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Baltazar

VOZES DA BOLA: ENTREVISTA BALTAZAR


“Deus está reservando algo melhor para o Grêmio”, disse Baltazar, centroavante da equipe portoalegrense ao ser questionado por ter chutado para fora uma cobrança de pênalti no primeiro duelo da final do Campeonato Brasileiro de 1981 contra o São Paulo, em pleno estádio Olímpico.

A partida era para os amantes do futebol um confronto épico entre tricolores, para a imprensa apenas uma decisão de título das duas melhores equipes daquele ano e para a revista Placar a religiosidade de Baltazar contra a malandragem de Serginho Chulapa, estampada em sua capa com o título: ‘Deus contra o Diabo’.

Uma semana depois, no dia 3 de maio, aos 19 do segundo tempo, o lateral-direito Paulo Roberto cruza, Renato Sá escora de cabeça para Baltazar, que domina no peito na entrada da área e sem deixar a bola cair, bate de primeira no ângulo esquerdo de Waldir Peres e marca o gol do título.

A profecia dita uma semana antes da grande decisão se cumpria. Assim, no jogo de volta, o Imortal se sagrou campeão do torneio e, claro, com gol do ‘Artilheiro de Deus’, apelido dado sabe-se lá por quem mas que serve para reverenciar o El-Shadday.

“E eu queria tanto fazer um gol em uma final, que o Deus Todo-Poderoso me agraciou com isto”, conta o centroavante que marcou 131 gols na história do Grêmio, mas o chutaço no ângulo do arqueiro são-paulino vale por todos. Duvida? Pergunte a qualquer gremista.

Contudo, Deus sempre esteve ligado à vida de Baltazar Maria de Moraes Júnior, atualmente com 61 anos, desde os seus 18, quando entrou em seu quarto, fechou a porta e buscou na Bíblia respostas para as suas aflições.

Filho caçula de seu Baltazar Maria de Morais e de dona Conceição de Faria Chaves, Baltazar se apaixonou por futebol muito cedo, pois os fundos da sua casa davam para o estádio Antônio Accioly, conhecido como Castelo do Dragão, localizado na região Centro-Oeste, de Goiânia.

Nascido Baltazar Maria de Morais Júnior, em 27 de julho de 1959, por conta dos gols e do sucesso em campo, abandonou o curso de Matemática, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), porém, dentro das quatro linhas, não precisou se graduar, pois somava gols, diminuia derrotas, multiplicava alegrias e dividia títulos com os companheiros e torcedores dos clubes em que jogou.

Assim foi gritando gol, ação que evidenciava o número 9 de sua camisa e exorcizava as defesas adversárias sendo centroavante do Atlético Goianiense, Grêmio, Palmeiras por duas vezes, Flamengo, Botafogo, Celta de Vigo-ESP, Atlético de Madrid-ESP, Porto-POR, Rennes-FRA, Goiás e Kyoto Sanga-JAP.

Atualmente, o ‘Artilheiro de Deus’ e um dos criadores do movimento ‘Atletas de Cristo’, ao lado de João Leite, goleiro do Atlético Mineiro, mora em São Carlos, interior de São Paulo, é pregador da palavra do Senhor e evangelista na Igreja Presbiteriana da Vila Prado, além é claro, se ser o nosso vigésimo segundo personagem do Vozes da Bola.

texto: Marcos Vinicius Cabral

edição: Fabio Lacerda

Baltazar, como foi o início de carreira?

Foi no Atlético Clube Goianiense, onde eu joguei desde as categorias de base até me tornar profissional. O interessante é que a minha casa era vizinha ao campo do clube e bastava pular o muro que eu já estava no terreno do Atlético Goianiense. Posso te afirmar que o Dragão foi a extensão da minha casa, era como se fosse o quintal do lugar onde morava.

Como foi jogar no profissional, em 1978, atuando pelo Atlético-GO, e mostrando fato de gol e sendo o artilheiro do Campeonato Goiano?

Jogar no Atlético Goianiense foi uma grande alegria, pois era o time da minha cidade e o que eu torcia. Era o clube que estava ao lado da minha casa, e em 1978, no meu primeiro ano como profissional, já experimentei a artilharia do Campeonato Goiano com 31 gols marcados. Isso me fez aparecer para o futebol nacional, e consequentemente, ser transferido para o Grêmio. 

Seus primeiros títulos no Grêmio foram o bicampeonato Gaúcho de 1979 e 1980, no qual ficou confirmado nos 28 gols em 1980, e 20 em 1981. De onde veio essa facilidade de fazer gols?

