Marcos Vinicius Cabral

BROWN

por Marcos Vinicius

1d20bdad-1592-44f9-b90f-05304dbdef75.jpeg

Na Comunidade da Cruzada de São Sebastião, um pé negro era destaque no cimento áspero daquele lugar pobre em recursos físicos mas rico em material humano: Adílio.

Garimpado pela insurgência da vida e revelado por seu Dominguinhos - ex-atacante do Flamengo na década de 1950 que jogou com Carlinhos Violino e Gérson -, jogar futebol era uma arte que poucos como ele sabiam fazer.

Não satisfeito, O Neguinho Bom de Bola - como seria chamado pelo radialista Waldir Amaral anos mais tarde - batia uma bolinha de vez em quando na Favela da Praia do Pinto, onde travava duelos inesquecíveis com um tal Júlio César, antes da bola rolar um anjo e com ela rolando se transformava em Lúcifer personificado em seus dribles.

Adílio chegou à Gávea em 1967 e, por ter um talento sobrenatural, fez história com a camisa rubro-negra.

Pelo Clube de Regatas do Flamengo, estreou em 1975 e ganhou absolutamente tudo.

Foi visto, vejam vocês, 615 vezes dentro de campo e seu brilho foi facilmente notado pelo jeito estoico de jogar.

Muitas das vezes, foi ação com a bola nos pés e produziu reação nos adversários, onde subentendemos que a famosa frase "toda ação gera uma reação" viesse daí.

Em algumas partidas, foi transpiração nas vitórias pelo mundo afora, empunhando a bandeira vermelha e preta nos territórios de grama verde mais inóspitos, onde todos eram sucessivamente sendo vencidos.

Não havia uma fórmula para vencer aquele Flamengo.

Havia sim, custe o que custar, a necessidade em parar alguns jogadores, o camisa 8 era um deles.

Fosse na bola - o que convenhamos, era difícil - ou na violência, como na pedrada desferida covardemente pelo zagueiro Mário Soto, que tirou sangue de seu rosto suado e áspero de quem queria apenas ser reconhecido como o maior das Américas, na decisão da Libertadores de 1981, no estádio Santiago, no Chile.

Vestir a camisa do Flamengo requer sacrifícios e Adílio deu seu sangue para que o triunfo fosse alcançado.

E conseguiu.

4031a1e9-68d3-4c62-9bf0-76a0233bd882.jpeg

Atuou no Flamengo na primeira metade dos anos 1970 - quando imitava James Brown no versos de "Get up (get on up), Get up (get on up), Stay on the scene (get on up), Like a sex machine (get on up)", e na coreografia presenciada às gargalhadas por Júnior, Luxemburgo, Geraldo, Manguito, Andrade, Zico e outros na concentração - a 1987, quando foi jogar no Coritiba, entregando sua camisa 8 para o jovem Aílton, que sagraria-se Campeão da Copa União.

Depois disso, não foi o mesmo, mas bastava, pois já havia escrito as seis letras de seu nome na história do clube.

Viu sua história de vida ser transformada em Adilio: Camisa 8 Da Naçao, livro escrito em 2013 por Renato Zanata e lançado no ano seguinte.

Sucesso, mas era pouco.

Se tornou o primeiro atleta que por mais tempo serviu ao Flamengo e não à toa é considerado um dos maiores camisas 8 do futebol brasileiro.

Para os flamenguistas, os saudosistas como eu, Adílio foi único.

Mas mesmo assim, era necessário mais.

Então, o semovente Sandro Rilho, responsável pelo "Projeto Bustos", contratou o escultor Edu Santos, o mesmo que fez a estátua do inesquecível Maestro Junior, craque que mais vezes vestiu o Manto Sagrado.

Em seguida, foi a vez do inigualável Leandro, que só vestiu uma única camisa em sua vida profissional: a Rubro-Negra.

E agora o inquestionável Adílio, que inaugurou seu busto na sexta-feira, 26, na Gávea, numa merecida homenagem.

Adílio é funcionário do Flamengo e viaja o país com o Fla Master, onde continua encantador com a bola nos pés.

Viva a arte do futebol e seus verdadeiros artistas.

10VALORIZADO

por Marcos Vinicius Cabral

IMG_3771.jpeg

Diego chegou ao Flamengo em 2016, após a vergonhosa eliminação para o Fortaleza na segunda fase da Copa do Brasil.

Com status de craque e não como bom jogador que era, caiu nas graças da torcida.

