Jogos Históricos

DUELOS ANTOLÓGICOS EM SÃO PAULO

por Émerson Gáspari

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O futebol acrescenta jogos na história praticamente todos os dias.

Ao final de cada campeonato, são centenas de confrontos que viram arquivo, sendo então, rapidamente esquecidos.

A própria falta de televisionamento no passado contribuiu para que muitos deles, num passado mais distante, caíssem no mais completo esquecimento. Outros, dada a época, sequer foram filmados. Várias partidas, no entanto, foram especiais.

Este texto tem por intenção, impedir que algumas se percam para sempre, já que o tempo insiste implacavelmente em tentar varrer a história para debaixo do tapete, cabendo a nós, o dever de perpetuá-la através das gerações.

Como paulista, destaco aqui confrontos realizados em São Paulo – inclusive no interior, em sua fase áurea – sobretudo para conhecimento dos torcedores de outros estados.

São quinze partidas inesquecíveis, por uma ou outra razão.

Algumas, conhecidas apenas nas cidades em que foram realizadas ou exclusivamente pelas torcidas dos clubes nelas envolvidas. Mas que merecem ser conhecidas do grande público, também.

Torço para que após esta minha iniciativa aqui no Museu da Pelada, surjam outros textos, revelando confrontos sensacionais nos demais estados do nosso país, também.

Ou pelo menos, resenhas que abordem jogos maravilhosos ou curiosos que já tivemos.

Obviamente esta pequena lista não tem pretensão alguma de ser um ranking, muito menos, ter qualquer efeito oficial. Pelo contrário: os dois primeiros jogos envolvem o meu clube de coração, o Paulista de Jundiaí.

Trata-se apenas uma lista pessoal, descompromissada, a qual não merece reparos em suas escolhas, mas sim, ser acrescida de outros jogos que possam, eventualmente, serem relembrados pelos queridos amigos leitores.

Portanto, mãos à obra! E boa leitura.

PAULISTANO 5 X 4 PAULISTA (10/10/1920)

“A TAÇA FICOU EM SÃO PAULO, MAS A COMPETÊNCIA FOI PARA JUNDIAÍ!”

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Onze vezes campeão paulista e chamado pelos franceses de “Reis do futebol” devido a uma vitoriosa excursão por lá, o Paulistano era franco favorito para conquistar a “Taça Competência”, até então, sempre vencida com extrema facilidade pelas equipes da capital, em disputas diante dos times do interior. A epidemia de gripe espanhola andou atrapalhando demais o calendário futebolístico, com a decisão dessa versão 1919 só ocorrendo no final do ano seguinte, ficando marcada (e manchada) em relação a todas as demais, pelo ocorrido ao final da partida. O estádio do Floresta ficou apinhado de senhores de terno e chapéu torcendo pelo Paulistano, então o primeiro (e até hoje único) tetracampeão paulista (1916/7/8/9): o alvi-rubro de Arnaldo, Orlando e Carlito; Sérgio, Rubens e Benedicto; Formiga, Mário Andrada, Friedenreich, Zecchi e Netinho. O tricolor (campeão do interior) com Bruno, Paulino e Lilo; Bertolini, Rosa e Tatu; Bueno, Miguelzinho, Camargo, Minguta e Lamaneres. A torcida paulistana, fã de Friedenreich, ficou satisfeitíssima com os três gols assinalados pelo artilheiro durante a partida. Só não contava que o Paulista iria endurecer, com o centroavante Camargo “Gigante de Ébano” (maior artilheiro de sua história) e suas arrancadas fabulosas, que terminavam dentro do gol adversário. A apreensão dos torcedores cresceu muito com o placar se mantendo em 4x4 até os minutos finais do prélio. Até que Fried – com a triste conivência da arbitragem – empurrou para as redes com a mão, estabelecendo o placar final de 5x4, que deu o título da Taça Competência para o Paulistano. No dia seguinte, o “Estadão” da capital publicou a seguinte manchete: “A taça é do Paulistano, mas a competência foi para Jundiaí”.

PORTUGUESA SANTISTA 1 X 2 PAULISTA (14/10/1984)

“O DIA EM QUE AILTON LIRA PERDEU O ÚNICO PÊNALTI DE SUA CARREIRA”

É considerada a mais emocionante partida do Galo em sua centenária história: o time não podia sequer empatar, se quisesse prosseguir na luta pelo acesso à Primeirona.

