Otávio Leite

JOGOS HISTÓRICOS

1982 – Copa da Espanha - Itália 3 x 2 Brasil

Protagonistas: Falcão, Zico, Sócrates, Cerezzo, Paolo Rossi, Dino Zoff, Bruno Conti e Antognoni.

por Otávio Leite

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A Copa do Mundo de 1982, na Espanha, é uma festa. Reúne uma constelação poucas vezes vista de craques. A Argentina apresenta o jovem estreante Diego Maradona e os veteranos campeões mundiais Kempes, Fillol, Ardiles e Passarella. A Alemanha Ocidental exibe Rummenigge, Paul Breitner e os debutantes Lottar Matthaus e Pierre Littbarski.

Semifinalista em 1978, a Itália mantém a base com Zoff, Antognoni e o indecifrável Paolo Rossi, afastado do futebol após se envolver num escândalo de manipulação de resultados. Mas perdeu seu craque Roberto Bettega antes da Copa. Sem o ídolo da Juventus, ninguém sabe o que esperar da Azzurra.

A França desfila sua elegância com Marius Tresor, Michel Platini, Alain Giresse, Dominique Rocheteau e Jean Tigana. A Polônia tem Lato e Boniek, os africanos Camarões e Argélia apresentam suas armas Roger Milla e Rabah Madjer, respectivamente, e vários outros craques estão espalhados nas demais seleções. Elias Figueroa (Chile), Teofilo Cubillas (Peru), Kenny Dalglish (Escócia), Oleg Blokhin e Rinat Dasaev (União Soviética), o goleiro Jean-Marie Pfaff (Bélgica), Hans Krankl (Áustria), Kevin Keegan e Bryan Robson (Inglaterra) e até o entediado Antonin Panenka, pela Tchecoslováquia, inventor do famoso pênalti “cavadinha”.

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Mas o mundo está extasiado é com o Brasil. O time do quarteto mágico Falcão, Cerezzo, Zico e Sócrates redescobre o futebol arte e atropela seus adversários com um estilo de jogo que parecia morto e sepultado. Visto pela última vez 12 anos antes, nos campos do México, na epopéia que levou à conquista da Jules Rimet.

Comandada pelo mineiro Telê Santana, um ex-jogador de reconhecida inteligência tática nos seus tempos de Fluminense, a equipe brasileira passou os últimos dois anos sendo testada contra as mais fortes equipes do Mundo. Somente contra a campeã europeia, a temida Alemanha Ocidental, foram três jogos, com três vitórias consagradoras.

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Ao todo, foram 36 jogos e apenas duas derrotas. A última no longíquo mês de janeiro de 1981, contra o Uruguai, por 2 a 1, na final do Mundialito, em Montevidéu. A invencibilidade de Telê e seus comandados já dura 24 jogos.

Na Copa, desde a emocionante estreia contra a União Soviética, 2 a 1 de virada, o Brasil vem colecionando grandes atuações. E mostrando evolução a cada jogo. Se as goleadas contra as frágeis Escócia e Nova Zelândia foram meramente protocolares, a lição de futebol contra os campeões mundiais argentinos dá ao Brasil o incontestável status de favorito absoluto à conquista do tetracampeonato mundial.

A euforia é incontrolável. As ruas estão pintadas com imagens dos jogadores, escudos e bandeiras do Brasil, enormes figuras do mascote Naranjito e do Pacheco, uma espécie de torcedor-símbolo da seleção brasileira.

O País inteiro está enfeitado. E otimista. Há muito tempo não se via uma identificação tão grande do torcedor com a sua seleção na Copa do Mundo.

Esse traiçoeiro espírito triunfante entra em campo juntamente com o Brasil nesta tarde ensolarada e abafada em Barcelona para o confronto contra a debilitada Itália que definirá um dos semifinalistas da Copa do Mundo. Ao Brasil, basta o empate, por causa do melhor saldo de gols. Bateu a Argentina por 3 a 1, enquanto a Azzurra venceu por 2 a 1.

A boa vitória contra a Argentina não é suficiente para animar o mais otimista torcedor italiano. A primeira fase horrorosa, com três empates e apenas dois gols marcados deixam uma impressão muito ruim. E um ambiente tumultuado. Jornalistas e jogadores estão em declarado clima de guerra. Há acusações e ofensas pessoais. As coletivas são quase lutas corporais entre os dois lados.

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O Brasil dá a saída no acanhado Estádio Sarriá. A disposição das equipes em campo deixa logo claras as intenções dos treinadores Telê Santana e Enzo Bearzot. Mesmo com a vantagem do empate, o Brasil não abre mão de seu posicionamento ofensivo, com os laterais Leandro e Júnior jogando quase como armadores, sempre no campo adversário.

E a Itália, que precisa de gols, mostra-se cautelosa. Bruno Conti e Graziani recuam para marcar Leandro e Júnior, enquanto Gentile vira a sombra de Zico por todo o campo. Os meias de destruição Tardelli e Oriali recebem ajuda extra do craque Antognoni para tentar anular a movimentação constantes dos armadores brasileiros.

A Itália ataca primeiro. Cabrini estica para Tardelli, que cruza para Paolo Rossi. Já na área, o atacante fura diante do gol. Nada parece ter mudado. É o mesmo Paolo Rossi da primeira fase. Um fantasma em campo. Uma caricatura do atacante dinâmico e goleador de quatro anos antes, no Mundial da Argentina.

Mas, subitamente, tudo muda. Aos 8 minutos, Bruno Conti recebe na intermediária, pela direita, passa por Cerezzo, dá um drible em Éder e vira o jogo de trivela para a subida de Cabrini no lado esquerdo. O lateral domina e avança por um corredor sem ser importunado por Leandro, que apenas observa o cruzamento, sem fazer nada para impedir a jogada.

O passe é preciso e encontra Paolo Rossi quase na pequena área, observado a muita distância por um displicente Luizinho. Sem precisar sair do chão, o Bambino d’Oro apenas escora de cabeça e abre o placar para a Itália. A Azzurra, sem fazer força e contando com os erros do Brasil, abre o placar em Barcelona. E quase faz o segundo no ataque seguinte. Mas o chute de Graziani vai alto demais e sai.

O impacto acorda o Brasil. Serginho e Zico trombam e a bola acaba sobrando limpa para o centroavante brasileiro. Livre, diante de Zoff, ele dá um chute horroroso, de pé direito, e manda pra fora a primeira grande chance brasileira.

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Em quatro minutos, Sócrates restabelece o que parece ser a ordem natural das coisas. Leandro bate o lateral no campo de defesa brasileiro para o Doutor. O ídolo do Corinthians, com suas passadas largas, cruza o meio de campo e dá a Zico, que tem Gentile no seu cangote. Num movimento de craque, o Galinho gira o corpo, livra-se do seu carrasco e dá uma enfiada brilhante para Sócrates, que invade a área entre Scirea e Oriali. O Doutor domina e levanta a cabeça indicando que vai fazer o cruzamento. Quando Zoff tenta se antecipar ao centro, o camisa 8 faz uma jogada de gênio e bate rasteiro entre o veterano goleiro e a trave. Golaço. Tudo igual no Sarriá.