Boa pinta, virou "sex symbol" entre as torcedoras que se aglomeravam nas arquibancadas dos treinos para vê-lo.

Acostumado a vestir a 10, o meia não pôde vesti-la quando chegou por já pertencer a Éderson e preferiu a 35 - em alusão às idades de Matteo e Davi, seus filhos - que foi um sucesso de vendas.

Dois dias após o anúncio da contratação, assinatura de contrato e apresentação, a foto do jogador já com o Manto teve mais de 100 mil acessos, ficando nos "Trending Topics" do Twitter - que são os assuntos mais comentados na rede social em todo o mundo - durante todo o dia.

Passou a vestir, então, a 10 de Zico, Deus Rubro-Negro, e segundo o portal Globoesporte, o seu número é a segunda camisa mais vendida, perdendo atualmente apenas para a 9 do atacante Gabriel, o Gabigol.

Diego - que entrou para a história do futebol apenas com o primeiro nome, mas hoje carrega o Ribas no sobrenome - foi Campeão Brasileiro de 2002, aos 16 anos, ao lado de Robinho.

Capitão e camisa 10, virou símbolo de um Flamengo claudicante.

IMG_3768.jpeg

Tirando o estadual, obrigação pela grandeza do Flamengo, o meia teve exibições decepcionantes em momentos decisivos do Brasileirão, Libertadores, mas principalmente na Copa do Brasi, onde ficou marcado.

Em 2017, desperdiçou a sua cobrança na final perdida para o Cruzeiro, esteve apagado na derrota da semifinal para o Corinthians no ano passado e, nesta quarta-feira, 17, escreveu o seu pior capítulo no livro dessa (sabe-se lá quando?) passagem pelo Rubro-Negro contra o Athletico-PR, nas quartas de final.

Foi um pênalti.

Mas não um pênalti qualquer, cobrado com força ou colocado, bem ou mal batido, mas displicente, tão sem vontade, que significou falta de respeito às cores do clube, à camisa, à história, aos companheiros de time, e à torcida, personificada em quase 70 mil no Maracanã e os milhões à frente da TV.

Um pedido de desculpas por parte do jogador seria o mínimo, não porque atenuaria a culpabilidade única e exclusivamente sua (Vitinho e Éverton perderam também suas cobranças), mas a Nação, que sustenta tudo isso, merece uma satisfação.

M DE MARADONA, DE MESSI E DE MORDILLO

por Marcos Vinicius Cabral

IMG_2820.jpeg

"As pessoas às vezes me perguntam como surgem as ideias. Para mim, está claro: elas são como borboletas, que voam de uma forma fugaz e eu tento capturá-las", disse numa ocasião, Guillermo Mordillo, cartunista argentino e falecido no último sábado (29), aos 86 anos.

Argentino de Buenos Aires, onde nasceu, em 1932, Mordillo foi catapultado para o sucesso em Paris, no comecinho de 1963.

Por não ser fluente em francês, a ausência de legenda nos cartuns foi introduzida no seu traço firme e visualmente marcante no humor gráfico, tornando este estilo a marca registrada que acompanhou toda sua carreira.

Seus personagens de nariz grande arredondado ou a inserção de animais, especialmente a girafa em seus desenhos, não eram tão notados quanto à sua mensagem.

Toda uma geração de cartunistas foi privilegiada em ter podido ver na infância, muitos de seus maravilhosos trabalhos.

Beber desta fonte inesgotável e imitá-lo, não seria de se estranhar como muitos deles fizeram.

Assim como os conterrâneos Maradona e Messi, Mordillo foi nos campos de futebol, o camisa 10 de uma geração de cartunistas mundo afora.

Cracaço na acepção da palavra, sua genialidade não era nas jogadas, ou dribles desconcertantes, ou ainda gols inesquecíveis, mas sim em fazer o leitor ver, pensar e entender seu desenho.

E ele comemorava com uma ironia silenciosa.

Acreditamos que todos nós cartunistas, estamos sempre sozinhos e a criatividade é a única forma de nos fazermos menos isolados.

Portanto, Mordillo, com sua arte, dominou toda a extensão do gramado e fez a sua criatividade brilhar dentro das quatro linhas.

Não chutava uma bola mas a desenhava com riqueza incomum nos detalhes.

Neste esporte coletivo, chamado futebol, que continua com o poder de alcançar multidões, seu trabalhou alcançou o mundo.

