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Marco Antonio Rocha

SILVIO LANCELLOTI, O POMODORO DA NONNA NAS MANHÃS DE DOMINGO

por Marco Antonio Rocha

O cheiro da preparação do almoço de domingo tomava conta da casa, enquanto a Bandeirantes, muito antes de virar Band, apresentava o prato principal do seu cardápio nos anos 80: o Campeonato Italiano. A tarantella que anunciava a jornada não sai da memória do menino que se acomodava diante da TV para assistir a um desfile de craques como Maradona, Platini, Rummenigge, Van Basten, Laudrup, Francescoli, Boniek… Um sonho.

Logo Silvio Luiz surgia com seu vozeirão para dizer que naquela manhã a Velha Bota presentearia o mundo com o duelo entre Napoli e Fiorentina –ou Milan e Sampdoria ou (melhor ainda!) Napoli e Milan. Mas o narrador, assim como Careca, tinha seu Maradona; como Gullit, tinha seu Van Basten. Silvio Lancellotti era o pomodoro da macarronada da nonna. Um luxo.

Em contraponto a Silvio, o Luiz, Lancellotti tinha nada de espalhafato. De forma serena, dava informações sobre a Sardenha, desfiava curiosidades da Sicília. E, claro, tabelava com seu xará devolvendo de primeira informações sobre a história dos clubes, as campanhas dos times, o desempenho das estrelas no Calccio. De quebra, ensinava receitas da culinária italiana, sua outra paixão. Uma aula.

Naquela época, jogos de futebol na TV eram artigo raro, e o Campeonato Italiano servia de preliminar para os clássicos da tarde no bom e velho Maraca. Aí, o jeito era “ver” as partidas pelo rádio e entregar nossa imaginação aos olhos (e falas) de locutores como Doalcey Bueno de Camargo, Orlando Batista e Waldir Amaral. Silvio Lancellotti fazia parte dessa seleção que, aos poucos, vai se desfazendo no tempo. Uma saudade.

Em seus 78 anos, Lancellotti passou por alguns dos jornais mais importantes do país, fundou a revista Veja e brilhou na ESPN – onde, em 2003, comentou beisebol nos Jogos Pan-Americanos da República Dominicana. Formado em arquitetura, traçou uma ponte com a literatura e lançou diversos livros. A estante ficou cheia, mas no último dia 13 deixou um lugar imenso vazio. Uma pena.

O 171 DA BOLA

por Marco Antonio Rocha


Estávamos já nos preparando para ir embora do lançamento quando vi de longe o Kaiser. Contei rapidamente a história dele – ao menos parte dela – pro Teteu e pra Mari.

– Vamos lá!! – exclamou o moleque, entusiasmado com a possibilidade de conhecer o maior e mais doce trambiqueiro da história do futebol mundial, uma espécie de CR7 em matéria de picaretagem – ou K171.

– Kaiser, esses aqui são meu filho e minha mulher. Eu estava contando pra eles sua história…

O ídolo se levanta de imediato, parece maior do que é. E me dá um abraço de amigos que não se viam há séculos.

– Tem uma caneta aí? Vou te dar meu autógrafo…

E tome de caçar uma, artigo raro hoje em dia.

– Aqui, consegui! – disse a Mari, ainda incrédula com aquela cena non sense.

– Já dei entrevista pro Museu da Pelada. Abre o livro do Pugliese aí.

Obedeci, já animado com a iminência de ter no livro o autógrafo de uma espécie de Viúva Porcina da bola, a que foi sem nunca ter dado um chute.

Mas até na vida real as novelas têm desdobramentos pouco ortodoxos. Kaiser pega o livro e ordena ao primo:

– Escreve aí… “Ao amigo Marco, um abraço”.

Me senti um zagueiro driblado, bunda no chão e bola na rede:

– Peraí, Kaiser. Você também não dá autógrafo?!?!

– Não, não. Autógrafo eu dou. É que eu operei uma vista e não faço a dedicatória. Só assino.

Não era preciso mais que isso. Àquela altura, o escanteio havia virado gol olímpico. Teria como presente um autógrafo a duas mãos… E uma delas seria do Kaiser! Já estávamos íntimos a ponto de, em poucos minutos, fazer uma graça.