Eu sempre fui obstinado a buscar o gol. Era incessante nisso e trabalhava muito para ser artilheiro. Sabia das minhas limitações técnicas, não era um craque de bola, e por esse motivo, para sobressair no meio de tantos grandes jogadores, era preciso treinar. E treinar muito. E foi o que fiz. Sempre treinei as conclusões de perna direita, perna esquerda, cabeceio, chutes de pequena, média e longa distâncias. Então, se eu fiz muitos gols nos clubes por onde passei deve-se muito ao fato de ter me aprimorado nos fundamentos importantes para se destacar como centroavante. Lembro que, ao chegar no Grêmio, fiz muitos gols no primeiro ano, em 1979 e depois em 1980. Tornei-me artilheiro também no Campeonato Gaúcho. 

Ainda em 1981, o gol do primeiro título brasileiro do Grêmio na final contra o São Paulo, no Morumbi, foi seu. Quais as lembranças desse gol e desse título?

Boas lembranças! Em 1981, na final do Campeonato Brasileiro, no estádio do Morumbi, vencemos por 1 a 0. Foi o gol mais marcante da minha carreira. Lembro, perfeitamente, que, no primeiro jogo da decisão, eu havia perdido um pênalti, batendo para fora. Mas no segundo jogo, consegui me redimir e fazer o gol mais importante da minha carreira. O lance não sai da minha cabeça. Foi uma jogada muito bonita em que o Paulo Roberto cruzou, o Renato Sá ajeitou de cabeça, e eu dominei no peito, na entrada da área e sem deixar cair, bati no canto esquerdo de Waldir Peres. Gol bonito e que deu ao Grêmio o título.

Por seus feitos com a camisa do Tricolor Gaúcho, você se transformou em um ídolo da torcida e está entre os dez maiores artilheiros do clube com 131 gols marcados. Fale um pouco do Imortal?

É uma alegria enorme ter marcado 131 gols e figurar entre os dez maiores artilheiros da história do Grêmio. Isso, sem dúvida, representa muito para mim, e sou muito grato ao Grêmio, que foi o clube de futebol que eu tive a maior identificação na minha carreira, além de ter sido a equipe que me projetou nacional e internacionalmente. Foi vestindo a camisa do Tricolor Gaúcho que cheguei à seleção, e por tudo isso, sou eternamente grato. Até hoje, tenho um carinho especial pelo Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense.

Você jogou no Flamengo, em 1983, e sagrou-se campeão Brasileiro. Como surgiu o convite para jogar no clube?

Ter jogado no Flamengo para mim foi a realização de um sonho, porque desde garoto era torcedor do Atlético Goianiense e do Flamengo. Na verdade, foi um sonho realizado, no entanto, é bom frisar, que eu tive oportunidade de ser campeão e jogar todos os jogos do Campeonato Brasileiro de 1983 como titular. Título muito importante para minha carreira e para minha vida.

Do Flamengo você foi para o Palmeiras e depois voltou ao Rio para defender o Botafogo. Como foi jogar nesses dois clubes?

O Palmeiras foi a única equipe em que eu pude jogar por ela em duas ocasiões: emprestado em 1982, e na outra eu fui vendido em 1984. Mas isso foi bom, pois foi sinal de que fui bem recebido, bem aceito, gostaram do meu trabalho e fiquei satisfeito e muito contente. No Botafogo foi o clube que me deu condições de ser artilheiro do Campeonato Carioca de 1985, e que tínhamos um ambiente muito bom. O Botafogo abriu as portas do mundo ao me transferir para a Espanha. Fui jogar no Celta de Vigo no mesmo ano. Posso te afirmar que tive bons momentos nesses dois clubes e com um ambiente maravilhoso em cada um deles.

No Celta de Vigo-ESP, em um jogo válido pela segunda divisão espanhola, você chocou-se com o goleiro Gallardo, do Málaga, que sofreu uma comoção cerebral e morreu 18 dias após ficar internado em coma. O que aconteceu de fato?

Posso dizer que o que aconteceu foi um acidente. Lembro, perfeitamente do lance, pois mesmo passado tantos anos, ficou marcado na minha vida esse trágico acontecimento. Foi uma bola lançada, em que consegui chegar e chutá-la antes do choque com o goleiro Gallardo. Quando eu chutei, ele já vinha com toda velocidade se atirando aos meus pés tentando segurar a bola e não conseguiu. Houve o choque e foi inevitável, mas foi um acidente de trabalho. Infelizmente, a gente fica bastante consternado, foi um momento dramático no qual passei alguns dias absorvidos com aquilo Triste mesmo, mas pude superar porque Deus pode trazer consolo ao meu coração.


