Museu da Pelada

PELA VOLTA DO FUTEBOL AO POVO

por Paulo Escobar

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Um futebol distante das pessoas pobres é de certa forma reprimir a paixão daqueles que sofrem todos os dias, a partir disso que começamos a pensar em como poderíamos reaproximar de novo o futebol ao povão.

O que nos aproximou do Museu da Pelada foi a ideia de preservar a memória do futebol, percebemos na página também que muitos dos excluídos do futebol voltaram a ter acesso às histórias de seus ídolos, e de certa forma muitos lembravam seus momentos de estádio quando este era acessível ainda.

Foi assim que começamos a caminhada para o projeto que leva por nome “Museu, Maloca e Boteco”. Para entender a lógica do programa, o Museu vem justamente em homenagem à página visando manter a ideia de preservação da memória do futebol, Maloca para que nós que estamos tocando este projeto não esqueçamos das nossas origens e o lugar a partir de onde enxergamos a realidade e o Boteco por ser o lugar onde rolam as resenhas sobre futebol, o espaço acessível às discussões onde na cerveja e prosa todos são técnicos.

No programa de estreia na quinta, dia 14, estivemos sentados na mesa de bar e recebemos Juliana Cabral, capitã histórica da seleção feminina, Roseli, que fez muito gol e jogava muita bola e com certeza não ficou devendo a ninguém no futebol jogado, Basílio, pé de anjo que fez talvez o gol que transformaria a história do Corinthians, Helvidio Matos, que nos seus anos de jornalismo buscou mostrar o lado humano do futebol, Mauro Beting, comentarista histórico e que o povão o tem na memória, Vitor Guedes, que contribuiu muito naquela mesa com suas ideias, Lu Castro, que é uma lutadora do futebol feminino que resiste e reivindica melhorias.

Foi emocionante ver as pessoas do bar Repanchos na Mooca baixa, que muitas vezes observam seus ídolos somente pela TV, estarem próximos e poder abraçar cada um deles. Ver pessoas que moram nas ruas e não têm acesso ao estádio poder sentir aqueles que vivem do futebol ao lado deles.

Os meios de comunicação muitas vezes se tornam inacessíveis às pessoas que assistem, e de certa forma contribuem no distanciamento. O que vemos sobre futebol é mais do mesmo e comentários feitos a partir de uma realidade que muitas vezes não é a do torcedor.

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Se as arenas excluem, muitos meios também, então o que nos resta é tentar o caminho inverso, o da aproximação. De sair do outro lado da tela e ir até onde o povão que vive o futebol e sua paixão se encontra. É isso que estamos procurando, e lá na Mooca baixa que estamos procurando levar os ídolos e pessoas ligadas ao esporte a estarem com o povo, que escutem o que eles têm a dizer e que sintam o que eles sentem e vivem.

Quebrar a bolha do distanciamento, e voltar aqueles que não estão mais nos estádios ou não tem canais fechados, para os quais o futebol não tem sido pensado de décadas pra cá.

Não estamos inventando a roda, mas queremos ser resistência às coisas do jeito que estão sendo postas, é pensar as coisas de baixo, trazer a visão dos que o futebol tem excluído. Que os Geraldinos sejam vistos de novo e que aqueles que comemoram os gols nos seus barracos possam ter a felicidade de abraçar seus ídolos de novo.

Foi o primeiro programa, esperamos que venham muitos mais, quinzenalmente nos reuniremos no boteco e ali conversaremos sobre futebol. O boteco será nossa geral e ali as pessoas poderão ter de novo o prazer de se sentirem pertencentes ao esporte que alegria e lágrimas lhes dá.

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Dia 28 de março partiremos para o segundo programa e contamos com vocês para fazer com que esta ideia chegue a outras pessoas e que assim sejamos resistência à ideia excludente que paira no nosso futebol. 

Luiz Ricas, Marcelo Mendez e eu continuaremos pensando e tramando o futebol com os pés no barro. E sem esquecer do nosso amigo Sérgio Pugliese por acreditar nestes loucos sonhadores que insistem em viver a utopia já.

Não posso esquecer de agradecer ao manos do bar, Germano, Jeferson, Júnior e a tia que nos receberam muito bem, do Wladimir, Nicanor e Veio Henrique que ajudaram o Ricas na parte do áudio e vídeo, da Maris e Led que nos ajudaram a montar o cenário. Aos manos e manas do Corote Molotov que estavam tomando sua cerveja e trêmulos de emoção e nervosos por estarem diante dos seus ídolos tiravam fotos e pediam autógrafos.

