Otavio Leite

JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

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Argentina 2 x 1 Inglaterra - 1986

Protagonistas: Diego Maradona, Jorge Valdano, Peter Shilton e Gary Lineker

Deus é argentino e seu principal profeta ainda está entre nós.

Tem 1,65m e, em um de seus decantados milagres, foi capaz de se erguer do chão e superar um gigante.

No outro, realizado no mesmo dia, atravessou uma horda de guerreiros britânicos antes de subjugar todos os seus adversários.

E, sem qualquer modéstia, assumiu que era um mensageiro de Deus e que estava ali para fazer justiça contra seus rivais e levar a felicidade a seu povo sofrido.

Seu nome?

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Diego Armando Maradona, conhecido mundialmente como "El Pibe" ou "El Diez". O Messias do futebol argentino.

Aos 25 anos, no dia 22 de junho de 1986, na quente e abafada Cidade do México, ele se elevou à condição de divindade.

Um santo para os argentinos.

Os milagres aconteceram quando Argentina e Inglaterra jogavam pelas quartas de final daquele Mundial.

Nunca é apenas um jogo.

Envolve a rivalidade histórica dentro de campo, iniciada 20 anos antes, no Mundial de 1966, na Inglaterra, quando os anfitriões, com ajuda do apito amigo, eliminaram um fortíssimo time argentino nesta mesma fase de quartas de final.

Desta vez, havia ainda um componente estranho ao esporte:

A lembrança dos 649 argentinos mortos quatro anos antes, na Guerra das Malvinas, pelas mãos dos ingleses.

Eu disse mãos?

Sim, com as mãos, Peter Shilton desviou a cobrança de falta de Maradona, que resvalou na barreira e tinha endereço certo.

E do outro lado, quando quis trocar as mãos pelos pés, Nery Pumpido escorregou e deixou o gol aberto para Peter Beardsley.

Mas o chute, com pouco ângulo, ficou na rede pelo lado de fora.

E foi só isso que o forte calor permitiu aos dois times no primeiro tempo.

Após o intervalo, logo aos 6 minutos, Steve Hodge tentou interromper a tabela entre Maradona e Valdano.

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A bola alta foi em direção ao gol de Shilton. Um lance fácil para um goleiro de 1,83m, mãos imensas e muita experiência.

Maradona, 18 centímetros mais baixo, pulou junto e surpreendentemente desviou de canhota para o fundo da rede.

Mas não com seu famoso pé esquerdo. Ele usou a mão.

O estádio inteiro viu, assim como quem assistia pela TV.

Um lance escandaloso. Fácil para a arbitragem. Mas não para o juiz Ali Ben Naceur, da Tunísia, e seus auxiliares.

Como todo o trio de arbitragem pôde ficar cego diante de algo tão evidente?

Milagre, dizem os argentinos.

"Foi a mão de Deus", afirmou Maradona, transformando em blasfêmia qualquer tentativa de se questionar a validade de um lance tão descaradamente irregular.

Já o milagre seguinte.... nem o mais cético seria capaz de negar sua existência.

Movido pelo que parecia ser uma força divina, o camisa 10 recebeu a bola ainda no seu campo de defesa.

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Atordoados pelo gol de mão, quatro minutos antes, Beardsley e Peter Reid foram facilmente driblados.

Já no campo de ataque, Dieguito passa por Butcher e aumenta a velocidade. Os 115 mil espectadores do Estádio Azteca já estão de pé acompanhando a arrancada.

Um último drible em Fenwick e agora Maradona está na área, diante do apavorado Shilton.

Já não há mais nada que o goleiro possa fazer. Diego deixa-o no chão com mais uma finta e consegue escapar do carrinho de Butcher antes de bater para o gol vazio.

Golaço. O Gol do Século. O maior de todos os tempos e de todas as Copas.

O lance esgota os adjetivos. O que mais poderia vir depois disso?

Se Maradona é o profeta do gol, seu principal adversário no Azteca é um operário do gol.

Gary Lineker nunca buscou o gol como forma de arte ou passaporte para a eternidade.

Era um burocrata eficiente. Um personagem de Charles Dickens. Carimbador de bolas que cruzavam a área em busca de quem as conduzisse ao fundo da rede.

Fez isso aos 33 minutos, quando o escorregadio John Barnes driblou Enrique e Cuciuffo, foi no fundo e cruzou na cabeça do artilheiro da Copa.