Mas aos 25 minutos do primeiro tempo, o céu volta a cair na cabeça dos brasileiros. Valdir Perez sai jogando com Leandro, que domina no peito com classe e toca para Cerezzo. Displicente e absolutamente confiante no posicionamento mais do que decorado de seus companheiros, ele atravessa uma bola perigosa entre Falcão, Luisinho e Júnior. Nenhum deles vai na bola. Pior: Paolo Rossi percebe a oportunidade, se antecipa, rouba a bola e toca forte na saída de Valdir Perez. Gol da Itália. Novamente um erro brasileiro dá a vantagem aos rivais.

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Em desvantagem, o Brasil é forçado a atacar. Começa uma blitz interminável na entrada da área italiana. Já com cartão amarelo, Gentile não economiza recursos ilícitos para conter Zico. Numa inversão da jogada do gol brasileiro, Sócrates vê a penetração do Galinho na área e toca. A camisa 10 fica nas mãos do implacável marcador italiano. E mesmo rasgado, o brasileiro ainda consegue finalizar para a boa defesa de Zoff. Pênalti claro ignorado pelo árbitro israelense Abrahan Klein, que ainda passa pelo constrangimento de ver Zico exibir a camisa em trapos para provar a irregularidade do lance. Foi o último ato do primeiro tempo.

O segundo tempo começa com um massacre brasileiro em busca do gol de empate.

Falcão tem a primeira chance, com um chute cruzado pela direita que tira tinta da trave. Depois, é Cerezzo que recebe de Sócrates, por trás da zaga italiana. Mas Zoff sai bem e consegue abafar o toque do craque mineiro.  A melhor chance é de Serginho. Júnior dá uma cavadinha para a área e encontra a cabeça de Cerezzo. O camisa 5 escora para Serginho, que perde no alto para Collovati, mas fica com a bola. Ao tentar fazer o mais difícil, um toque de calcanhar na pequena área, se atrapalha e permite a chegada de Zoff, que tira a bola de perto do seu gol.

Conti perde uma boa chance em jogada individual pela esquerda, mas o gol brasileiro está maduro. Falcão tenta a primeira, de pé direito. O chute é forte, mas pega Zoff bem colocado no meio do gol. A defesa é segura. Mas nem mesmo o veterano italiano é capaz de impedir o gol de empate, aos 23 minutos do segundo tempo.

Júnior avança pela esquerda e quebra para o meio. Estica um bonito passe de trivela para Falcão, do outro lado do campo, na entrada da área. Ele domina e corta para a esquerda. Quando Cerezzo corre para a direita, Tardeli, Cabrini e Scirea acreditam que o Rei de Roma fará o passe e seguem o camisa 8 brasileiro. Em vez disso, Falcão vê o corredor a sua frente e solta a bomba de canhota, no ângulo, sem chance para Dino Zoff. A explosão de euforia no rosto do craque brasileiro é uma das grandes imagens da Copa.

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O Brasil domina o jogo e tema classificação garantida com o empate. Quem acredita na força da Itália? Paulo Isidoro entra no lugar de Serginho e ainda perde uma chance, outra vez negada por Zoff. Faltam pouco mais de 15 minutos para o fim do jogo. É hora de tocar a bola e esperar o desespero dos italianos.

Graziani faz grande jogada pela esquerda, se livra de Leandro e toca para Paolo Rossi desmarcado na área. Diante apenas de Valdir Perez, o carrasco erra a finalização e perde a chance de retomar a vantagem no placar. O Brasil segue cometendo erros. Cerezzo concede um córner infantil quando tinha a bola dominada. Bruno Conti bate de perna esquerda, alto, e Sócrates rebate. A bola fica viva na entrada da área e cai no pé esquerdo de Tardelli, que dá um chute fraco e torto em direção ao gol. A defesa brasileira se adianta para deixar o ataque italiano impedido. Mas Júnior não sai e dá condição de jogo a Rossi e Graziani. De primeira, de pé direito, Rossi dá um chute à queima roupa, indefensável para o hesitante Valdir Perez. Outro erro brasileiro, o terceiro gol da Itália. O terceiro de Paolo Rossi. Invisível nos primeiro jogos, ele renasce para o mundo em grande estilo.

O desespero agora volta ao lado brasileiro. Além da Itália, o relógio é inimigo. Aberta e desorganizada, a equipe de Telê permite perigosos contra-ataques da Azzurra. A três minutos do fim, Rossi recebe pela direita e dá atrás a Oriali. O meia encontra Antognoni live, na área, que toca para marcar o quarto gol. Felizmente para os brasileiros, o auxiliar erra de forma grosseira e assinala impedimento inexistente do craque italiano.

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No último suspiro, Éder bate falta pela esquerda. O cruzamento é preciso e encontra a cabeça de Oscar. O zagueiro dá praticamente um tiro de canhão, no canto baixo, certamente indefensável. Mas não para Zoff. Não neste dia mágico. Mostrando uma agilidade notável para um homem de 40 anos, ele mergulha e faz a defesa milagrosa da partida. A bola para em cima da linha. Zico e Sócrates erguem os braços. Pedem gol. Mas a bola está nas mãos do gigante italiano.

É o fim para a mais celebrada seleção brasileira desde a conquista do tricampeonato mundial no México, 12 anos antes. A derrota revela um time de ataque sedutor, mas de defesa hesitante e pouco combativa. As vitórias camuflaram diversos defeitos, como a fases ruins de Serginho e Luisinho, a insegurança de Valdir Perez e a vulnerabilidade defensiva pelos lados do campo.

Do outro lado, a Itália já não parece tão ruim quanto antes. Zoff é um dos melhores goleiros do mundo. A duríssima zaga tem o implacável Gentile, o rebatedor Collovati e os talentosos Scirea e Cabrini, uma dupla capaz de ser titular em qualquer seleção da Copa. O completo Tardelli e o brilhante Antognoni dominam o meio de campo, auxiliados pelo batalhador Oriali e o pelo habilidoso Bruno Conti. Na frente, o renascido Paolo Rossi e o esforçado Graziani. Um time entrosado e equilibrado, que faz a partida de sua vida neste 5 de julho em Barcelona.

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É uma derrota difícil de engolir. Até hoje, o legado desta seleção é celebrado em todo o mundo. Será que realmente valia a pena abrir mão de atacar com talento e criatividade em nome de reforçar a marcação e fechar os espaços? Abdicar de suas convicções e do DNA ofensivo do futebol brasileiro em troca da glória conquistada com pragmatismo e prudência?

São perguntas que ficam para a eternidade. Assim como os gols de Zico, o calcanhar de Sócrates, a elegância de Falcão, a mobilidade de Cerezzo e o ritmo do maestro Júnior. Imagens mágicas de um futebol de sonhos. O futebol que o Brasil jogou em 1982, na Copa do Mundo da Espanha.