Em especial quero deixar meu abraço e meu amor ao meu filho André que se alegra em cada notícia que lhe dou, e que vibrou de felicidade quando me viu pela página naquela resenha. Que além de tudo me faz viver e caminhar e seu amor é tão importante para mim, meu melhor amigo que sempre acredita em mim, te amo, cabelo, e te carrego dentro de mim.

Levar o futebol ao povão nos dias que vivemos é um ato de resistência.

Dia 27 tem mais...

MUSEU, MALOCA E BOTECO

por Paulo Escobar

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Mantendo a linha do Museu da Pelada, que visa preservar a memória do futebol e ao mesmo tempo torná-lo acessível à população, trazemos o “MUSEU, MALOCA E BOTECO”, novo programa transmitido ao vivo via página do Museu da Pelada no Facebook. Uma iniciativa da galera do Museu de Sampa.

Quinzenalmente, Marcelo Mendez e Paulo Escobar chamarão figuras do futebol, dos esportes em geral, da música, do Jornalismo e das artes para um bate papo descontraído, regado à informação e descontração.

A estreia do programa é dia 14 de Março, quinta feira, às 20 horas.

Museu, Maloca e Boteco

Museu que visa justamente a memória e a história, Maloca pra não esquecer da origem da nossa equipe de Sampa e de muitos ídolos e boteco por ser lugar de resenha. 

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Luis Ricas é o diretor geral da resenha toda e os convidados da estreia serão: 

Vampeta: Ídolo do Corinthians e Seleção brasileira

Basílio: Ídolo do Corinthians

Ataliba: Juventus e Democracia Corintiana

Juliana Cabral: capitã da seleção brasileira

Rosely: Uma das maiores jogadoras da história da seleção

Lu Castro: Jornalista e especialista Futebol de mulheres

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Mauro Beting: Um dos maiores jornalistas esportivos.

Helvidio Matos: Ícone do jornalismo esportivo de cunho social.

A gravação será no boteco Repancho's bar na Mooca, rua André de Leão 330, Travessa da rua da Mooca e da Radial leste, próximo a estação do Brás saída da rua Piratininga, e da estação Mooca da CPTM. O bar terá seu funcionamento normal.

RESENHISMO, CIÊNCIA

por Rubens Lemos

(Foto: Custodio Coimbra)

(Foto: Custodio Coimbra)

Tenho com o Museu da Pelada uma relação lírica. Estava à toa na vida, vendo o futebol passar e a turma de Sérgio Pugliese chegou com resenhas para me salvar. Um copo, uma garrafa, um pente, sai Adoniram Barbosa em samba de repente.

Um ídolo esquecido, o reencontro, uma cerveja gelada e o renascer vem do passado. Resenha é ato de desligar o interruptor do mundo, das propinas televisadas ao vivo, do sangue jorrando em traços bárbaros de audiência. É estar em transe com o papo literal e inconfundível do dialeto da bola.

Do vocabulário onde não caibam milhões, cifrões, contenções, marcações, transições, seleções e humilhações, pranchetas, esquemas, caneladas, assistências e atacantes agudos. Goleadores de cinco redes balançando por ano.

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Assisto resenhas em monólogo. A última, em que me chorei (chorei por mim e é meu direito pelo que revi e perdi no futebol), foi a de Roberto Dinamite e Rondinelli num reencontro emocional, sem tradutores, nem procuradores, de dois adversários históricos e amigos com passagens maravilhosas para compartilhar com torcedores contemporâneos.

Quem vai chegando aos 50, aos 49, aguarda nos 48 um sopro de motivação na vida, sai da asfixia medíocre e respira o balão de oxigênio da arte nos personagens eternizados por dribles, gols, lançamentos e multidões em transe.

O Museu da Pelada me salva. Nas conversas sem censura, no linguajar boleiro de morro, de campinho, de rua, de ar puro da beira da praia. É uma ciência. Foi, não foi pênalti, não deu aquela porrada, sacanagem sua. Nosso time era melhor, vocês compraram o juiz (menos o Cabelada).

Viva a ciência memorial do futebol. O resenhismo. Sou resenhista em busca de pós-graduação.

