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Uri Geller, o inferno de Nicanor

14 / dezembro / 2015

por João Carlos Pedroso
Jornalista, fã de carteirinha de Uri Geller e filho de zagueiro do Flamengo


Charge de Marcos Vinícius Cabral

Charge de Marcos Vinícius Cabral

Na segunda metade da década de 70, a Cidade Alta, em Cordovil, era limpa, pacífica, divertida e boa de bola. Era feliz, apesar de boa parte dos seus moradores viver ali uma espécie de exílio, banidos que foram do Leblon e adjacências (Praia do Pinto, Parque Proletário da Gávea etc) para um até então desconhecido subúrbio carioca.

E a Cidade Alta tinha Nicanor. Negro retinto, forte como um touro, bravo (e bota bravo nisso) lateral da Portuguesa da Ilha. Nicanor tinha tudo para ser um ídolo local e todo dia sair de casa a cada manhã sorrindo e com o peito mais estufado ainda do que o normal – ele tinha peito de pombo.

Mas Nicanor não sorria. Ao menos não em público. Ele devia rir até pegar na maçaneta, talvez. Mas ao abrir a porta, dava de cara com seu vizinho e algoz, seu inferno na terra, o escolhido dos deuses: Júlio César Uri Geller, um gênio da bola em flor.

Julinho, como era chamado na Alta, ainda estava longe de ser titular do Flamengo. Mas já jogava nas seleções de base, era adorado pela vizinhança e vivia sorrindo. Em especial na peladas disputadas no finais de semana livres…

Não havia gramado, nem mesmo um terrão. O campo era o ponto final do 334, que ligava (e liga, até hoje) o conjunto habitacional até a Praça Tiradentes. Asfalto cascudo, irregular, que arrancava a pele e tirava o sangue dos aspirantes a craques. E mesmo dos craques. No caso, de Uri Geller.

Nicanor nunca saiu da Portuguesa e nunca foi um primor dentro das quatro linhas. Resolvia praticamente tudo na base da ignorância, quando estava em campo. Mas ali, numa pelada de bairro, ele se destacava, como qualquer “federado”, quando cercado de amadores. Batia na bola diferente de todos, sabia marcar melhor que os outros, tinha mais visão de jogo que qualquer um. Seria fácil o craque da área. Seria, se não existisse um demônio chamado Julinho.

Era sempre um de cada lado. Jamais parceiros, sempre inimigos. Julinho já humilhava no visual: calção oficial da Seleção Olímpica (ele disputou os Jogos de Montreal, em 1976), pisante invocado… Mas eram apenas as preliminares. E sim, a imagem sexual faz todo o sentido, porque o que ele fazia com o Nicanor quando a bola rolava…

É verdade que Uri Geller narrava as próprias jogadas. “Lá vai Julinho pelo meio, dribla um, passa pelo segundo, caneta no terceiro! Mas o que que é isso, minha gente!”. Agora imagina o Nicanor ouvindo isso, vendo seu time armado com tanto carinho sendo desmontado, peça após peça, e só esperando pela sua vez… a angústia, a dor.

Julinho narrava e sorria, sorria e avançava. E ai chegava na frente do Nicanor. Não, ele não passava TODAS as vezes pelo colosso de ébano. Nicanor nunca teve aspirações de Nilton Santos e odiava o oponente com todas as forças. Assim sendo, não tinha o menor pudor de finalizar o futuro Uri Geller sempre que possível. “Tá lá o corpo estendido no chão”. Um chão duro e áspero que nem ralador de coco. Sangue, lógico. E Julinho sorria.

Em volta, casa cheia. E, acreditem, torcida dividida, já que muita gente achava que o pobre Nicanor era mais “raiz”. Tinha uns rádios portáteis daqueles grandões. Samba. Clara Nunes, Beth Carvalho, Alcione, cujo sucesso do ano, “O Surdo”, era principal fonte de inspiração para Nicanor: “Eu bato forte em você/ E aqui dentro do peito uma dor/ Me destrói”… Não existia funk, ainda. Julinho sorria. Nicanor, não. E tinha um adolescente de óculos que via aquilo tudo e jurava que iria fazer igual ao maior jogador que viu de tão perto. Bem que tentei…

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