– Olha, eu sou vascaíno, o moleque também. Você não jogou lá, né? – emendei, reforçando a negativa da pergunta.

– Hahaha é verdade! Nem no Flamengo, no Botafogo, no Fluminense… Mas fui campeão algumas vezes! E você, joga bola? – rolou pro meu filho.

– Eu jogo basquete, no mês que vem vou fazer um teste no sub-13 do Fluminense.

– Quem vai te receber lá?

Ali percebi o quanto de malandragem uma pergunta tão curta pode carregar… Uma malandragem sem interesse, quase infantil.

– Se você não passar, liga pra mim!

Aqui é preciso registrar: enquanto a turma catava uma caneta, Kaiser me deu seu número de celular. Já éramos amigos, nada mais justo. No fim, com o moleque apadrinhado pelo homem que enganou um punhado de clubes mundo afora, nos despedimos anunciando que naquela noite mesmo assistiríamos a seu documentário.

– Me manda um zap dizendo o que achou! – gritou ele, enquanto sumíamos entre garçons e fãs do Museu que lotavam a pizzaria.

Na volta para casa, tranquilizei Teteu, nervoso com a peneira:

– Com esse aí do teu lado, daqui a pouco você estará jogando basquete pelo Barcelona…

SAUDADE SEM FIM

por Marco Antonio Rocha


Da varanda eu vejo o cantinho do quintal onde jogávamos bola. Era apenas um gol a gol, mas pra mim era meu Maracanã. E, ele, meu Acácio, meu Roberto Dinamite. Em uma contramão da vida, foi o filho que fez o amor pelo Vasco ficar mais forte no pai. O Chevette marrom ainda corta a Avenida Brasil com a bandeira para fora, ligando a Ilha a São Januário. É como se o barulho do tecido estivesse para sempre dentro de mim, como as vitórias e até o primeiro pênalti que Geovani perdeu na carreira, na Rua Bariri.

Ele sempre foi muito mais São Cristóvão, Olaria e Quinta da Boavista do que Leblon, Ipanema e Barra. Era na simplicidade que habitava. Na simplicidade do Fusca verde clarinho que dirigia para ganhar a vida como taxista, ainda na Guanabara – sim, a escolha do Yoda seguiu um rigoroso critério, o sentimental, ainda que eu tenha visto aquele carro apenas por fotos. Os caminhos o levaram para a simplicidade de um balcão de botequim, de onde tirou o sustento para formar dois filhos, mesmo que jamais (e talvez até por isso) tenha tido condições de estudar. Ali, na rotina do dia a dia, vendia fiado a quem precisava, na certeza de que jamais receberia.

A infância em Portugal dos anos 30 e 40 não foi fácil. A juventude na década de 60 parecia ainda pior: a Guerra pela Libertação de Angola havia explodido e portugueses eram enviados em massa à África. Ele fugiu para o Brasil, porque heróis são os que evitam a morte: “Ir para o país dos outros para matar? Eu não…”.

Voltou pouco tempo depois à terrinha, para aí sim ter sua maior conquista: o coração da mulher que o acompanharia para além do sempre. Juntos, transformaram-se quase em uma só pessoa. Para ser feliz, poucas coisas bastavam: a alegria dos seus, um copo de vinho e uma tigela de azeitona ou tremoços. Foi na simplicidade do seu quarto, ao lado da mulher que amou por mais de 56 anos, que morreu de surpresa nesta manhã.

É na simplicidade das pequenas lembranças que seguirá vivo, como os jogos de botão enquanto o rádio transmitia alguma partida; os passeios ao zoológico ou ao Museu Nacional; as manhãs no Tivoli; as idas a Portugal e São Lourenço; as sardinhas na brasa; os almoços cheios de abraços aos domingos; as visitas tortas, a distância no quintal, nesta pandemia; o vasinho de pimenta que ainda ontem separou para mim.

Como nos despedíamos a cada vitória do Vasco: saudações vascaínas!

Te amo, pai.