A Inglaterra voltava ao jogo.

E quase empatou a três minutos do fim quando Barnes repetiu os movimentos e cruzou para Lineker.

O milagre desta vez foi de Olarticoechea, que mergulhou e cortou de cabeça quando o artilheiro inglês se preparava para marcar.

Fim de jogo, vitória argentina por 2 a 1 e vaga garantida na semifinal contra a Bélgica - também destroçada pelo dom divino de Maradona.

A devoção de seu povo o levou do pódio para o altar. Hoje, quem vai a Rosário, a 280 quilômetros da capital Buenos Aires, pode atestar a fé de um país agradecido ao seu Deus do Futebol.

Lá, existe a Igreja Maradoniana, fundada no dia 30 de outubro de 1998 - mesma data de nascimento do ídolo.

O verdadeiro Dia de Natal para os devotos do camisa 10. Tratados por eles como D10S.

Ficha do Jogo

Argentina 2 x 1 Inglaterra

Estádio Azteca - Cidade do México - 22/6/1986

Público: 115.000

Árbitro: Ben Naceur (TUN)

Gols: Maradona (51 e 56), Lineker (81)

ARGENTINA: Pumpido, Cuciuffo, Brown, Ruggeri e Olarticoechea, Batista, Giusti, Enrique e Burruchaga (Tapia), Valdano e Maradona (c). TEC: Carlos Billardo

INGLATERRA: Shilton (c), Gary Stevens, Butcher, Fenwick e Sansom, Hoddle, Steven (Barnes), Reid (Waddle) e Hodge, Lineker e Beardsley. TEC: Boby Robson

CA: Batista, Fenwick e Butcher

JOGOS HISTÓRICOS

por Otavio Leite

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Itália 4 x 3 Alemanha Ocidental

Protagonistas: Sepp Maier, Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Uwe Seeler, Gianni Rivera, Gigi Riva e Roberto Bonisegna.

Com apenas um gol nos três primeiros jogos da Copa de 1970, no México, a Itália parecia mais Itália do que nunca. Campeã pela última vez em 1938, em casa, e sob o punho de ferro de Benito Mussolini, a Squadra Azzurra vinha colecionando fracassos. Não foi à Copa de 1958 e teve participações pífias em 1950, 1954, 1962 e 1966. Nesta última, com o requinte de sair na primeira fase após derrota vexatória para a Coreia do Norte.

Mas já na abertura do mata-mata, contra os donos da casa, goleada surpreendente por 4 x 1. Agora, na semifinal, o buraco é mais embaixo. Pela frente, a Alemanha Ocidental dos superlativos Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Uwe Seeler, Sepp Maier e Wolfgang Overath.

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E os alemães chegam embalados após eliminar a Inglaterra por 3 x 2, de virada e na prorrogação, na revanche da final de quatro anos antes, em Londres. Às 16h do dia 17 de junho e diante de 102 mil pessoas, os capitães Seeler e Facchetti puxam a fila de seus times para entrar no gramado do Estádio Azteca, abafados pelo sol escaldante e pela altitude de 2.250 metros da Cidade do México.

Na escalação italiana, a polêmica que se arrasta ao longo de toda a Copa: Gianni Rivera, o “Bambino d’Oro” do Milan novamente esquenta o banco para seu grande rival, Sandro Mazzola, ídolo máximo da Inter de Milão.

Na partida anterior, Rivera entrou no intervalo no lugar de Mazzola e comandou a goleada contra o México. Por que então não tentar juntá-los contra a poderosa Alemanha?

O técnico Ferruccio Valcareggi diz não e prefere adotar um sistema mais cauteloso a juntar os dois queridinhos das torcidas milanesas.

Vamos passar rapidamente pelos 90 minutos iniciais. Com um gol em cada extremo do jogo (Roberto Bonisegna, aos 8 minutos, e Karl-Heinz Schnellinger, aos 90), a partida é equilibrada e bem disputada.

Mas são os 30 minutos seguintes de prorrogação que transformam este Itália x Alemanha Ocidental no mais celebrado jogo na história das Copas do Mundo.

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De tipoia e braço direito imobilizado após cair e deslocar a clavícula, Franz Beckenbauer é a figura de um comandante ferido que não abandona sua tropa no campo de batalha.