Na Espanha, você jogou no Atlético de Madrid-ESP, conquistando o Troféu Pichichi como artilheiro na temporada 1988/89, ao fazer 35 gols. Como foi essa passagem e essa experiência?

O Atlético de Madrid me proporcionou isso e é uma das grandes equipes do futebol europeu. Na Espanha, talvez seja atrás do Barcelona e do Real Madrid, a terceira força do futebol. Eu tive esse privilégio que foi receber esse troféu jogando nessa grande equipe, onde fui artilheiro logo no meu primeiro ano marcando 35 gols. Foi algo que eu jamais pensei que pudesse acontecer, fazer parte de um grupo seleto com Messi, Cristiano Ronaldo, Romário, Ronaldo, e tantos jogadores que já passaram por ali e que foram artilheiros. Agradeço a Deus por estar entre esses grandes jogadores do futebol mundial.

Ao conquistar o tradicional Troféu Pichichi (prêmio entregue ao final de cada temporada da La Liga pelo jornal espanhol Marca ao artilheiro do campeonato), você entrou para o seleto grupo de Cristiano Ronaldo, Romário, Ronaldo, Raúl, Diego Forlán, Ruud van Nistelrooy, Alfredo di Stéfano, Samuel Eto’o e, recentemente, Lionel Messi, aliás, o maior vencedor do prêmio. Qual a sensação de ganhar tal honraria e ser colocado ao lado desses jogadores?

Ter alcançado o sucesso que tantos jogadores também alcançaram como Cristiano Ronaldo, Messi, Ronaldo e Romário, e todos outros craques citados na pergunta, e que foram artilheiros, me deixa muito feliz de verdade. Eu sendo formado na base do Atlético Goianiense, fico vendo que este clube proporcionou ao futebol mundial um dos grandes artilheiros. E não nos resta dúvidas de que a base é importante na carreira do atleta e a minha especificamente foi muito boa para mim a ponto de ter me profissionalizado pelo clube. Passados tantos anos, sou muito grato ao Atlético Goianiense por ter me dado essa oportunidade para que eu pudesse desenvolver meu trabalho e meu futebol. Me sinto muito honrado em ter vestido a camisa de uma grande equipe como o Atlético de Madrid e ser lembrado na história do futebol espanhol como sou agora.

Uma breve passagem pela Seleção Brasileira conquistando o título da Copa América de 1989 e totalizando três gols em sete jogos. Por que o Baltazar não fez tanto sucesso com a amarelinha como fez nos clubes?

A Seleção Brasileira é sempre uma realização de um sonho. Pude vestir a amarelinha por sete vezes, disputei a Copa América de 1989, fiz três gols jogando pelo Brasil, mas não é fácil se manter na Seleção. O que eu posso dizer é que existem muitos fatores internos e externos, é uma concorrência muito grande, são poucas chances, muitos bons jogadores, tem a questão do entrosamento com os companheiros e isso dificulta muito para que a gente possa fazer um fazer um bom trabalho. Mas eu sou feliz em ter participado da Seleção e foi uma experiência maravilhosa.

Você foi um dos primeiros jogadores a declarar-se ‘Atleta de Cristo’. Como foi a sua conversão?

Fui um dos primeiros ‘Atletas de Cristo’, juntamente, com João Leite, goleiro do Atlético Mineiro. A minha conversão ocorreu no ano de 1978. Eu estava com 18 anos e chegou uma noite que não consegui dormir de tanta inquietação e angústia no meu coração pelas coisas que eu fazia, lugares que frequentava, os namoros e as conversas que eu tinha com as meninas. Confesso, eu não estava bem, não estava feliz, estava angustiado e naquela noite eu fiz o que a Bíblia diz para a gente fazer em 1 João 1:9: “Se confessarmos os nossos pecados Ele é fiel e justo para nos perdoar de todos os pecados e nos purificar de toda injustiça”. Nesse momento, me ajoelhei, pedi a Deus perdão pelos meus pecados e ele me perdoou, transformando a minha vida e me fez uma nova criatura. A partir dali, foi algo tremendo e maravilhoso o que o Senhor fez na minha vida.


O que representou a conquista da Bola de Prata concedida pela Revista Placar em 1980?

