A PELADA QUE FEZ DE TELÊ ÍDOLO OU OS SONHOS COM OS GOLS DO ADEMIR

por André Felipe de Lima

Houve um tempo em que a Vila da Penha, bairro do subúrbio carioca, tinha, pelo menos, uns oito campos para os peladeiros de plantão. Isso por volta dos anos de 1950 e 60. Dentre os craques dos pés descalços, um era famoso, notório fominha de peladas e ídolo. Sim, ídolo, e do Fluminense. O camarada em questão era o Telê Santana, que batia ponto (ou uma bolinha, como queiram) em praticamente todos eles. Jamais teve medo de macular o pé na terra batida, orgulho dos genuínos peladeiros, como o ex-craque vascaíno Ely do Amparo e o cidadão Antônio Ribeiro, o “Galego”. Os dois juntavam-se a Almir dos Santos, vizinho de Telê, e todos acompanhavam o craque das Laranjeiras ao campo disponível na Vila da Penha. Momento sublime em que ignoravam existir vida fora da pelada.

Telê morava na Praça do Carmo, lá mesmo na Vila da Penha. No edifício Mello, que fica (ou pelo menos ficava) na esquina da Avenida Vicente de Carvalho com Avenida Brás de Pina. "Morei ali por aproximadamente oito anos, entre os anos 50 e 60. Me dava bem com todos, mas tinha mais afinidade com o Ely do Amparo. Era uma grande figura. Quando queria encontrar os amigos, ia até o Bar do Gouveia, que ficava na Avenida Meriti, em Vila Kosmos. Quase nunca estava em casa nos fins de semana. Quando não estava jogando, aproveitava para levar meus filhos à praia, na Ilha (do Governador)". declarou à repórter Alba Valéria Mendonça, em 1994, semanas após conquistar o segundo Mundial Interclubes no comando do São Paulo.

Pelada. Se algum jogador de futebol profissional, sobretudo os de hoje em dia, disser que jamais gostou dela, estará mentindo. Todos (invariavelmente todos) disputaram-nas avidamente. Hoje, por exemplo, é dia do Telê. Nada mais apropriado que lembrarmos dele falando da alma peladeira que ostentava. Verdadeira pedra preciosa e bruta da qual foi lapidada o ídolo. “Prefiro empatar jogando um bom futebol do que ganhar um jogo com uma atuação medíocre” ou “Se coibirem a violência, vão acabar esses técnicos de beira de estrada”, ensinava o Mestre Telê, que muito conquistou com o futebol, tanto como jogador quanto como treinador. Um rosário interminável.

Como jogador do Fluminense – onde iniciou a carreira na década de 1940 — foi campeão carioca duas vezes (1951 e 1959) e também duas vezes campeão do Torneio Rio-São Paulo (1957 e 1960). Mas a maior conquista de todas com a camisa tricolor aconteceu em 1952, a Copa Rio Internacional, uma espécie de Mundial de Clubes. Foi também nas Laranjeiras que Telê começou a carreira de treinador. Em 1967, com a equipe juvenil. Mas já em 1969 mostrou que seria um grande técnico ao conduzir o time na vitoriosa campanha do Campeonato Carioca. Foi o primeiro troféu na nova carreira. Veio depois o Campeonato Brasileiro com o Atlético Mineiro, a seleção brasileira nas Copas do Mundo de 1982 e 86 e o São Paulo, com o qual foi bicampeão mundial e da Taça Libertadores da América, em 1992 e 93.

Nenhuma destas conquistas o emocionou mais no futebol que um gol que sequer assistiu ao vivo. Naquela tarde, jamais imaginara que um dia se tornaria o “Fio de esperança” da torcida tricolor. “A minha grande emoção, senti como torcedor, quando, ainda jovem, em São João Del Rei, ouvi pelo rádio o gol de Ademir contra o Botafogo, que deu ao Fluminense o título do Super Campeonato Carioca de 1946”. Sim, Telê era Fluminense de quatro costados.

Foram 12 anos nas Laranjeiras, com 557 jogos disputados e 164 gols assinalados. Uma carreira praticamente toda dedicada ao clube que tanto amara. Se o corpo franzino era franzino, sobrava-lhe impetuosidade em campo e, sobretudo, gols decisivos nos finzinhos dos jogos. Vem daí o apelido “Fio de esperança”, mesmo nome do filme americano “The High and the Mighty” dirigido por William A. Wellman e estrelado por John Wayne, este coadjuvado por Claire Trevor, Laraine Day e Robert Stack. Bom filme.

