISL que vendia os direitos de transmissão de TV da Copa do Mundo FIFA. E como demorou que as autoridades fizessem alguma coisa!

O JOGO SUJO DA FIFA


Entre outros livros importantes, Jennings é autor de Jogo Sujo: o mundo secreto da FIFA (Panda Books, 2011), onde ele já alertava sobre essa imundície que ameaça corromper o esporte mais popular do mundo. É dele também Um jogo cada vez mais sujo – o padrão FIFA de fazer negócios e manter tudo em silêncio.

Não é só ele. Muitos outros escritores e livros existem sobre o rumoroso assunto. Basta querer pesquisar no Google, comprar, ler e tomar conhecimento. O Governo norte-americano, o FBI e a Interpol quiseram.

UM PULGUEIRO ATRÁS DA ORELHA

Tenho medo que a maneira de burlar as regras para fazer o tal “árbitro de vídeo” ser o manda-chuva da parada, seja mudar as regras do jogo. Ou criar atalhos e regulamentações.

Mas, aí, ao invés dos benefícios e honestidade que a tecnologia trouxe para todos os outros esportes, teremos a desconfiança e o caos, eis que estamos falando de um esporte cuja entidade máxima foi devastada por corrupção e prisões.

Sem esquecer que altos mandatários do futebol brasileiro estão em cana, morreram com a pecha de corruptos, ou não podem sair do País, porque a Interpol está de olho neles.

E O QUE FAZER?

1.     Determinar quando e que tipo de jogada pode ser suscetível de reclamação;

2.     Delimitar quantidade de “desafios” por tempo de jogo;

3.     Proibir qualquer comunicação online/tempo real entre o “árbitro central” e o “árbitro de vídeo” – que só seria consultado (e só poderia se manifestar) se e quando o “árbitro central” o solicitasse;

4.     O sistema de avaliação de vídeo estaria disponível à beira do gramado, para consulta do “árbitro central”, sendo que a mídia tenha acesso online à conversação do “árbitro central” com o “árbitro de vídeo”.

5.     À moda do futebol americano, o “árbitro central” comunicaria por microfone ao estádio a decisão tomada, e as imagens seriam apresentadas no telão do estádio, quando houvesse.

Não gosto nada dessa nomenclatura “árbitro de vídeo”, porque ela pressupõe que esse “árbitro” teria interferência na decisão da arbitragem, o que seria péssimo para o futebol, eliminando as vantagens da tecnologia com desconfianças.

QUANDO USAR A TECNOLOGIA

Sabendo que o “chip” na bola resolveu a questão da validação de um gol, será preciso determinar quando uma equipe, considerando-se prejudicava, lançasse um “desafio”, única e exclusivamente através do seu capitão.

Quais seriam essas hipóteses? Acredito que em apenas três únicas ocasiões, quando envolvendo questões capitais (lances de marcação de gol).

1.     Marcação de impedimentos

2.     Marcação de penalidades máximas

3.     Marcação de mão na bola

E COMO SERIA?

·        Uma equipe tem direito a apenas dois pedidos de “desafio” por jogo. Se “errar”, perde o desafio; se “acertar”, mantém os dois pedidos.

·        Só o capitão da equipe “prejudicada” pode pedir revisão, desde que a partida não tenha sido reiniciada depois de marcação de gol.

·        A decisão de cada “desafio” é final e irrecorrível; o time adversário não tem direito a réplica

É preciso tomar muito cuidado com a implantação da tecnologia no futebol. Estamos num momento em que a regulamentação precisa e correta, de como ela será usada (como foi com o “chip” na bola), vai determinar o sucesso ou fracasso da decisão.

Estamos nas mãos dos velhinhos do João Saldanha. E dos deuses do futebol.

 

A REFUNDAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO

por Cesar Oliveira


(Foto: Rodrigues Moura)

Nenhum jogo de futebol é mais ético e correto do que uma singela pelada de subúrbio. Nem as peladas entre as Irmãs Clarissas.

Uma pelada, por mais vagabunda que seja, com bola rota e dois times sem camisa, nenhum árbitro e lei alguma, havaianas marcando a trave, aceita determinadas práticas que vemos hoje em dia, em gramados perfeitos de primeiríssimo mundo.

