Zé Roberto Padilha

IN LUXEMBURGO WE TRUST

por Zé Roberto Padilha

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Chegava às Laranjeiras de Xerém, no final dos anos 80, quando recebi a notícia de que havia sido promovido. O treinador dos Juniores tinha ganho a Taça São Paulo e recebera um convite de uma equipe do interior de lá. O Bragantino. Daí Rubens Galaxe, que treinava a equipe Juvenil, foi para o seu lugar e eu, dos infantis, ocupei o lugar do Rubens. O nome do treinador: Vanderlei Luxemburgo.

Vanderlei embarcou para o Bragantino levando a base da sua equipe que não teria chances tão cedo nos profissionais: João Santos, Carlos Ivã, Robert, Franklin e Silvio. Estavam na ponta dos cascos e acabaram levantando o título estadual paulista. Foi aí, nesta meteórica aparição, que Vanderlei recebeu o convite do Palmeiras. E sua estrela, desde então, jamais deixou de brilhar.

No palestra, formou uma equipe difícil de se comparar. Nenhuma outra marcou 100 gols no Campeonato Paulista, mais até do que o Santos, de Pelé e Coutinho. E jamais outro clube cedeu tantos jogadores à seleção: Marcos (Veloso), Cafú, Antonio Carlos, Cléber e Roberto Carlos; César Sampaio, Mazinho, Djalminha e Zinho; Edmundo e Rivaldo. De quebra, Evair, Edilson, Luisão. Para representar o Brasil, bastava trocar a camisa verde e branca pela camisa verde e amarela.

Joguei na Máquina Tricolor 75 onde Félix, Toninho, Edinho, Marco Antonio, Gil, Paulo César e Rivelino serviram à seleção. Como poucos, sei o valor deste time inesquecível, bicampeão carioca, Campeão do Torneio de Paris e duas vezes semifinalista do Campeonato Brasileiro. E realizei, um ano depois, na Gávea, coletivos aprontos que já mostravam a preciosa geração que alcançaria, alguns anos depois, a hegemonia do futebol carioca e o título do mundial de clubes.

O Leandro era meu marcador e Toninho Baiano se virava tentando marcar Júlio César. No meio campo, o duelo era entre Tadeu Ricci, Geraldo e Zico contra Andrade, Adílio e Tita. E o Mozer, sozinho, tomava conta do Caio e do Luizinho. Quando este elenco se juntou nos profissionais e recebeu a arte do Junior e o oportunismo do Nunes, chegaram perto da perfeição. Esta, na minha opinião, foi alcançada pelo Palmeiras, de Vanderlei Luxemburgo.

Vanderlei treinou a seleção brasileira e o clube mais poderoso do mundo, o Real Madrid. Depois de tudo isto, poderia parar, se tornar uma lenda, ir até o Palestra Itália apenas para inaugurar a sua estátua. Mas o amor pelo futebol não o deixou, felizmente, parar. E no último sábado, quando o Vasco virou sobre o nosso tricolor, muitos comentaristas disseram que foi na garra e porque estavam no alçapão de São Januário. Esqueceram que no banco tinha um treinador mais do que vencedor. Tinha um estrategista. E desde Tim o futebol carecia de um que sabia mexer no tabuleiro.

Não é Jesus, o Messias, mas dos treinadores que conheci de perto, foi o que mais entendeu a língua dos Deuses do Futebol. E, por isto, Vanderlei merece o nosso respeito. Because, “In Luxemburgo we trust”.

A CPI DO FILIPE LUÍS

por Zé Roberto Padilha

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Entendo um pouco da posição pois joguei ao lado de Marco Antônio e do Junior. E vi o Nilton Santos pela televisão e o Marinho Chagas nos enfrentar, pelo Botafogo, nos anos 70, com uma qualidade técnica absurda. E estou à vontade para pedir aos conselheiros do Flamengo uma CPI para apurar quem está por trás da contratação de Filipe Luís. Gastar a fortuna que estão anunciando parta trazer o mais limitado lateral esquerdo que já vestiu a camisa da seleção é uma covardia. Covardia com as famílias que ainda não receberam as indenizações do incêndio do Ninho do Urubu. Covardia com a torcida do Flamengo que ainda sonha em ser novamente campeã mundial de clubes. Sinceramente? Trauco e Renê são, hoje, bem mais efetivos do que ele.

Nada pessoalmente contra Filipe Luís. É um atleta aplicado e disciplinado, sabedor das suas limitações e que não inventa dentro do seu cardápio feijão com arroz: apoia sem brilho e defende sem chamar a atenção de quem está à procura do craque do jogo. Se não fosse seu coque no cabelo, passaria despercebido. Como é diferente, chama atenção e poucos prestam atenção na mesmice que joga.

Seu maior trunfo é o tamanho do prestígio do seu empresário: o colocou no Atlético de Madrid e apesar de estar à quilômetros do Marcelo e sem possuir a impetuosidade do Alex Sandro, seu reserva, acreditem, está sempre presente na lista dos convocados. E agora surge como solução para o clube mais amado do Brasil. Quem estará por trás disto?

