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America

O ADEUS DE TIA RUTH E O DESABAFO DE GERALDAVES

por Paulo-Roberto Andel


Tia Ruth acabou de morrer e com ela se foi um jeito de torcer que não existe mais: colocar o amor e a simpatia acima de todas as intempéries, que no caso do seu America têm sido intensas. Uma lady a serviço da memória do futebol brasileiro, enfrentando viagens, campos esburacados e falta de estrutura para apoiar uma causa que muitos consideram perdida. O fato é que o America faz uma falta enorme ao Maracanã e, se pensarmos no passado, o próprio Maracanã, aquele que aprendemos a amar e admirar, também faz falta.

A tristeza não parou. Recebi por WhatsApp um texto, uma carta aberta possivelmente assinada sob pseudônimo que me emocionou profundamente. Além da enorme simpatia pelo America, estou escrevendo um livro sobre o clube junto com o jornalista André Luiz Pereira Nunes, o que aumenta a reflexão. Ler a carta foi como levar um soco violento no queixo. Tomei a liberdade de reproduzi-la aqui:

“É preciso acabar com o America!

(por Geraldaves de Almeida)

É preciso acabar com o America. O time para o qual torci não mais existe. Trata-se de um arremedo, uma cópia mal feita. A camisa, outrora rubra, se misturou ao anêmico sangue dos botinudos que ora a envergam. Alex, Edu, Bráulio e Luisinho ficaram definitivamente na memória dos tolos saudosistas.

É preciso acabar com o America. Urge que o façam logo. Meu time agoniza lentamente em meio a um limbo em forma de espiral. É um cenário perfeito para um portador de labirintite.

O agora ex-America necessita de uma morte digna, pois seus dirigentes o tem infestado a cada ano com refugos e velharias. No início da temporada o elenco contava com 6 goleiros, vejam só, 6 goleiros! O principal, contundido, não atuou em nenhum prélio destes certames de segundo escalão que o ex-America insiste em atuar sem obter qualquer êxito.

É preciso que algum corajoso aperte logo este botão. O antigo America necessita ser eutanasiado, pois merece uma morte indolor em respeito às suas glórias, restritas a um passado cada vez mais longínquo.

Os jovens de hoje não conhecem o America. Nunca ouviram falar. É o Mineiro, o de Natal? O clube estranhamente desapareceu do noticiário. Seu nome não aparece sequer nas páginas policiais, sinal claro de que o doente terminal necessita urgentemente do direito à inexistência oficial.

O ex-America possuía a sede mais moderna e charmosa da América Latina. Mas o espaço veio ao chão. Dizem que no lugar erguerão um shopping center e no playground ficará acomodado o ex-America. Que triste fim! Será que ao menos a diretoria passará a emitir boletos?

A culpa de toda essa decadência seria da CBF e do famigerado Clube dos Treze, alegam alguns insistentes torcedores. Mas isso não é verdade. A culpa é do futebol moderno que preza pela elitização e a existência dos clubes de massa em detrimento da pluralidade saudável e necessária. Money, my friend!

Não há mais espaço para meu ex-time. Em lugar de vê-lo sujo, mal ajambrado e descolorido, prefiro torcer por um fóssil.

Por favor, desliguem os aparelhos e deixem o meu America morrer em paz!”

O que foi lido acima é uma declaração de amor e desespero. Centenária instituição que ajudou muito nos alicerces do futebol brasileiro, o America tem cumprido uma pena desde 1987, quando foi alijado da primeira divisão do futebol brasileiro numa canetada, até que passou a viver em quase mendicância esportiva e hoje tem uma vida sobrenatural: parece resistir mesmo em estado de decomposição.

O America não pode morrer. Ele é um pedaço fundamental da história dessa cidade. Num período de quarenta anos atrás, curtíssimo para a análise histórica, o America ocupava dignamente o Maracanã, ostentava seu bandeirão na arquibancada e disputava títulos. Sua derrocada é drama, lição mas também um chamado de socorro.

Eu não tenho as soluções, eu não tenho as respostas. A única coisa que sei é que ele precisa ser salvo, precisa ser resgatado de um incêndio que o cremará se nada for feito.

Não adianta que algumas moscas mortas do clube, eternamente penduradas lá, ainda tentem enganar alguém com discursos pernósticos e empáfia oca.

Para o que foi e ainda é, o America não vive menos do que uma tragédia, capaz de alimentar o desespero como se leu na brilhante carta de Geraldaves, reproduzida acima.

Torcedores e sócios do America precisam se unir e lutar, lutar muito para impedir uma morte que parece anunciada em outdoors. O lugar do time rubro não é o de figurante na segunda divisão do Rio. Há um século em jogo. É preciso resistir.

