Leandro Ginane

VOLTAMOS A TORCER

por Leandro Ginane

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Depois de muitos anos os brasileiros se entregaram de corpo e alma durante cento e vinte minutos a um jogo da seleção brasileira. O sentimento que parecia adormecido com a seleção masculina parece ter despertado com as mulheres brasileiras em campo na Copa do Mundo da França.

O grito uníssono que ecoou por todo o Brasil quando a bola balançou a rede francesa empatando o jogo em um a um trouxe um sopro de esperança de que ainda há algo que possa unir um povo tão dividido nos últimos anos!

Há de fato uma conexão especial entre essa seleção e o torcedor brasileiro, que vai muito além do esporte. Torcer pelas mulheres brasileiras foi um ato feminista que despertou um sentimento de nostalgia de um futebol que não existe mais: sem vaidades; onde suas jogadoras não caem ao gramado a cada contato com o adversário e que emocionou a cada cena de seus familiares na torcida durante o jogo. Uma seleção que joga por amor, um sentimento raro atualmente no futebol e que transbordou na entrevista da Marta logo após a eliminação brasileira ( https://glo.bo/2X39px6 ) e no narrador que, mesmo com o gol que parecia ter sido anulado, não parou de gritar e acertou!

Ao mesmo tempo em que a Copa do Mundo de futebol feminino está acontecendo na França, aqui no Brasil está sendo jogada a Copa América masculina de futebol com estádios vazios e rendas milionárias, onde o preço médio para assistir ao jogo de estréia da seleção brasileira foi de quatrocentos e oitenta e cinco reais e com isso atraiu uma torcida irreconhecível que entoou o canto "Defense!" durante a partida, numa referência ao tradicional grito das torcidas americanas em jogos de basquete.

Em meio a escândalos no judiciário, páginas policiais e estádios vazios, o Brasil se uniu novamente em torno do futebol, dessa vez representado pelas mulheres que puderam mostrar mais uma vez o quanto os homens precisam aprender com elas.

ATÉ LOGO, FLAMENGO

por Leandro Ginane

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O Flamengo vive um momento de transformação que teve início em 2012 com um novo modelo de gestão que visava sanar os históricos problemas financeiros das gestões anteriores.

Sete anos depois, o objetivo foi alcançado e em 2019 o Flamengo já um dos clubes mais ricos do mundo. Porém junto com os benefícios de uma gestão profissional, pouco a pouco o futebol rubro-negro foi se transformando.

Com a chegada de jogadores sem identificação com a história do clube e cuja a aparência mais e assemelha a um ator de novela com previsíveis declarações à imprensa nas mais dolorosas derrotas, o alto preço de ingressos e o programa de Sócio Torcedor que favorece os mais ricos, um efeito colateral vem atingindo em cheio o maior patrimônio do clube, seu torcedor. Me refiro àquele torcedor que ia ao Maraca ver o Mais Querido jogar todo domingo e apoiava o tempo todo jogadores como Gaúcho, Piá e Charles Guerreiro que mesmo não sendo craques, honravam a camisa rubro-negra.

Esse espírito que uniu anos a fio time e torcida parece ter se transformado desde o início da “gestão profissional” e da inauguração da Arena Maracanã, em 2013. Com ingressos que chegaram a custar duzentos e cinquenta reais, a pequena arena tem sido invadida por torcedores que usam as redes sociais para destilar seu ódio e agora fazem o mesmo na arquibancada, com críticas direcionadas a determinados jogadores e técnicos. Um ódio jamais visto na torcida que ficou conhecida desde cedo como sinônimo nacional de festa, alegria e Carnaval, como diz Ruy Castro no ótimo livro “O Vermelho e o Negro”.

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Esse processo de elitização da arquibancada fez a alegria dar lugar a um ódio que a cada jogo se acentua, tornando o Flamengo um time covarde, frágil e perdedor. O time do cheirinho, gerido por dirigentes que desejam agradar os torcedores das redes sociais que sequer conhecem a história do time mais popular do Brasil, o time da favela, do preto, do povo, que treinava na rua por falta de um campo profissional.

O que tenho refletido é se ainda há possibilidade de resgatar as raízes que fez do Flamengo a potência que é hoje. O time capaz de unir ricos e pobres; pretos e brancos. O time mais popular do mundo, que mesmo com jogadores inferiores ganhou títulos improváveis, graças a raça e a união com a arquibancada, como em 2001 no gol de falta do gringo mais rubro negro do Brasil, Petkovic, há dezoito anos.

