Victor Kingma

NARRANDO O GOL DO INIMIGO

Charge: Eklisleno Ximenes

Charge: Eklisleno Ximenes

Final dos anos 50. De férias em Ubá, sua terra natal, Ari Barroso é apresentado a um jovem locutor esportivo de uma cidade vizinha, do qual falavam maravilhas.

Ari, com a experiência de tantos anos, logo se impressionou com a postura e a voz do locutor, que parecia realmente ser muito bom. Resolveu, então, testá-lo,  visando um possível aproveitamento na Rádio Tupi, na qual era uma das estrelas da narração esportiva.

Dias depois, o recebe no Rio, na sede da emissora. Querendo ver a desenvoltura da jovem promessa, pede que ele narre, de improviso, três lances de um hipotético jogo de futebol.

Enquanto o locutor ficou dentro da cabine, Ari permaneceu do lado de fora, fazendo sinais de positivo ou negativo através da divisória de vidros, muito comum nas emissoras de rádio. 

Assim, o narrador descreveu o primeiro lance, de um fictício jogo entre Flamengo x Botafogo:

Avança o Flamengo com o ponteiro Joel pela direita... É barrado por Nilton Santos. 

A enciclopédia do futebol toca com elegância para Didi no meio de campo...

Didi passa a bola entre as pernas de Moacyr e toca para Garrincha na ponta...  

Mané ginga para um lado e pro outro, finta Jordan, invade pela direita, passa por  Jadir e cruza para a área...  Quarentinha emenda de primeira:

 GOOOOOOOOL do Botafogo!   Qua...ren... ti... nha!

Botafogo, um! Flamengo, zero!

Ari faz sinal de positivo, e sem muita euforia manda narrar o segundo lance. E o narrador continua, agora mais vibrante ainda:

Desce novamente o Botafogo para o ataque... 

Zagalo recebe pela esquerda e toca pra Didi... O Príncipe Etíope se livra da marcação e lança para Paulo Valentim. O avante alvinegro passa por Pavão e abre para Garrincha...

O demônio da pernas tortas passa espetacularmente por Jordan... Dequinha vem na cobertura e também é fintado...

Garrincha cruza... Quarentinha entra de bicicleta:

GOOOOOOOOL do Botafogo:    Qua...ren...ti...nha!

Botafogo,  dois! ... Flamengo,  zero!   

A torcida Botafoguense delira. Show de bola no Maracanã! 

E, empolgado, começou logo a narrar o terceiro lance: 

Ataca o Botafogo novamente com Garrincha...

Neste instante, Ari Barroso, furibundo, invade a cabine e interrompe o teste:

-  Meu filho! Afinal de contas, você veio aqui para fazer teste ou para me gozar? 

- Vai radiar jogo do “arranca  tôco”,  lá na sua cidade! 

O promissor locutor, que não sabia da paixão do homem da gaita pelo Flamengo, acabou reprovado no teste.

NAQUELE TEMPO ERA ASSIM

por Victor Kingma

 Desde os tempos da “Pharmácia”, o futebol como meio de divulgação de produtos campeões de venda.

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Frequentemente a indústria farmacêutica coloca no mercado novos e eficazes medicamentos, armas poderosas para alívio das dores e cura das mais diversas enfermidades, muitas das quais impossíveis de serem tratadas no passado. 

Em relação à higiene pessoal então, os avanços são significativos, com o desenvolvimento de novos produtos, com fórmulas sofisticadas e rejuvenescedoras. É a ciência, a cada dia mais avançada, contribuindo para a saúde, bem estar e conforto da população.

Entretanto, apesar de todo a avanço da indústria farmacêutica, existem produtos que, passadas décadas de suas criações, desafiam a modernidade e continuam firmes no mercado, com consumidores cativos e fiéis às suas fórmulas originais.

Um produto que resiste ao tempo e aos avanços da indústria farmacêutica é a popular e quase artesanal Cera Dr. Lustosa. Foi criada em 1922 pelo farmacêutico Paulo de Almeida Lustosa, de São João Del Rei, Minas Gerais, que desenvolveu a fórmula, à base do anestésico lidocaína e cera virgem de abelha.

A fabricação do produto causou uma verdadeira revolução no setor farmacêutico devido à sua grande eficácia no tratamento das dores causadas pela cárie dentária, um mal que atingia grande parte da população brasileira naquela época. 

Naquele tempo os clubes de futebol não tinham Departamento Médico e o tubo da Cera Dr. Lustosa era indispensável na maleta de medicamentos usada para atendimento aos jogadores.  Muitas vezes a aplicação local do providencial anestésico, evitava que os times entrassem em campo desfalcados de grandes astros, acometidos de terríveis dores de dente. 

Outro produto que resiste ao tempo é o Polvilho Antisséptico Granado. 