É PRECISO ACABAR COM O AMERICA

por Geraldaves de Almeida


É preciso acabar com o America! O time para o qual torci não mais existe. Trata-se de um arremedo, uma cópia mal feita, um restolho. A camisa, outrora rubra, se misturou ao anêmico sangue dos botinudos que ora a envergam. Alex, Edu, Bráulio e Luisinho ficaram definitivamente na memória dos tolos saudosistas.

É preciso acabar com o America. Urge que o façam logo. Meu time agoniza lentamente em meio a um limbo em forma de espiral. O cenário perfeito para o portador de labirintite.

O agora ex-America necessita de uma morte digna, pois seus dirigentes o tem infestado a cada ano com refugos e velharias. No início da temporada o elenco contava com 6 goleiros, vejam só, 6 goleiros! O principal, contundido, não atuou em nenhum prélio destes certames de segundo escalão que o ex-America insiste em participar sem obter qualquer êxito.

É preciso que algum corajoso aperte logo este botão. O antigo America necessita ser eutanasiado, pois merece uma morte indolor em respeito às suas glórias, restritas a um passado cada vez mais longínquo.

Os jovens de hoje não conhecem o America. Nunca ouviram falar. É o Mineiro? O de Natal? O clube estranhamente desapareceu do noticiário. Seu nome não aparece sequer nas páginas policiais, sinal claro de que o doente terminal necessita urgentemente do direito à inexistência oficial.

A agremiação possuía a sede mais moderna e charmosa da América Latina. Mas o espaço veio ao chão. Dizem que no lugar erguerão um shopping center e no playground ficará acomodado o ex-America. Que triste fim! Será que ao menos a diretoria aprenderá a emitir boletos?

A culpa de toda essa decadência seria da CBF e do famigerado Clube dos Treze, alegam alguns insistentes torcedores. Mas isso não é verdade. A culpa é desse modelo de futebol moderno que promulga a elitização e a existência dos clubes de massa em detrimento da pluralidade saudável e necessária. ‘Money, my friend!’

Não há mais espaço para meu ex-time. Em lugar de vê-lo sujo, mal ajambrado e descolorido, prefiro torcer por um fóssil.

Por favor, desliguem os aparelhos e deixem o meu America morrer em paz!

O ÚLTIMO ROMÂNTICO

por Zé Roberto Padilha


Se tem um clube que representa a fase mais romântica do nosso futebol, onde o patrocínio não chegou ao peito porque o coração era maior que tudo, esse era o América FC.

Ele foi o mais amador dos nossos clubes profissionais.

Foi desaparecendo em pé, orgulhoso e ferido, na medida em que insistia, diante do dinheiro que o futebol atraía, em ser fiel às suas origens.

Em sua lenta e comovida extinção, despencando de séries e divisões, não teve sócio torcedor, não virou clube empresa, muito menos lhe concederam uma TV América para transmitir seus derradeiros suspiros.

Apenas deixou a aristocracia de Campos Sales, em Vila Isabel, e comprou uma casa de campo, em Edson Passos. Foi seu mais ousado passo.

Era, porém, nobre e curto diante da gula do capital que exigia, no mínimo, um CT.

Seus torcedores, entre eles meu pai, foram diminuindo na medida em que os seus filhos buscavam torcer pelos outros, os chamados grandes, que lhes dessem títulos. Não vivessem da memória.

Uma pena. Quando entrava em campo, a força do vermelho realçava como nenhuma outra o verde do gramado. Era bonito ver essa transfusão de sangue ocorrer na abertura do espetáculo lá das arquibancadas.

Em campo, antes de deixar o quarto e ser levado ao CTI, o País era sua grande muralha. Alex, o guardião da zaga que Badeco protegia como ninguém. Bráulio dava brilho às jogadas e Eduzinho produzia a genialidade que cabia a todo camisa 10 da fase mais bonita do nosso futebol. E Luizinho balançava as redes adversárias.

Em 1974, ganhou do Fluminense a Taça Guanabara. Foi pouco, diante de uma federação que foi perdendo a vergonha, uma CBF sem escrúpulos e uma Fifa fria, corrupta e calculista.

O América, mesmo perdendo seu brilho no cenário esportivo nacional, jamais deixou de vestir seu terno de linho, colocar uma flor na lapela e sair a convidar sua amada, a bola, para jantar à luz de velas.

Sucumbiu de cabeça em pé, sem dar um só carrinho na sua impecavel história, deixando em todos nós, apaixonados pelo futebol, uma saudade danada dos tempos em que Dondon jogava no Andaraí.

A vida, e o futebol, era mais bonito de se ver.