Talvez ainda haja um caminho, que provavelmente é político por meio de integração social. Até lá, torcerei de longe, na esperança de que meu filho um dia conheça o verdadeiro time do povo.

TRISTE FIM

por Leandro Ginane

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Eduardo Bandeira de Mello assumiu a presidência do Flamengo em 2013 repleto de expectativa sobre sua capacidade de gestão, que em poucos anos faria do Flamengo o clube mais rico e vitorioso do Brasil. Esse foi o lema durante seu primeiro mandato. Com o discurso afiado contra corrupção, gastos excessivos e má administração, logo recebeu apoio da opinião pública, torcedores e sócios do clube, que ansiavam ver o Flamengo vencedor como no passado. A adesão a sua figura foi tamanha que, mesmo rompendo com os principais aliados da famosa Chapa Azul, foi reeleito em 2016 para mais três anos. Com o sucesso da gestão financeira do clube, seu lema passou a ser as vitórias em campo e prometeu que o Flamengo voltaria a viver seus anos de glória. Novamente recebeu apoio da opinião pública e iniciou seu segundo mandato.

No entanto, o que ele fez foi personificar cada vez mais a gestão do clube. Se aproximou do departamento de futebol e afastou o Flamengo das suas raízes populares, elitizando o clube mais querido do país. Um erro fatal.

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Investiu milhões de reais em jogadores sem identificação com as cores rubro negras, vendeu o maior ídolo criado no Flamengo em anos e estabeleceu uma política de preços de ingressos que chegaram a custar R$250,00 (duzentos e cinquenta reais) por partida, tornando os jogos do time um show de entretenimento para a TV, com jogadores vaidosos escolhidos a dedo que adotaram a cada derrota o discurso do presidente, pautado em sua assessoria de imprensa. Suas ações classistas afastaram o Flamengo do seu povo e da glória.

Com apenas um título relevante em seis anos de gestão, Eduardo Bandeira de Mello manteve uma agenda pessoal bem definida durante sua gestão e a última tacada foi usar a popularidade que o Flamengo lhe deu para se candidatar a um cargo público, como Deputado Federal pelo REDE. Iniciou a campanha política sem deixar o cargo de presidente do clube e com uma “decisão institucional” exigiu que o time entrasse em campo com seus principais jogadores em três competições diferentes. O objetivo era vencer as três competições, mas o resultado foram jogos de dois em dois dias e a eliminação em dois dos três campeonatos que participava. Essa atitude institucional deixa dúvidas sobre a verdadeira ambição do presidente.

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No pleito pelo cargo público, o resultado foi o mesmo que ele tem conseguido com o Flamengo: fracasso. Com apenas quarenta mil votos, recebeu menos votos do que o Flamengo tem de sócios torcedores, que atualmente está na faixa de cem mil. No campo, para tentar salvar o ano, contratou o mesmo técnico que foi demitido em 2013 assim que assumiu o clube, o que dá a sensação de que o clube está andando em círculos.

A elitização do Clube mais Popular do Brasil está cobrando seu preço e o fim da história do presidente que governou o Flamengo para as elites está cada vez mais perto. Nem a conquista do hepta campeonato brasileiro em 2018, caso aconteça, conseguirá apagar o fim melancólico dessa gestão.

Para o novo presidente fica o aprendizado dos erros cometidos e a esperança de tentar resgatar as raízes do Flamengo para que os troféus sejam consequência da união com o povo.

FESTA NA FAVELA

por Leandro Ginane

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A liderança do Flamengo no Campeonato Brasileiro não é surpresa. Mas não deve ser analisada sob a ótica das táticas, gestão e contratações que foram feitas para o campeonato. A grande diferença deste Flamengo para aquele dos anos anteriores é a presença da sua torcida nos estádios.

Os trens estão novamente lotados. Na entrada do Estádio, é oferecido o melhor amendoim da Mangueira. Crianças na carcunda dos pais exibem seus sorrisos.

