VALORES ASTRONÔMICOS

:::::::: por Paulo Cezar Caju ::::::::

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Torcedor adora uma resenha e volta e meia ouço alguém perguntar “quanto valeria um Rivellino hoje, um Zico, um Evaristo?”. Se um Arrascaeta, que nem titular da seleção uruguaia é, vale todos esses milhões que o Flamengo está oferecendo, imagine um desses três!

O Flamengo está agindo como esses emergentes que ficam milionários de um dia para o outro e saem esbanjando. Só falta os dirigentes gravarem um clipe imitando os rappers americanos, em carrões de luxo. Dá-lhe, ostentação!! Também lembram o apresentador Silvio Santos transformando cédulas em gaivotas e arremessando ao público: “quem quer dinheiro???”, Kkkkk!!!!

Fico imaginando quanto valeria o saudoso Doval hoje. Narciso Horacio Doval, que aniversariou no dia 4 de janeiro. Não falo em técnica, mas de entrega e identificação com a torcida. Outro centroavante que incendeia a torcida como ele é Carlitos Tévez, agora em fim de carreira. Os argentinos tem esse poder. Isso não se ensina em treinos, é próprio de cada um.

Doval entrava em campo e se transformava, cansava os zagueiros com seus piques e não tinha medo de cara feia. Foi trazido do San Lorenzo para o Flamengo por Tim, após se destacar em um poderoso ataque batizado de Los Carasucias, Caras Sujas, expressão argentina para moleques. Ele era o El Loco e os outros Fernando Nano Areán, Héctor Bambino, Victorio Manco Casa e Roberto Oveja Telch. No Flamengo, encantou a torcida em poucas partidas.

Nos conhecemos nas noitadas da Montenegro, em Ipanema, onde morava. Eu estava no Botafogo. Aprontamos muito, ele com sua Honda 400 e eu com minha Fiat Spider conversível, abóbora e preta, importada da Itália. Ele era um galã e as mulheres ficavam enlouquecidas quando ele chegava aos eventos. Os homens odiavam porque não sobrava nenhuma para contar a história, Kkkk!!! Mas o negão aqui tinha swing e também não decepcionava, Kkkk! Mas o playboy argentino era imbatível!

Depois jogamos juntos no Flamengo e em um dos troca-trocas do Horta ele foi para o Fluminense e nos encontramos novamente. Até me enviaram outro dia o vídeo do lance em que bato o escanteio e ele faz o gol do título do Carioca de 76. Que saudade do gringo!!! Amava o Rio como poucos cariocas amam, se naturalizou brasileiro e era considerado o mais carioca dos argentinos. Não lembro de quem é a frase, mas diziam que Doval era para o Rio o que Pelé era para o Brasil.

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Sandro Moreira contou uma vez que, durante um jogo, ele perguntou para um companheiro de time porque a torcida do Flamengo gritava o nome do zagueiro Tinteiro se ele, Doval, era o melhor em campo. “É com você mesmo, Louco, e não é Tinteiro, mas chincheiro”, Kkkk!! E ele não se drogava, só lança-perfume, de leve. Sua morte foi uma pancada em nossos corações. Passou mal em Buenos Aires saindo de um restaurante com a família.

Poucos meses antes, já veteranos, nos encontramos em um torneio de futebol de salão, na Argentina. Ele jogou no combinado entre Flamengo e Santos, contra Boca/River e Nacional/Penarol. No início do campeonato, me chamou e disse que não queria perder a artilharia para o Artime, rival histórico. Fizemos um pacto, pelos velhos tempos! Ganhamos a competição e, claro, Doval foi o artilheiro. À noite, levou nosso time para passear por Buenos Aires e rimos muito relembrando os tempos espetaculares na Cidade Maravilhosa. Foi uma noite inesquecível, como tantas outras que passamos nas boates de Ipanema e nas Noites Cariocas, no Morro da Urca.

Hoje ele não está mais entre nós, não tenho mais minha Fiat Spider, a Montenegro virou Vinicius e o Arrascaeta vale milhões.