Mas a Santista era páreo duro e obtivera um empate de 2x2 em Jundiaí, dias antes, graças a um penal cobrado pelo experiente e infalível Ailton Lira. Dramático, o jogo aconteceria no acanhado estádio Ulrico Mursa, diante de seis mil torcedores, naquela tarde de domingo. A Portuguesinha de Marquinhos, Balu, Arouca, Orlando e Claudinho; Zé Carlos, Tadeu e Ailton Lira; Fernandinho, André e Josemar. O Paulista com Luiz Fernando, Benazzi, Marco, Alexandre e Caíca; Gerson Andreotti, Carlos e Célio; Tata, Ricardo e Zé Roberto. O Paulista começou a todo vapor, até que aos 18 minutos, após cruzamento de Caíca, Arouca cortou de cabeça e Benazzi, que entrava em diagonal pela direita, na corrida, acertou de fora da área, um tremendo “pombo-sem-asas”: 1x0. Quatro minutos depois, numa jogada ensaiada, Ailton Lira cobrou escanteio da direita, no primeiro pau, de onde Fernandinho desviou para Orlando completar, no segundo, empatando: 1x1.  Apesar disso, o Paulista continuou melhor até a metade da segunda etapa, quando então a Lusinha começou a pressionar, ficando o Galo, com os contra-ataques.  Finalmente, num deles, quase aos 46 minutos, Célio lançou Ricardo, que serviu Carlos. Ele invadiu a área e tocou com categoria, para vencer Marquinhos: 2x1. No desespero e com chuveirinhos, o time da casa aperta, até que aos 49 minutos, a bola bate nas mãos de Tata e Marco e o juiz dá o pênalti, para desespero do saudoso locutor Hélio Luiz, que se recusa a olhar a cobrança dizendo que “o Paulista será desclassificado”. Ailton Lira bate com a costumeira classe e violência aos 50 minutos, mas a bola estoura na trave direita de Luiz Fernando e Hélio, agora chorando, berra, nos microfones da rádio Difusora: “Ailton Lira perdeu o único pênalti de sua vida! Eu não aguento... Adilson!”. Enquanto isso, Adilson Freddo – repórter de campo e no banco de reservas do time – é alvejado por sacos de urina, arremessados pela furiosa torcida da casa. Mas a euforia jundiaiense é tamanha, que os torcedores jundiaienses chegam até, a comprar um bolo confeitado com o escudo da Portuguesa numa padaria defronte ao estádio e o levam para Jundiaí, onde permaneceria em exposição – feito um troféu – por uma semana na vitrine da lendária panificadora “A Paulicéia”, então o ponto mais tradicional de Jundiaí.

BOTAFOGO 1 X 1 COMERCIAL (19/12/1954)

“QUANDO O CLÁSSICO DA CIDADE FOI BATIZADO DE COME-FOGO”

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Um belo domingo de sol emoldurou o estádio “Luiz Pereira” para o jogo que marcava a volta do clássico da cidade após 18 anos de ausência comercialina dos gramados, fase na qual obtivera amplo predomínio sobre o rival. Mas agora eram tempos mais difíceis, com o clube jogando em campo alugado, sem os barões do café para sustenta-lo. Teria pela frente um adversário melhor estruturado e o confronto seria na “toca” inimiga. O saudoso jornalista Lúcio Mendes captou a atmosfera do duelo e cunhou para a partida, a célebre denominação de “Come-Fogo”, quando escrevia sobre o clássico prestes a acontecer, no jornal “Diário da Manhã”. O “Pantera da Mogiana” veio para o jogo, com Ênio, Mexicano e Kelé; Diógenes, Oscar e Nascimento; Dorival, Neco, Ponce, Américo e Fernando. O “Leão do Norte” alinhou Mário, Toninho e Sula; Assunção, Bié e Laércio; Sígulo, Ademarzinho, Maneca, Mairiporã e Clive. O Bafo começa melhor, perdendo boa chance aos sete minutos. As oportunidades se alternam para os dois quadros, mas o Comercial continua superior e aos 35, sai na frente: o lateral Assunção cobra falta pela direita, Kelé fica indeciso, Ênio sai atrasado e o esperto Mairiporã cabeceia firme por cobertura, bem no meio do gol, fazendo 1x0. Em vantagem, o Bafo se assenta ainda mais no gramado, tocando melhor a bola. Mas a velha garra botafoguense ressurge no segundo tempo e, mesmo criando as melhores oportunidades, o Comercial vai sofrendo uma pressão crescente, até que aos 18 minutos acontece o tento de empate, numa tabela bem executada entre Fernando e Américo; este último apanha um chute firme, à meia-altura, para as redes. Belo gol! Depois disso, o Botafogo acredita na virada, a torcida empurra, o juiz não assinala um pênalti para o tricolor e o primeiro Come-Fogo da era profissional terminou mesmo num justo – e diplomático – 1x1, entrando para a história.

PONTE PRETA 3 X 2 GUARANI (05/8/1981)

“O CHAMADO DERBY CAMPINEIRO DO SÉCULO”

O Derby Campineiro é considerado o grande clássico do interior do país. Houve uma fase em que Guarani e Ponte atingiram o ápice futebolístico e protagonizaram jogos memoráveis, mas um em especial é tido como o maior de todos: o da decisão do 1º turno do Paulistão, em 1981. O ponte-pretano Luciano do Valle narraria o confronto ao vivo, pela TV. Após um equilibrado 1x1 no “Brinco de Ouro”, a decisão havia ficado para o “Moisés Lucarelli”, naquela noite em que o melhor ataque (do Guarani) e a melhor defesa (da Ponte) se enfrentavam. O Bugre pisou no gramado com Birigui, Chiquinho, Mauro, Edson e Almeida; Jorge Luís, Éderson e Jorge Mendonça; Lúcio, Careca e Ângelo. Téc. Jair Piceni. A Macaca, com Carlos, Toninho Oliveira, Juninho, Nenê e Odirlei; Zé Mário, Humberto e Dicá; Osvaldo, Chicão e Serginho. Téc. Zé Duarte. Foi uma batalha emocionante do começo ao fim, cheia de alternativas. Apesar disso, o primeiro gol demorou a sair: aos 37 minutos, Osvaldo fez um belo gol por cobertura, depois de um cruzamento de Odirlei pela esquerda: 1x0 Ponte. Oito minutos mais tarde, Ângelo empatou, após um bate-rebate na entrada da área. Na volta do intervalo, novamente a Ponte passou à frente: aos 4 minutos, numa falha clamorosa de Birigui, que quis evitar um escanteio e soltou a bola nos pés de Osvaldo, presenteando-o com o segundo tento: 2x1. Só que o Guarani não desistia e aos 8 minutos do segundo tempo tornou a igualar, após escanteio pela esquerda e três cabeçadas consecutivas, sendo a última delas, de Jorge Mendonça: 2x2.  A partir daí, o jogo ficou aberto e sucessivas chances foram surgindo, podendo definir o duelo. E a Ponte Preta seria mais feliz: aos 36, Odirlei arrancou e numa bela jogada pela meia, invadiu a grande área, batendo cruzado, no cantinho e selando a vitória de 3x2.  A Ponte, campeã do 1º turno, estava classificada para a final do Paulistão. Campinas era o centro futebolístico estadual, naquele momento.