Criado em 1903 pelo farmacêutico João Bernardo Coxito Granado, da Casa Granado, no Rio de Janeiro, também está no mercado há mais de um século e teve como seus consumidores ilustres o jurista Rui Barbosa e o médico e sanitarista Osvaldo Cruz que, inclusive, como chefe da Inspetoria Geral da Saúde, foi quem autorizou a sua fabricação.

Sua embalagem continua praticamente a mesma e, ainda hoje, é um campeão de vendas entre os produtos de higiene pessoal.

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Vale salientar que o futebol muito contribuiu para tornar a marca conhecida em todo o Brasil. Afinal, se o produto era um medicamento essencial no tratamento da frieira, popularmente conhecida como “pé de atleta”, nada melhor que um grande astro do futebol para anunciá-lo.

E durante um bom tempo, o Polvilho Antisséptico Granado teve como garoto propaganda, nada mais, nada menos, que Ademir Menezes, o maior jogador do pais naqueles tempos: final de anos 40 e início dos anos 50. 

Esse texto, citando dois exemplos, entre tantos, é uma homenagem aos grandes pioneiros da indústria farmacêutica e seus produtos revolucionários que, através dos anos, tanto contribuíram para a evolução do esporte e a saúde da população. 

A parceria com o futebol, o esporte mais popular do país, sempre esteve presente, como meio de atingir o grande público e popularizar grandes marcas.

 

GERSON NO FLAMENGO, A VOLTA DO CANHOTINHA

por Victor Kingma

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Rubro-negro histórico, seu Tobias sabia tudo sobre o Flamengo. Podia, por exemplo, descrever com detalhes o  gol de Agustin Valido sobre o Vasco, no primeiro tricampeonato carioca do Flamengo, em 1944. Nas resenhas com seus contemporâneos, o sorriso meio sacana admitia que o avante argentino tinha mesmo se apoiado nas costas do defensor vascaíno Argemiro para fazer o gol do título.

Recordava, saudoso, do ataque de meninos formado por Joel, Duca, Evaristo Dida e Zagalo, pela segunda vez tricampeões, em 1955.

Gostava de contar da ousadia do técnico “Feiticeiro” Fleitas Solich ao apostar todas as suas fichas no garoto alagoano Dida, autor dos quatro gols naquela decisão contra o América, vencida por 4 x 1.  Até porque o Flamengo, que havia vencido a primeira partida da melhor de três por 1 x 0, com gol de Evaristo,  tinha levado uma sonora surra de 5 x 1, na segunda partida da final.

Sua memória era uma autêntica enciclopédia rubro-negra. Era capaz de se lembrar de cada título, das campanhas e até do apelido de cada jogador.

Sabia tudo da carreira do “Diamante Negro”, Leônidas, do “Doutor” Rubens, e de “Mestre Ziza”, o grande Zizinho, com quem, dizia, Pelé aprendeu muitas coisas.

Lembrava das matadas no peito de Silva, “o  Batuta” , do gol com a cara na lama de  Almir, “o  Pernambuquinho” contra o Bangu, em 1966, e do gol de cabeça de  Rondineli, “O Deus da Raça”, naquela decisão contra o Vasco, em 1978.

 Até dos jogadores menos conhecidos que passaram pelo clube ele sabia o apelido, como o de Dionisio,  “Bode Atômico”, Rodrigues Neto, o  “Turíbio” e de  Merica,  o “Cabra de  Lampião”, volante que que não perdia uma dividida.  Dividiu era do Meriquinha! - Ele sempre dizia.

Apenas de um jogador ele não gostava muito do apelido. Achava que “Galinho” era pouco para Zico, o maior de todos.

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Hoje, sentindo o peso da idade quase centenária, a memória já não é a mesma, e seu Tobias, às vezes, mistura a realidade com a fantasia, quando fala do seu time de coração.

Outro dia, sentado na sua inseparável cadeira de balanço, com cachecol preto e vermelho no pescoço para se abrigar do frio, parecia cochilar. Enquanto isso, seus netos, economistas, discutiam sobre o custo benefício do alto valor pago por Gérson, a nova contratação do Flamengo. De repente ele entra na conversa:

- Verdade o que vocês estão falando? O Flamengo contratou de novo o Canhotinha de Ouro?  Quer dizer que o Violino vai ter novamente seu companheiro de meio campo? Henrique e Dida vão se cansar de fazer gols novamente com os lançamentos do Canhota! 

- Não, vovô! Responde os netos, entre risos. Esse é outro Gérson, aquele meia que jogou no Fluminense e estava na Itália.

Ai o velho rubro-negro, recuperando totalmente a lucidez:

- Que ótima notícia, meus netos! Não sei se esse menino é  mesmo bom de bola’ e quanto pagaram por ele, mas foi barato!