Como aquelas que eu via, comendo goiaba do pé, sentado na temerária ribanceira da “avenida” em que meus avós maternos moravam, no Caminho do Matheus, uma transversal da Álvaro de Miranda, no bairro de Pilares, naquelas bocadas por onde hoje estão o Walmart e Norteshopping, subúrbio do Rio de Janeiro.

Era um descampado enorme, acho que dava um campo quase oficial, com gols de 7,32 por 2,44, camisas e árbitro. Hoje, cabem alguns edifícios de um condomínio residencial. Muitas vezes, menino ainda, depois de assistir aquelas peladas domingueiras, sonhava em casa que chegava bem na beira do barranco e… me jogava!

(Logo eu, um borra-botas pra alturas maiores do que um metro, temente a Santos Dumont e escadas de sete degraus)

Como o distinto leitor há de concordar, minhas aterrisagens sempre foram bem-sucedidas, mas eu quebro o encanto e conto o segredo. É que, desde cedo apavorado com a tendência suicida, eu ia dizendo a mim mesmo durante o telúrico e drônico voo: “Tudo bem, antes de me esborrachar, eu acordo”. Quase sempre todo suado ou mijado.

Enquanto meus tios, irmãos da minha mãe, soltavam pipa com dois carretéis grandes de linha dez, num trabalho solidário de empinar e passar cerol, para cruzar lá depois de onde Judas perdeu a rabiola, eu passava as tardes vendo peladas.

Sei que o couro comia aos sábados e domingos (que é quando íamos visitar vovó Hilda e vovô Nelson), e, se não enganam as veteranas sinapses, nunca vi uma porrada.

Os Jogos Olímpicos demonstram, por a + b, como o esporte é crucial na vida de qualquer um. O garoto que ninguém sabia quem era, vira celebridade instantânea. Quantas e quantas crianças não se animaram, nesses dias, a pedir um tênis, uma bola, uma raquete, um calção, aprender a remar, jogar isso ou aquilo?

Pra mim, cardiopata juramentado, com viagem de ida antecipada para quatro décadas depois do nascimento, o esporte significou estar vivo aos 64. Com a vantagem de ter podido remendar o coração leviano a tempo de curtir as netas gêmeas.

O esporte é uma bênção; a pelada, uma religião. E, como tal, deve ser respeitada. Não é isso que se faz numa pelada, em qualquer campinho, dos mais reles aos cheios de aditivos chiques?

Ai do incauto que corra o risco de vilipendiar o sacrossanto relvado, mesmo artificial, de uma pelada amiga!

Na pelada, pode calçar por trás? Empurrar? Entrar por cima? Botar a mão na bola? Trapacear? Se jogar simulando falta? Tentar enrolar o árbitro? Mostrar as traves da chuteira?

Ah, meu chapa! Não ouse! Não ouse!

Nunca vou esquecer meu ídolo, João Alves Jobim Saldanha, vaticinando “na latinha”, lá atrás, quando eu já era um jovem apaixonado pelo esporte que não sabia jogar:

— O dia em que acabarem os campos de várzea, o futebol brasileiro vai perder sua supremacia.

Não deu outra: grande e sábio João Sem Medo…

Por essa lenda das peladas, que permearam a vida dos meninos do Brasil, das cidades e das periferias, das bolas de meia e dos sonhados courinhos número cinco, é que fico fulo nas chuteiras quando vejo os jogos ditos “profissionais” de hoje, aqui no Brasil.

Fico imaginando esses caras no 30 x 30, na Light ou no Albertão, no Polytheama ou nas peladas do Jaé, cometendo suas pequenas vilanias. Não sobrava pedra sobre pedra. Alguém ia receber um Almir Pernambuquinho de frente. E iam ter que correr mais do que árbitro ladrão em futebol de praia.


Afonsinho (Foto: Nana Moraes)

Mestre Afonsinho Celso Garcia Reis, craque e doutor de bola, exímio passista dos blocos de segunda a domingo, propôs refundar o futebol brasileiro, nas velhas e conhecidas bases, para tirar do fundo da goela o espinho do 7 a 1.

Mestre das artes do drible e da visão de jogo, condutor da bola rasteira no gramado, olhar horizontal e atento, leonor submissa ao seu amo e senhor, vislumbrando o bote, Afonsinho é daqueles craques que nunca roubaram. Nunca se jogou, nunca simulou, nunca deu de canela.