XV DE PIRACICABA 2 X 2 SANTOS (11/9/1949)

“BATEU O ESCANTEIO, CORREU E CABECEOU!”

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Parecia apenas mais um jogo do Campeonato Paulista, mas o que aconteceu no final beirou o inacreditável. Aconteceu no antigo estádio Roberto Gomes Pedrosa, em Piracicaba, diante de 4.300 testemunhas. O Santos com Chiquinho, Hélvio e Dinho; Nenê, Paschoal e Alfredo; Nicácio, Antoninho, Juvenal, Simões e Odair.  O XV, com Ari, Elias e Idiarte; Cardoso, Armando e Strauss; Russo, De Maria, Sato, Gatão e Rabeca.

Odair marcou os dois gols da equipe praiana, enquanto De Maria descontara para o

“Nhô Quim”. O Santos controlava a pressão da equipe piracicabana, até que aos 41

minutos do segundo tempo, cedeu um escanteio. Ventava muito, naquele instante.

O lépido ponta Russo apressa-se para bater. Cobra em direção à marca penal, bem alto – propositalmente – para ganhar tempo de correr para a área, na intenção de talvez, apanhar algum possível rebote e (quem sabe) ajudar a equipe. Por mais incrível que possa parecer, a bola sobe muito, porém, empurrada pela força da ventania, começa a cair, voltando na direção do ponta, que à esta altura, já vai entrando na área. Russo sente a oportunidade e salta no meio de um bolo de atletas, conseguindo cabecear, mesmo desequilibrado, na meta inimiga, vencendo o atônito goleiro Chiquinho. Ou seja: bateu o escanteio, cabeceou e fez o gol! O árbitro inglês PercySnap – que jamais havia visto um lance assim na vida – validou o tento, equivocadamente. Os santistas ficaram indignados – é lógico – ainda mais, porque o jogo terminaria empatado. Curioso que Mr. Snap viera para São Paulo, porque a FPF, “importara” árbitros ingleses, a fim de diminuir os erros e reclamações frequentes com relação às arbitragens brasileiras. Deu no que deu... Para os mais céticos – é bom ressaltar – o gol foi devidamente documentado pelo mais respeitado historiador do interior paulista: Delphin da Rocha Netto, que foi, inclusive, testemunha ocular do fato. Outro que presenciou a jogada, trabalhando como locutor de uma rádio que transmitia o jogo, foi o apresentador esportivo Léo Batista. O lance inclusive está descrito no livro do centenário do XV de Piracicaba e foi explicado pelo professor Francisco Guimarães da USP de São Carlos. Segundo ele, apesar do ângulo da trajetória da bola ter sido de 60 graus na trajetória do chute, o fato só foi possível, devido à ação dos ventos. E para quem ainda não se convenceu, na Internet mesmo, há um gol semelhante, assinalado numa pelada no exterior – em campo menor, é verdade – mas que revela a influência determinante do vento, nesse tipo de jogada. 

FERROVIÁRIA 6 X 2 PALMEIRAS (20/5/1962)

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“O CONFRONTO DAS DUAS ACADEMIAS”

Tarde de domingo na “Morada do Sol” e jogão no estádio da Fonte Luminosa, válido pelas quartas-de-final da Taça Cidade de SP, sob a arbitragem de Anacleto Pietrobon.

De um lado, a grande “Academia”, com Rosan, Jorge, Sebastião e Mané; Flávio e Jurandir; Gildo, Americo, Geraldo, Chinesinho e Fernando. Do outro, a “Academia do Interior”, com Toninho, Ismael, Antoninho e Zé Maria; Dudu e Rodrigues; Laerte, Aurélio, Parada, Bazzani e Benny. A “Locomotiva”, entusiasmada, saiu na frente, aos sete minutos, com seu astro, o meia Bazzani.  O jogo prosseguiu favorável à “Ferrinha”, que aos 30 ampliou, com Ismael. O Verdão conseguiu então diminuir com Américo, aos 35 minutos, dando a falsa impressão de que o duelo poderia ser equilibrado. Entretanto, dois minutos depois, o craque Bazzani ampliou para 3x1 e antes mesmo que o primeiro tempo se encerrasse, o meia Aurélio estabeleceu arrasadores 4x1. Expectativa e muita apreensão da imprensa paulistana no intervalo e o alviverde volta para o segundo tempo reforçado de Valdemar Carabina, além do jovem Ademir da Guia, o “Divino”. Mas divino mesmo acabou sendo o futebol da equipe grená, no confronto. Por alguns minutos, o jogo até se tornou equilibrado. Tanto, que Geraldo II ainda diminuiu para o Palmeiras, aos 24. Mas Bazzani – um mito em Araraquara – estava terrível nesse dia, aumentando para 5x2 e liquidando qualquer pretensão esmeraldina.  E, para não deixar dúvida sobre qual “Academia” era a maioral em campo naquele dia, Laerte deu o “tiro de misericórdia” aos 41 minutos, estabelecendo números finais no marcador: 6x2. Esta seria uma das doze goleadas aplicadas pela Ferroviária ao longo de doze temporadas seguidas – e isso apenas em cima de clubes grandes – entre 1960 e 1971.