NO AMOR E NO JOGO: SORTE DE UNS E AZAR DE OUTROS

por André Luiz Pereira Nunes


Em 8 de agosto de 2013, minha então esposa, com quem estava casado há 13 anos, resolveu me pedir separação. A decisão me pegou de surpresa, visto que para mim aparentemente nada havia de errado. Nenhuma discussão ou desentendimento recentes. Tudo parecia na mais perfeita ordem.

Ledo engano! Nosso relacionamento já vinha mal há pelo menos dois anos e a falta de sexo durante boa parte desse período era um forte indicador. A indiferença e o desinteresse eram habituais. Estávamos vivenciando vidas e interesses bem diferentes. Mas o que isso tem a ver com futebol?

Exatamente um mês depois, o America decidiria com o Bonsucesso uma das duas vagas em disputa para a elite do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro. A Cabofriense dependia de um empate para ser campeã. Na ocasião eu era o diretor de comunicação do America. Hoje faço parte pela segunda ou terceira vez consecutiva do conselho deliberativo.

Como já havia perdido o casamento, refleti que a minha única alegria naquele ano seria ver o meu time campeão e de volta ao convívio com os grandes. A vitória simples daria o título ao America, enquanto o empate seria suficiente para o Bonsucesso assegurar uma das vagas. Logo de manhã liguei para o presidente e assim se deu o seguinte diálogo:

– Olá, presidente, bom dia. Vamos juntos ao jogo? A que horas podemos nos encontrar?

– André, não vou de jeito nenhum. O time vai perder e eu corro até o risco de apanhar.

– Como assim, presidente? Você não vai à final para ver seu time campeão? Quem morre de véspera é peru.

– Os jogadores nem treinaram, André. Estão em greve. Não recebem há meses. Está todo mundo gordo. Como você sabe o patrocinador debandou. Já perdemos. Vai você, se quiser!

Ao desligar o telefone senti um misto de raiva e decepção. Já estava extremamente aborrecido com minha vida pessoal. Não era possível que nem o America poderia me dar o mínimo de alegria naquele ano horrível.

Me arrumei. Saí de casa. De fato, como diretor, eu sabia das dificuldades financeiras envolvendo o time. O técnico Duilio, ex-zagueiro do Fluminense e do próprio America, fazia milagres. Mesmo diante de todas as dificuldades jamais esmoreceu, procurando sempre motivar os atletas. Portanto, eu acreditava, que mesmo em meio a tantos percalços, meu time bateria o adversário e sairia campeão.

Chegando em Teixeira de Castro, fiz uso da minha credencial de jornalista e adentrei ao gramado. Percebi que a torcida do America estava alojada no pior espaço, em meio a um sol inclemente, enquanto a pequena claque do Bonsucesso se situava confortavelmente ao lado oposto, nas cadeiras. De repente, ouvi alguém me chamar. Era um amigo, repórter de rádio. Precisava com urgência de ajuda. O comentarista havia faltado por motivos médicos e necessitavam de um substituto. Confesso que não estava com a menor cabeça para nada. Me sentia mal pelo fim do meu relacionamento. Tudo ainda estava muito recente. Mas, mesmo assim, atendi ao chamado. Afinal, seria uma maneira de ajudar um amigo e me distrair de meus infortúnios.

Um fato logo me chamou a atenção. Um torcedor, aproveitando o estádio lotado, foi ao campo e pediu a mão da namorada em casamento. A torcida, animada, comemorou o “sim” como se fosse um gol. Eu pensei: sorte de uns e azar de outros.

Superior em campo e melhor na criação, a equipe rubro-anil comandada por Ricardo Barreto, começou com tudo, indo para cima dos rivais desde os primeiros momentos da partida. Nos quinze minutos iniciais, houve pelo menos três boas chances. Luiz Felipe acertou a trave em tentativa de cruzamento, Renan perdeu boa oportunidade quando apareceu livre e chutou para fora e Marlon, aparecendo bem pela esquerda, obrigou Fábio Noronha a fazer magistral defesa.

O America estava acuado em campo, dizia eu ao microfone da rádio. Seus jogadores não passavam do meio-campo, enquanto o Bonsucesso massacrava a meta do excelente Fábio Noronha, aliás, a melhor figura em campo, ressaltei também na transmissão.

Na segunda etapa o filme se repetiria. Luiz Felipe, Renan e Marco Túlio alternariam várias chances perdidas. Aos 9 minutos, a torcida local chegou até a comemorar. Mas o grito de gol entalado na garganta teve que ser contido após uma oportunidade claríssima desperdiçada por Marco Túlio. Na pequena área, o atacante antecipou-se à defesa, mas colocou à esquerda do gol de Fábio Noronha.