Inspirador, ele vê Müller virar o jogo num erro grosseiro da defesa italiana. Logo aos quatro minutos, o interminável Seeler, aos 34 anos, ganha na cabeça de Cera e põe na área. Poletti apenas protege para a chegada de Albertosi, mas não percebe a presença traiçoeira do artilheiro da Copa, que tromba com o zagueiro e consegue empurrar para o gol.

Agora a vantagem é alemã. E a Itália lembra que precisa atacar. Quatro minutos depois, Rivera já está em campo. Ele bate falta na área e Sig Held, atacante, erra a rebatida. A bola sobra para Burgnich, zagueiro, empatar novamente.

Os alemães parecem esgotados. Já tinham jogado outra prorrogação contra a Inglaterra. No último minuto, Angelo Domenghini encontra Gigi Riva. O artilheiro domina e gira o corpo para escapar de Vogts e virar novamente o jogo com um chutaço de perna esquerda.

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O intervalo renova o fôlego alemão, que consegue o 3 x 3 logo aos cinco minutos. Albertosi manda para fora a forte cabeçada à queima-roupa de Seeler. Na cobrança, o veterano e calvo atacante de quatro Copas do Mundo escora para Müller marcar o seu 10º gol na competição. Desolado junto à trave, Rivera parece não acreditar na reação alemã.

Bola de Ouro da Europa na temporada anterior, o craque do Milan mostra todo o seu poder de decisão no minuto seguinte. Logo na saída, o passe longo encontra Domeghini na esquerda. Ele dribla Vogts e cruza rasteiro. Da marca do pênalti, de pé direito, Rivera desloca Maier e decide uma semifinal que parecia interminável.

Será que acabou mesmo?

Até hoje, quase 50 anos depois, este jogo é discutido, analisado e dissecado em livros, revistas, programas, reportagens, resenhas, documentários etc. Especialistas e apaixonados pelo futebol vêm organizando enquetes, listas, pesquisas, enfim, toda a sorte de debates, para apontar qual foi a mais emocionante e bem disputada partida de futebol na história dos Mundiais.

E a resposta é unânime: Itália 4 x 3 Alemanha Ocidental, a fantástica semifinal de 1970 no Estádio Azteca.

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Ficha do Jogo

Itália 4 x 3 Alemanha Ocidental

Estádio Azteca - Cidade do México - 17/6/1970

Público: 102.000

Árbitro: Yamasaki (MEX)

Gols: Boninsegna 8, Schnellinger 90, Müller 94, Burgnich 98, Riva 104, Müller 110, Rivera 111

ITÁLIA: Albertosi, Cera, Burgnich, Bertini e Facchetti (c), Rosato (Poletti), Mazzola (Rivera) e De Sisti, Domenghini, Boninsegna e Riva. TEC: Ferruccio Valcareggi

ALEMANHA OCIDENTAL: Maier, Vogts, Schnellinger,  Schulz e Patzke (Held), Beckenbauer, Overath e Seeler (c), Grabowski, Müller e Löhr (Libuda). TEC: Helmut Schön

CA: Domenghini, De Sisti, Rosato, Müller e Overath

JOGOS HISTÓRICOS

por Otavio Leite

Veja lances da partida

Brasil 2 x 0 União Soviética - 1958

Protagonistas: Pelé, Garrincha, Vavá, Didi, Lev Yashin e Igor Netto

Um adolescente infantilizado e um driblador irresponsável.

Dá para ganhar a Copa do Mundo apostando nessa dupla?

O técnico Vicente Feola é claro: a resposta é não.

Já os mais experientes do time, Didi, Nilton Santos e Bellini veem de maneira diferente.

É hora de ousar. De apostar no improvável, no inimaginável, naquilo que os europeus jamais conseguiriam prever e evitar.

É a hora de Pelé e Garrincha.

O adversário, a União Soviética, é a antítese de tudo isso.

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Disciplinados, fisicamente preparados como superatletas e com uma abordagem científica do jogo que promete anular qualquer traço de improviso.

Um embate de estilos.

No gol, o grande Lev Yashin, o Aranha Negra, imponente e gelado, sempre de preto. A figura já intimida.

Às 19h, no estádio Ullevi, em Gotemburgo, os soviéticos dão a saída. 