E com os olhos marejados de saudade, seu Tobias, que sabe tudo de bola, conclui:

- Ter um Gérson no meio de campo de qualquer time do mundo soa muito bem aos ouvidos! Enriquece qualquer escalação!

Com  certeza, vai dar certo!

FUTEBOL, SUPERSTIÇÃO E RELIGIOSIDADE

por Victor Kingma

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Suécia, 1958.  Após uma campanha brilhante, o Brasil chegou à decisão da 6ª Copa do Mundo como grande favorito. Ninguém podia imaginar que a aplicada seleção sueca pudesse fazer frente ao futebol arte de Didi, Garrincha e Pelé, que vinha encantando o mundo. Ainda mais após a exibição de gala nas semifinais, onde tinha goleado por 5 x 2 a poderosa seleção da França, de Kopa e Fontaine.

Entretanto, a dois dias da final, os organizadores tinham um grande problema a resolver: as duas seleções utilizavam o uniforme amarelo.  Normalmente, seguindo as regras do cavalheirismo esportivo, muito comum naquela época, esperava-se que os anfitriões, como gentileza, permitissem que os visitantes utilizassem o seu uniforme oficial. Mas os dirigentes suecos não o fizeram, e a FIFA, sem alternativa para o impasse, marcou um sorteio para decidir quem teria que utilizar camisas de outra cor.

O Brasil, em protesto, não enviou representante para acompanhar. E não deu outra. Perdeu o sorteio, que muitos acreditam tenha sido manipulado. Não poderia, então, jogar com a sua tradicional camisa amarela. Pior: o branco era o outro uniforme disponível para disputar a finalíssima.

Começou então o drama. Supersticiosos, vários jogadores e integrantes da delegação brasileira logo se lembraram da Copa de 1950, onde o Brasil, mais favorito ainda e jogando com camisas  brancas, inexplicavelmente perdera a Copa para o Uruguai em pleno Maracanã,  na maior tragédia da história do nosso futebol. 

Diante do clima de preocupação que  tomou conta de todos, Paulo Machado de Carvalho, o chefe da delegação, resolveu, então, apelar para a superstição e religiosidade dos brasileiros: a seleção  disputaria a final da Copa com a camisa  azul, cor do manto de Nossa Senhora Aparecida.

E ainda lembrou aos jogadores que, nas últimas cinco Copas disputadas, quatro delas foram vencidas por seleções que utilizaram camisas azuis, recordando os feitos da “Azurra” Italiana em 1934 e 1938 e da “Celeste” Uruguaia em 1930 e 1950.

Um uniforme azul foi então comprado às pressas em uma loja de artigos esportivos, em Estocolmo. Mário Américo, o massagista, e Assis, o roupeiro, passaram o sábado, véspera do jogo, costurando os números e os escudos retirados das camisas amarelas. 

No domingo, 29/06/1958, dia da grande final no Estádio de Rasunda, na Suécia, os nossos craques, livres da “maldição” da camisa branca e protegidos pelo manto sagrado da padroeira do Brasil, fizeram prevalecer a sua classe e, ao vencerem a Suécia por 5 x 2, conquistaram a primeira Copa do Mundo para o nosso país.

Esse fato, inclusive, é contado com detalhes por Ruy Castro numa de suas  grandes obras, o excelente livro Estrela Solitária, um brasileiro chamado Garrincha.

Na foto, a Seleção Brasileira, campeã do mundo, em 1958, posando com o uniforme azul improvisado para a final:

Em pé: Djalma Santos,  Zito,  Bellini,  Nilton Santos, Orlando e Gilmar.

Agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá ,  Zagallo e o massagista Mário Américo.

O DIA EM QUE O PAPA ENTROU EM CAMPO

por Victor Kingma 

Charge: Eklisleno Ximenes

Charge: Eklisleno Ximenes

Pafuncio Parreira, popularmente conhecido como PAPA, era um poderoso cartola do interior. Próspero empresário do ramo de sumos de frutas e cacique político da região, era amado pelos aliados e odiado pelos adversários. Não tinha meio termo. Pré-candidato a prefeito de sua cidade foi denunciado à Justiça Eleitoral por estar fazendo propaganda antes da data permitida, ou seja, distribuindo um sem número de jogos de camisas para os times de várzea do lugar com a inscrição: “O PAPA vem aí”.  

O juiz do lugarejo, em razão disso, concede um mandado de apreensão e as camisas são recolhidas.

Os adversários já cantavam vitória por terem inibido a fraude, quando, no domingo seguinte, todos os times entram em campo com o novo uniforme patrocinado pelo mega cartola. Dessa vez trazendo estampado nas camisas a propaganda de um inusitado “produto”, desenvolvido às pressas pela sua empresa e que em breve chegaria ao mercado:

“Vem aí o SUMO PONTÍFICE!”.