OBRIGADO, FALCÃO!

Depois de quase 20 anos vestindo a amarelinha e dando show dentro de quadra, o craque Falcão faz hoje seu último jogo pela seleção brasileira, contra a Colômbia, às 10h! Relembre grandes lances do rei das quadras! Obrigado, Falcão!

RESENHA NO VILA

Ernesto Paulo na seleção principal (Foto: Celso Unzelte)

Ernesto Paulo na seleção principal (Foto: Celso Unzelte)

Durante a festa do Vila Isabel, encontramos Ernesto Paulo e Ney Pereira, grandes amigos e lendas do futebol de salão, que relembraram histórias bacanas dos áureos tempos do esporte!

Vale destacar que Ney Pereira e Ernesto Paulo são multicampeões no esporte. Enquanto o primeiro já foi treinador da seleção brasileira de futsal, o segundo teve a oportunidade de treinar a seleção brasileira de futebol em 1991, quando assumiu o comando de forma interina.

Além disso, Ernesto foi o treinador que comandou o Flamengo na primeira conquista da Copa São Paulo de Futebol Júnior, em 1990, no time liderado por Djalminha, Júnior Baiano, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes.

Ney Pereira na seleção brasileira de futsal (Foto: Luciano Bergamaschi/CBFS)

Ney Pereira na seleção brasileira de futsal (Foto: Luciano Bergamaschi/CBFS)

INICIATIVA LOUVÁVEL

por Marcelo Rodrigues, de Barcelona

Uma das mais inteligentes iniciativas que vi no mundo. A Federação da Catalunha promove e executa o Projeto "Zero Insults a la grada" ou "Zero insultos na platéia". Pensando no grande desenvolvimento de entretenimento do jogo, bem como na educação esportiva sadia de seu povo, esse projeto visa interromper partidas por um minuto quando há xingamentos de pais e torcedores aos árbitros. Na segunda vez há mais um minuto de paralisação. Na terceira vez a partida é suspensa e o comitê de disciplina julga o mérito do jogo.

No Barcelona os pais dos atletas são terminantemente impedidos de assistir a qualquer treino de qualquer categoria e assinam termo de responsabilidade em caso de indisciplina em jogos da equipe, podendo ter seu filho posto fora de qualquer das equipes.

Isso seria um belo exemplo para alguns pais no Brasil que querem que seus filhos sejam aquilo que jamais foram. Com isso, xingam, fazem vexame, promovem o caos e até sabotam o treinador em muitos casos. A base é pra primeiro formar caráter e depois pra formar atletas. 

Como seria bom ver algo parecido no nosso país. Não quero que o jogo seja de padre e nem de santo mas de gente que vença pelo trabalho e pela luta, jamais por atitudes equivocadas, violência ou na força do medo.

 Aqui não é só campanha, aqui é lei. Educação!

VICE-LANTERNA CAMPEÃO

por Edison Corrêa

Mil novecentos e oitenta e dois foi inesquecível para doze garotos com idades entre 11 e 12 anos que participaram do Campeonato Carioca de Futebol de Salão (sim, ainda era essa a denominação do esporte) daquele ano. Os motivos serão conhecidos abaixo. 

Antes da estória propriamente dita, ocorrida há 35 anos, passo a apresentar alguns personagens inesquecíveis do fato que narrarei posteriormente. À época, o presidente do Grajaú Country Clube (GCC) era um grande incentivador dos esportes, notadamente do atual futsal, exercendo o cargo de vice-presidente do clube durantes anos: Paulo Roberto Mello. O Diretor de Esportes, não menos vibrante, era apaixonado pelo ofício: Luiz Leon Haddad, ex-presidente da Federação de Futsal do Estado do Rio de Janeiro e pai de um ex-presidente do clube, Ricardo Leon Haddad. Nosso treinador da categoria mirim no 1º turno do certame ainda jogava profissionalmente na categoria adulta: Edinho, beque parado, meu xará. O técnico do 2º turno, um engravatado representante comercial, também treinava a categoria adulta, mas aceitou o desafio de pegar um time de meninos cabisbaixos, derrotados e tristes: Sebastião "Tião Bufallo", um ícone dentro das quatro linhas do salão. O massagista do time, Zé Carlos, um negro forte, portador de necessidade especial, que usava uma bengala de ferro para andar e correr (e como corria, mais que qualquer outro em sua função!) a fim de atender os contundidos com aquela "água milagrosa", além de – pasmem! - preparar suco de laranja e de limão para os atletas numa garrafa térmica azul. "Seu" Ivo e Luizão: técnicos da escolinha do GCC, formadores de atletas das categorias fraldinha, pré-mirim e mirim, base daquele time. Tuninho: o roupeiro, bigodinho fino, magro, jeito malandro de ponta-esquerda, amigo dos jogadores.