Ficha do Jogo

Itália 3 x 2 Brasil

Estádio: Sarriá - Barcelona - 5/7/1982

Público: 44.000

Árbitro: Abrahan Klein (ISR)

BRA: Valdir Perez, Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (Paulo Isidoro) e Éder. TEC: Telê Santana

ITA: Zoff, Gentile, Scirea, Collovati (Bergomi) e Cabrini; Tardelli, Oriali, Antognoni e Conti; Rossi e Graziani. TEC: Enzo Bearzot

Gols: Rossi (8, 25 e 74), Socrates (12) e Falcão (68)

CA: Gentili e Oriali

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1954 - Hungria 4 x 2 Brasil

Protagonistas: Didi, Julinho, Castilho, Hidekguti, Kocsis e Czibor

por Otávio Leite

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Transmitida ao vivo pela TV para os principais centros urbanos da Europa, a Copa do Mundo de 1954, na Suíça, mostra, pela primeira vez a milhões de torcedores, o talento sobrenatural dos craques húngaros, a coragem dos bicampeões uruguaios na defesa do título, a superação dos alemães e a irresponsável anarquia dos jogadores brasileiros.

Absurdamente talentosos, mas igualmente indisciplinados e frágeis emocionalmente.

O trauma de 1950 ainda está bem vivo e assusta. A ordem é esquecer e superar à tragédia do Maracanã. No elenco que está na Suíça, apenas Bauer e Baltazar estiveram em campo quatro anos antes com a camisa branca.

Sim! Até isso mudou: a cor agora é amarela, escolhida num concurso que mobilizou o Brasil.

Mas as ausências de Zizinho, Danilo, Ademir e Jair não fazem do Brasil um time frágil e inferior tecnicamente. A geração que está na Suíça é uma das mais talentosas do Mundial, rivalizando com a Hungria de Puskas e Kocsis e o Uruguai de Schiaffino, Ghiggia e Obdulio Varela.

No gol está o fantástico Carlos Castilho, ídolo do Fluminese e reserva de Barbosa em 1950. As laterais são ocupadas por dois jovens de talento excepcional, dois Santos: Nílton e Djalma. O xerifão Pinheiro é o pilar da defesa. À frente da zaga, brilha a força do veterano Bauer e o gênio sobrenatural do príncipe Didi. Baltazar é um goleador esforçado e ótimo cabeceador, mas tem ao seu lado o incomparável Júlio Botelho, o Julinho, criado no Juventus e consagrado na Portuguesa.

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O ponta é justamente o grande destaque brasileiro nas duas primeiras partidas da Copa, a goleada de 5 a 0 sobre o México e o empate em 1 a 1 com a Iugoslávia.

A confusa comissão técnica chorou o empate, sem saber que o resultado classificava o Brasil para as quartas de final. Jogadores tensos, arrasados por acreditarem na eliminação, se veem agora diante do maior desafio da Copa: ter de encarar a poderosa Hungria no mata-mata.

Campeã olímpica em 1952 e dona de uma invencibilidade que já dura quatro anos, a Hungria ostenta um recorde de 23 vitórias e quatro empates até o início da Copa do Mundo. Até a partida contra o Brasil, são dois jogos, com duas impressionantes goleadas: 9 a 0 na Coreia do Norte e 8 a 3 sobre a Alemanha Ocidental.

No entanto, a fácil vitória sobre os violentos alemães abre uma cicatriz profunda no time húngaro. O capitão, ídolo e craque Ferenc Puskas deixa o campo machucado, vitimado pelas botinadas alemães. Sem o seu camisa 10, será que a Hungria conseguirá manter seu poderio ofensivo contra os fortes brasileiros?

A Hungria não é apenas o gênio de Puskas. O goleiro Grosics é reconhecido com um dos melhores do mundo, assim como os atacantes Sandor Kocsis e Nandor Hidegkuti, e o armador Josef Bozsik, uma espécie de estrategista dentro de campo. Taticamente, é um time perfeito.

O Brasil de Zezé Moreira tenta se modernizar. Já não usa mais o velho sistema britânico WM com cinco homens na frente apenas voltados ao ataque. E os laterais deixaram de ser meros marcadores de ponta para se tornarem peças ofensivas na construção das jogadas.

O público diante da TV e os quase 40 mil torcedores no modesto Wankdorfstadion, na pacata cidade suíça de Berna, com pouco mais de 100 mil habitantes, prepara-se para assistir aquele que promete ser um fantástico duelo de estilos e escolas. O primeiro grande jogo deste Mundial.

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O Brasil surpreende e tem a primeira chance. Depois de receber de Didi, Julinho inicia uma arrancada irresistível. Deixa pelo caminho quatro defensores rivais, até que a bola chega a Humberto Tozzi na entrada da área. O chute é forte, mas no meio do gol. Fácil para o ótimo Grosics.

Uma das principais características deste time húngaro é decidir o jogo logo nos primeiros minutos. Fizeram isso contra a Coreia e contra a Alemanha Ocidental. E não é diferente contra o Brasil.

Aos 4 minutos, Hidegkuti chuta forte já dentro da grande área, a bola bate em Nílton Santos e volta para Pinheiro. O zagueiro se enrola ao tentar sair jogando e perde a bola para Hidegkuti que chuta novamente, à queima-roupa. Castilho faz uma defesa excepcional, mas a bola continua viva na área brasileira e vai até Kocsis. Corajoso, Castilho se joga aos pés do artilheiro e evita o gol, mas Hidegkuti pega o rebote e enfim marca o primeiro gol.

O jogo fica ainda mais tenso. Numa disputa de bola no meio de campo, Didi chega a rasgar o calção de Joszef Toth, que segue jogando, mesmo com o uniforme esfarrapado.

Com o campo encharcado pela tempestade da manhã, a Hungria quase aumenta após a cobrança de escanteio. Castilho sai e dá um tapa na bola, que cai nos pés de Hidegkuti. O atacante bate para o gol, mas Djalma Santos salva em cima da linha.

Três minutos após o primeiro gol, a Hungria aumenta numa de suas jogadas características. Hidegkutidá dá um balão para a área em busca de Kocsis. O artilheiro entra no vão entre Pinheiro e Djalma Santos e cabeceia sozinho, no contrapé do grande Castilho. A defesa brasileira pede impedimento. Começa a bronca contra o árbitro britânico Arthur Ellis.

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O jogo é de altíssimo nível. Numa repetição do segundo gol, Bozsik põe a bola na cabeça de Kocsis. Desta vez, Castilho está atento. O Brasil responde com Julinho. Ele sai enfileirando a defesa até que é interceptado. A bola volta para Djalma que põe na área. Índio briga com a zaga e consegue finalizar com perigo. Grosics defende. Depois, Didi e Toth tentam de fora da área, mas não levam perigo.

O Brasil enfim diminui. Índio invade a área pela direita e é atropelado por Buzanszky. Pênalti, marca o árbitro inglês. Djalma Santos bate forte, a direita de Grosics, aos 18 minutos do primeiro tempo.

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Antes do intervalo, Pinheiro ainda salva em cima da linha após o Kocsis desviar levemente de cabeça o cruzamento de Toth e enganar Castilho. Em outra grande jogada, Julinho encara a marcação de Zakarias e toca para Didi. A defesa salva, mas a bola volta para Julinho, que em vez de cruzar, emenda um tiraço de trivela da direita. A bola vai baixa, rente a trave, obrigando Grosics a fazer grande defesa.

No último lance, Joszef Toth disputa a bola com Didi, mas sente uma fisgada na coxa esquerda. A partir daí, segue em campo fazendo fuguração na ponta direita. O Brasil agora tem a vantagem de um homem a mais, apesar de ainda estar atrás no placar.