A Bola de Prata era um prêmio que todo jogador gostaria de ganhar, era o Oscar do futebol brasileiro, além de ser um dos mais valorizados no Brasil. Ser eleito o melhor atacante do ano pela revista Placar, um veículo muito respeitado, era o máximo na carreira de todo jogador. Particularmente, foi uma honra, uma alegria e uma satisfação enormes ver a carreira se firmar e se fortalecer naquele momento.

Seu sonho era ser engenheiro, mas acabou estudando sem terminar o curso de matemática. Entretanto, o talento com a bola parecia seduzir-lhe mais que os números e equações. Se arrepende em ter optado pelo futebol?

É verdade. Eu realmente tinha um sonho que era em ser engenheiro civil. Inclusive, já havia feito um curso técnico de edificações e já podia fazer construções e tudo, além de, também, ter ingressado na faculdade de matemática sem concluir. Contudo, não foi o que Deus reservou para mim. Pude me realizar não foi sendo engenheiro ou matemático, mas tive a oportunidade de construir muitas casas ao longo dos anos e isso me trouxe uma satisfação muito grande. Por isso eu nunca me arrependi de ter seguido a carreira de jogador de futebol, porque ela era muito mais promissora. Sei que o futebol traria mais resultados e me trouxe muito mais alegria também. No entanto, creio que fui muito feliz nas escolhas que eu fiz na vida.

Seus 34 gols ajudaram o Celta de Vigo-ESP a retornar à primeira divisão, um recorde da segundona espanhola, que perdurava desde 1969. Você chegou a ser chamado de “El Rei” pelos fanáticos torcedores. Como lidava com esse fanatismo todo?

Outro lugar que eu gostei muito de ter jogado foi no Celta de Vigo na Espanha, onde me tornei artilheiro com 34 gols jogando na segunda divisão. O time havia caído e com muito trabalho e profissionalismo, conseguimos voltar à primeira divisão. Sempre fui muito bem tratado, respeitado por dirigentes e torcedores, e o Celta foi um dos clubes que mais tempo joguei. Uma experiência muito boa.

Você trocou a Espanha por Portugal, e no Porto, onde jogou em 1991, não se adaptou e foi para o Rennes-FRA, onde permaneceu até 1993. Como foi jogar nesses três países?

Muito complicado. Depois que saí do Atlético de Madrid, na Espanha, fui jogar em Portugal, defendendo o Porto. Cheguei e peguei o campeonato em andamento. Tive muitas dificuldades na adaptação, pois era um futebol diferente do praticado na Espanha. Nesse caso, a adaptação não se fez tão rápida e eu senti muitas dificuldades. Não fui bem, e em seguida, na França, vesti a camisa do Rennes, que era outro local completamente diferente da Espanha e de Portugal. A dificuldade foi ainda maior, pois era um time considerado pequeno que não atacava muito e se limitava em se defender. Imagine ser centroavante de uma equipe com esse esquema tático? Foi muito complicado para mim essas passagens nesses países.

Como surgiu esse apelido ‘Artilheiro de Deus’?

Normalmente a gente não gosta muito de apelidos, seja na infância, na fase adulta ou no meio do futebol. Mas confesso para vocês do Museu da Pelada, que esse apelido foi especial e me marcou muito. Recordo-me que foi no Rio Grande do Sul que começaram a me chamar de ‘Artilheiro de Deus’ e eu gostei e muito! Imagina, ser chamado de ‘Artilheiro’, coisa maravilhosa e de suma importância para quem vive do ofício de marcar gols e ‘de Deus’, mais importante ainda. Esse apelido é curioso, pois surgiu no Grêmio e até hoje não sei exatamente quem foi a pessoa abençoada que o profetizou pela primeira vez. Eu sei que todas às vezes que eu ia conceder uma entrevista, eu sempre queria agradecer a Deus, falar do amor de D’Ele para as pessoas, do que Ele podia fazer por nós, e com isso se associou o que eu dizia de Deus. Eu tenho muita gratidão a quem me deu o apelido que ficou marcante para mim e até hoje marcado na história do futebol brasileiro.

Qual foi o melhor treinador com quem você trabalhou?

Orlando Fantoni. Foi um grande treinador que passou na minha carreira, tanto no Grêmio, clube que me deu oportunidade e passou muita confiança, e depois no Botafogo. No início da carreira, quando eu precisei de mais apoio e confiança, “Seu” Orlando acreditou em mim e no meu futebol. Foi um treinador com muita experiência.

Defina Baltazar em uma única palavra?

