TOCA A BOLA AÍ, CARA

por André Felipe de Lima

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A pelada está entranhada até o último fio de cabelo da gente. Nem precisa gostar muito de futebol. Todos — sem distinção — já disputaram uma pelada na vida. Uma que seja. No colégio, defronte a casa dos pais, na pracinha do bairro, no quintal dos avós, enfim, pelo menos uma vez na tosca vida de todos nós jogamos uma pelada.

Nem precisamos ser craques de verdade, embora frisássemos sempre sermos “craques de verdade”. Quem quisesse acreditar, que acreditasse. Isso nunca importa para um peladeiro juvenil, que já crescido continuará sempre contando vantagem. Mas sem isso não há alma de peladeiro. O peladeiro é melhor que qualquer outro ser da terra. Nada o supera. Jamais o superará. Em qualquer lugar da vida em que esteja, o peladeiro faz da fantasiosa e criativa memória seu impoluto campo de futebol. Imaculado. Dribla para lá, para cá; dá uma bicicleta; voleio. Cabeçadas e tiros certeiros. Dribles? “Ora, é o que de melhor sei fazer”, responde o “craque de verdade”. Ninguém ousaria bater melhor na bola que ele.

No pensamento? Perpassam somente suas jogadas. “As do quintal dos avós foram as melhores”, costuma dizer. Mas há hora que impeça a santa pelada? Não. Não há.

Mesmo no turbulento e violento centro da cidade do Rio de Janeiro há um “Maracanã” lindo, em um largo em meio a camelôs e gente apressada, estressada e infeliz. Mas quem disse que peladeiro é apressado e infeliz? Ele para ali. Sim, naquele “Maracanã” lindo, idealizado e florido por um monte de peladeiros e torcedores genuínos, iguaizinhos os da geral de antigamente do nosso Maracanã. Pobre Maracanã perdido no tempo.

O almoço pode esperar. O patrão também. E bola lá, bola cá. Alguns ansiosos na “arquibancada”, fazendo a “de fora”, loucos para entrar naquela “grama” cinzenta. A hora chegará, peladeiro... pode esperar, porque, afinal, a pelada é eterna e o relógio, para os meninos e meninas peladeiros, não tem ponteiro. Nunca teve. Toca a bola aí, cara!