Com ingressos a R$15,00, a Nação Rubro-Negra, como é carinhosamente chamada, esta voltando ao Maior do Mundo e é presença constante nos jogos do time este ano. Mesmo sem a bateria e as bandeiras de outrora, o Estádio cheio dá um tom diferente a cada jogo e traz um clima de final para os confrontos. Não é a toa que o Flamengo lidera o Campeonato Brasileiro, não só na tabela de classificação, mas também nas bilheterias.

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A saída prematura do craque do time com apenas dezoito anos, não diminuiu a empolgação do torcedor e com sua tradicional característica bem humorada, jogo a jogo entoa o grito “Segue o líder”.

Se o líder do campeonato continuar sendo o líder do povo, esse time do Flamengo recheado de jogadores da base, tem grandes chances de se sagrar campeão. Essa mistura entre time e torcida sempre fez parte do futebol brasileiro, em especial do time mais popular do Brasil. A volta do povo ao estádio, com preços baixos e a manutenção de jovens promessas da base devem ser as prioridades dos times brasileiros.

Ontem ao final do jogo, um fato marcante: a música que se ouvia dentro do Maracanã era “Festa na favela”, fato raro nos dias de hoje. Esse reencontro deve permanecer até o fim do campeonato, não só com o Flamengo, mas com todos os times do Brasil.

O futebol respira.

LONGE DO POVO

por Leandro Ginane

A seleção brasileira está há dezesseis anos sem vencer uma Copa do Mundo. Serão vinte anos sem levantar o caneco até a próxima Copa que será realizada no Qatar, em 2022. Desde 1950, o maior tempo que a seleção brasileira ficou sem ganhar um título mundial foi entre 1970 e 1994, quando venceu o tetra nos Estados Unidos.

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Os jogadores que ganharam o tetracampeonato sofriam a pressão de vencer um mundial após duas décadas e tinham como sombra seleções que encantaram o mundo, mas não venceram, como o time de 1982 que para muitos foi um dos melhores de todos os tempos. Jogavam o futebol arte, com estilo de jogo que só o brasileiro sabia fazer com maestria, com habilidade e improviso. Curiosamente, para vencer em 1994 a seleção brasileira modificou completamente seu estilo. Rotulada como uma seleção que jogava para não perder, tinha em sua dupla de ataque a única grande esperança de gols. Com grande destaque para o número onze Romário, que foi convocado apenas no último jogo das eliminatórias graças ao clamor popular dos torcedores brasileiros. Na época, dirigentes, opinião pública e a comissão técnica cederam ao desejo do povo.

O tricampeonato mundial e a hegemonia histórica no futebol, impunha àqueles jogadores e a sua comissão técnica o velho bordão: tem que vencer e convencer. Era como se para ser um legítimo campeão, fosse necessário jogar o futebol mais bonito para encantar o mundo, herança das grandes seleções que tinham Pelé, Garrincha e Tostão como jogadores, uma seleção formada em sua maioria por camisas dez.

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O desejo pela hegemonia no futebol somada a pressão por um título após vinte e quatro anos, resultou na humildade em entender que para voltar a vencer, seria necessário modificar o estilo de jogo brasileiro, tão aclamado até então. Com um esquema tático que privilegiava a marcação, aliado aos talentos individuais de Bebeto e Romário, a seleção voltaria a se sagrar campeã após duas décadas.

O fato de se tornar campeã mundial pela primeira vez sem o Pelé, tirou um peso enorme das costas dos jogadores brasileiros; e a leveza de ser a atual campeã, fez o futebol brasileiro retornar as suas raízes, conquistando o mundo com títulos e atuações inesquecíveis a partir de então. Após o tetracampeonato, o Brasil participou de mais duas finais de Copa em sequência, em 1998 perdendo para a França e em 2002, quando venceu a Alemanha se tornando o única seleção pentacampeã mundial. Enfim, a hegemonia estava de volta e com ela a seleção passou a viver então uma espécie de síndrome de vira-latas as avessas onde seus jogadores ganharam status de astros globais, sendo premiados como os melhores do mundo em 1997, 1998, 2002, 2004, 2005 e 2007.

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Inebriados pelo sucesso e com uma postura arrogante que caminhava junto com a certeza de que o hexacampeonato viria no próximo torneio, jogadores e comissão técnica se afastaram do povo e usaram os treinamentos durante a Copa de 2006 como um verdadeiro show de entretenimento.