E talvez tenha sido sua última vitória, em um país que produz extrasséries com a letra M de Maradona, de Messi e de Mordillo.

* Marcos Vinicius Cabral é jornalista, chargista, cartunista, caricaturista e artista plástico.

APLAUDIDO POR 40 MILHÕES

por Marcos Vinicius Cabral 

39bd7e87-4d04-4c45-b17f-a24e7f9b6e42.jpeg

Em novembro do ano passado, um busto rubro-negro do imortal camisa 5 - que atualmente faz parte do staff de comentaristas da Rede Globo de Televisão - foi inaugurado no Centro de Treinamento George Helal, em Vargem Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. 

- Muito obrigado a todos que ajudaram a realizar o sonho em ter uma estátua no lugar onde nascerão muitos craques  - disse na ocasião com o neto João no colo.

Idealizado pelo semovente Sandro Rilho e o Fla-Nação, a escultura do artista Luiz Eduardo dos Santos, ficou à altura da representatividade do Capacete para o clube e casou perfeitamente com o texto assinado por Bruno Lucena. 

Mas sobre o busto, mostra um Júnior estilo "Black Power" anos 1970 e 1980, que as gerações tiveram o privilégio de ver e ser locupletados com as conquistas da Libertadores e do Mundial, bem diferente do "Maestro" de 1992 com cabelos prateados que outras gerações seguintes viram na conquista do Campeonato Brasileiro daquele ano.

O registro fotográfico que acompanha esse artigo, em si, já dispensa comentários ou palavras para expressar o quão grande foi esse atleta.

Tão grandioso que se tornou um grande exemplo ao lado do saudoso Carlinhos (1937-2015), dando luz própria e brilho intenso às carreiras de Rogério, Júnior Baiano, Djalminha, Marcelinho, Piá, Nélio, Marquinhos, Paulo Nunes e Zinho, todos campeões nacionais ao seu lado em 1992.

Júnior não chegou à Gávea craque em 1973, mas foi sendo preparado para sê-lo.

Ao ingressar no clube à beira da lagoa, adentrou bruto pelos portões imponentes e teve a sorte de ter bons lapidários dentro e fora das quatro linhas: Modesto Bria, Jayme Valente, Pavão e Carlinhos, apenas para citar alguns.

bed771f0-d583-45b6-80e4-6ba4db4c5bb4.jpeg

Foi ganhando forma, se aperfeiçoando com tamanha habilidade, fascinando com sua elegância - ainda que precocemente - e como um diamante, foi desnudado e teve seu brilho mostrado nos gramados.

Deu a sorte - e que mal há nisso? -, pois ela caminha junto com quem é merecedor e trabalhador.

Vaidoso com a aparência ao extremo, fez o seu jogo se transformar em agradável aos olhos daqueles que torciam o nariz ao saber que com o nome de Leovegildo, poderia ser qualquer coisa, menos jogador de futebol.

Mas foi!

E foi também os poucos aprendendo a desvendar os mistérios da bola ao se arriscar, como aves marinhas costeiras ou oceânicas - essas que mergulham em alto mar à procura de alimento para sobrevivência e emergem com o peixe agonizando em seus bicos.

Sua maneira de sobreviver num esporte tão inóspito, foi através da dedicação, do amor e dos treinos exaustivos até o escurecer, onde apenas a lua e as estrelas presenciavam todo seu esforço.

Se privou de muita coisa enquanto suor e lágrima eram confundidos no rosto áspero daquele paraibano que ainda não tinha o famoso bigode, sua marca registrada - além do número 5, é lógico - até hoje.

Foi nas areias das praias cariocas, sua fiel companheira - além é claro, de dona Helô, mandatária do seu coração há 36 anos - que ia se reabastecendo para enfrentar os desafios.

Porquanto a praia foi local de hibernação do Leovegildo nas folgas, o campo, redenção de quem queria que o Júnior se transformasse em alguém na vida.

Batalhou, lutou, conquistou e se tornou verbo obrigatório terminados em "ar" de amar, que todos flamenguistas, conjugam em uma só voz: nós te amamos, senhor Leovegildo Lins Gama Júnior!

E não há de esquecer que Deus escreveu cada capítulo especial nas páginas de sua vida profissional dentro do Flamengo.

Exemplo?

Como explicar ele  lateral-direito em começo de carreira (lembram do gol contra o América/RJ na final do Carioca em 1974 do meio campo?), não ter que disputar posição com Leandro, recém chegado de Cabo Frio (e aprovado) em 1978 como lateral-esquerdo por Américo Faria?

