Mateus Ribeiro

O FUTEBOL VIROU UMA ETERNA SEGUNDA-FEIRA

por Mateus Ribeiro

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Quando eu era moleque, uma das razões da minha existência era meu time do coração. Eu vivia para estudar e assistir futebol, principalmente jogos do meu time. A relação entre eu e meu time era algo que me fazia sentir dois extremos: se vencia, eu era a pessoa mais feliz do mundo; se perdesse, eu me tornava um demônio.

Porém, com o tempo, fui aprendendo a desviar a tristeza e as dores da derrota utilizando o que chamamos de "migué". Pois é, eu sempre tinha uma conversa fiada para utilizar na segunda-feira quando meu time perdia no final de semana. Invariavelmente, eu falava que "jogamos melhor", que o juiz havia prejudicado ou arrumava qualquer culpado. Falava e fazia de tudo, mas jamais assumiria em praça pública que o adversário fez por merecer a vitoria. 

Desde aquela época, eu era uma pessoa sensata o suficiente para saber que apenas uma coisa decide o futebol: o gol. Acredite se quiser, mas a bola na rede ainda vale mais que qualquer outra coisa no esporte bretão.

Saindo um pouco da máquina do tempo, voltemos ao maravilhoso ano de 2019. Eu já não acompanho futebol mais com tanto afinco, por achar que tudo hoje está uma tremenda chatice, principalmente no que se refere ao debate. Vamos supor que você aí do outro lado do monitor passou vinte anos dentro de uma bolha e resolveu assistir alguma mesa redonda. A chance de você achar que as regras mudaram é enorme. Afinal de contas, a vitória deixou de ser a principal razão do jogo.

A posse de bola e o insuportável conceito de jogo se tornaram a menina dos olhos da crônica esportiva. Obviamente, esse comportamento que beira o patético, chegou até o torcedor, que estufa o peito para falar sobre as "ideias de jogo". Por sinal, essas tais ideias raramente são destrinchadas pelos entendidos, a não ser quando se utilizam da tecnologia para congelar UM lance da partida para tentar explicar como um time joga.

A vitoria não vale mais nada. O importante é saber falar para se justificar. Nenhum time precisa mais vencer, já que mais vale perder e ter a bola do que cometer o crime hediondo de ganhar "jogando feio", lembrando que feio mesmo é achar que ficar tocando bola pra goleiro e zagueiro resolve alguma coisa.

Quando eu justificava minhas derrotas falando de forma vazia que meu time havia jogado melhor, jamais imaginei que depois de vinte e poucos anos isso se tornaria padrão para algus profissionais da bola, desde jogadores até palpiteiros.

De fato, o futebol virou uma eterna segunda-feira. Chato, cheio de desculpas e pautado em bobagens sem importância cometidas nos dias anteriores.

Um abraço e até a próxima!

25 ANOS DO TETRA

por Mateus Ribeiro

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Há 25 anos, mais precisamente no dia 17 de julho de 1994, o Brasil se tornava tetracampeão mundial de futebol após o craque de bola Roberto Baggio mandar sua cobrança de pênalti na Lua, em uma clara comemoração aos 25 anos da missão Apollo 11 (que obviamente, 25 anos depois, completa meio século de vida).

As lembranças podem ser muitas, mas são basicamente iguais na cabeça de todo mundo: os gritos histéricos de "É tetra!" sendo repetidos exaustivamente, a gravata do Pelé, o Dunga falando todos os palavrões possíveis, a molecada na rua enchendo a cara de refrigerante enquanto os pais e parentes mais velhos tomavam litros de cerveja e muita festa pelas ruas.

Eu estava feliz pra caramba, comemorando junto da minha família, e na minha cabeça, o Brasil era invencível. Antes do início da Copa, meu pai me deu o álbum de figurinhas, me ensinou a fazer cola de trigo (a cola era cara, e mesmo que a nossa situação não fosse de pobreza extrema, luxos não eram exatamente permitidos ou incentivados) e me disse que o Brasil venceria. Venceu mesmo, e tal qual meu velho, não me decepcionou.

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Eu estava emocionado, principalmente por ver o Viola ali no meio, e naquela época, ele era um dos meus principais ídolos. Hoje, é bem possível que se eu encontrasse metade do elenco de 1994, não faria a mínima questão de apertar a mão, por divergências de opiniões. Mas naquele domingo, aquela turma me fez a pessoa mais feliz do mundo.

Vinte e cinco anos depois, eu não torço mais (na verdade, desde idos de 2001 eu nem perco meu tempo), porém, esse dia não sai da minha cabeça. A maior Copa do Mundo da história tinha dono, e eu me senti um pouco campeão do mundo naquele 17 de julho de 1994.

Um quarto de século após um dos dias mais felizes da minha vida, reconheço que o futebol apresentado passou longe do espetáculo, e agradeço por isso, pois hoje sou um resultadista, com todo o orgulho do mundo.