BANDEIRANTES DE SÃO CARLOS 3 X 0 SANTOS (04/11/1957)

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“A MAIOR VITÓRIA DE UMA CIDADE NO DIA DE SEU CENTENÁRIO”

O futebol na cidade de São Carlos sempre viveu de ciclos, com clubes se sucedendo, ao longo da história. Por ocasião dos festejos no dia do centenário da “Cidade Sorriso” além da visita do então governador de São Paulo Jânio Quadros às instalações da USP – que ocorria simultaneamente, a duzentos metros dali – foi programado um amistoso contra o Santos, então bicampeão paulista, tendo Pelé como atração. Na véspera – um domingo – ele havia feito três gols no empate por 3x3 diante do Corinthians, o que acabaria dando ao Timão, a “Taça dos Invictos”. Naquele feriado de segunda-feira e com o charmoso estádio do Paulista de São Carlos completamente lotado, o confronto se iniciaria às 15 horas. Entre os presentes nas arquibancadas, o grande artilheiro Zuza, já veteraníssimo – mas ainda em atividade – que simpaticamente teria recusado convite de atuar na peleja, por alguns minutos que fosse. Uma pena! O Santos veio a campo, escalado com Manga, Mauro e Mourão; Geovanni, Brauner e Urubatão; Baiano, Jair Rosa Pinto, Ciro, Pelé e Pepe. Téc. Lula. O Bandeirantes de Lito Mariutti, Jarbas e Kelé; Piana, Fabião e Bibi; Cabelo, Wilson Pimentel, Ademar Ferrari, Zé Luiz e Ruy Dinucci. Téc. Hugo “Che” Ferrari. A estratégia de impor um ritmo forte e veloz aos visitantes, logo surtiria efeito: aos três minutos, o ponta-esquerda Ruy abriu a contagem, aproveitando bem um centro na área e tocando sutilmente, entre os zagueiros santistas, para as redes do Peixe. Com Fabião marcando Pelé em cima e permanecendo no ataque, o time são-carlense conquistou um escanteio a seu favor aos 10 minutos, pelo lado esquerdo. Encarregado da cobrança, Ruy – que era ambidestro – cobra com a perna direita, forte, fechado e cheio de efeito, encobrindo o goleiro Manga, que acabou surpreendido pelo belíssimo gol olímpico: 2x0. Naquele dia, o “Pelé” em campo parecia atender pelo nome de Ruy Dinucci. Aturdido com a disposição dos donos da casa, o Peixe ainda leva o terceiro, aos 33 minutos, depois de um bate-rebate na zaga, que terminou com um lindo chute de primeira, de fora da área, agora do meia Zé Luiz. Satisfeitos pela “fatura liquidada” em apenas meia hora, os anfitriões diminuem o ritmo, enquanto Fabião não desgruda de Pelé. Tanto, que no segundo tempo Lula resolve tirá-lo de campo, promovendo a entrada de Darci e também a de Dorval, no lugar de Baiano. Porém, nem a contusão do goleiro Lito (substituído por Flávio) alterou alguma coisa a favor dos visitantes. E Ruy e Fabião ainda seriam sondados pela diretoria santista, para irem jogar no Santos, após a histórica partida.

AMÉRICA/SP 6 x 0 RIO PRETO (07/6/1953)

“A GRANDE GOLEADA DO DERBY RIO-PRETENSE”