Juntei uma coisa e outra para propor, aproveitando o Museu da Pelada, que a gente não deixe esquecer o pedido do nosso prezado amigo: precisamos reconquistar nosso futebol. De craques, ídolos e multidões. De lendas, mitos e histórias. Ainda dá tempo.

É preciso que, assim como a pelada é, nosso futebol volte a ser como ele era.

​THOMAZ MAZZONI E O 7 A 1

por Cesar Oliveira


Para a Copa de 1938, a seleção brasileira reuniu uma penca de craques de alta estirpe. E foi uma Copa de estreias.

Era a primeira vez que o “Scratch” comparecia com força máxima, com a nata dos nossos craques, com destaque para Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Batatais, Tim… sobravam craques.

A primeira irradiação ao vivo para o Brasil, e o lendário Gagliano Neto sendo o principal nome do rádio esportivo sul-americano presente ao torneio.


Thomaz Mazzoni (Foto: divulgação)

A primeira vez que uma delegação de jornalistas comparecia a um megaevento. Thomaz Mazzoni era um deles, trabalhando para “A Gazeta”!

Foi a Copa que apresentou Leônidas ao mundo. A Copa do famoso pênalti de Domingos em Piola. O terceiro lugar deixando os torcedores em polvorosa, recepção de heróis na volta ao País.

Mas as coisas não foram tranquilas na terra da baguette. Apesar das boas atuações, a imprensa desancava a Seleção. E Mazzoni, conservador e nacionalista, não gostava nada disso: “Infelizmente, nossos craques se deixam explorar pela imprensa que vive de sensacionalismo barato, único meio de conquistar leitores” – escreveu na ‘Gazeta’.

Na volta, registrou sua indignação com os coleguinhas no livro “O Brasil na Taça do Mundo, 1938”. Como registrou André Ribeiro no seu blog Literatura na Arquibancada, “(…) Mazzoni sempre foi extremamente crítico em relação aos seus colegas de profissão”.

Em 1939, aproveitando o sucesso brasileiro na Copa, publicou uma série de artigos na “Gazeta”, com o título “Problemas e Aspectos do Nosso Futebol”, onde falava do atraso da imprensa esportiva, que não teria abandonado os vícios do extinto regime amador.

Parece não ter ficado satisfeito. Tanto que em “Flô, o goleiro ‘melhor do mundo’” aproveitou o romance para, por baixo do enredo com jeitão de água com açúcar, desancar a estrutura do nosso futebol, as relações estranhas de imprensa e jogadores, escalações de árbitros arrumadas em gabinetes de federações, torcedores cornetando jogadores etc


Capa do primeiro romance esportivo do Brasil

“A imprensa esportiva é quem faz o choro, cria rivalidades e às vezes ódios, mesmo porque o choro não é mais do que um desabafo da paixão bairrista, e que quanto mais se alimenta, mais cega fica”.

“Flô, o goleiro ‘melhor do mundo’” foi lançado em 1941, às expensas do autor, já um jornalista admirado. A leitura que se faz hoje dele, 75 anos depois do lançamento da primeira edição, ajuda a entender o futebol brasileiro. Muito antes do 7 a 1, já cometíamos erros.

Mazzoni formou com Cásper Líbero uma parceria que dominou a imprensa esportiva. Promoveu eventos de vários esportes. Escreveu sobre hóquei e ciclismo, criou bordões e apelidos para clubes e clássicos. Marcou seu nome.

UM LEGADO ÀS FUTURAS GERAÇÕES

Foi André Ribeiro, biógrafo de Telê Santana e Leônidas da Silva, autor do excelente “Os donos do espetáculo: histórias da imprensa esportiva do Brasil” (Terceiro Nome, 2007) quem me apresentou à família de Mazzoni. E, por generosidade deles, tenho a honra de empreender o projeto de reedição das obras de Mazzoni, um legado às futuras gerações de pesquisadores do futebol brasileiro.

Por ter, também, os direitos das obras de Milton Pedrosa, da Editora Gol, decidi reunir esses primevos textos clássicos da literatura de futebol em nosso País na Biblioteca Digital do Futebol Brasileiro, reunindo em cinquenta e-books, a serem lançados até o inicio da Copa da Rússia, em 2018.

No acervo de Pedrosa, uma inédita carta dele para Mazzoni, em que o jornalista rio-grandense do norte agradecia a “dica” do ítalo-paulistano, de que “livros de futebol não vendem muito bem no Brasil”.