Certo dia, para não dizer que sou implicante, e como ex-jogador e jornalista tenho que ter cuidado redobrado para analisar um companheiro de profissão, convoquei meus filhos para a sala durante um Atlético de Madrid x Real Madrid. E pedi para que analisassem os dois laterais esquerdos. A conclusão foi unânime: de um lado um gênio, daqueles que só Xerém produz, como Thiago Silva. De outro um jogador que, com todo respeito, tinha um canhotinho atuando parecido nas finais da Copa Arizona de Futebol de Praia. E outros que jogam soçaite no Tijuca Tênis Clube e no Clube Harmonia, em São Paulo.

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Tem Filipe Luís dando nos pés das serras pelos cantos do país e aí vem o Flamengo e destina uma fortuna por ele já no apagar das suas brandas luzes. Um dos meus filhos ainda disse, em sua defesa, “Mas ele não erra passes!”. O outro rebateu: “Mas se só joga para o lado e não arrisca algo diferente, como errar?”

Ontem, durante o “clássico” Avaí x Goiás, quem vestia a camisa 10 do Avaí era o Douglas. Que fez bonito no Grêmio, honrou a camisa do Vasco e está ocupando o degrau certo na escala que nos leva a aposentadoria. Quando a ordem se inverte e, em vez de descer dignamente, um atleta é recolocado na vitrine às véspera dos 3.4, tem algo errado por aí.

CPI neles antes que o contratem, passe 30 dias nas mãos do preparador físico para recuperar o ritmo de jogo, mais 20 para se adaptar ao fuso horário, 10 para se entrosar com os novos companheiros e...daí tem uma contratura muscular. O ano acaba e com ele o sonho rubro-negro de ter um novo Paulo Henrique. Depois vocês me cobram.

DESEJO DE ANULAR

por Zé Roberto Padilha

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Quando era treinador do América FC-Tr, disputando a segunda divisão do carioca em 92, fomos enfrentar o Miguel Couto, na Baixada Fluminense. Um campo modesto, um barzinho lotado que deveria atrair seus torcedores desde o meio dia para empunhar seus copos antes de desfraldarem suas bandeiras.

Tínhamos um grande time, com Leonardo, Quarentinha, Mário Alexandre, Cesar Diniz, Renatinho, e acabamos subindo, ano seguinte, para a elite do futebol carioca. Mas meu preparador físico, Carlos Camelo, estava preocupado com a arbitragem. Era, àquela ocasião, de um nível muito baixo e só o relaxei quando os vi entrar em campo. Muitos jovens conheciam o juiz principal. Havia feito com a gente, em Xerém, nas divisões de base do Fluminense, um bom estágio. E disse ao Carlinhos: “Relaxa, este nós conhecemos!”

Em menos de dois minutos ele marcou um pênalti absurdo contra nós. Empatamos de 1x1 e, tão contrariado, nem fui falar com ele após a partida. E no jogo da volta, em Três Rios, muito menos. Sua postura em nada diferenciava da velha e ultrapassada geração de sopradores de apito da FERJ. E, com a mesma moeda, devolveu o presente: marcou um pênalti inexistente a nosso favor. Após a partida, não fui lhe agradecer. Nem saber porque era tão ruim assim. Fui ao seu vestiário para saber porque fez aquilo.

Meio sem graça, pediu desculpas. E me convidou a olhar em volta. Casa cheia, bebida liberada, um bairro afastado do centro da cidade e apenas dois guardas municipais a protege-los. “Lembra de Miguel Couto? Por lá os policiais nem apareceram!”. E confessou ali que desde cedo desenvolvem, no nascedouro da sua profissão, um instinto de sobrevivência. Dividiu, aprenderam, é da casa. "Para que sair dali a pedradas se você pode deixar aquele buraco quente tranquilo e voltar em paz?", concluiu.

Daí pra frente notei que o arbitro caseiro é fruto da insegurança do seu cativeiro. Desde lá, incorporam este trauma que jamais os abandonará. Mesmo com a SWAT nas arquibancadas, dividiu, é da casa. Foi quando Pikachú recebeu, no sábado, uma bola que veio de uma dividida do Rossi. Poucos perceberam a falta porque, dali pra frente, ele transformou a jogada em uma obra de arte.

Porém, aquele 2x0 liquidava o time da casa. E neste instante, Rodolpho Toski Marques foi tomado pelo incontido desejo de anular. E recorreu ao VAR. Que este tentasse descobrir uma irregularidade qualquer, mesmo lá atrás, um lateral mal batido, um gandula dentro de campo porque ele estava na Arena do Grêmio. E não queria sair dali com o enjoado do Renato Gaúcho berrando ao seu ouvido.

Quem berrou foi o Vanderlei Luxemburgo. Perdeu seu tempo. Na próxima partida, em São Januário, a arbitragem, traumatizada do berço, lhe devolve o presente. Marca um daqueles pênaltis que só o Eurico Miranda enxergava. E sairá são e salvo daquele lugar esquisito. Se bobear, até aplaudido.