É um primeiro tempo sublime, com jogadas de extrema classe de alguns dos mais talentosos jogadores do futebol do Planeta.

O segundo tempo começa equlibrado, porém, com um ingrediente que ainda não tinha sido notado no primeiro: a violência. Especialmente por parte dos instáveis jogadores brasileiros. Antes da partida, no vestiário, os craques de camisa amarela tiveram de ouvir inflamados discursos de cartolas sobre honra, patriotismo e até combate ao comunismo. Um ambiente inflamado, pronto para explodir ao menor sinal de tensão com os craques húngaros.

Djalma e Pinheiro são os mais brutos. E Nílton Santos o mais instável. Com a bola no pé, Índio tenta de canhota, de fora da área, mas Grosics agarra sem susto. Do outro lado, Castilho pega no meio do gol a bomba de Kocsis.

Aos 15 minutos, o lance que provoca o desequilíbrio no time brasileiro. Acossado por Kocsis, Pinheiro escorrega e põe a mão na bola. Arthur Ellis, muito próximo à jogada, não hesita e marca pênalti, diante dos atônitos brasileiros. Lantos bate forte, no ângulo. Castilho se estica todo, mas não consegue evitar o terceiro gol húngaro.

A partir daí, o jogo descamba de vez para a violência. Em vez do embate técnico entre sul-americanos e europeus, o que a TV mostra é uma verdadeira batalha campal. A primeira em um jogo de Copa do Mundo. A primeira vez que craques deixam a bola de lado e resolvem partir para a briga.

Começa “A Batalha de Berna”.

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Num lance de meio de campo, Índio entra forte e derruba Hidkguti. Na sequência, Djalma Santos sofre falta duríssima de Mihaly Toth e precisa de atendimento médico. A confusão se instala quando fotógrafos brasileiros correm para registrar o lateral brasileiro. Temendo a invasão de campo, policiais suíços cercam e tentam afastar os jornalistas. Surge então um empurra-empurra que envolve até comissão técnica e o banco brasileiro.

Quando o jogo recomeça, os ânimos estão ainda mais exaltados. Um dos poucos com a cabeça no lugar, Julinho recebe de Didi, corta dois adversários e, da entrada da área, acerta um chute maravilhoso de trivela, de pé direito, no ângulo oposto de Grosics. Indefensável, golaço. O Brasil ainda sonha com a classificação.

Os lances duros seguem. Na dividida, Didi e Hidegkuti deixam as solas e as travas. Os craques começam a trocar a bola pelos pontapés. Czibor derruba índio e depois pisa no atacante brasileiro. Longe da bola e dos olhares do árbitro, Índio se vinga e acerta o húngaro com uma forte cotovelada que o leva a nocaute.

Aos 25 minutos, dos dois maiores craques de seu tempo, Nílton Santos e Bozsik partem para briga. Arthur Ellis manda a dupla para o chuveiro mais cedo.

Com um jogador a mais por causa do machucado Joszef Toth, o Brasil segue pressionando em busca do empate. E quase chega ao gol com Humberto, que se livra de Lantos e chuta forte na trave. A Hungria escapa por pouco.

Mas a melhor oportunidade brasileira surge da combinação de seus dois melhores jogadores. Julinho, mais uma vez, encara os defensores húngaros e descobre Índio chegando, de frente para o gol. A zaga corta e a bola se oferece para Didi. De fora da área, o craque do Fluminense acerta um chutaço indefensável. Caprichosamente, a bola bate no travessão e sai.

O time brasileiro desmorona a dez minutos do fim, com a expulsão de Humberto Tozzi após uma tesoura em Kocsis. Os brasileiros reclamam muito. Novamente em igualdade numérica de jogadores, a Hungria volta a controlar o jogo. E a dois minutos do fim, Czibor avança pelo espaço deixado após a expulsão de Nílton Santos e cruza na medida para Kocsis marcar o quarto gol da Hungria e acabar de vez com as ilusões brasileiras.

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O apito final é a senha para o início da festa húngara e também para o começo da pancadaria. Enquanto os jogadores húngaros celebram com a torcida, jornalistas brasileiros, jogadores e comissão técnica envolvem-se numa curiosa briga com policiais suíços que tentaram evitar que o árbitro Arthur Ellis fosse agredido.

Na entrada dos vestiários, uma garrafa é atirada e abre a testa de Pinheiro. Na confusão, acusam Puskas de ter jogado o objeto em direção aos jogadores brasileiros. Fora do jogo, o craque húngaro tinha descido ao campo para festejar e acabou envolvido na briga.

Voam cadeiras e mais garrafas. Socos, tapas, pernadas, empurrões e agressões de todos os tipos nos acessos ao túnel. Zezé Moreira, armado com as chuteiras de Didi, invade o vestiário rival e acerta a cabeça do técnico e também ministro dos Esportes húngaro, Gustav Sebes.

A Hungria vence o jogo e vai à semifinal contra o Uruguai. O Brasil, eliminado, ainda precisa amadurecer muito para pensar em voltar a lutar pelo título. Mas o trauma de 50 e as lições da Batalha de Berna ajudam a formar a mentalidade vencedora que levará o Brasil à conquista do Mundial quatro anos depois, na Suécia.

Ficha do Jogo

Hungria 4 x 2 Brasil

Estádio: Wankdorfstadion - Berna - 27/6/1954

Público: 39.882

Árbitro: Arthur Ellis (ING)

HUN: Grosics; Buzánszky, Lantos, Lóránt e Zakárias; Bozsik (c) e M.Tóth; Kocsis, Hidegkuti, Czibor, J.Tóth. TEC: Gustav Sebes

BRA: Castilho, Djalma Santos, Pinheiro e Nílton Santos; Brandãozinho, Bauer e Didi; Julinho, Humberto Tozzi, Índio e Maurinho. TEC: Zezé Moreira

Gols: Hidegkuti (4), Kocsis (7), D.Santos (18), Lantos (53), Julinho (65) e Kocsis (88)

CV: Bozsik, N.Santos e Humberto

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1970 - Brasil 1 x 0 Inglaterra

Protagonistas: Pelé, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, Paulo César, Gordon Banks, Bobby Moore, Bobby Charlton e Francis Lee

por Otávio Leite 

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O maior jogo de futebol de todos os tempos?

Sempre que listas deste tipo são feitas por sites e revistas especializadas, a partida do dia 7 de junho em Guadalajara aparece em primeiro lugar ou nas primeiras posições.

Brasil x Inglaterra, o mais esperado duelo do Mundial desde que foram sorteados os grupos para a Copa do Mundo de 1970, no México.

É o confronto entre os dois últimos campeões do mundo, vencedores das três Copas anteriores (Brasil 58 e 62 e Inglaterra 66).

Ou seja: um domínio de 12 anos.

É uma partida repleta de atrações. De um lado, o Rei Pelé e seus fiéis escudeiros Tostão, Jairzinho e Rivelino. O estrategista Gérson, com lesão muscular, está alijado da batalha. Seu lugar é ocupado pelo jovem e talentoso Paulo César Lima, ainda sem o penteado afro que lhe valeu o apelido de Caju.