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O Derby rio-pretense sempre dividiu a cidade. O Rio Preto viveu quase toda a sua história na segunda divisão (embora mais antigo), enquanto que o América, mais novo, permaneceu maior tempo na divisão de elite. Isso acaba impactando diretamente no retrospecto do clássico, onde o número de confrontos é reduzido, revelando nítida vantagem do “Diabo”: 34 vitórias do América contra apenas 14 do Rio Preto.  E pensar que no início, o América chegou a ser esnobado pelo Rio Preto, que se recusava a emprestar seu campo, alegando que o rival lhe subtraía torcedores, obrigando-o a ter que atuar até, na cidade de Mirassol... Dentre todos os clássicos, vale destacar este, o qual, mesmo em se tratando apenas de um amistoso, entrou para a história por ser o de placar mais elástico. O confronto foi disputado no estádio Mário Alves de Mendonça, o “Caldeirão do Diabo” e o Rio Preto veio a campo com Barrela, Cotia e Dimas; Bem, Odilon e Prates; Zachi, Pé de Chumbo, Miranda, Orestes e Zito, sob o comando do técnico Chiquinho. O América, com Garito, Xatata e Martin; Tuca, Aldo e Dicão; Nelinho, Vicente, Dozinho, Osmar e Orias. Téc. Pepino. Mas quem teve um “pepino” nas mãos naquele dia, foi mesmo o técnico Chiquinho, pois seu time acabaria impiedosamente goleado. Bastaram apenas 35 segundos para que o ponta Nelinho arrancasse e fizesse o primeiro do América. O Rio Preto ainda conseguiu se equilibrar e sair para o jogo. Mas Dozinho aumentou para 2x0 aos 20 minutos e as coisas começaram a se complicar, porque a partir daí, a zaga rio-pretense começou a bater cabeça e o ponta-esquerda Orias, que havia acabado de chegar ao clube americano, aproveitou a facilidade oferecida e marcou dois gols em sequência, aos 30 e 31 minutos, estabelecendo 4x0 no marcador. A torcida mal podia acreditar naquilo: quatro gols em meia hora! No intervalo, o preocupado técnico Chiquinho resolve trocar de goleiro, colocando Hugo em campo. Mas a produção da equipe não melhorava. Como consequência disso, aos 12 minutos, o centroavante Dozinho não teve “dózinha” (me perdoem o trocadilho), ampliando para 5x0. E aos 32, Osmar, numa bela jogada, “fecharia a tampa do caixão”, em sonoros 6x0. Parte da torcida adversária até, havia ido embora. Mais uma proeza do América de Rio Preto em sua história, clube do inesquecível presidente Benedito Teixeira, o eterno “Birigui”.

SANTOS 4 X 6 JABAQUARA (31/7/1957)

“O TERREMOTO DA VILA”

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Tratava-se de uma partida válida pela fase de classificação do campeonato paulista.

O Jabuca, clube pioneiro de São Paulo, não vinha bem das pernas. O Santos – ao contrário – firmara-se como clube grande, onde pontificava o famoso “ataque dos três pês” e era o atual bicampeão paulista. Por isso, naquela chuvosa noite de quarta-feira, menos de seis mil pagantes se atreveram a irem até a Vila Belmiro, para assistirem outra óbvia vitória do Peixe. O Santos com Laércio, Hélvio e Ivan; Fioti, Urubatão e Zito; Tite, Álvaro, Pagão, Pelé e Pepe. Téc. Lula. O Jabaquara com Fininho, Pavão e Getúlio; Dom Pedro, China e Oswaldo; Ari, Hélio, Washington, Melão e Bugre. Téc. FilpoNuñes. Ao anunciarem a escalação do “Leão do Macuco”, os torcedores estranham o lateral-esquerdo, dizendo se tratar do tesoureiro do clube, o popular “Oswaldo Malcriado”, por pura farra. Na verdade, tratava-se de um juvenil, que trabalhava na secretaria do clube e que entrou em campo para completar o quadro, pois o treinador não tinha jogador para aquela posição.  Como se esperava, o Santos começou com tudo e foi logo “atropelando” o adversário, com Pagão abrindo a contagem, aos 8 minutos. Três minutos depois, Wilson Osório (o popular “Melão”, que havia sido devolvido pelo Santos ao Jabaquara) empatou, em que pese seu time não estar jogando bem. Tanto, que aos 15, Pepe fez 2x1 Santos. E aos 22, Tite ampliou, encaminhando mais uma vitória santista no retrospecto amplamente favorável ao Peixe, diante do Jabuca.  Mas esqueceram de combinar isso com o adversário. Foi daí, que o inacreditável começou a acontecer: aos 32, o ponta Bugre diminui e aos 44, o centroavante Washington empata, para surpresa geral. Algo de estranho estava ocorrendo. Mais estranho ainda, foi que a reação prosseguiu, na segunda etapa: o meia Melão desandou a fazer gols (ele que já havia aberto a contagem) anotando mais três em sequência: aos 5 minutos, aos 25 e aos 28, estabelecendo estarrecedores 6x3! Começam então, a surgir alguns torcedores santistas – vizinhos da Vila Famosa – até de pijamas, para conferir se era mesmo verdade o que ouviam pelo rádio. No finalzinho, aos 42, China tenta interceptar um chute de fora da área e acaba marcando contra, diminuindo o vexame santista para 4x6. Mas houve troco após aquele confronto. Isso porque o rubro amarelo, não tendo estádio, guardava todo seu material esportivo nas dependências da Vila Belmiro, além de mandar suas partidas, lá. Revoltado com a derrota, o presidente Modesto Roma mandaria botar tudo na rua, no dia seguinte.  Após essa vitória (além de uma outra diante da Portuguesa Santista) o Jabaquara passou a ser chamado por um tempo, de “O Dono da Cidade” em Santos e o episódio é até hoje lembrado no litoral pelos torcedores mais antigos, como “O Terremoto da Vila”.