Não me alongarei nos pormenores, pois o fato principal foi a reviravolta de um elenco de atletas que não via uma luz no fim do túnel naquele torneio. No final do 1º turno, vencido pelo grande São Cristóvão, de Djalminha (ex-seleção brasileira de futebol de campo), filho do craque Djalma Dias; e de Jessé, um crioulo artilheiro que depois viria jogar justamente no GCC, o Grajaú amargou a vice-lanterna da competição. Pior que isso: as outras categorias do futsal do clube (fraldinha, pré-mirim, infantil, infanto-juvenil e juvenil, menos a adulta) haviam conquistado o turno, adquirindo o direito de ir para os finais do campeonato. Os olhos desconfiados dos boleiros e corneteiros do clube voltaram-se para o inexperiente técnico Edinho que, tal como acontece no futebol de campo, não resistiu à pressão e voltou a ser simplesmente atleta na categoria adulta.

Foi então que, corajosamente, Paulo Roberto e Leon deram uma cartada decisiva, que iria alavancar as vitórias daquele time que, diziam as boas e más línguas, "era excelente, mas brincava demais com a bola nos pés" devido à visível habilidade! Tião, então, pegou o grupo à unha e exigiu seriedade total nos treinos e, principalmente, nos jogos. Treinou técnica e taticamente a equipe, inclusive jogadas de bola parada. Queria chutes certeiros para o gol, não importando se a bola bateria na trave, no goleiro ou entraria. Ao final do returno, o urubu havia virado cisne, já que a conquista da taça de campeão deu a medida exata de onde aqueles garotos poderiam chegar: no lugar mais alto do pódio. Porém, um perigo se anunciava: nas finais, um outro adversário (tão forte quanto São Cristóvão e GCC) havia se classificado pelo maior número de pontos, ficando em segundo lugar nos dois turnos. A sina do vice-campeonato não poderia ter escolhido time mais afeito: o Vasco da Gama, de Luiz Antônio, craque de bola, ex-GCC, maior artilheiro da história da categoria pré-mirim (atual sub-11) com mais de 100 gols num único certame, ex-Fla/Flu no futebol de campo. O artilheiro cruzmaltino conhecia todos os jogadores do oponente, pois havia jogado, em seu primeiro ano na categoria (1981), no mirim do GCC.

As finais foram batalhas inesquecíveis, dignas da narração de um Waldir Amaral. Após empate no jogo Vasco X São Cristóvão, ganhamos o São Cri-Cri por 2 X 1. Enfim, o jogo final iria ser entre o Vasco, do já citado Luiz Antônio e do grande goleiro Hugo, Huguinho para os mais chegados – e nós, que tínhamos o seguinte elenco: Flávio "Cantarelli", Alexandre e Renato "Pantera" (goleiros), Dudu, André e Marcelo Noronha (beques-parados), Marcelo "Cabeção" e este que vos escreve (alas-direita), Raulzinho e Márcio André (pivôs); Rominho e Jorge (alas-esquerda). Os titulares, todos no segundo ano da categoria, eram mais experientes. Os reservas, ao contrário, estavam apenas no primeiro ano de mirim e sempre entravam em quadra quando as partidas estavam "saindo faísca", sem negar fogo e com a mesma categoria. Esta partida final foi digna de entrar nos anais deste esporte criado no Brasil.