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Na outra trincheira, os campeões do mundo são capitaneados por Sir Bobby Moore. Ele comanda uma tropa de nobres de sangue azul, com destaque para o cavaleiros Bobby Charlton, Gordon Banks e Geoff Hurst. Todos campeões do mundo quatro anos antes no gramado sagrado de Wembley, diante de sua rainha.

Mas agora é no México, sob o sol escaldante e o ar rarefeito. Condições não muito próprias para europeus. Pra piorar, a rejeição da torcida mexicana aos campeões mundiais é de 100%.

Campeões também em antipatia e arrogância. Reclamam da comida, do calor, das acomodações, das condições de treino e do comportamento da torcida. E, como suprema ofensa, levaram galões de água mineral da Inglaterra para o México, desconfiados da qualidade e da limpeza do líquido oferecido aos craques britânicos.

É uma atmosfera sufocante que recebe os ingleses nesta tarde no estádio Jalisco, pela segunda rodada do Grupo 3. Ambas as equipes venceram na estreia. A Inglaterra com um magro 1 a 0 sobre a Romênia, e o Brasil com uma impressionante goleada sobre a Tchecoslováquia, de virada, por 4 a 1.

Ao meio-dia, na hora local de Guadalajara, o israelense Abrahan Klein apita para o início do jogo, diante de 66.843 torcedores.

O que vem a seguir é uma das maiores exibições de futebol de todos os tempos, honrando vencedores e vencidos como protagonistas de um momento único na história do esporte mais popular do Planeta.

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Os campeões do mundo tomam a iniciativa. Com um meio de campo bastante equilibrado, com o trabalhador Mullery e o talentoso Charlton, a Inglaterra controla o modificado setor brasileiro. Rivelino recua para a vaga de Gérson, abrindo passagem para Paulo César na esquerda.

Hurst faz o pivô para o forte chute de Martin Peters, da entrada da área, que para nas mãos seguras de Félix. A fragilidade física do goleiro brasileiro e sua decantada debilidade no jogo aéreo são pontos que certamente serão explorados pelos britânicos.

E quase sai o gol no lance seguinte. Ball vê Félix mal colocado e arrisca um centro alto, da direita. A bola passa totalmente fora do alcance do goleiro brasileiro e por pouco não entra no ânglo oposto. O Brasil tem sorte de escapar.

Mas o mesmo Félix, tão instável pelo alto, mostra arrojo e segurança para mergulhar nos pés de Charlton e evitar que a Inglaterra abra o placar. O Brasil demora a entrar no jogo e oferece muitos espaços aos campeões do mundo.

Mas, quando decide entrar de vez no jogo...

Lee tenta outra vez da direita. Bate forte e Félix pega a bola no centro do gol. O camisa 1 sai rápido com Carlos Alberto, que avança até a linha de meio de campo e faz um extraordinário lançamento de trivela para Jairzinho. O Furacão aposta corrida com Cooper, chega antes e vai no fundo.

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O cruzamento é perfeito e encontra Pelé bem posicionado, quase na marca do pênalti. Mesmo marcado por Labone, Sua Majestade sobe mais alto e acerta uma cabeçada que mais parece um tiro de canhão. Pro chão, como mandam os almanaques que ensinam a arte do bom cabeceio.

A torcida se levanta e prepara o grito de gol. Todos têm certeza de que a bola entrará.
Menos Gordon Banks.

O milagroso goleiro inglês faz um movimento antecipando a trajetória da bola, pula para trás, no chão, e consegue evitar o inevitável. Faz a defesa e bota a bola para escanteio. Um dos momentos mágicos do futebol em todos os tempos. Reverenciada como a maior defesa da história.

Aberto pela esquerda como um verdadeiro ponta, Paulo César entra driblando na área e vai ao fundo. O cruzamento rasteiro na marca do pênalti procura Jairzinho, mas um recuado Bobby Charlton se antecipa e evita a finalização.

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Sempre explorando as costas de Everaldo, o lateral Wright vai ao fundo e cruza pra trás. A bola encontra Lee sozinho, na entrada da pequena área. O peixinho é perfeito e a cabeçada sai forte, com endereço certo. É a vez de Félix fazer milagre. O goleiro brasileiro mergulha e faz a defesa em dois tempos. Na tentativa de pegar o rebote, Lee acerta o rosto do corajoso goleiro brasileiro com um chute que quase leva Félix a nocaute.

O tempo fecha na área brasileira. Lee tenta se desculpar com Félix, mas Rivelino e Carlos Alberto estão inconformados com a violência da jogada. No lance seguinte, o capitão brasileiro vai à forra e deixa a sola no atacante inglês após o drible em Clodoaldo. O árbitro Klein faz vista grossa e não dá o vermelho ao lateral da Seleção.

O ritmo cai um pouco antes do fim do primeiro tempo, Pelé, marcadíssimo por Mullery, pede pênalti após a disputa de bola com o volante inglês. E Bobby Charlton tenta da entrada da área com um chute forte que não chega a assustar Félix.

Lee abre os trabalhos no segundo tempo com um forte chute da meia-lua. Félix cata sem problemas. Na sequência, Paulo César mostra que já está mais à vontade. Balança na frente de Wright, dribla e bate certeiro, no canto, mas Banks faz ótima defesa e bota pra fora.

Rivelino dá o chapéu em Cooper e toca para Pelé, que faz lindo lançamento para um desmarcado Jair. Esperto e atento, Banks sai da área e evita o gol brasileiro. A resposta inglesa é quase sempre a mesma: Lee nas costas de Everaldo. O ponta dá a Ball que entrega a Charlton. O chute sobe um pouco e não leva perigo ao gol de Félix.

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É hora de mais um milagre de Banks. Rivelino recebe pela meia direita do ataque brasileiro, corta dois adversários com dribles rápidos e arma a canhota mortífera já na entrada da área. O tiro é forte, preciso e bem colocado. Mas o goleiro inglês mostra que porquê é tratado como o melhor do mundo e manda a bola para longe da sua baliza.

Com quase 15 minutos de jogo, Zagallo manda Roberto Miranda aquecer para entrar no lugar do apagado Tostão. A figura do centroavante alvinegro se exercitando na beira do campo desperta o Mineirinho de Ouro.

O camisa 9 recebe o passe de Paulo César pela esquerda do ataque brasileiro e decide partir pra cima da defesa britânica. Com o cotovelo ele evita a chegada de Ball, dá uma caneta em Moore e escapa do carrinho de Wright. Ameça ir para o fundo, mas volta e cruza de pé direito para o outro lado da área. A bola chega na medida para Pelé, que domina com a tranquilidade de um monge, apesar da floresta de pernas inglesas que o cercam. O Rei atrai Mullery, Labone e Cooper, que correm para abafar o chute do camisa 10, mas descuidam da marcação de Jairzinho.

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Um erro fatal. Sua Majestade já tinha o lance todo planificado em sua cabeça. Com um toque sutil, ele estica para o camisa 7. O Furacão domina e bate forte diante da saída arrojada de Banks. Finalmente o goleiro inglês está batido. O Brasil faz 1 a 0 contra os campeões do mundo.

A reação britânica é quase que imediata. Bola parada e chuveirinho na área. Hurst escora para Peters que cai na área e pede pênalti. A sobra chega a Charlton, que dá outro bom chute. A bola desvia em Brito e sai.