PORTUGUESA 2 X 0 PALMEIRAS (05/6/1955)

“SAUDADES DA GRANDE PORTUGUESA DE DESPORTOS”

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No início dos anos 50, Oswaldo Brandão começou a montar aquele timaço da Lusa, na fase áurea do clube, até então, apenas bicampeão paulista de 1935/6. Na primeira metade daquela década, a Portuguesa ganhou os títulos do Rio-SP (52 e 55), a Taça San Izidro (51), os torneios de Salvador e de BH (ambos em 51), além de se sagrar tricampeã Fita Azul no exterior (em 51, 52 e 54). E teve atletas como Cabeção, Noronha, Djalma Santos, Brandãozinho, Ipojucan, Servílio, Pinga, Simão, Julinho Botelho, entre outros, além de impor goleadas como os 7x3 em cima do Corinthians ou os 8x0 sobre o Santos. Portanto, os quarenta mil torcedores que lotaram o Pacaembu, sabiam que aquela decisão de Rio-SP seria um “jogaço”, ainda mais após o empate de 2x2 na primeira partida. O Palmeiras veio de Laércio, Manoelito e Mário; Belmiro, Valdemar Carabina e Gérsio; Rento, Humberto, Nei, Ivan e Rodrigues. Téc. Cláudio Cardoso. A Portuguesa, com Cabeção, Nena e Floriano; Djalma Santos, Brandãozinho e Zinho; Julinho Botelho, Ipojucan, Airton, Edmur e Ortega, agora sob o comando de Délio Neves. Foi uma partida bem disputada, cheio de oportunidades perdidas e jogadas bem concatenadas, mas que aos poucos, demonstrou predomínio técnico da Lusa. Aos 36 minutos, o habilidoso Julinho Botelho fez bela jogada pela direita e abriu a contagem, iniciando a festa lusitana. Na volta para o segundo tempo, imaginava-se que o Palmeiras fosse pressionar, mas o que se viu, foi uma Portuguesa mais assentada em campo, que foi aos poucos tomando novamente conta do jogo, em especial após a marcação do segundo gol, aos 18 minutos, quando o meia Ipojucan anotou também o seu, fechando o placar em 2x0 e coroando a belíssima campanha daquela equipe que deixou saudades no coração dos torcedores paulistanos.

PALMEIRAS 1 X 1 SÃO PAULO (28/01/1951)

“O INESQUECÍVEL JOGO DA LAMA”

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Este foi o jogo que deu ao Palmeiras, o título paulista de 1950 e quebrou um tabu: pela primeira vez, uma equipe conseguia vencer a Taça Cidade de SP e também o Paulistão, no mesmo ano, entrando para a história como o “Jogo da Lama”. A disputa do campeonato havia sido postergada – devido à Copa do Mundo de 1950 – iniciando apenas no segundo semestre, daí a decisão ocorrer só em 1951. Foi um campeonato emocionante, pois apresentou alternância dos dois times na ponta da tabela, durante o seu desenrolar. A três rodadas do fim, o tricolor tinha três pontos de vantagem, mas conseguiu perdê-la, tropeçando em Ypiranga e Santos. Na última rodada, passaria a

ter obrigação de vencer os palmeirenses, que jogavam pelo empate. Jair Rosa Pinto, grande craque alviverde que fora afastado da equipe três rodadas antes numa derrota para o Corinthians, voltou a ser relacionado, após “acabar” com um treino, antes da decisão. Um Pacaembu absolutamente lotado e encharcado por uma torrencial chuva que atingira a capital, horas antes, recebeu o São Paulo de Mário, Savério e Mauro; Bauer, Rui e Noronha; Dido e Remo; Friaça, Leopoldo e Teixeirinha. E também o Palmeiras, de Oberdan, Turcão, Palante e Waldemar Fiúme; Luiz Villa, Sarno e Lima; Canhotinho, Aquiles, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Teixeirinha inaugurou o marcador logo aos quatro minutos e os são-paulinos martelaram a meta esmeraldina o primeiro tempo todo, com Oberdan intervindo várias vezes, salvando a equipe de um placar mais elástico. O São Paulo dominava todas as ações em campo e o 1x0 saiu barato para aquela estranha apatia verde. Nos vestiários, Jair pediu a palavra ao treinador e aos gritos, conclamou os companheiros a resgatarem a velha garra palestrina, lembrando a todos, da grandeza do uniforme que envergavam. Aliás, todos muito enlameados, pois a chuva tornara o espetáculo quase impraticável. A bronca deu certo, mexendo com os brios da rapaziada: o Verdão voltou com tudo, pressionou e empatou numa jogada magnífica e dramática de Jair, fruto de uma arrancada do meia, na qual driblou praticamente toda a defesa tricolor (além das poças d’água) e serviu com um passe açucarado, para Aquiles apenas empurrar para as redes inimigas. Um gol genial, que decidiu o título a favor de quem demonstrou no fim, mais vontade de conquista-lo e que acabaria sendo a “pedra fundamental” para o título mundial do time, meses depois, pois aquele triunfo credenciaria o Verdão para as disputas da Copa Rio-1951.

SÃO PAULO 4 X 1 SANTOS (15/8/1963)

“O DIA EM QUE O SANTOS FUGIU DE CAMPO”

Houve um período em que o São Paulo ficaria 13 anos sem títulos. Tempos difíceis, de construção do Morumbi e economia na formação de plantéis competitivos. Foi nessa fase complicada do tricolor, que o alvinegro praiano vivia seu auge futebolístico, com o bicampeonato mundial e aquele que é tido como o maior time da história do futebol.