O capitão Igor Netto, com sua aparência de agente da KGB, recebe de Ivanov e rola para Kuznetzov. O lateral dá passe longo para Iliyn que tenta forçar a jogada pela esquerda. 

É o último momento de paz para a União Soviética.

De Sordi, sem qualquer trabalho, toma a bola e serve Zito - outro que entra no time para nunca mais sair. A bola vai a Didi, que lança Garrincha.

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Com uma balançada de corpo, Kuznetzov fica para trás e Mané já está na área. Prefere o chute sem ângulo em vez do cruzamento para Pelé e Vavá que fecham na área.

Mas, de Garrincha, nunca se espera o óbvio. A bola explode na trave e sai.

Os soviéticos se assustam.

No lance seguinte, Mané repete a jogada, mas serve Pelé. O Pequeno Príncipe solta a bomba. Trave outra vez.

Os soviéticos estão atônitos.

Ainda grogues pelos dois golpes, veem a bola chegar aos pés envenenados de Didi.

Cercado por Ivanov e Tsaryov e vigiado por Kesarev, o homem dos passes impossíveis faz com que a bola desfira uma trajetória embriagada que contraria qualquer lei física.

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O passe com o lado de fora do pé direito, de curva, põe a bola por trás de seus marcadores e à frente de Vavá, que penetra pelo meio da área.

O artilheiro vascaíno controla de canhota e solta a bomba de pé direito na saída de Yashin. Golaço.

Com apenas três minutos de jogo!

Os soviéticos agora estão apavorados.

Não há resposta científica aos dribles de Garrincha, às arrancadas de Pelé ou aos passes de Didi.

Kuznetzov já não está mais sozinho diante de Mané. Tsaryov e Krijevski correm para ajudá-lo cada vez que a bola chega ao Anjo das Pernas Tortas.

Os soviéticos buscam o empate com Ivanov, que recebe de Voinov na entrada da área e bate seco para a defesa segura de Gylmar.

Com a vantagem, Didi, Zito e Zagallo "escondem a bola" com trocas de passes, esperando os espaços para buscar o trio ofensivo.

O segundo tempo começa com a bola nos pés de Pelé. Toque curto para Vavá e o recuo até Orlando. Novo lançamento para Garrincha. Mais desespero para a zaga soviética.

O domínio é total, mas o segundo gol não sai.

Aos 12 minutos, Didi dá meia-lua em Ivanov e levanta para Pelé, que tabela de cabeça com Vavá. Após quatro toques sem deixar a bola cair, o Leão da Copa domina na pequena área mas é abafado por Yashin.

Outra vez Garrincha desmonta a zaga soviética pela direita. O cruzamento chega até Zagallo, que bate mascado para nova defesa de Yashin.

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Aos 32, De Sordi cobra falta para a área adversária. Pelé domina e busca a tabela com Vavá. A dupla envolve Tsaryov e Krijevski com toques rápidos e a bola fica dividida entre Vavá e Kesarev.

O brasileiro chega uma fração de segundo antes e desvia de Yashin para marcar o segundo gol.

Só não consegue se proteger da duríssima entrada de Kesarev, que crava as travas da chuteira na canela do atacante vascaíno.

Uma pancada tão forte que tira Vavá da partida seguinte, contra País de Gales.

O golaço não é apenas o ato final de jogo de Copa do Mundo. É o início de uma nova era no esporte.

A Era dos Supercraques.

Garrincha, Didi, Nilton Santos...

E do Rei do Futebol!

Antes de Pelé, ninguém no esporte jamais recebera um título de nobreza.

Aquela noite no dia 15 de junho de 1958 pôs o Brasil no mapa e mudou para sempre a história do futebol mundial. 

Ficha do Jogo

Brasil 2 x 0 União Soviética

Estádio Ullevi - Gotemburgo - 15/6/1958

Público: 51.000

Árbitro: Guigue (FRA)

Gols: Vavá (3 e 77)

BRASIL: Gylmar, De Sordi, Bellini (c), Orlando e N.Santos, Zito, Didi e Pelé, Garrincha, Vává e Zagalo. TEC: Vicente Feola

URSS: Yashin, Kesarev, Krijevski, Tsaryov e Kuznetsov, Voinov, A.Ivanov e V.Ivanov, Simonian, Netto (c) e Ilyin. TEC: Gavril Kachalin