Telê foi um grande campeão dentro e fora do campo. A fama de turrão como treinador nada mais era que um estilo preocupado em fazer o melhor. Errou, é verdade, muitas vezes. Mas acertou muitas outras, e em maior número. O respeito que conquistou incomodou incompetentes e invejosos. Muitos queriam ser um “Telê” ou estar no lugar em que ele estava, conquistando títulos e a idolatria das torcidas. O mestre protagonizou muitas histórias de alteridade e dignidade, como a que teria se recusado a ser o único autorizado a sair pelo portão social do Fluminense após um treino nas Laranjeiras. Os jogadores haviam sido barrados. “Ou saímos todos juntos por aqui, ou vou pular o muro com os jogadores”. Em Telê não cabia o preconceito. Mas o grande craque saiu muito magoado do Fluminense, no final da temporada de 1961. Seu filho Renê, ainda pequeno, não suportou a ideia de o pai romper com o clube de coração. O menino chorou. Telê também.

“Saí do Fluminense por causa de 30 mil cruzeiros. Quando assinei meu último contrato, um diretor do clube (o cartola em questão era o Wilson Xavier) me garantiu que o Fluminense estava me pagando o máximo, mas que se aumentasse o ordenado de outro jogador ou se contratasse algum em bases mais elevadas, eu seria equiparado. Faltavam quatro meses para terminar meu contrato quando o Fluminense contratou Humberto, Calazans e aumentou os ordenados de Pinheiro e Castilho. Mas não me aumentou sequer em um cruzeiro. Um outro diretor (Telê jamais revelara o nome) me disse que o Fluminense não me daria nem um centavo a mais. Eu não estava exigindo o atrasado, queria só o aumento dos meses seguintes, mas o clube mesmo assim negou. Foi depois disso que me deram passe-livre. Fui uma espécie de Tiradentes do Fluminense, com a coincidência de que o mártir da nossa Inconfidência também era mineiro. Nunca provoquei casos no Fluminense. Pelo contrário, sempre facilitei em tudo, sem exigir ordenados iguais a outros companheiros. Apesar de tantas injustiças de que fui vítima, continuo querendo bem ao Fluminense. Entendo que os maus diretores passam, mas a glória do clube fica.”

Com o passe sob seus cuidados, vendeu-o para o Guarani por um milhão de cruzeiros da época, recebendo 40 mil mensais de ordenado. Tinha mais seis meses de contrato a cumprir, mas os negócios da família forçaram o regresso imediato ao Rio. Teve uma saída difícil do clube de Campinas, que não queria liberá-lo de jeito algum. Após intervenção de cartolas do Madureira, que sensibilizaram os do Guarani, Telê conseguiu deixar Campinas e rumou para o tricolor suburbano, que pagou 500 mil cruzeiros de multa ao Guarani, além da realização de um jogo amistoso em Campinas, cuja renda seria destinada exclusivamente para o clube paulista.

A passagem pelo Madureira foi improdutiva. Decidiu parar com o futebol. Permaneceu um ano e meio longe das chuteiras, mas decidiu voltar aos gramados em outubro de 1965, pelo Vasco: “Eu estava no Maracanã, assistindo a um jogo ao lado do meu amigo Teixeira Heizer (jornalista, morto em maio de 2016), quando ele, em meio ao bate-papo, perguntou-me porque eu não voltava a jogar. Disse-lhe que já considerava encerrada minha carreira de profissional da bola e que somente concordaria em voltar se fosse para atender àquele a quem muito devo o que consegui no futebol: Zezé Moreira. O que disse chegou aos ouvidos de Zezé e ele me convidou a treinar no Vasco.”

Telê, quando deixou os gramados, virou sorveteiro. Abriu a Telê-Sorvetes, que ficava na rua Guaporé, número 599, em Brás de Pina, subúrbio carioca. Foi o primeiro a fazer sorvete de queijo no Rio. Primazia que sempre tomou para si. “Fui o primeiro. A receita é da minha sorveteria”, dizia. Ficava fulo da vida se o contrariavam em relação ao sorvete de queijo. Quem sugeriu a ideia do negócio foi Clodovê, irmão mais novo do Telê. Goitê, o outro irmão, ajudou no empreendimento.

A mesma competência que empregava com o sorvete, Telê a executava com a bola nos pés. “Enquanto Telê estivesse em campo, não havia jogo perdido para o Fluminense”, escreveu o cronista Nélson Rodrigues, fã declarado de Telê.

Mineiro, de Itabirito, Telê faria 86 anos hoje. A dedicada professora de sua infância, Olimpia Centra Mourão, de quem Telê jamais esquecera ao longo da vida, teve muito orgulho do aluno disciplinado. Nós também, dona Olimpia. Nós também.