Foi o último lance do veterano craque inglês. Exausto, ele deixa o campo e dá lugar ao grandalhão Colin Bell, exímio cabeceador. Sai também o castigado Lee para a entrada de outro centroavante de área, Jeff Astle. A Inglaterra vai para o tudo ou nada. Félix que se prepare.
O Brasil quase aumenta pelo mesmo caminho utilizado para abrir o placar. Desta vez, quem bagunça a defesa britânica pela esquerda é Paulo César. Ele dá a Pelé que atrai os marcadores e abre para Jairzinho entrando pela direita. O chute, dessa vez, sobe e sai.

A Inglaterra começa o bombardeio aéreo e leva vantagem sempre. Félix tem de se virar sozinho contra os grandalhões Hurst, Bell e Astle. Quando o goleiro não sai, Everaldo tenta cortar e protagoniza um dos lances mais ridículos da Copa. Ao tentar bater de direita, fura. A bola bate em sua canela esquerda e sobra para Astle. Sozinho, na marca do pênalti e com Félix batido, ele consegue errar o gol. Inacreditável. A Inglaterra desperdiça sua melhor chance de empatar.

Bell e Cooper tentam de fora da área. Em outra grande chance, o mesmo Bell ganha no alto e escora para Ball, que acerta um poderoso chute no travessão. E a última oportunidade surge em novo chuveirinho. Félix sai atrapalhado e erra o soco. A bola cai para Ball que manda para o gol vazio. Mas a bola sobe demais e sai.

Aberta, a Inglaterra cede espaço para dois contra-ataques brasileiros. Clodoaldo atravessa o campo e toca para Roberto, que chuta rasteiro e forte, obrigando Banks a trabalhar. E no último lance, o Rei mostra sua genialidade. Recebe de Rivelino e, de fora da área, vê o goleiro inglês adiantado. O toque por cima é alto demais e a bola sai.

Não há tempo para mais nada. Klein apita o fim do jogo. Pelé e Bobby Moore trocam camisas. A imagem é clássica, como tantas que ficam deste jogo.

Um vencedor incontestável, com todo o mérito possível. Mas nunca um time derrotado foi tão festejado e exaltado.

Pode haver glória na derrota?

Este Brasil x Inglaterra prova que sim.
 
Ficha do Jogo
 
Brasil 1 x 0 Inglaterra
Estádio: El Jalisco - Guadalajara - 7/6/19770
Público: 66.843
Árbitro: Abrahan Klein (ISR)
BRA: Felix, Carlos Alberto (c), Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Rivelino e Paulo Cesar Lima; Jairzinho, Tostão (Roberto) e Pelé. TEC: Zagallo
ING: Banks, Wright, Labone, Moore (c) e Cooper; Mullery, Lee (Astle), Alan Ball e B.Charlton (Bell); Hurst e Peters. TEC: Alf Ramsey
Gol: Jairzinho (60)
CA: Lee

JOGOS HISTÓRICOS

Itália 2 x 1 Bulgária

Protagonistas: Roberto Baggio, Paolo Maldini, Demetrio Albertini, Hristo Stoichkov, Emil Kostadinov e Nasko Sirakov

por Otávio Leite

Falta pouco para o apito final no Parque dos Príncipes, em Paris. França e Bulgária empatam em 1 a 1 e o resultado classifica a forte seleção dos craques Pappin, Cantona, Deschamps e Ginola para o Mundial de 1994, no Estados Unidos.

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É a volta da França, ausente da Copa do Mundo de 1990, na Itália. Melhor do que ter de aturar a Bulgária, que já disputou cinco Copas e, até agora, não conseguiu uma vitória sequer. São 16 jogos, com seis empates e dez derrotas. Ou seja: ninguém mais quer saber dos historicamente retrancados e carrancudos búlgaros.

Mas os búlgaros são valentes. Perseguem a vitória improvável. Já arrancaram o empate e buscam a virada histórica. E o inesperado acontece já nos acréscimos: Emil Kostadinov, atacante pelo lado do campo, rápido e goleador, marca o gol que elimina a França e garante a viagem da surpreendente Bulgária para curtir o verão no ano seguinte nos Estados Unidos.

Quando a Copa começa, tudo parece como sempre. Na estreia, derrota categórica por 3 a 0 para a fortíssima Nigéria dos imensos Yekini e Amokachi. Mais uma para a conta...

O jogo seguinte, contra a débil Grécia, é sob medida para dar aos búlgaros o gostinho de uma vitória. E ela vem numa pelada de muitos gols: 4 a 0, com dois de pênalti do até então apagado Hristo Stoichkov.

Ao que tudo indica, a despedida da Bulgária tem dia e local marcados: 30 de junho, em Dallas, contra a Argentina de Maradona, Batistuta, Redondo e Caniggia.

Mas, nos dias anteriores ao jogo, o escândalo de doping abala a Argentina. O maior craque do Planeta nas duas últimas décadas, Diego Maradona, está suspenso do Mundial. Um verdadeiro coquetel de susbstânicas proibidas é encontrado na sua urina. Enfraquecida pela ausência do seu camisa 10, a Argentina cai por 2 a 0. Stoichkov e o grandalhão Sirakov marcam os gols que dão à Bulgária a classificação à fase seguinte.

Nas quartas de final, o empate em 1 a 1 – gol de Stoichkov - e a vitória nos pênaltis despacham o México, que conta com o maciço apoio de sua torcida e o forte calor americano como aliado. O grande desafio vem nas oitavas de final. A esta altura, ninguém mais despreza a Bulgária. Nem mesmo contra a forte Alemanha, campeã do Mundo em 90 e agora unificada.

E a zebra reaparece no Giants Stadium, em Nova Jersey. Gols de Stoichkov e Letchkov eliminam a poderosa seleção de Klinsmann, Matthaus e Voeller.

Inacreditável!

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Os eternamente derrotados búlgaros estão a um jogo de decidir o título mundial. E pela frente, nada menos que a poderosa Itália de Roberto Baggio, Franco Baresi e Paolo Maldini, entre outros.

A Itália segue o roteiro de sempre.

Vem crescendo de produção na etapa decisiva do Mundial. Depois de uma primeira fase medíocre, com um empate, uma derrota e uma vitória, e a classificação no saldo de gols, a Squadra Azzurra atropela seus adversários na fase de mata-mata, sempre guiada pelos pés mágicos de Robby Baggio, “Il Divino”. Faz os dois na vitória contra a Nigéria, por 2 a 1, e demonstra sangue gelado para marcar o gol decisivo contra a Espanha, após driblar Zubizarreta e tocar com imensa categoria, quase sem ângulo, a dois minutos do fim.

O Giants Stadium é o palco deste confronto de gigantes. Stoichkov esbanja confiança. Ele tem ao seu lado um time forte e unido, que se conhece muito bem. O baixinho Balakov e o calvo Letchkov preparam as jogadas para o trio ofensivo, com Stoichkov, Sirakov e o herói de Paris, Kostadinov.

A Itália vem jogando no limite de suas forças. Baggio, invariavelmente, termina as partidas exausto. Frágil fisicamente, ele sofre ainda mais com o calor impiedoso do verão americano. Ao seu lado, um meio de campo formado por Albertini, Berti, Dino Baggio e Donadoni, jogadores versáteis e inteligentes, capazes de marcar com força e mostrar talento na criação. Seu companheiro de ataque é o esforçado, porém medíocre, Pierluigi Casiraghi.