COMO O MUSEU DA PELADA SALVOU A MINHA PAIXÃO PELO FUTEBOL

por Luis Filipe Chateaubriand 

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Desde os oito anos, acompanho futebol. São 40 anos dedicados a este esporte tão fascinante, que nos faz sonhar, nos dá êxtase, alimenta nossa essência infantil.

Minha paixão pelo gênero esportivo era incontestável. Quantos jogos escutei com o ouvido no rádio. Quantos jogos vi na televisão. Quantos jogos vi nos estádios. Quantas resenhas acompanhei. Quantos jornais li.

Já com os meus 25 anos, fiz um trabalho na disciplina Métodos do Pensamento – do Mestrado em Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas –, sobre o tema. Cada aluno escolhia o seu tema, e debatíamos sobre os temas escolhidos nas aulas.

Meu trabalho foi o de melhor nota na disciplina. Meus colegas de Mestrado me aplaudiam, me incentivavam, diziam que eu tinha que trabalhar com isso.

Eu acreditei...

Desde então, lá no longínquo ano de 1995, alimentei a perspectiva de atuar profissionalmente com o futebol – ou na escrita, ou na gestão.

Em 1999, época da Lei Pelé, eu, já professor universitário, juntei-me a dois amigos e criamos uma empresa de consultoria em Gestão Esportiva. E, um pouco antes, já tinha começado a escrever sobre alguns assuntos do futebol, especialmente os ligados à gestão, especialmente os relacionados ao calendário do futebol brasileiro.

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Seguiram-se diversos livros, artigos, ensaios, palestras, entrevistas. Mas ser um profissional do futebol, no sentido de exercer uma atividade remunerada ligada ao assunto, não consegui.

Foram muitas e muitas horas de investimento, paixão, tesão, trabalho, trabalho, muito trabalho, tentando viabilizar oportunidades. Sem êxito.

Eu havia fracassado.

Em abril de 2017, depois que ministrei uma palestra sobre o calendário do futebol brasileiro para oito pessoas, quando havia a expectativa de serem centenas delas, a minha frustração explodiu... resolvi me afastar do futebol!

Havia decidido: não assistia mais futebol, não comentava mais futebol, não me informava mais sobre futebol, não escrevia mais sobre futebol, não lia mais sobre futebol.

Futebol era algo riscado de minha vida!

E, para o espanto de muitos amigos e conhecidos, foi o que fiz, disciplinadamente. Leitura sobre política, história, economia. Nada de futebol. Escritas e estudos sobre administração e ciências sociais. Nada de futebol. Debates acalorados sobre música, sociedade, costumes, outros esportes. E nada de futebol!

Passaram-se cerca de oito meses sem futebol em minha vida, e apareceu a síndrome de abstinência.

Pensei em um jogador chamado Leandro, ex lateral do Flamengo e da Seleção Brasileira, cracaço de bola.

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Fiz uma busca pelo nome "Leandro Flamengo" no Google.

Uma das opções que apareceu para mim foi "Leandro o Papa da Lateral", uma entrevista de vídeo com o "Peixe Frito" em um sítio de internet chamado Museu da Pelada.

Fiquei bastante curioso, não me contive, fui assistir a entrevista. A síndrome de abstinência de oito meses chegava ao fim!

Fiquei extasiado com o que assisti. Estórias curiosas, engraçadas, interessantes, um clima de alto astral e de muitas risadas entre o entrevistado e o entrevistador (que depois, fiquei sabendo, chamava-se Sérgio Pugliese, editor do Museu da Pelada).

Depois de assistir à entrevista, comecei a procurar "Museu da Pelada" no Google. E encontrei mais entrevistas interessantes, mais escritos excelentes, mais ações solidárias, mais engajamento com a comunidade do futebol, mais risadas bem humoradas do Sérgio Pugliese, e mais, mais e mais... futebol em sua essência!

Daí, não resisti: voltei para o futebol, minha grande paixão, de braços abertos!

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Apesar de não ter conseguido, até a presente data, atuar de forma remunerada como um profissional do futebol, estou reconciliado com este. Afinal, o futebol me deu e me dá muito. Me dá tesão. Me dá sentimentos em sua plenitude. Me dá exemplos. Me dá emoções. Me dá raciocínios. Me dá vida!