Porém, me aterei somente ao ato final do jogo, um teatro que Shakespeare nenhum colocaria defeito. Faltando menos de um minuto, talvez trinta segundos, para o término da partida, que estava empatada em 3 X 3 (resultado que garantiria a taça para o Country), o boa-praça Rominho, um dos atuais proprietários do aprazível Bar do Adão, no Grajaú, colocou infantilmente a mão na bola. Naquele momento, tenho certeza absoluta de que o coração de Leon (sem trocadilho!) deve ter batido na casa dos duzentos, pois ele, que já passava todos os jogos do GCC (de todas as categorias!) à beira da quadra fumando seu cigarro desesperadamente e gritando com o juiz, estava de olhos fartamente esbugalhados. Quem iria correr para a bola, claro, era o craque do Vasco, Luiz Antônio. Naquela época de bola dura, que mal quicava, onde o lateral era batido com as mãos e o goleiro não podia "atravessar" a "pelota" de uma quadra para outra, tudo era mais difícil. Inclusive para o batedor, que não tinha como ser facilitado pela abertura da barreira devido ao número limite de faltas – ainda não existia tal regra também. 

Bem, amigos, o que se sucedeu a seguir foi prato cheio para crônica do tricolor Nelson Rodrigues: Luiz Antônio bateu para fora, fato raro para este atleta, principalmente pela distância onde houve a punição. Ato contínuo, Leon pulou para a quadra, invadindo o jogo e gritando: "Acabou! É campeão!". Numa fração de segundos, dezenas, talvez centenas de torcedores, seguiram o diretor do GCC e começaram a comemorar o título. O árbitro do jogo, se não me engano Daniel Pomeroy, ícone do futebol de salão dos anos 80, que apitou os anos 90 no futebol de campo e foi o único a dar um cartão amarelo em toda a minha carreira, apitou o fim do jogo e seguiu para o vestiário. Tapetão? Negativo! Ninguém, nem mesmo a cartolagem salonista da época, tiraria aquele merecido título de 1982 do mirim do GCC, um digno campeão de raça, fibra e, principalmente, superação!

Em pé: Luiz Leon Haddad, Renato "Pantera", Flávio "Cantarelli", Alexandre, Paulo Roberto, Rominho, Alexandre (treinador de goleiros), Tião Búffalo, Luis Carlos (Diretor de Esportes); e "Seu" Ivo;  Agachados: Marcelo "Cabeção", André, Edinho, Márcio André, Jorge, Raulzinho, Marcelo Noronha e Dudu.  (Foto: Edison Corrêa, Senior)

Em pé: Luiz Leon Haddad, Renato "Pantera", Flávio "Cantarelli", Alexandre, Paulo Roberto, Rominho, Alexandre (treinador de goleiros), Tião Búffalo, Luis Carlos (Diretor de Esportes); e "Seu" Ivo;

Agachados: Marcelo "Cabeção", André, Edinho, Márcio André, Jorge, Raulzinho, Marcelo Noronha e Dudu.

(Foto: Edison Corrêa, Senior)

 

 

 

 

MESTRES DO SALÃO

por Sergio Pugliese

“Caro Sérgio, estou indo dormir triste e preocupado. Acabo de ler que o Vila Isabel, simpático clube da 28 de Setembro, está atolado em dívidas e encerrará as atividades. Joguei no Grajaú Tênis por oito anos e enfrentei o Vila por diversas vezes, sempre contra timaços. Fiz amigos, como Mazuta, Zé Mário, Bottino e Marquinhos, sem falar nas lendas Serginho, Aécio, Gizo, Celso, Adilson e outros que formaram o melhor time de futebol de salão de todos os tempos. Quem viu, sabe. Não valeria uma pelada de mobilização?”. A mensagem do amigo Luiz Antonio, o Tonico, camisa 10 do Xavier, acendeu o sinal de alerta e fomos nos aprofundar no tema. A conclusão de nosso farejador Reyes de Sá Viana do Castelo foi a pior possível: com o crescimento dos condomínios os clubes de bairro reduziram drasticamente o número de sócios e para sobreviver muitos desmantelaram seus times principais e outros, sem opção, fecharam as portas. Na década de 60 e 70, os campeonatos estaduais pegavam fogo, o nível era altíssimo e os torcedores lotavam as quadras para babar com o talento de Hugo Aloy, do Fluminense, Julinho, do Flamengo, e Edgar, do Imperial. Eram memoráveis clássicos, mas o charme perdeu o fôlego e Jacarepaguá, Canto do Rio, Mackenzie, Manufatura, Bonsucesso, Piedade, Atlas, São Cristóvão, Helênico, Monte Sinai, Vitória, Grajaú Tênis e tantos outros deixaram seus times pelo caminho. 