Gratidão. Essa é a palavra que eu posso me definir. Gratidão a quem? A Deus. Porque ele mudou a minha vida, as circunstâncias no meu trabalho no futebol, meus relacionamentos. Eu olho para trás e vejo que não merecia nada, mas Deus pode me abençoar muito. Devo tudo ao Senhor e sou eternamente grato por tudo que ele fez na minha vida.

Como tem enfrentado esses dias de isolamento social devido ao Coronavírus?

Esse isolamento social não tem sido fácil. Estamos isolados, eu, meus dois filhos e minha esposa, mas uma coisa importante na nossa vida é a presença de Deus. Apenas a sua presença nos traz paz mesmo no momento turbulento como esse. Estamos aqui como família buscando a Deus a todo momento. O Senhor tem trazido esperança, alegria e paz para o nosso coração. No mais, espero que em breve tudo possa voltar ao normal, mas estamos bem, graças a Deus.

BALTAZAR, ‘CABECINHA DE OURO’ PRECISA COMO O BIG-BEN

por André Felipe de Lima


Baltazar, o “Cabecinha de ouro”, foi um dos maiores artilheiros da história do Corinthians e ídolo alvinegro muito bem descrito pelo saudoso jornalista Solange Bibas: “O Cabecinha de Ouro é como o Big-Ben de Londres: infalivelmente certo!”. Cabeçada com ele significava meio gol. Mais certo meter a bola na rede com o cocuruto que chutá-la da marca do pênalti e concluí-la em gol. “Com a cabeça, nem Pelé foi melhor do que eu”, dizia Baltazar, cujo nome era Oswaldo. Decidiram chamá-lo assim devido à semelhança com um irmão mais velho, esse sim com o “Baltazar” devidamente descrito na certidão de nascimento.

As glórias do passado ficaram no baú, em jornais e revistas empoeiradas e carcomidas pelo tempo. Poucos hoje se recordam do grande centroavante, o segundo maior goleador da história do Corinthians, com 266 gols, ficando atrás apenas do atacante Cláudio, que marcou 305 vezes. Ambos foram contemporâneos e jogaram naquela que, para muitos, foi a melhor equipe que o Timão montou, entre 1950 e 1954, contando, principalmente, com os goleiros Gylmar dos Santos Neves e Cabeção; os defensores Homero, Murilo, Olavo, Belfare, Idário, Goiano e Touguinha; os volantes Roberto Belangero e Julião e os avantes Cláudio, Luizinho, Baltazar, Rafael, Nelsinho, Carbone, Simão e Mário. Uma penca de craques que teve como treinadores no período Newton Senra, Rato (grande craque do Timão nos anos de 1920) e Oswaldo Brandão, talvez o maior treinador que o Timão já teve.


Tudo que puderam disputar, eles conquistaram. Com essa leva de cobras, o Timão foi tricampeão paulista, de 1951 a 1954; três vezes campeão do Torneio Rio-São Paulo, em 1950, 53 e 54, e até mesmo vencedor da Copa Marcos Pérez Gimenez, considerada uma pequena “Taça do Mundo”, de 1953, um quadrangular para o qual o Timão acabou convidado após a desistência do Vasco. Realizada na Venezuela, a competição teve o Corinthians campeão após bater a Seleção de Caracas, o Barcelona e a Roma, que foi no lugar do Milan, que, igualmente ao Vasco, desistiu do torneio. Foi o único título dessa leva memorável de conquistas que o “Cabecinha de ouro” não ostenta no invejável currículo.

O próprio Baltazar não era afeito a entrevistas e, segundo perfil publicado pela revista Placar, em 1970, nunca gostou muito de paparico de torcedor. “Todos o achavam muito mascarado”, escreveu a revista. Mas Baltazar reconhecia o jeitão esquisito: “Eu sou assim. O passado não me interessa”.

Mesmo de perfil azedo, Baltazar não pode ser esquecido no passado. Nem pelos torcedores mais jovens e jamais pelos mais antigos. É um verdadeiro herói corintiano, que até o final da década de 1990 era figura indispensável em formações dos sonhos do Timão, como mostrou edições da própria Placar e dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo. Sempre que rolava uma enquete promovida por estes veículos para a escolha dos melhores do Timão em todos os tempos, Baltazar era nome certo. Mas a virada do ano 2000, marcada pelo tal “bug do milênio” nos computadores, parece ter apagado —, não das máquinas e acervos, mas da memória de muitos — a figura do incomparável Baltazar, o “Cabecinha de ouro”, que hoje completaria 93 anos. Hora mais que oportuna para resgatá-lo.