Naquela quinta-feira à noite, 60 mil torcedores no Pacaembu viram o São Paulo vir a campo com Suly, Deleu, Bellini e Ilzo; Dias e Jurandir; Faustino, Martinez, Pagão, Benê e Sabino. O Santos veio de Gylmar, Aparecido, Mauro e Geraldino; Zito e Dalmo; Dorval, Lima, Coutinho, Pelé e Pepe. Mal o clássico começa e aos 5 minutos, Martinez entrega para Faustino, que invade em diagonal, finta dois adversários e fuzila Gylmar: 1x0. Mas aos 21, num cruzamento de Dorval pela direita, Pelé sobe mais que os zagueiros e empata o jogo, de cabeça. Só que aos 37, Pagão e Benê tabelam, envolvendo a defesa santista, até o centroavante bater à queima-roupa, diante de Gylmar. Até aí, tudo bem, jogo normal. Mas aos 40 minutos começa a confusão, tendo o polêmico árbitro Armando Marques, como um dos personagens. Tudo porque o ponta-esquerda Sabino, recebendo um lançamento de Martinez, amplia para 3x1 e o bandeirinha sinaliza impedimento. Mas Armando prefere ignorar o auxiliar e confirmar o tento. Os santistas protestam e o árbitro expulsa Coutinho, no meio da discussão. Pelé se enerva e instantes depois, desacata o juiz, seguindo também mais cedo para os vestiários. Com 3x1 na cabeça e sua grande dupla de atacantes expulsa, Lula teria uma missão complicadíssima para o segundo tempo. Assim, Aparecido estranhamente não retornou, permanecendo “contundido” nos vestiários, deixando o time santista agora, com apenas oito atletas em campo. Claro que se tratava de uma situação irreversível.

No comecinho da segunda etapa, num choque entre Bellini e Pepe, o ponta-esquerda (adivinhem?) também saiu machucado, deixando o Santos agora, com sete. No sétimo minuto, Roberto Dias faz uma ligação direta com Pagão, que entrou como quis na área, estabelecendo 4x1. Uma goleada ainda mais elástica se desenhava. Foi daí, que na saída de bola, Dorval levou um chute numa dividida, deixando o gramado, também.

Com apenas seis atletas pelo lado do Peixe, Armando Marques não tem outra solução a não ser encerrar a partida naquele momento, a qual ficaria conhecida como “o dia em que o Santos fugiu de campo”.

CORINTHIANS 4 X 3 PALMEIRAS (25/4/1971)

“O FAMOSO CLÁSSICO DO VIRA-VIRA”

Era mais um clássico pelo campeonato paulista e que encerraria o primeiro turno. Mesmo com um tabu de 15 anos sem títulos pelo Paulistão, o Timão havia acabado de faturar o “Torneio do Povo” enquanto o Verdão era respeitosamente chamado de “Segunda Academia”. Perante 61 torcedores, o Corinthians entrou em campo com Ado, Zé Maria, Luís Carlos, Sadi e Pedrinho; Tião e Rivellino; Lindóia, Samarone, Mirandinha e Peri. O Palmeiras foi de Leão, Eurico, Baldocchi, Luís Pereira e Dé; Dudu e Ademir da Guia; Fedato, Héctor Silva, César e Pio. Uma partida empolgante, do começo ao fim!  Tanto, que com apenas 35 segundos jogados, Ademir vem para a área e César conclui com êxito: Palmeiras, 1x0. Nove minutos mais tarde, em outra descida pela meia-direita, o mesmo “César Maluco” amplia o marcador em favor dos esmeraldinos, para 2x0. O placar não é mais alterado, até o intervalo.  O segundo tempo trouxe mudanças para as equipes. No Corinthians, Adãozinho e Natal.  No Palmeiras, Leivinha. Logo aos 5 minutos, Rivellino bateu uma falta com muita violência e no rebote de Leão, Mirandinha descontou. Aos 24, Adãozinho pegou um “pombo sem asas” no ângulo, de fora da área e de canhota, empatou o clássico. Já na saída de bola, o Verdão desceu e Leivinha, de fora da área e também de canhota, mandou no ângulo, longe do alcance de Ado, recolocando seu time em vantagem: 3x2. O mais incrível é que, assim que foi dada novamente a saída, o alvinegro deu o troco, numa jogada construída por Natal e concluída na arrancada de Tião: 3x3, aos 26 minutos. Não perca a conta! Cansadas, as equipes procuraram se resguardar um pouco mais e quando todos apostavam num belo empate, veio a histórica virada corintiana: aos 42 minutos, Natal e Mirandinha tabelaram em alta velocidade; o passe na medida veio para Mirandinha, que chutou em cima da zaga. Ele mesmo apanhou o rebote e inapelavelmente arrematou para as redes alviverdes: 4x3. Um jogo digno da grandeza do Derby.

SANTOS 2 X 3 PEÑAROL – 02/8/1962

“O ÁRBITRO QUE ENGANOU TODA UMA CIDADE”

Após uma vitória de virada por 2x1 sobre o Penãrol no Uruguai, o Santos necessitava agora de um simples empate em casa, para se sagrar campeão da Libertadores-62. O Peñarol era o campeão mundial e vinha em busca do tricampeonato sul-americano.