Duas décadas e meia depois, sei o quanto identificação é importante e que traumas deixam marcas. Eu juro por tudo que é mais sagrado e que (não) acredito que entendo os adultos que já não ligavam mais em 1994, muitos deles atormentados por Paolo Rossi, penalidades máximas, Maradona e Caniggia.

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E no final das contas, sabe o que tudo isso significa? Que depois do final do meu expediente (que começou muito cedo e vai acabar muito tarde), eu vou vibrar com a falta do Branco contra a Holanda, com o Bebeto se declarando para o Romário. Também vou sofrer com o empate dos holandeses e com a porrada que Leonardo deu em Tab Ramos. Vou relembrar como chorei na hora que o juiz apitou o final da prorrogação, temendo o pior. 

Afinal de contas, não é todo dia que se comemora uma data tão especial. E não é todo dia que se volta a colaborar com esse projeto maravilhoso chamado Museu da Pelada.

Obrigado, Brasil. Obrigado, Museu!

JOGOS INESQUECÍVEIS

Corinthians 7 x 1 Santos

por Mateus Ribeiro

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Era um domingo, o primeiro do mês de novembro de 2005. Poderia ser mais um “domingo comum”, como eu tinha ouvido nas primeiras horas do dia na missa. Eu, que havia completado vinte anos três dias antes, nunca fui de misturar religião com nada, mas se pudesse pedir algo, pediria uma vitória do Corinthians, que naquele domingo, enfrentaria o Santos, em partida decisiva, válida pelo Campeonato Brasileiro daquele ano. Aliás, os clássicos contra o Santos sempre foram um martírio, pois meu pai e professor, Seu Carlos, era santista. Seria um presente e tanto, mas eu não imaginei que pudesse ser tão generoso.

Logo no começo do jogo, sem tempo para muita conversa, Rosinei marcou o primeiro do jogo, e já me deixou um pouco mais tranquilo. Porém, a tranquilidade durou pouco, já que Geílson empatou a partida minutos depois.

O coração já começava a ficar acelerado, mas Carlos começou a me tranquilizar. E não, não estou falando do meu pai, mas de Carlos Tevez. O argentino, que entendeu como poucos o espírito do Corinthians, começou seu show aos 20 do primeiro tempo.

Depois de receber dentro da área, fuzilou o goleiro santista para desempatar a partida. Antes de o primeiro tempo acabar, ainda teve tempo para mais um, marcado após chute com o pé esquerdo. Fim de primeiro tempo, 3 a 1, tudo estava bom até demais. Mas o melhor estava por vir.

Já no segundo tempo, após bela troca de passes, Tevez fez mais um. Eu achava que estava vivendo um sonho, mas ainda houve tempo para mais três gols: um de Nilmar, um de Jô e um de Marcelo Mattos, para encerrar com chave de ouro um domingo especial.

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Foi um grande presente de aniversário, melhor do que eu esperava. E falando em aniversário, quem fica mais velho hoje é a estrela dessa partida, Carlos Tevez. O atacante argentino comemora 35 anos.

O goleador sempre foi conhecido mais por sua raça do que por sua técnica, mas sobretudo, pelo respeito que sempre despertou em adversários. Um jogador vitorioso, que ganhou inúmeros títulos pelos clubes onde passou. Para sua tristeza, não conseguiu o mesmo sucesso pela seleção da Argentina. Mas vendo por esse lado, nem Messi foi capaz de dar um troféu para nossos vizinhos.

Tevez desperta amor e ódio nos torcedores dos times que atuou. Talvez, ódio mesmo, só seja um sentimento dos torcedores do Manchester United, já que o jogador saiu do time vermelho da cidade para jogar pelo rival Manchester City. Amado, e odiado, mas sempre respeitado.

Eu já gostei muito do atacante, hoje, já não gosto tanto. Mas o respeito muito, principalmente por sua passagem pelo Corinthians. E deixo aqui como forma de agradecimento uma pequena lembrança dessa partida, inesquecível para torcedores do Corinthians e do Santos.

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Uma lembrança doce ou amarga, dependendo do ponto de vista. Uma lembrança para o bem e para o mal, da mesma forma que a carreira de Tevez foi (e continua sendo).

E você, qual lembrança tem desse jogo inesquecível?

Um abraço, e até a próxima!

JOGOS INESQUECÍVEIS

Cruzeiro 0 x 5 São Paulo

por Mateus Ribeiro

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Em partida válida pela primeira fase do Campeonato Brasileiro de 1997, o Cruzeiro recebeu o São Paulo no estádio do Mineirão.

O Cruzeiro, apesar de mandante, sempre encontrou dificuldades para vencer o Tricolor em seus domínios, o que persiste até hoje. Naquela noite de julho de 1997, não foi diferente. Quer dizer, foi, já que o São Paulo atropelou o Cruzeiro sem o mínimo de piedade.