E é assim que o Museu da Pelada age em nossas vidas: nos faz reconciliar com a nossa própria essência. A vida sem futebol seria insuportável!

Ave, Museu da Pelada, por nos fazer reconciliar com o futebol nosso de cada dia!

 

Luis Filipe Chateaubriand acompanha o futebol há 40 anos e é autor da obra "O Calendário dos 256 Principais Clubes do Futebol Brasileiro". Email:luisfilipechateaubriand@gmail.com.

SONHOS RENOVADOS

por Marcos Vinicius Cabral

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Dessa vez não fui despertado pelo celular que fica embaixo do meu travesseiro (graças a ele eu não perco a hora das peladas nos domingos).

Nele, marcava 4h57 da manhã da última quinta-feira, 27 de dezembro e ao olhar pela janela, uma escuridão tomava conta do céu.

O silêncio lá fora contrastava com o daqui de dentro do meu quarto, já que na ponta dos pés - como um bailarino ensaísta - dei os habituais vinte passos até o banheiro preocupado em não acordar Raquel minha esposa e Mel nossa cachorrinha da raça Shit-zu, que dormiam um sono angelical.

No regresso ao quarto, tentei dormir novamente e não reencontrei o sono.

Sem motivo algum comecei a pensar no Museu da Pelada, espaço virtual que resgata histórias de quem jogou bola e quem não jogou, de quem foi profissional ou de quem foi perna de pau nas peladas da vida e de quem marcou gols antológicos sendo aplaudido de pé e de quem perdeu outros feitos tendo na figura materna alvo de xingamentos.

Na verdade eu não estava pensando e sim sonhando com os olhos abertos, acreditem!

Já passava das 5h da manhã, deitado com olhos fixados no ventilador de teto, sonhei com o dia que conheci Sérgio Pugliese, pelos idos dos anos 90, quando visitei a redação do O Globo, na Rua Irineu Marinho, 35 - Centro - Rio de Janeiro.

Na ocasião, à procura de trabalho como ilustrador, o máximo que consegui aos 20 anos de idade foi conhecer Chico Caruso, segundo maior chargista desse país - ninguém supera o semovente Ique que se reinventa a cada ano.

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Passados 23 anos, o reencontro na sede da Approach em Botafogo, Zona Sul da cidade, naquele segundo semestre de 2016.

Eu como estudante do quinto período de jornalismo e ele como Diretor.

Não falamos sobre outro assunto que não fosse os caminhos da Assessoria de Imprensa no século XXI, em que o dono da "canhota mais habilidosa do Albertão" foi sabatinado por minha colega de grupo Raquel Miranda.

Sonhei com minha adoração ao futebol do ex-camisa 2 rubro-negro e seleção brasileira Leandro, quando escrevi uma experiência vivida no "Enquanto todos queriam ser o Źico eu preferia o Leandro", que foi minha primeira matéria para o Museu da Pelada.

Naquela ocasião, me senti como um garoto recém saído dos juniores e que treina bem durante a semana aguardando o momento de entrar na partida.

- Sensacional amigo, ela vai ser postada! - disse Serginho, como se fosse meu treinador e me chamasse para ser incorporado ao time do Museu.

E convenhamos, fazer parte de um grupo talentosíssimo como este e que tem Paulo César Caju, é um privilégio para poucos!

E foi assim que vi a publicação tendo curtidas, compartilhamentos e comentários, porém, após ser incorporado, a titularidade ainda estava longe.

O jogo estava só começando!

Comecei a escrever, escrever, escrever, pois era o mesmo que treinar, treinar e treinar.

Com isso, fui ganhando forma, assim como Rivellino na Copa do México em 1970, em que colocou uma "pulga" atrás da orelha do treinador Zagallo, que teve que arrumar uma vaga para o craque da camisa 10 do Corinthians e Fluminense, naquele time.

Aos poucos, fui me tornando uma grata surpresa, para Serginho e André - seu auxiliar técnico - assim como foi Josimar, lateral botafoguense que foi à Copa de 1986 - Leandro não estava no voo para o México - e fez história com dois golaços contra Argélia e Polônia respectivamente.

Oba, agora eu vestia o manto - não o rubro-negro - mas do Museu da Pelada!

O ano começou e com ele os sonhos foram renovados.

Que possamos escrever histórias cada vez mais bacanas de quem tem muito o que nos contar!

Feliz ano novo a todos!