VASCO, UM AMOR FORA DE SÉRIE

por Marco Antonio Rocha


Nasci Vasco. Os laços de amizade começaram a se estreitar nos gols de falta do Dinamite, nos lançamentos do Geovani, nas arrancadas do Mauricinho, nos chutes certeiros do Romário. A mesa de botão, grande demais àquela altura, reproduzia lances fantásticos saídos da cabeça do menino com menos de 10 anos e do radinho de pilha. Quando José Carlos Araújo anunciava “casa cheia, casa cheia oi…”, logo imaginava o espetáculo das bandeiras com a Cruz de Malta e da chuva de papel na entrada do time em campo. No bate-bola com meu pai, eu era o Acááááááááácio, homem-elástico que, de São Januário, seria capaz de defender um chute certeiro no ângulo do Maracanã…

Não fazia ideia de quem eram Alexandre Campello, Jorge Salgado, Julio Brant e Leven Siano. Mas sabia de cor os times que conquistaram o Bicampeonato Carioca de 1987-1988. Comprei nas Casas Sendas um dos LP mais tocados na Ilha do Governador naquela década: de um lado, o Hino do Vasco; do outro, a gravação do Garotinho narrando o gol do Cocada. O disco se perdeu no tempo, talvez tenha se desintegrado de tanto rodar no três em um, com a caixa de som devidamente posicionada na janela de casa.


Não fazia ideia de quem eram Alexandre Campello, Jorge Salgado, Julio Brant e Leven Siano. Mas o sentimento pelo Vasco virou algo ainda mais forte quando acompanhei meu primeiro título de Campeonato Brasileiro, em 1989. Lá estavam Acácio, Winck, Quiñonez, Marco Aurélio e Mazinho; Zé do Carmo, Boiadeiro e Bismarck; Sorato, Bebeto e William. Comandados por Nelsinho Rosa, representavam o adolescente que não teve coragem de encarar a Dutra de ônibus, às escondidas, para ver a SeleVasco entrar para a história.

Não fazia ideia de quem eram Alexandre Campello, Jorge Salgado, Julio Brant e Leven Siano nos anos 90. Mas já estufava o peito para falar da luta contra o racismo, essência de nossas origens. De quebra, vi em São Januário e no Maracanã boa parte das vitórias que nos deram o Tricampeonato Carioca de 1992-1993-1994. Uma trinca marcada por momentos inesquecíveis e sucessivos: a estreia do Edmundo nos profissionais, a despedida do Dinamite e a trágica morte do Dener.

Não fazia ideia de quem eram Alexandre Campello, Jorge Salgado, Julio Brant e Leven Siano. Mas o Vasco já fazia parte da minha rotina. Dia e noite, noite e dia. Da Ilha até Niterói, dava tempo de sobra para devorar o Jornal dos Sports e a Placar antes de chegar à UFF. Na volta para casa à noite, sacolejando na Ponte ou cruzando suavemente a Baía, o radinho me contava as últimas. E o que começava a nascer não era um time, mas o time. Veio mais uma final de Brasileiro, e desta vez era só cruzar a Linha Vermelha, bem menos curta do que a Dutra… Espremido entre palmeirenses no Maracanã, vi Carlos Germano salvar de forma milagrosa uma cabeçada de Oséas. Não sei como cheguei em casa naquele dia, só sei que foi sem buzina – espécie de releitura do LP do Cocada…

Já fazia ideia de quem eram Alexandre Campello, Jorge Salgado, Julio Brant e Leven Siano quando me formei jornalista e passei a frequentar o clube na cobertura pelo Lance e, posteriormente, pelo Extra. Fui proibido de entrar em São Januário por Eurico Miranda, contrariado com reportagens que escrevi. Do lado de fora, sob sol e sob chuva, na calçada que dá para a arquibancada, tentava entrevistar os jogadores na saída do estádio. Poucos, muito poucos tinham coragem de parar o carro e desrespeitar a ordem do chefe. Mas jamais deixei de gritar o nome de todos eles nas partidas em dias de folga. Fui à loucura com o gol monumental de Juninho Pernambucano, festejei o quarto título do Brasileiro e experimentei uma das melhores sensações que senti na vida quando Romário sacramentou a Virada do Século.