BALTAZAR ANDA COM FÉ… E GOLS!

por André Felipe de Lima


No início da década de 1980 uma geração de jogadores proclamou-se “representante digna da fé religiosa” nos gramados. Eram os “atletas de Cristo”. Um dos expoentes chama-se Baltazar, o centroavante presbiteriano que marcou época no Grêmio e foi um dos protagonistas da conquista do primeiro campeonato brasileiro do tricolor gaúcho, em 1981. Nenhum jogo seria ganho, reforçava o artilheiro “pastor”, caso não houvesse uma “intervenção divina” graças às leituras dos “Salmos”. Jogos, títulos, troféus… tudo tem, afinal, o “dedo de Deus”. “Quando não faço gols, é porque Deus não quis. Quando marco, é porque estava em Seus planos. E olha que fui artilheiro do Campeonato Goiano. Tudo começou a acontecer quando descobri Deus […] Tornei-me titular, meu salário aumentou, fui artilheiro, o Grêmio me quis. Puxa, isso diz tudo!”, declarou, em maio de 1979, Baltazar, ainda jovem craque, que acabara de chegar ao Grêmio, convicto de que entraria para a história do clube gaúcho. Fé e, sobretudo, muito trabalho o garantiram no panteão de ídolos imortais do tricolor.

Baltazar Maria de Morais Júnior nasceu no dia 17 de julho de 1959, em Goiânia. Converteu-se graças à influência dos pais, seu Baltazar e dona Conceição. “Um dia, entrei no meu quarto, ajoelhei-me diante de uma imagem de Cristo e pedi, com muita fé, que Ele me ajudasse, que desviasse minha mente de namoricos e festinhas. Senti que havia um grande vazio no meu coração e só Deus poderia preenchê-lo.”

O ainda menino Baltazar deixou de lado o carteado das concentrações dos juvenis, as festinhas e os namoricos. A fé veio junto com o sucesso no futebol, com um alvissareiro começo de carreira no Atlético Goianiense, em 1978, time de sua cidade natal, Goiânia, aos 17 anos. Logo no primeiro ano como profissional, foi artilheiro estadual, marcando 31 gols no campeonato, um recorde até hoje imbatível no futebol goiano.


No mesmo ano em que explodiu no Atlético Goianiense, Baltazar cursava Matemática. O sonho era ser engenheiro, mas o talento com a bola parecia seduzir-lhe mais que os números e equações. Em maio do ano seguinte, na maior transação da história do futebol goiano, o centroavante seguiu para o Grêmio, que pagou três milhões de cruzeiros para tê-lo no Olímpico. No clube gaúcho, conquistou, de cara, campeonato gaúcho de 1979, marcando 19 gols em apenas 20 jogos. Logo após o título, a Federação Goiana de Futebol reconhecera o valor de Baltazar, premiando-o com cinco mil cruzeiros, pelos 31 gols do campeonato goiano do ano anterior. O craque doou todo o dinheiro à sede goiana do Movimento de Recuperação de Viciados em Tóxicos.

Em 1980, Baltazar seria “bi” gaúcho e artilheiro principal da competição, com 28 gols. Seus gols garantiram uma vaga nas seleções brasileiras das categorias de base. A fé e, sobretudo, os gols de Baltazar foram exaltados também no Palmeiras, Flamengo e Celta de Vigo, na Espanha.

Todo gremista que viu Baltazar vestir a camisa tricolor vibrou com seus gols. O único lamento era, porém, a escassez de gols do artilheiro em clássico Grenais. Durante os anos em que esteve no Olímpico, Baltazar marcou apenas três gols contra o Internacional. O saudoso Luiz Carvalho, outro ídolo gremista e maior artilheiro tricolor contra o Inter, pedia, em outubro de 1981, às vésperas de mais um embate encarniçado contra o arquirrival, paciência aos torcedores mais exaltados. Dizia que Baltazar, embora goleador nato, nada poderia fazer se não tivesse um bom “garçom” a lhe servir bolas à vontade para estufar as redes coloradas: “Ele precisa de alguém que o ajude, porque sozinho não dá”. Os meias Paulo Isidoro e Vilson Tadei, companheiros de Baltazar em 1981, rechaçaram a opinião do ídolo Luiz Carvalho e garantiram que a sorte estava era mesmo do lado do paraguaio Benitez, goleiro do Inter. Foguinho, outro ídolo imortal do panteão gremista, alertou para uma insegurança de Baltazar diante do Inter: “O problema é que Baltazar não tem uma personalidade marcante. Por isso, sente as críticas e perde a segurança. Eu o aconselho a ter mais confiança nele mesmo”.