- O salão era um celeiro de craques e sem qualquer bairrismo os times paulistas, para conquistarem os primeiros campeonatos nacionais, tiveram que contratar cariocas – garantiu o vitorioso técnico Sebastião de Sá-BE TUDO, o Tião Búfalo. 

Para debater a época de ouro dos times de salão, a equipe do A Pelada Como Ela É reuniu para uma resenha, na Associação Atlética Banco do Brasil, na Tijuca, seis jogadores fenomenais, verdadeiras lendas e considerados por muitos especialistas insuperáveis em suas posições até hoje: o ala Serginho, do Vila Isabel, o ala esquerdo Álvaro, do Carioca da Gávea, o ala direito Mauro Bandit, do Vasco, os pivôs Tamba, do América, e Paulinho Careca, do Cassino Bangu, todos da década de 60 e 70, e o beque parado Paulinho Shaolin, do Bradesco, da geração seguinte. 

- Não há similares no mercado de hoje – atestou Tião. 

Três craques do futsal, Sérgio Sapo, Marinho Picorelli e Marcelo Grisalho ajudaram nossa equipe a reunir o grupo. Quando chegamos na AABB, Mauro Bandit já estava lá. Me emocionei ao vê-lo porque já ouvira incontáveis histórias sobre ele durante esse um ano e três meses de coluna: “não há nada igual”, “a bola some em seus pés”, “é um mago”. Mauro Bandit começou no infanto do Carioca da Gávea e passou por Fluminense, Flamengo, Vasco, Palmeiras, Lázio e Ortan, da Itália, Toledo e Interview (pentacampeão), da Espanha, e Maatrich, da Holanda. Aí, estourou o joelho. Em Alicante, criou o primeiro curso de treinadores e se a Espanha hoje é uma potência na modalidade ele é um dos responsáveis. De repente, seus olhos brilharam. Álvaro e Paulinho Careca chegaram! 

- Meus Deus, nunca vi jogadores como eles – comentou, baixinho, para ele mesmo. 

Álvaro foi eleito o melhor jogador do Brasil várias vezes, atuou pelo Flamengo, Vila, Grajaú Tênis, Municipal e seleções carioca e brasileira. Chegou de mochila porque ia bater uma bolinha depois. Paulinho Careca, o mais escrachado de todos, chegou anunciando que nunca perdera para ninguém ali e que no início da carreira amargou a reserva por três anos para o filho do diretor do Grajaú Tênis. Ali todos eram unânimes. Paulinho Careca, Vevé, do Vasco, Tamba e Hugo Aloy estão entre os melhores pivôs de todos os tempos. E olha que Tamba começou como quarto goleiro do Grajaú Tênis. Paulinho Shaolin chegou e foi saudado como o pioneiro na marcação lateral aos pivôs. Mas quando Serginho do Vila surgiu a reverência foi ampla, geral e irrestrita. Serginho, hoje corretor imobiliário, é uma espécie de guru e o ídolo absoluto de toda uma geração. Aproveitou seu prestígio e fez dois pedidos: para a Prefeitura não deixar os clubes de bairro morrerem e a inclusão do futsal como modalidade olímpica. 

Em volta, torcedores da velha guarda não acreditavam no que viam. “Se jogassem hoje todos estariam milionários”, disse o fã Ricardinho. Mas os ídolos também encantavam o menino Gabriel, de 11 anos. Filho de Marcelo Grisalho, ele cresceu ouvindo histórias do pai sobre cada um deles. Quarenta anos depois, ainda ídolos! Não é para qualquer um! Ali, naquela mesa da AABB, estava reunido um time dos sonhos, gente humilde, boleiros de verdade. No fim da entrevista, Álvaro convidou todos para assistirem sua peladinha. Não iam perder essa! Foram em fila, como nos bons tempos. Se apoiaram no gradil e entreolharam-se com enorme admiração. Os mestres do salão estavam em quadra novamente. 

Da esquerda para direita: Tamba, Tião Búfalo, Álvaro, Mauro Bandit, Serginho do Vila, Paulo Shaolin e Paulinho Careca.  


Da esquerda para direita: Tamba, Tião Búfalo, Álvaro, Mauro Bandit, Serginho do Vila, Paulo Shaolin e Paulinho Careca.
 

Texto publicado originalmente na coluna A Pelada Como Ela É, no dia 16 de julho de 2011.