571a7e62-f31b-4aeb-a3ca-e7aef23dfb1d.jpeg

"Obrigado, Senhor", diriam os torcedores mais torcedores de todos os torcedores, por não vê-los disputar posição no mesmo Flamengo que ganhou tudo a partir de 1980.

E convenhamos, tanto Leandro como Júnior, foram monstros em sua pluralidade como jogadores.

Sobretudo enquanto um foi fazer sua independência financeira na Itália, por onde encantou os italianos do Torino e Pescara em cinco temporadas - daí vem o apelido de "Maestro" -, o outro permaneceu aqui desfilando sua elegância vestindo as camisas 2 e 3 e assombrando com suas pernas tortas e joelhos deteriorados.

Não obstante a isso, as homenagens nada mais são do que merecidas de quem foi e continuará sendo ao lado de Zico e Leandro - ambos reconhecidamente em estátuas também - a divina trindade rubro-negra nesses quase 124 anos.

O Museu da Pelada dedica um feliz aniversário para você Júnior, que completa hoje 65 anos de vida.

DOIS CRAQUES E UM REENCONTRO

por Marcos Vinicius Cabral

cc6bdd71-29f0-4404-ab32-f19bec372dfd.jpeg

"Nosso time se tornou um grupo com uma união muito forte fora de campo. Às quartas-feiras no Cinco de Julho, jogávamos para ajustar os erros. Com isso, acabamos um bom tempo invictos e aproveitando para treinar para o campeonato, já que o mesmo era disputado por grandes equipes e bons jogadores. Ganhar do Pouca Rola foi uma das maiores vitórias desse time com uma espinha dorsal composta por Leleco, por mim, Irineu, Gonçalinho e Guina. Lembro do campo cheio naquele domingo e da confiança transmitida pela nossa torcida. O resultado em si foi para confirmar o talento de uma geração representada por grandes jogadores". (Marcinho, ex-zagueiro do Grêmio, atualmente com 51 anos)

"Havíamos disputado campeonatos anteriores, éramos uma equipe de amigos e jogando juntos ficamos fortes. Recheado de craques, um garoto, craque de bola, chamado Marcos Vinicius, apelidado de Lito, cresceu vendo aquele time jogar e passou a fazer parte do elenco. Naquele fatídico jogo, o árbitro, de nome Nei, era tio de um jogador do Grêmio e nós já imaginávamos o que poderia acontecer. Atribuo a ele nossa derrota pois foi o único culpado por não termos chegado à final. Foi uma grande decepção, e uma covardia o que o organizador do campeonato fez, pois ele torcia para o time que era o nosso principal rival". (Flávio, ex-meia do Pouca Rola, atualmente com 48 anos)

O domingo se aproximava e a ansiedade calçava chuteiras para entrar em campo.

De um lado, a boa equipe da "Esquina do Pecado" em Neves - point de encontro dos jogadores do Grêmio Futebol Clube - se reunia para ouvir atentamente o treinador Dico traçar sua estratégia.

Não muito longe dali, no "Bar de César" - que ficava em frente à Praça do Barreto - o Pouca Rola Futebol Clube se preparava para a partida mais difícil da temporada.

Vencer o nervosismo era sair na frente naqueles 90 minutos que definiriam quem chegaria à final do 5° Campeonato Comunitário do Ceclat, em 1990.

f111f947-4262-4307-9711-e9d1b6cb78bd.jpeg

Dois jogadores se tornaram símbolos das cores que defendiam: o zagueiro Marcinho, camisa 5 do Grêmio, e Flávio, camisa 10 do Pouca Rola.

- Enfrentar Flávio era saber que o jogo ia ser duro, devido a sua qualidade técnica. Nós fomos criados ali no Barreto e todos se conheciam. Não podíamos relaxar pois de um grande jogador sempre se espera alguma coisa - elogia Marcinho.

- Não quero entrar no mérito do quanto fomos prejudicados pela arbitragem mas Marcinho e Leleco (goleiro), foram fundamentais para a vitória deles com uma grande atuação - devolve Flávio.

Polêmicas à parte, os olhos castanho-claros de Marcinho e os esverdeados de Flávio, olham na direção do passado para reviver esse confronto.

Confronto este que começou bem antes do apito inicial da partida com provocações de ambos os lados durante a semana e encerrada na manhã daquele domingo quando cada atleta colocou a planta de seus pés no solo sagrado do Clube Combinado Cinco de Julho.