O conforto de Baltazar ficava por conta de Myrna, a dedicada companheira do craque, tanto nos momentos mais felizes ou nos duros da carreira do grande atacante. De Myrna, Baltazar nunca se separaria, e com ela, teve dois filhos.

TUDO PELA FÉ

A credulidade exacerbada de Baltazar rendeu algumas histórias, no mínimo, surreais e lendárias. Ainda no Grêmio, o craque artilheiro se preparava para embarcar com a delegação do time para o Rio de Janeiro, onde haveria um jogo contra o Flamengo pelo campeonato brasileiro. Ele se recusou a embarcar por que teria esquecido sua bíblia em casa. A situação foi extremamente desconfortável e o chefe da delegação teria oferecido ao centroavante a sua bíblia particular. Baltazar recusou. “Tenho que buscar o Livro de Deus. Nem que seja para pegar o vôo seguinte, pagar a passagem do meu próprio bolso, e me encontrar com vocês lá no Rio”, teria dito o craque.

Ao desembarcarem, os companheiros compraram imediatamente uma bíblia para Baltazar, que aceitou mais por educação do que por convicção. Prenúncio de “tragédia” no Maracanã? O Grêmio realmente jogou muito mal no primeiro tempo, Baltazar idem. No segundo tempo, porém, há algo no ar. O “Artilheiro de Deus” retornou ao gramado renovado. E não foi por causa da preleção do técnico. “Foi Deus”, teria alegado.

Marcou o gol da vitória do Grêmio e garantiu que a mão divina estava nos seus pés, graças ao “perdão obtido por ter esquecido a bíblia em Porto Alegre”. Jogo terminado, Baltazar concedeu as costumeiras entrevistas no campo e seguiu para o merecido banho no vestiário. Ao remexer sua bolsa, a surpresa: A bíblia… a sua bíblia estava ali, diante dele, como uma espécie de milagre. O autor? Deus? Que seja, mas a colaboradora de Deus no milagroso transporte do texto sagrado foi a esposa de Baltazar, que após conversar com o centroavante pelo telefone, horas antes do jogo, pegou um avião imediatamente rumo ao Rio, desceu no aeroporto e, de táxi, chegou rapidamente ao Maracanã. Autorizada pelo roupeiro do Grêmio, entrou no vestiário e colocou a bíblia de Baltazar na bolsa do craque minutos antes do final do primeiro tempo. Correu para a arquibancada e ainda presenciou o feito do renovado marido durante o segundo tempo. Estava consumado o milagre do Grêmio, dos pés de Baltazar, da perseverança da esposa do ídolo e, vá lá, com mão do chefe lá de cima.


Mas a carreira de Baltazar sempre esteve muito acima de milagres. Seus gols nada tinham de metafísicos ou subjetivos. Eram reais, para a alegria do futebol nacional. Foi dos pés do craque que o Grêmio iniciou sua trajetória de títulos para além dos pampas. Na final do campeonato brasileiro de 1981, contra o São Paulo, no lotado estádio do Morumbi, um golaço de Baltazar, após uma jogada que começou com o lateral direito Paulo Roberto, passou por Renato Sá, que, de cabeça, levantou na área para a “matada” de bola seguida por um chute certeiro de Baltazar contra a meta de Waldir Peres. A “Máquina” do Morumbi caiu diante do tricolor gaúcho.

Em agosto de 1982, o jogador, sem um bom clima no Grêmio após a perda do título estadual de 81, foi transferido, por empréstimo, para o Palmeiras [para onde regressou no segundo semestre de 1983]. Sua passagem, que durou até dezembro, foi, no entanto, curtíssima e aquém do seu farto futebol. Nas duas fases em que esteve no Verdão, disputou 70 jogos, venceu 26, empatou 28 e marcou 25 gols. Antes de se transferir para o futebol espanhol, vestiu ainda as cores de Flamengo, em 1983, após um troca-troca entre os clubes envolvendo também o meia Tita. Na verdade, Baltazar tinha chances de permanecer no Palmeiras, mas a diretoria gremista queria o craque do Flamengo a todo custo. “O que eu não queria mesmo era voltar para o Grêmio, porque me sentia rejeitado pela diretoria que acabara de assumir. Como eles estavam loucos atrás do Tita, acabaram melando minha contratação pelo Palmeiras para poderem fazer a troca com o Flamengo.”