Na verdade, podemos trocar o placar para Cruzeiro 0 x 5 Dodô. O atacante, que anos depois ficou conhecido como “o artilheiro dos gols bonitos” (e sempre foi mais do que isso) acabou com o jogo, já que fez todos os gols.

O primeiro deles, de pênalti, sofrido após drible aplicado no já enorme Dida. Bola de um lado, goleiro de outro, e um a zero no placar. Algum tempo depois, bola na área, e de cabeça, Dodô marcou mais um. Ainda no primeiro tempo, bateu uma falta com perfeição, e além de marcar o terceiro gol, mostrou que seu repertório já era vasto, desde outros tempos.

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Três a zero fora de casa contra um adversário forte e tradicional, o resultado está bom, certo? Errado, pois o São Paulo estava com fome. Dodô, mais ainda.

O quarto gol foi marcado em mais uma cabeçada, e o quinto foi em uma sobra, meio de bico, pra mostrar que o artilheiro dos belos gols sabia marcar gol de todo jeito, até gol “feio”, mesmo sabendo que feio mesmo é atacante que não marca gol, e que é lembrado por desarme e por fazer marcação de zagueiro e lateral.

Fim de jogo, e uma cacetada gigante na cabeça dos cruzeirenses. Já Dodô, era só risada. Além de ter colaborado (muito) para a vitória do seu time, se tornou o primeiro jogador da história do Campeonato Brasileiro a marcar cinco gols na casa do adversário. Bela marca, não?

O jogo seria histórico “apenas” pelo seu resultado, algo que até os dias de hoje, ainda é atípico, e creio que sempre será, afinal, apesar de todas as mudanças no futebol, um mandante tomar cinco gols em casa não é normal, ainda mais se tratando de um gigante. O que chama a atenção também é a quantidade de gols marcados por Dodô. Não só a quantidade, mas também os recursos utilizados.

Até hoje, essa atuação monstruosa figura entre as maiores da história de um atacante no Campeonato Brasileiro. E esse é um dos motivos de relembrar mais esse jogo inesquecível!

Um abraço, e até a próxima!

 

JOGOS INESQUECÍVEIS

Botafogo 0 x 0 Juventude

por Mateus Ribeiro

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A Copa do Brasil sempre nos reservou grandes surpresas, e uma das mais icônicas é o Juventude de 1999.

O time gaúcho eliminou clubes tradicionais do futebol brasileiro, como Bahia, Corinthians, Fluminense e Internacional, com direito a uma sonora goleada diante do rival estadual. Já o Botafogo havia passado por São Paulo, Atlético Paranaense (na época sem a letra h...) e o Palmeiras.

Os times contavam com nomes conhecidos do futebol brasileiro. No alviverde gaúcho, o goleiro Émerson, o zagueiro Capone, o meia Mabília, Maurílio, além do atacante Márcio Mixirica (que hoje, possivelmente, teria o nome de algum deputado estadual). Já o Botafogo contava com o lendário goleiro Wagner, Sérgio Manoel, Válber e Bebeto.

A primeira partida, disputada no Alfredo Jaconi, terminou em 2 a 1 para o Juventude, que disputaria a segunda partida no Rio de Janeiro com a vantagem do empate. Vale lembrar que o Botafogo teve dois gols anulados de maneira um tanto quanto polêmica.

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Mais de cento e dez mil pessoas lotaram o Maracanã para acompanhar a final. A grande maioria, obviamente, era botafoguense. Aliás, essa foi a última partida do saudoso Maracanã com mais de cento e dez mil torcedores, algo inimaginável nos dias atuais.

Bastava um gol para o alvinegro carioca levantar o inédito caneco. Porém, o valente Juventude não estava disposto a colaborar com a festa botafoguense, e se defendeu com unhas e dentes.

O tempo ia passando, e o que tinha tudo para ser sonho para os alvinegros, começava a ganhar contornos de pesadelo. Por mais que o time atacasse, a bola insistia em não entrar, e Émerson, em jornada muito segura, garantia o empate sem gols, que era o suficiente para os gaúchos saírem do Maracanã com o título.

O treinador Gílson Nunes fez substituições, tentou dar sangue novo ao time, mas nada adiantava. A impressão que se tem é que a bola não entraria nunca. E de fato, pelo menos durante aqueles pouco mais de 90 minutos, não entrou.

Após o apito final de Antônio Pereira da Silva, a torcida do Botafogo viveu um dos momentos mais tristes de sua gloriosa história, enquanto os poucos torcedores do Juventude presentes no Maracanã começavam a viver um sonho que parecia não ter fim.

Após uma campanha repleta de grandes momentos, levantar a taça no maior do mundo era algo que beirava a perfeição. Perfeição, aliás, que o sistema defensivo do Juventude atingiu naquela partida.

Uma partida inesquecível, que arranca lágrimas de ambas as torcidas. Uma chora de tristeza. A outra, de alegria.

E você, qual lembrança guarda dessa partida?

Um abraço, e até a próxima.