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Prevendo que sua equipe não terá pernas para suportar 90 minutos e talvez uma prorrogação sob o sol, Arrigo Sachi adianta a marcação e sufoca a Bulgária no seu campo de defesa. A tática se mostra perfeita e Baggio comanda um início de jogo irresistível.

São praticamente 30 minutos de pressão absoluta, sem sofrer sustos do forte ataque búlgaro. Aos 20 minutos, Donadoni bate o lateral para Baggio. O craque domina na entrada da área, passa por Iankov e Houbtchev e chuta colocado, à esquerda de Mihailov. Um golaço com a marca do ídolo da Azzurra.

Quatro minutos depois, Albertini chuta de fora da área e acerta a trave. Na sequência do lance, o mesmo Albertini tenta cobrir o goleiro Mihailov, que se estica todo e manda a bola a escanteio. A Bulgária está atônita e não consegue trocar três passes no campo de ataque.

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A Itália aumenta aos 25, novamente com Baggio. Albertini desta vez prefere o passe ao tiro. Dá uma cavadinha para Baggio, que se infiltra entre os zagueiros, evita o grandalhão Trifon Ivanov e chuta rasteiro, no canto direito. Dois a zero e parece que a Itália vai golear a Bulgária.

Aos 28 é a vez de Casiraghi, livre, perder a chance de aumentar o placar. Balakov assusta aos 36 com um chute forte de canhota e por pouco não diminui. E aos 41, Maldini quase marca de cabeça.

Um minuto depois, na sua primeira boa trama de ataque, a Bulgária encontra o gol. Sirakov faz uma espécie de “slalom” na defesa italiana, entra driblando, livra-se de Maldini e Costacurta e acaba derrubado por Pagliuca quando prepara o chute para marcar.

O sumido Stoichkov bate com categoria, à direita de Pagliuca, e põe a Bulgária novamente no jogo. É o sexto gol do camisa 8 búlgaro na Copa, que mantém uma briga particular pela atilharia com o seu companheiro de clube no Barcelona, o Baixinho Romário, destaque da seleção brasileira neste mesmo Mundial.

No segundo tempo, o calor de 35 graus produz efeitos nocivos para as duas equipes. As pernas italianas estão excessivamente desgastadas, mas os búlgaros não encontram força para reagir. A melhor chance é aos 10 minutos, na cabeçada de Sirakov que desvia em Costacurta e sai.

Baggio cai exausto. Com fortes dores musculares, ele deixa o gramado substituído pelo veloz Signori e passa a ser dúvida caso a Itália consiga a vaga na final.

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O lance que poderia mudar a história da partida acontece aos 24 minutos do segundo tempo. Kostadinov entra na área e ganha a disputa com Costacurta. Acintosamente, o zagueiro italiano bota a mão na bola e corta o lance. Os búlgaros se desesperam. Stoichkov e Kostadinov cercam o árbitro. Mas o pênalti não é marcado.

A Bulgária não encontra forças para reagir. Cansado, Stoichkov dá lugar a Genchev. Herói em Paris, Kostadinov também é substituído, por Yordanov.

Não há mais tempo para um novo milagre. O último ficou nos gramados da França.

Mas, espera aí... alguém falou em França?

O árbitro é francês!!!! Joel Quiniou...

E o que Stoichkov acha disso?

“Deus estava do nosso lado, mas o juiz é francês”, esbraveja o craque após o jogo. E lembra a histórica noite da classificação búlgara para o Mundial.

“A França não está jogando nessa Copa por nossa causa”, diz, encontrando a explicação para a não marcação do pênalti de Costacurta e a eliminação da surpreendente seleção da Bulgaria.

Roberto Baggio agora luta contra o tempo para se recuperar dos problemas musculares e liderar a Squadra Azzurra em mais um final de Copa do Mundo. É a quinta dos italianos. E pela frente, outro tricampeão mundial: o forte time brasileiro, mais tradicional adversário e algoz da final de 1970, no México.

Apenas um sairá do Coliseu, de Los Angeles, com a faixa de tetracampeão.

Ficha do Jogo

Bulgária 1 x 2 Itália

Estádio: Giants Stadium - Nova Jersey - 13/07/1994

Público: 74.110

Árbitro: Joel Quiniou (França)

BUL: Mihailov; Ivanov, Iankov e Tzvetanov; Houbtchev, Kiriakov, Letchkov e Balakov; Kostadinov (Yordanov), Sirakov e Stoichkov (Guentchev). TEC: Dimitar Penev

ITA: Pagliuca; Benarrivo, Costacurta, Maldini e Mussi; Albertini, Dino Baggio (Conte), Berti e Donadoni; Roberto Baggio (Signori) e Casiraghi. TEC: Arrigo Sacchi

Gols: Roberto Baggio (20 e 25) e Stoichkov (43)

CA: Kostadinov, Letchkov, Iankov, Costacurta e Albertini

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1994 - Brasil 3 x 2 Holanda

Protagonistas: Branco, Romário, Bebeto, Bergkamp, Ronald Koeman e Overmars

por Otávio Leite

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Capital do gado e do petróleo, Dallas, no Texas, é uma cidade quente.

Erguida pelos aventureiros e pioneiros que chegavam de todos os cantos dos Estados Unidos, é notória, também, por aparecer como cenário de inúmeros filmes de bangue-bangue de Hollywood.

E é nesse ambiente que Brasil e Holanda fazem um duelo de vida e de morte pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos.

Vale uma vaga na semifinal.

É também o primeiro encontro dos dois grandes rivais desde a semifinal da Copa de 1974, na Alemanha.

Vinte anos antes, em Dortmund, o Carrossel Holandês entrou para a história ao eliminar os tricampeões mundiais.

Desde então, o Brasil jamais reencontrou o caminho dos títulos mundiais. São cinco Copas do Mundo, cinco eliminações diferentes.

Vergonhosa, como em 90, na Itália, ou dolorosas, como em 82 e 86.

O Brasil hoje conserva muitos nomes do fracasso de 90, na Itália, mas a mentalidade é completamente diferente.

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É um elenco calejado pelas críticas.

E a campanha não vem ajudando. Vitórias magras sobre as decadentes Rússia e Camarões e um empate sonolento contra a Suécia antes da sofrida vitória pelas quartas de final contra os donos da casa.

De bom, a solidez do sistema defensivo e o talento sobrenatural da dupla de ataque formada por Bebeto e Romário.

Mas o meio de campo com os destruidores e corredores Dunga, Mauro Silva, Mazinho e Zinho deixa a desejar na criação.

A exemplo do Brasil, a Holanda tem seu ponto alto na força ofensiva, com o rapidíssimo Marc Overmars e o genial Denis Bergkamp.

A defesa tem o experiente Ronald Koeman, companheiro de Romário no Barcelona, e o meio obedece aos toques do classudo Frank Rijkaard, um dos três craques que o Milan importou dos Países Baixos.

Os outros dois, felizmente para o Brasil, não estão nos Estados Unidos.