O resultado foi a eliminação precoce nas quartas de final para a França, algoz do vice campeonato brasileiro em 1998. Uma grande decepção tomou o país e quatro anos depois, ainda com a arrogância de quem carregava a hegemonia do futebol mundial, a solução adotada foi o isolamento dos jogadores e fechamento dos treinamentos, que resultou em forte crítica da opinião pública. Outro fator determinante que reforça a arrogância, foi o fato de novamente desconsiderar o clamor popular em 2010, que naquela ocasião pedia Neymar e Ganso na seleção, jovens promessas do futebol brasileiro. O resultado foi uma nova eliminação nas quartas de final, agora para Holanda. A tristeza de uma eliminação precoce nas quartas de final deu lugar rapidamente a euforia pela próxima Copa, que seria novamente realizada no Brasil, sessenta e quatro anos depois. Era a chance de reescrever a triste história da Copa de 1950.

A expectativa pelas transformações realizadas em estádios tradicionais, como o Maracanã, que descaracterizou o Maior Estádio do Mundo para que se tornasse uma arena europeizada para disputa da Copa, a empolgação da população brasileira e a trajetória descendente da CBF, diminuiu a importância do trabalho que vinha sendo feito pelas seleções européias, que evoluíram taticamente e importaram ano após ano os talentos sulamericanos

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A postura paternalista da comissão técnica brasileira, que apostava em palestras motivacionais para vencer um torneio tão competitivo, resultou na eliminação mais vergonhosa da história da seleção, o fatídico 7 a 1 imposto pela Alemanha em pleno Mineirão, na semifinal do torneio. Enfim, a realidade cobrou o seu preço e expôs ao mundo a fragilidade do futebol brasileiro. O clima no país era de terra arrasada, brasileiros choravam pelas ruas, nunca na vitoriosa história da seleção brasileira, houve uma derrota tão vergonhosa como aquela. Deveria ser o início de uma renovação, mas não foi.

Sem direção e com seus principais dirigentes investigados pela justiça, a CBF optou pelo mesmo técnico derrotado em 2010, uma espécie de técnico fantoche e sisudo que teria como missão colocar ordem e resgatar a reputação da seleção, que aquela altura não possuía mais a hegemonia do futebol mundial e se tornara motivo de piadas em todo o mundo. Obviamente, não conseguiu. Com uma sequência de resultados ruins, foi substituído pelo nome que era consenso entre a opinião pública. Um profissional com capacidade técnica comprovada pelos seus últimos resultados em clubes e imune às críticas, devido a ótima eloquência e o ar professoral em suas entrevistas coletivas, que mais pareciam uma palestra. Os primeiros resultados na eliminatória da Copa foram surpreendentes e novamente a empolgação tomava conta do país as vésperas da Copa da Rússia 2018. Com o novo professor, o Brasil ascendeu no ranking da FIFA e passou a ocupar a segunda posição, atrás apenas da Alemanha, a atual campeã mundial.

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O cenário de euforia e certeza deu o tom, as entrevistas da comissão técnica explicavam matematicamente cada decisão tática. Enfim o hexa viria e a hegemonia do futebol era questão de pouco tempo. Mas novamente a seleção foi surpreendida, dessa vez por uma seleção sem tradição que se tornara uma das grandes sensações da Copa da Russia, a Bélgica. Na única derrota em jogos oficiais sob seu comando, o professor unânime entre os especialistas, errou. Com uma escalação equivocada e organização tática que desconsiderou o talento adversário, em apenas 45 minutos o jogo já estava liquidado e mais uma vez a seleção brasileira foi eliminada precocemente da Copa do Mundo. Com a eliminação, não veio a busca por um vilão, como é o costume da mídia e do torcedor brasileiro em Copas passadas. O sentimento também não foi de decepção, o que sugere que o discurso pós derrota do professor apoiado amplamente pela opinião pública foi suficiente para diminuir a dor da perda.

Em 2022, serão vinte anos sem disputar uma final de Copa. É o momento de voltar a escutar o clamor popular e dar oportunidade a jovens promessas. Mas principalmente: criar um diálogo direto com o povo para não se tornar o reflexo das instituições governamentais brasileiras. Chegou a hora de ser crítico em relação a função do futebol na sociedade brasileira e questionar os discursos elitistas e de auto ajuda que tentam esconder a realidade de que o Brasil se tornou um coadjuvante não só no cenário político e econômico mundial, mas também no futebol.