Deve ser por isso que Pedrosa registrou, na orelha de “A hora e a vez de João Saldanha” (Editora Gol, 1969) que “não temos tradição de leitura de livro sobre assuntos de futebol, como de esportes em geral”.

Aos que me perguntam – ou estranham… – o motivo pelo qual edito futebol, respondo como Pedrosa (na mesma “orelha”): “(…) com o objetivo de suprir os que não desejam ignorar o que se passa no mundo do futebol”.

A MODERNIDADE NA LITERATURA

A Biblioteca Digital do Futebol Brasileiro, iniciativa da livrosdefutebol.com, tem a intenção de proporcionar, a quem deseja conhecer e pesquisar as origens do nosso futebol, as ferramentas necessárias para fazê-lo com qualidade.

A proposta é reeditar toda a obra de Mazzoni e Pedrosa em e-book. O chamado “livro eletrônico” é, a nosso ver, a melhor maneira de editar o que chamado de “experiência ampliada”. Senão, vejamos:

E-books contornam a necessidade do investimento em papel. Reza a lenda do meio editorial, que editores se suicidam pulando do alto da pilha de encalhes.

E-books nos resguardam do hábito prejudicial adotado por algumas livrarias, de fazerem compras pontuais, às vezes de um único exemplar, para pagar em noventa dias.

E-books permitem atualizações constantes, deixando nas mãos dos leitores sempre a versão mais nova das informações.

E-books permitem a utilização sem limite de links externos – que chamo de “pés de página eletrônicos”, extensões do texto para outros textos e imagens, vídeos e áudios, podcasts e mapas, imagens animadas etc.

Aos clássicos Mazzoni e Pedrosa, vou reunir o que chamo de “clássicos contemporâneos”, os textos de pesquisadores e jornalistas, historiadores e autores dedicados à literatura de futebol.


É assim que reeditaremos toda a obra das duplas Roberto Assaf & Clóvis Martins, e Alexandre & Mesquita e Jefferson Almeida. Que lançaremos os 19 volumes de “Ídolos: dicionários dos craques do futebol brasileiro”, de André Felipe de Lima. Que lançaremos os novos livros que estão em gestação, sempre com uma pegada na história, nas boas biografias, nos estudos técnicos do nosso futebol.

É com alegria que recebemos a adesão de cronista Claudio Lovato Filho e do ex-jogador Humberto Rêdes Filho. E estamos de portas abertas para todos os que compartilhem nosso amor à literatura de futebol e à qualidade dos bons textos.

Que role a pelota!

Se tiver alguma dúvida ou sugestão, fale comigo:
(21)988-592-908 ou livrosdefutebol@gmail.com. Esse celular é Vivo e tem WhatsApp.

 

UMA VAQUINHA PRA TOCAR O PROJETO

O trabalho da Biblioteca Digital do Futebol Brasileiro me fez lembrar a analogia com os icebergs. Nada mais apropriado nesses tempos em que a Islândia sacodiu o mundo do futebol.

Do iceberg, você só vê a pontinha. Abaixo da linha d’água, um mundo. Fazer livros é assim. O que o leitor recebe nas livrarias e e-readers é só a pontinha do trabalho em que nos envolvemos desde que os autores entregam seus originais.

No caso da recuperação de textos históricos, livros às vezes em mau estado de conservação, o trabalho é enorme. É por isso que a Biblioteca precisa contar com a ajuda de quem acredita no que acreditamos.

Para desenvolver o projeto da Biblioteca Digital do Futebol Brasileiro com qualidade, precisamos contar com a ajuda de colaboradores, até com a aquisição de alguns equipamentos especiais para recuperar os textos a partir de documentos históricos, que precisam ser preservados de danos.

Sabia que a luz dos scanners rouba alguns anos de vida de documentos históricos? Que preservar livros de papel em cidades como o Rio de Janeiro – calor, umidade e maresia – é extremamente complicado?

Por isso, pedimos e contamos com o seu apoio, nessa época complicada, em que as leis de incentivo deverão ser suspensas até que as coisas se arrumem.

Para saber como contribuir com a Biblioteca Digital do Futebol Brasileiro, você pode saber mais da gente em https://goo.gl/uVn2RW e fazer parte do nosso time no Apoia.se — https://apoia.se/livrosdefutebol.

Com contribuições recorrentes e mensais entre R$10 e R$100, você ajuda a recuperar e preservar a memória do futebol brasileiro.