Ruud Gullit prefere as férias com a família ao cansativo regime de concentração. Já Marco Van Basten, abalado pela lesão no tornozelo que daria fim precoce a sua carreira, não tem condições físicas de disputar o Mundial.

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A defesa do Brasil tem uma novidade. Branco entra no lugar do suspenso Leonardo, que afundou o maxilar do americano Tab Ramos com uma cotovelada na partida anterior.

Com problemas crônicos nas costas, conseguirá o veterano lateral-esquerdo marcar o rapidíssimo Overmars?

Quando a partida começa, pouco depois das 14h, o forte calor anestesia os ânimos dos jogadores. O ritmo é lento e com poucas chances.

A Holanda tenta pelo lado esquerdo da defesa brasileira, mas Branco estã concentrado e bem auxiliado por Zinho.

As melhores chances no primeiro tempo surgem de bola parada. Márcio Santos e Bergkamp levam muito perigo em cabeçadas.

Mauro Silva arrisca de longe e, no último minuto, Aldair arranca com a bola e finaliza já quase caído, na área, depois de uma envolvente troca de passes entre Zinho, Bebeto e Romário.

No segundo tempo, o calor passa, enfim, para dentro de campo. São os 28 minutos mais eletrizantes da história de todas as Copas do Mundo.

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Aos 7 minutos, Aldair se antecipa e intercepta um passe de Rijkaard para Bergkamp na intermediária brasileira. Dá três passos, levanta a cabeça e faz um magistral lançamento de perna direita para Bebeto, que corre pela esquerda perseguido por Wouters. O baiano faz um movimento perfeito, leva com a direita e cruza de canhota para Romário, que acompanha a jogada caçado por Valckx. De bate-pronto, o Baixinho chega antes do zagueiro e fuzila De Goey quase da marca do pênalti. Golaço. O Brasil sai na frente contra a poderosa Holanda.

A Holanda parte para o ataque e dá espaço ao Brasil, que quase aumenta aos 10 minutos. Jorginho enfia para Bebeto, pela direita da área. O atacante do La Coruña toca colocado, no contrapé do goleiro holandês, mas a bola bate na trave oposta e sai. O segundo gol está perto.

Desta vez quem tenta é Romário. Ele recebe de Jorginho e parte para o mano a mano com Valckx. Chama para dançar e dribla o zagueiro, mas a finalização para nas mãos de De Goey.

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Aos 18 minutos, o chutão do goleiro vai parar no campo brasileiro. Branco rebate de cabeça na direção de Romário, impedido. O Baixinho percebe que não pode ir na jogada e vira as costas, iludindo a zaga holandesa. Em posição legal, Bebeto arranca, domina a bola, atropela Wouters na corrida e dribla o desesperado De Goey antes de tocar para o gol vazio. Na comemoração, a coreografia que se torna a imagem do Mundial dos Estados Unidos: o “embala neném”, ao lado de Romário e Mazinho, para celebrar o nascimento do filho Mattheus.

A festa brasileira dura menos de um minuto. A Holanda dá a saída e vai ao ataque, ganhando um lateral pela direita da defesa brasileira. Witschge bate rápido para Bergkamp e surpreende a adormecida marcação do time de Parreira. O craque recebe já na área e bate na saída de Taffarel antes da chegada de Márcio Santos e Aldair. O gol põe a Holanda de volta ao jogo.

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O Brasil, ao contrário, parece desconcentrado e excessivamente confiante. Dois minutos após o gol, Márcio Santos erra um passe infantil na saída de bola, bem na frente da área brasileira. Jonk recolhe e bate forte, obrigando Taffarel a fazer a defesa.

A pressão segue pela direita agora. Overmars faz boa jogada e recua para o chutaço de Winter, da entrada da área, Taffarel, novamente, é obrigado a fazer uma defesa fantástica. Aos 30, Bergkamp invade a área e cruza. A bola bate no corpo de Márcio Santos e sai. O craque gelado enlouquece e pede pênalti ao árbitro Rodrigo Badilla, da Costa Rica.

O juiz aponta escanteio. A cobrança de Overmars tem endereço certo: a cabeça de Aron Winter. Ele ultrapassa Dunga e se antecipa a Taffarel, na pequena área, para empatar o jogo. Tudo igual no incrível duelo ao sol de Dallas.

O Brasil se recompõe e consegue organizar um ataque. A chance vem na bola parada com Branco, quase da intermediária, pela esquerda do ataque brasileiro. O lateral solta a bomba. O tiro alto tem endereço certo, mas De Goey está atento e desvia para escanteio.

Três minutos depois, nova investida do ataque brasileiro pelo mesmo lado. Branco faz jogada individual em que mistura raça, técnica e astúcia. Livra-se de Overmars e cai após o pontapé de Jonk e da chegada atabalhoada de Winter e Koeman. O lateral fica se contorcendo de dores. 

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Após muitos empurrões, discussões e pressão dos jogadores sobre o árbitro, o veterano de outras duas Copas do Mundo prepara-se para a cobrança.

Poucos chutes são tão precisos. A bomba sai rente ao chão, passa pelo lado externo da barreira e obriga Romário a fazer um movimento de toureiro para não atrapalhar a trajetória. Em altíssima velocidade, toca no pé da trave, longe do alcance do atônito De Goey, e entra no gol. Golaço salvador. A dez minutos do fim, o Brasil volta a mandar no placar.

Branco se emociona na comemoração. Faz cara de choro, corre para festejar com reservas e comissão técnica. Poucos acreditavam que o rodado lateral do Fluminense conseguiria disputar a Copa, quanto mais aguentar o tranco de uma semifinal tão dura e tendo de marcar um dos atacantes mais rápidos do mundo.

Com Raí e Cafu em campo, nas vagas de Mazinho e Branco, respectivamente, Parreira consegue esfriar o jogo e manter o controle da bola. A Holanda não encontra espaços. No último lance, já nos acréscimos, Cafu põe a mão na bola e dá à Laranja a chance de cruzar na área. Overmars cobra, mas a zaga rechaça e Witschge pega o rebote. O chute para em Aldair.

E após quase seis intermináveis minutos de acréscimo, o árbitro apita o fim do jogo. Vinte e quatro anos depois, o Brasil avança na caminhada em busca de um título mundial que parecia improvável antes do início da Copa, mas que agora está cada vez mais próximo. Auxiliar e mentor de Parreira no Mundial, o velho lobo Zagallo avisa: “Só faltam dois jogos!”.

Ficha do Jogo

Brasil 3 x 2 Holanda

Estádio: Cotton Bowl – Dallas – 9/7/1994

Público: 63.500

Árbitro: Rodrigo Badilla (COS)

BRA: Taffarel, Jorginho, Márcio Santos, Aldair e Branco (Cafu); Mauro Silva, Dunga, Mazinho (Raí) e Zinho, Bebeto e Romário. TEC: Carlos Alberto Parreira

HOL: Ed de Goey,  Winter, R. Koeman, Walckx e Rob Witschge; Wouters, Rijkaard (R. de Boer), Jonk e Bergkamp; Overmars e Van Vossen (Roy). TEC: Dick Advocaat

Gols: Romário (53), Bebeto (63), Bergkamp (64), Winter (76) e Branco (81)

CA: Dunga, Wouters e Winter