Já fazia ideia de quem eram Alexandre Campello, Jorge Salgado, Julio Brant e Leven Siano nos rebaixamentos. E chorei. Não pelos cartolas ou candidatos derrotados em intermináveis eleições, mas pelo time que escolhi amar. Vejo gente promovendo campanhas de desassociação em massa, boicote aos produtos oficiais e à VascoTV. Somos pioneiros ao criar torcedores de dirigentes. E choro mais uma vez. A mesa de botão, agora, reproduz lances fantásticos saídos da cabeça do meu filho de 11 anos e das histórias que conto a ele. Como sempre, darei ao clube minha fidelidade incondicional. Seguimos um ao lado do outro, em uma relação de amor que não tem data (nem divisão) para acabar. Morrerei Vasco.

TODOS PRECISAMOS PEDIR PERDÃO A ABEL BRAGA

Por Marco Antonio Rocha


Ridicularizamos Abel Braga. Ironizamos Abel Braga. Jogamos no lixo tudo o que Abel Braga conquistou ao longo de décadas. Decretamos o fim de Abel Braga. Reduzimos Abel Braga a memes de Facebook e figurinhas de WhatsApp. A sanha da imprensa pelo julgamento travestido de análise imparcial e a compulsão das redes sociais pela condenação transformaram Abel Braga em uma caricatura do fracasso.

O massacre começou quando o treinador comandava o Flamengo. E talvez tenha sido esse seu maior pecado: estar no lugar errado na hora errada. Ou as críticas teriam sido tão duras se Abel estivesse à frente de outro time? O Flamengo realmente poderia jogar muito mais, algo que de fato aconteceu com a chegada de Jorge Jesus (e de um punhado de reforços incontestáveis, diga-se de passagem). A intensidade com que os rubro-negros passavam por cima de seus adversários, à moda portuguesa, era a mesma com que a imprensa triturava Abel a cada análise do novo Flamengo.   

Abel foi escorraçado do clube, apesar de ter sido campeão estadual, encaminhado a classificação na Copa do Brasil contra o Corinthians e terminado a fase de grupos da Libertadores em primeiro. Assim que assumiu a equipe, Jorge Jesus acabou eliminado pelo Athlético-PR, em um Maracanã lotado, e por pouco não seguiu o mesmo roteiro diante do Emelec, do Equador. Ah, se fosse o Abel…

Ainda sob contrato, viu a diretoria negociar com candidatos para substituí-lo. Já dispensado, teve que lidar com frases que o desqualificavam – vice-presidente de relações externas do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, ao comentar as entrevistas que Abel dava, disse que “a gente discutia que ele deveria estar de sacanagem; a gente pensava ‘ou ele bebeu, ou estava drogado’”.

Quando chegou ao Cruzeiro e ao Vasco, ainda naquele 2019, o técnico carregava sobre os ombros o estigma da derrota. E logo foi embora da Toca da Raposa e de São Januário. A redenção, àquela altura, parecia impossível. Mas ainda restavam acréscimos para buscar a virada nesse jogo: o Internacional voava no Brasileiro, até ser surpreendido pelo anúncio de Eduardo Coudet, que decidira trocar o Beira-Rio pelo Celta de Vigo, da Espanha. Caberia a Abel assumir a vaga do argentino, justamente no clube onde conquistara a Libertadores e o Mundial. Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre… Tchau!


Mas não demorou muito e o Internacional foi eliminado da Copa do Brasil pelo América-MG, nos pênaltis, e da Libertadores pelo Boca, da mesma forma, após uma vitória pouco provável em La Bombonera. Ah, se fosse no Flamengo…

O time despencava na tabela do Brasileiro e já parecia fora de combate quando passou a enfileirar vitória atrás de vitória. No domingo (24), alcançou a oitava consecutiva ao virar o clássico contra o Grêmio no minuto final, igualando o recorde de… Jorge Jesus. Sem festa da imprensa, sem pedidos para que assumisse a seleção, sem fazer parte de enquetes sobre o melhor técnico da história da Humanidade.  

Abel Braga e Internacional nasceram um para o outro. Quando o clube gaúcho parece perto de conquistar o Brasileiro após 41 anos, o técnico está no lugar certo na hora certa. E aí poderemos dizer que foi lindo, cara…