TODO DURO. O MOLEJO DO ZAGUEIRO

por Jonas Santana Filho

(Foto: Caio Vilela)

(Foto: Caio Vilela)

Ninguém era mais sério que Zé Luis, mais conhecido no meio do futebol daquela região como Todo - Duro. Não havia quem o fizesse esboçar um sorriso, nem mesmo Lídia, filha de seu Gumercindo, o policia da área, quando passava sorrindo na sua frente, jogando olhares e charmes para aquele camarada desengonçado, quase careca, troncudo, cuja especialidade era trombar com os adversários, pondo-os quase sempre a nocaute nos jogos de domingo no time da rua A.

Embora aparentasse estar sempre sisudo, era querido por todos ali no bairro, talvez pelo seu jeito de apaziguar as situações de conflito (desde que ele não fosse o envolvido), talvez pela mansidão que sempre demonstrava no dia a dia, principalmente quando os meninos da rua o perturbavam ao gritar o apelido do qual não gostava e que havia se tornado uma arma das torcidas adversárias.  

Nosso jogador era, dentro de campo, o oposto do seu cotidiano. Ali se transformava num gigante da área, guardando a cidadela qual soldado em total estado de alerta.  Nos jogos de fim de semana ele formava com Lila uma parede quase instransponível onde o lema era “a bola ou o jogador ficarem”. Nunca os dois a invadir a meta de Quiabo. Aliás, a dupla de zaga aterrorizava os atacantes, meio campistas ou quaisquer jogadores que se aventuravam por aquele território onde reinavam absolutos os nosso craques.

Muitos diziam que Todo-Duro se assemelhava no estilo de jogo, a Brito (zagueiro da seleção tricampeã de 1970 que se notabilizou pelo seu jeito vigoroso de jogar), outros o comparavam a Moisés (zagueiro do Vasco e semelhante a Brito na forma de jogar) e outros tanto diziam que ele se parecia mais com Piazza (volante/zagueiro do Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes e cia.), mas o fato é que nosso craque tinha lá suas maneiras de persuadir seus oponentes, fosse no desarme clássico, fosse pela força, culminando sempre na bola longe do gol, geralmente nas arquibancadas ou na área adversária. Dir-se-ia que o futebol era nem sempre elegante, mas eficiente.

Nos jogos de finais de semana, quando se reuniam Quiabo, Nêrroda, Pedro Preto, Lilá, Zé Rosca, Vevé, Dirran (recém chegado naquela cidade, mas famoso pelo apelido), e Zé Luis (ninguém o chamava de Todo-Duro antes de entrar em campo) era certeza um show de futebol.  Aquela equipe sabia tocar a bola e nem precisava dos gritos de Tamba (apelido de Marcelino, técnico, dirigente e dono do time) para mudar de tática ou cadenciar o jogo.  

O resultado do jogo era o que menos importava para aqueles homens, exceto se fosse o torneio de seu Maneca ou valendo alguma coisa (ás vezes uma caixa de cerveja ou refrigerante,). Mas era nos amistosos que aflorava o prazer de simplesmente jogar bola, sem se preocupar com o amanhã, simplesmente se alegrar; talvez a única válvula de escape daquele lugar onde, alinhados com a torcida, aqueles homens proporcionavam um espetáculo de descontração e lazer, de esperança. Aquela galera sabia jogar e sabia empolgar. Bons tempos...

E Zé Luis Todo Duro fazia parte daquela turma.  E foi num desses jogos que a coisa aconteceu, dando origem a tão malfazejo epíteto.

Num jogo do time de Zé Luis (ainda não tinha sido “batizado” com o apelido), Tonho Vesgo, um ponta direita com habilidade semelhante ao grande Garrincha e inteligente como Gérson (ambos seleção) catou a pelota e partiu para cima de Lila, companheiro de zaga do nosso herói. E ele veio bufando como um touro e pá!! Passou lotado com o drible, embora tivesse mostrado até a alma da chuteira contra as canelas de Tonho. Este, ao ver aquele negão vindo como um trem em disparada crescer na sua direção, esquivou-se, rápido como um bólido, da pancada certeira e a seguir, com um drible de corpo, pôs o defensor de traseiro no chão, arfando feito cachorro com sede.  Vencido o primeiro obstáculo restava ao atacante, antes de vazar a meta do goleiro Quiabo, transpor a barreira humana chamada Zé Luis.     E assim o fez.

Vesgo, numa rápida puxada da pelota à frente, pára, se põe em posição de ataque perante o seu adversário, que neste momento estava com os olhos esbugalhados e fitos na bola, mais atento que coruja de plantão, com o corpo quase em posição de bote e alerta a qualquer mínimo movimento do habilidoso jogador.  Estático, arquejando, esperando o desfecho da jogada. E ficaram assim por cerca de alguns segundos, olhos fitos, deixando atônita a torcida e o restante dos companheiros...

De repente o bote!  O zagueiro se adianta e tenta capturar a pelota, dando um pontapé em direção a ela, que rapidamente é puxada para o lado pelo atacante. Ato contínuo, este dá uma pancada lateral e volta ao mesmo ponto, o que faz com o que nosso zagueiro se entorte todinho, ficando literalmente “todo duro” pois, na tentativa de acompanhar o movimento da bola, dada a velocidade imprimida ao movimento, resultou na lesão lombar do nosso atleta.  

Depois de tal façanha, que resultou em gol adversário, Zé Luis ficou praticamente andando em campo, tal qual um robô, o que fez com que a torcida começasse a chamá-lo pela alcunha de TODO – DURO, que perdurou enquanto houve jogo e caiu nas graças da galera, que sempre que podia entoava o apelido.

O drible, conhecido como “elástico”, foi o principal responsável pelo nome atribuído a Zé Luis, que mesmo curado ainda andava com certa dificuldade. Nosso craque ainda passou uns três meses para se recuperar, mas a herança não ao abandonou, nem mesmo quando deixou os gramados por persuasão e estímulo da já sua esposa Lídia.

Dizem que Zé Luis trabalha numa fábrica de doces e ensina atualmente dança de salão nas horas vagas. 

Jonas Santana Filho é escritor, funcionário Público, Gestor esportivo, amante e estudioso do futebol.