Com o decorrer da partida, a impaciência tomava conta da torcida americana, mas nem por isso os instrumentos pararam de tocar. Após os 30 minutos da etapa final, o nervosismo também começou a acometer os atletas. Foi um festival de passes errados, chutões e pouquíssimas chances de gol.

No fim, não deu mesmo para o Mecão. Seus jogadores, irritados com o fim da partida se aproximando, pouco conseguiam fazer. O goleiro adversário Santiago sequer sujou seu uniforme. Com o soar do apito final, no Leônidas da Silva, a festa, que já começara cedo, só tendia a crescer. O Bonsucesso estava na Série A de 2014.

Só me restou agradecer aos espectadores que prestigiaram a nossa transmissão radiofônica, me despedir do narrador e do repórter de campo, abraçar o Fábio Noronha e parabenizá-lo pelo seu profissionalismo, cumprimentar alguns amigos e me dirigir para casa.

No caminho alguns torcedores do America, todos bêbados, me reconheceram e me propuseram dividir um táxi até a Tijuca. Lotamos o veículo. Ao final da corrida nenhum de nós tinha dinheiro, mas o taxista, vendo o nosso estado deplorável, em raro gesto de compreensão, não nos cobrou nada. Sem saber coisa alguma da minha vida, ainda me disse que eu venceria todos os obstáculos. Me restaria mesmo a partir daquele dia juntar os cacos. Afinal, outros amores e outros acessos não tardariam a vir. Sorte de uns e azar de outros.

VESTIR A CAMISA DO AMÉRICA, O SONHO DE UM RUBRO-NEGRO QUE NUNCA SE REALIZOU

por Victor Kingma


Meus maiores ídolos no futebol sempre foram Almir, o Pernambuquinho, e Zico. Fato já relatados em alguns textos e até em um de meus livros. 

Entretanto, em relação à camisa dos clubes, sempre tive um fascínio pela camisa do América. Desde quando a vi pela primeira vez na capa da Revista do Esporte, que trazia os meios campistas Amaro e João Carlos, lá no início dos anos 60. 

Mais tarde, como meia-direita de boa técnica no time do São Mateus, que tinha o mesmo nome do bairro onde eu morava, em Juiz de Fora, sonhava um dia vestir aquela camisa vermelha cor de sangue. Isso embora a minha paixão rubro-negra jamais deixou de existir.

O sonho nunca se realizou. Não por falta de talento, mas devido ao abismo que havia naqueles tempos entre o futebol do interior e os grandes times da capital.

Joguei em vários times amadores de Minas Gerais, mas nenhum deles tinha a camisa vermelha, para, pelo menos, satisfazer aquele meu desejo de boleiro. 

Bem, mas de repente surgiu a oportunidade: um novo clube foi fundado no vizinho bairro do Altos dos Passos. O nome: América Futebol Clube. Logo veio o convite para eu mudar de ares. 

Não hesitei, aceitei na hora. Finalmente ia realizar o meu sonho de vestir a camisa encarnada.

Fiz apenas uma exigência: queria usar a número 10, do grande ídolo Edu, irmão do menino Zico, que começava a despontar como ídolo na Gávea.

Só que no dia da estreia, veio a surpresa quando o técnico distribuiu as camisas verde e preta do América Mineiro, paixão do fundador do time.

Fiz a estreia, até marcando um gol com o número da camisa de Jair Bala, craque do time mineiro.  Mas ficou uma certa  frustração.

Anos depois, já como meio campo do time do Guarany, de Mantiqueira, onde eu era o craque e capitão do time, veio outra oportunidade de vestir a camisa vermelha.


As cores do nosso time combinavam o vermelho e o branco, mas, naquele ano, a diretoria resolveu inovar. Mandou confeccionar um uniforme com camisas totalmente vermelhas, idênticas às do América. Acho que até por influência minha, pois eu vivia falando da beleza da camisa americana.  

Entretanto, no dia da estreia, nova frustração: já estávamos no aquecimento, eu com a reluzente camisa 10, do astro Edu Coimbra, quando chega a notícia: o uniforme do time visitante também era vermelho e eles não tinham camisas reservas.   

Como anfitriões, tivemos que trocar de camisas e entramos em campo com a camisa branca com listras vermelhas.

Foi, acredito, a minha última partida oficial como jogador de futebol. 

Pouco tempo depois, comecei a minha a vida profissional em Volta Redonda.

E a minha jornada dentro do campo ficou para trás. 

Para matar a saudade dos gramados restaram os rachas com os inesquecíveis amigos de trabalho na CSN.

O futebol sempre será a minha paixão, agora como torcedor e escriba.

Dos tempos de jogador, além das belas lembranças, ficou a frustração por jamais ter disputado uma partida sequer com a cor da camisa que acho a mais bonita.

Depois da rubro-negra, é claro!