O QUE VIER DOS SEUS PÉS É LUCRO

por Zé Roberto Padilha

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Meus netos, Eduardo e Felipe, foram ao Maracanã assistir Argentina x Venezuela. Na verdade, foram mesmo ver o Messi. Aos 12 e 8 anos, quatro de escolinhas de futebol e seis de Playstation da FIFA, não voltaram tão felizes do que assistiram. O camisa 10 argentino não estava em seus melhores dias dentro de campo. Mal sabiam, porque só o tempo vai mostrar a eles, que estavam diante do maior exemplo que um avô gostaria de mostrar aos seus netinhos. Porque o futebol vai passar pela vida deles. A formação, desportiva e cidadã, esta ficará para sempre.

Lionel Messi não perde tempo olhando seu cabelo no telão para não desviar sua atenção da partida. Seu impressionante foco, durante os noventa minutos, é se deslocar para receber um tijolo, lapidá-lo e transformá-lo em uma obra de arte. Se apanha e cai, levanta e não reclama. Pior, nem olha na cara do seu agressor. Será apenas mais um. Se o juiz não marca a falta, mesmo com a canela doída, não reclama. Não sorri, não chora, não faz beicinhos, cera ou catimba. Ele quer a bola. E nós queremos admirar seu exemplo, de atleta que acaba o jogo e vai jantar com sua família, que acompanha cada jogada que produz.

De que adianta ser um ídolo se ele embaça sua idolatria envolvido em baladas e acusado de estupro? De que adianta fazer um gol de bicicleta se dia seguinte, cultuado em álbuns de figurinhas, abre sua mansão para exibir suas 12 limusines enquanto poderia abrir uma fundação e retribuir o carinho aos que mais o idolatram e precisam?

Amanhã, dia de Brasil x Argentina, coloquem seus filhos de castigo na sala. Se for possível, levem-nos até o Mineirão. Porque um professor, um guia espiritual, um psicólogo, um empreendedor, uma tia carinhosa e uma babá cuidadosa estarão todos juntos dentro dos atos de um camisa 10 argentino. Pelo que já mostra de corpo e alma para as novas gerações, o que vier dos seus pés é lucro.

AS NOSSAS MULHERES FORMIGAS

por Zé Roberto Padilha

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Apesar do descaso das pessoas daquele lugar, do abandono em que são constante vitimadas, as mulheres formigas não são uma espécie em extinção. Elas desaparecem e surgem em igual tempo e espaço pelas principais arenas do mundo. Seja durante uma Olimpíada ou em uma Copa do Mundo. As mulheres formigas do futebol brasileiro são espécies para serem estudadas pela Nasa. Pois são todas sobreviventes heroínas. E parecem surgir do nada com a missão de dar a seu povo orgulho demais.

Sem campeonatos municipais para realizar sua preparação de base, raras ligas desportivas à disposição, poucos estaduais e fora do calendário nacional, não contam com uma formação básica nos colégios. Como as americanas, as inglesas e as suecas. E ainda enfrentam um preconceito dentro de suas tocas que não cabem debaixo das suas saias. Jogar futebol? Escutam dentro de casa: isto é coisa para homem!

Assim pensam os habitantes do lugar aonde sobrevivem ocupando diversas profissões para sustentar a família. E comprar a própria chuteira. Quem pensava diferente, o jornalista Luciano do Valle, precocemente deixou sua espécie sem o único meio de comunicação que lhes dirigia atenção, campeonatos e oportunidades. Bandeirantes, o canal do esporte.

Durante a hibernação, algumas espécies saem pelo mundo em busca de uma equipe que as mantenha com os pés em movimento. Mas a maioria fica mesmo por aqui, jogadas à própria sorte. Vendo isto, Deus, sempre justo, fez de uma mulher formiga daquele ingrato lugar a abelha rainha. E Marta se tornou a melhor do mundo. Pouco adiantou. Continuaram esquecidas.

Domingo, as mulheres formigas do futebol voltaram a campo. Os cartolas do futebol brasileiro mal sabiam os seus nomes, de onde vieram, que equipe defendiam e desconhecem a superação que as fizeram chegar até ali. Devem achar que elas surgem de um toque de Marta, digo, de um passe de mágica, e mesmo assim, estavam sorrindo na Tribuna de Honra porque receberam um mês em Paris com tudo pago. Com o suor que não foram seus mas com a cara de pau que tem a cara, a marca e o descaso da CBF com o futebol feminino.

Liberdade, de jogar bola no colégio. Igualdade, nos clubes de futebol do país. Fraternidade, de uma sociedade machista que passe a reconhecer sua vocação e talento. Inaugurado pelos antepassados de suas adversárias durante uma revolução social, quem sabe um dia tais conceitos, de solidariedade e respeito, sejam também lhes concedidos?

Mulheres formigas do futebol brasileiro, nós temos orgulho de vocês.