Ao lado de Zico e Júnior, Baltazar ajudou o rubro-negro a conquistar o tri-campeonato brasileiro, em 83. Poderia ter ficado mais tempo no Rio de Janeiro, mas, logo que chegou à cidade, assustou-se com o verão carioca, como descreveu a repórter Maria Helena Araújo: “Passeando pelas areias quentes de Ipanema, Baltazar parece tão à vontade quanto um torcedor do Fluminense perdido no meio da galera flamenguista, em pleno Fla-Flu. A brancura de sua pele o deixa encabulado e produz um contraste chocante com o bronzeado dos corpos seminus que desfilam diante dos seus olhos. De súbito, como que fareja algo estranho no ar, ele franze o nariz e indaga: ‘Que cheiro estranho é esse?’ O cheiro era inconfundível e vinha de um cigarro de maconha que corria de mão em mão, num grupinho de pessoas ao lado. Baltazar balança a cabeça num gesto de reprovação e vai embora.”

E foi mesmo, um ano depois, após a segunda e curta passagem pelo Palmeiras, no segundo semestre de 83, para o Botafogo, com o qual foi artilheiro do campeonato estadual de 84, com 12 gols, ao lado de Cláudio Adão, do Bangu.

Do Rio à Espanha, Baltazar chegou a Vigo em agosto de 1985 para defender o Celta. No ano seguinte, no dia 21 dezembro, em jogo válido pela segunda divisão espanhola, sofreu uma grave contusão após involuntariamente chocar-se com o goleiro Gallardo, do Málaga, que sofreu uma comoção cerebral e morreu dezoito dias após ficar internado, em coma. Muito abalado, Baltazar o visitou duas vezes no hospital. Na temporada seguinte [1986/87], enfim, a volta por cima. Baltazar recebeu elogios e a reverência da torcida e crítica espanholas, ajudando ao Celta a retornar à primeira divisão, com 34 gols, um recorde da segundona italiana, que perdurava desde 1969. Baltazar era chamado de “El rei”, pelos fanáticos torcedores.

Baltazar gostou do “milagre”, e quis mais. Em outubro de 1988, já pelo Atlético de Madrid, a revista Don Balón — que o batizou de “El Diós del gol” — concedeu a ele o prêmio de melhor jogador estrangeiro na terra do flamenco. Não era para menos. Os 35 gols assinalados na temporada 1988/89 garantiram ao “Artilheiro de Deus” o troféu “Chuteira de Ouro” do futebol europeu, desbancando o mexicano Hugo Sanchez, ídolo do rival Real Madrid, principal artilheiro espanhol nos três anos anteriores. Sua missão estava cumprida na Espanha: marcou 53 gols em duas temporadas. Do Brasil, o técnico da seleção brasileira, Sebastião Lazaroni, não ignorou o feito e o convocou. Mesmo na reserva de Romário, Baltazar esteve presente na conquista da Copa América em 1989, realizada no Brasil.

O ex-goleador anunciou, em outubro de 1990, ao presidente do Atlético de Madrid, Jesus Gil, que deixaria o clube. Baltazar trocou a Espanha por Portugal. No Porto, jogou em 91. Não se adaptou e foi para o Rennes, onde permaneceu até 1993. Regressou ao Brasil em 1993 para defender o Goiás. Foi campeão goiano em 1994, realizando o sonho de levantar um troféu em sua terra natal, e deixou o clube no ano seguinte, seduzido pelo futebol japonês. No Goiás, Baltazar percebera que a idade já lhe comprometia a carreira. Simplesmente, o treinador do time era mais novo que ele. Era o sinal.

O craque terminou a carreira em 1996 no Kyoto, evidentemente longe do brilho de outrora, mas com uma marca invejável de 412 gols ao longo da jornada nos gramados.

Na seleção, apesar do sucesso nas divisões de base, raramente era lembrado. Telê Santana foi quem mais deu oportunidades a ele. Já aposentado da bola, Baltazar tornou-se empresário de jogadores e presidente da “Missão Atletas de Cristo do Brasil”.

Quando Baltazar abandonou os gramados, sofreu, como todo jogador, com o fim da carreira: “Orei pedindo uma direção, foi um tempo difícil. E me recordei que, quando jogador, participei sem cobrar nada de transferências [de outros jogadores] para a Europa. Tive satisfação em ajudar e resolvi experimentar de novo, desta vez profissionalmente”. Um dos craques que Baltazar levou para a Espanha, nos tempos em que ainda era um “empresário amador”, foi o amigo Donato, que na época brilhara no Vasco. Donato tornou-se um dos maiores ídolos do futebol espanhol em seu tempo. E Baltazar continua inesquecível, como um dos melhores atacantes que o Brasil produziu nos anos de 1980.

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