Fundado em 1927, o ‘Gigante da Zona Norte‘ que vivera tantas decisões emocionantes, estava prestes a transformar Grêmio e Pouca Rola num confronto histórico assim como inesquecível.

Nas escalações dos times, nada de novo, apenas uma mexida no setor de meio-campo do Pouca Rola com a entrada de Isidoro no lugar de Lito.

- Até hoje não consegui entender minha sacada do time, pois vinha fazendo um grande campeonato e jogávamos com o regulamento debaixo do braço - diz o ex-camisa 8 Lito.

E completa:

- Comecei a jogar bola com 13 anos de idade e ter sido preterido numa semifinal contra o Grêmio, foi sem sombra de dúvidas, uma das maiores frustações no futebol - lamenta o habilidoso meia hoje com 45 anos.

Contudo, o lateral gremista Irineu vai além:

- Para ser sincero não lembro muito do jogo, afinal de contas, são 29 anos que ele aconteceu. Mas pra mim teve um gosto especial, já que joguei no Pouca Rola na sua primeira formação e sempre tive carinho pelo time. O barato disso tudo eram as provocações - relembra aos risos.

ee7fe4d9-0f5f-413e-b6f7-c0a9af21b342.jpeg

Mas naquela manhã de sol forte, foi preciso esquecer o sorriso e fechar a cara e os portões do clube, pois os craques daquela partida atraíram muitos torcedores.

O campo lotado como poucas vezes se viu enquanto os jogadores transpiravam demasiadamente um bom espetáculo.

Leleco, Mauricio, Marcinho, Mongol e Irineu; Zé Baleba, Gonçalinho e Testão; Guina e Eraldinho, pisaram no palco sagrado de terra batida, com seu tradicional uniforme: camisa branca e azul listrada na vertical, short branco e meiôes azuis.

Já na outra metade dos 60m x 40m de sua extensão completa, Cidinho, César, Milton e Jay; Isidoro, Neizinho e Flávio; Boulevard e Willian, aqueciam sob olhares confiantes numa vitória.

- Nosso time era favorito com méritos próprios e todos queriam ganhar da gente - recorda César, camisa 2 do Pouca Rola.

Bola rolando e o Pouca Rola vai para cima sendo soberano nos 45 minutos iniciais, com Leleco operando milagres no gol gremista.

A vontade de vencer empurra o time que joga todo de vermelho e comandado por Zeir (Roberto era o treinador mas por questões pessoais não pôde comandar a equipe), sai em busca do gol.

Numa bola despretensiosa, o zagueiro Milton (até então impecável na partida) sendo último homem, domina mal uma bola rechaçada no meio-campo e o arisco Guina numa arrancada dá um tapa na frente e toca na saída de Cidinho.

Um a zero.

Segundo tempo começa e o Grêmio usa o célebre adágio de "o melhor ataque é a defesa" e a zaga segura o ímpeto do adversário.

Depois disso, inúmeras chances desperdiçadas, gol de cabeça de Flávio mal anulado, empurrão em Boulevard dentro dentro da área não assinalado, uma mão na bola em cima da linha do gol que evitou o empate que o juiz não marcou e invasões em campo, manchariam o jogo que marcaria Flávio e Marcinho.

Fim de jogo: 1 a 0 para o Grêmio e comemoração discreta de um time que acabaria vencendo o Avenida e sagrando-se campeão.

Coisas da bola que excede todo entendimento.

b268cdf7-e8a5-4589-9619-fa0ed82de3eb.jpeg

Enquanto Flávio sempre honrou a camisa 10 por onde jogou, Marcinho como zagueiro sempre foi um admirável líder.

Ambos, inegavelmente foram craques.

Enquanto um defendia com propriedade sua área o outro era elegante até com os meioēs arriados para atacá-la.

Se um foi duro, porém leal o outro foi clássico como a Sinfonia n.o 5, dita Sinfonia do Destino, de Ludwig Van Beethoven.

Um foi apaixonado pela bola e o outro apenas amante.

Passados quase 30 anos, a sensação que se tem é que aqueles 90 minutos ainda não terminaram e só terminaram numa conversa a sós na Praça Monsenhor Albuquerque na Mangueira em São Gonçalo, onde se reencontraram a pedido do Museu da Pelada para falarem do jogo que mudou suas vidas.

E porque não dizer, o jogo que transformou uma rivalidade numa grande amizade entre eles.