O time de Lula, desfalcado de Pelé, contundido, veio a campo com Gylmar, Lima, Mauro, Calvet e Dalmo; Zito e Mengálvio; Dorval, Coutinho, Pagão e Pepe. Já a equipe de Bela Guttmann, com Maidana, González, Lezcano, Cano e Caetano; Carranza (Golçálvez), Matosas e Pedro Rocha; Sacia, Spencer e Joya. A Vila parecia um barril de pólvora prestes a explodir naquela noite, especialmente pela presença do já conhecido

árbitro Carlos Robles, o qual, logo no início, tratou de ir ignorando uma penalidade em Coutinho. Até que aos 15 minutos, Spencer abriu o placar. Ainda bem que Dorval empatou, aos 19, serenando um pouco os ânimos, com um belo chute cruzado. E aos 36, com um petardo bem no ângulo, Mengálvio pôs o Santos na frente. Festa santista! Mas o Peñarol não era campeão mundial à toa e logo aos três do segundo tempo, empatou num escanteio que terminaria com uma cabeçada firme de Spencer, o “maior goleador das Américas”. Só que no lance, Sacia teria jogado areia nos olhos de Gylmar. Ignorando a reclamação santista, o juiz chileno validou o lance e o tento. Com o empate, os uruguaios começaram a pressionar e conseguiram – numa jogada faltosa de Sacia sobre Calvet – marcar o terceiro, aos 11 minutos. Era demais: a torcida, revoltada, atira uma garrafa na cabeça do árbitro, ferindo-o. O jogo é interrompido. Após uma longa paralisação, os ânimos se acalmaram e o Santos passou a pressionar, em busca do empate. E ele viria num chute de rara felicidade de Pagão, de fora da área. O resultado dava o título ao Peixe. Eram decorridos 22 minutos. No meio da festa, eis que a torcida alveja agora o bandeirinha, com um baita parafuso arrancado da estrutura das arquibancadas. A “batalha” é novamente interrompida. O trio de arbitragem se recolhe para os vestiários e volta só depois de dez minutos, afinal reiniciando aquela tumultuada peleja. Agora Pepe é quem é derrubado na área e o juizão manda seguir. Até que aos 38, Mauro faz falta em Pedro Rocha fora da área, mas Robles assinala penalidade máxima. Porém, com a chuva de garrafas no gramado, primeiro reconsidera sua decisão e marca falta, até que, por fim, vendo o pandemônio que se instalara nas arquibancadas, decide por “encerrar o espetáculo” aos 40 minutos do segundo tempo. Festa da torcida e volta olímpica dos brasileiros, mas... De repente, o lateral González avisa Pepe (a quem marcara, durante o jogo) que eles estavam todos, fazendo “papel de bobos”: o Peñarol havia vencido por 3x2. “Mas como?”; quis saber o atacante santista. Daí o jogador do Peñarol lhe explicou que, assim que a partida foi interrompida pela primeira vez – aos 11 minutos da segunda etapa – naquela garrafada que o juiz levara; ele (secretamente) decidiu por encerrar o jogo, passando a realizar todo um “teatro” a seguir e prosseguindo com a disputa apenas em “caráter amistoso”, com medo de não sair “vivo” do estádio. Estranho que os uruguaios tivessem ficado sabendo daquela tramoia, enquanto que os brasileiros, não. Enfim: não havia valido o gol de empate de Pagão. E muitos santistas foram dormir felizes, só descobrindo que ainda não eram campeões, no dia seguinte, quando o árbitro já estava bem longe dali. Ainda bem que depois, na partida-desempate – em campo neutro – o Santos (já com Pelé e sem esse juiz) goleou o Peñarol por 3x0, ficando com o título da Libertadores, merecidamente.

PALMEIRAS 6 X 7 SANTOS (06/3/1958)

“O MAIOR CLÁSSICO DE TODOS OS TEMPOS”

Para mim, a mais disputada de todas as partidas que conheço e por isso mesmo; deixei-a propositalmente para o final. Este é um daqueles jogos que não decidem campeonato – tratava-se apenas de mais uma partida pelo Torneio Rio-SP – mas que entrou para a história, pelo fino futebol apresentado em campo e seu desenrolar. Cinco torcedores teriam morrido, devido a infartos provocados pelo confronto (um deles, inclusive, no próprio estádio). Também, pudera: foram 13 gols e três viradas, ao longo dos 90 minutos! O Pacaembu recebeu 43 mil torcedores que viram o Santos entrar em campo com Manga, Hélvio e Dalmo; Fioti, Ramiro e Zito; Dorval, Jair Rosa Pinto, Pagão, Pelé e Pepe. Já o Palmeiras, com Edgar, Edson e Dema; Valdemar Carabina, Waldemar Fiúme e Formiga; Paulinho, Nardo, Mazzola, Ivan e Urias. O jogo iniciou “pegado” e a “tempestade de gols” demorou um pouco a sair. Mas quando

começou... Somente aos 18 minutos, a contagem foi aberta, através do ponta-esquerda Urias. Mas Pelé (sempre ele!) empatou dois minutos depois. E Pagão, aos 24, virou o marcador a favor do Peixe. Nardo empatou para o Verdão, um minuto depois.

Mas aí, começou aquele Santos “arrasador”: Dorval aumentou a vantagem para 3x1. Pepe – o melhor jogador em campo naquele dia – aumentou para 4x2, aos 38 e Pagão, antes que os times descessem para os vestiários, aos 46, anotou o quinto, “matando” o Palmeiras. Acontece que Oswaldo Brandão “ressuscitou” a equipe no intervalo, dando uma sacudida psicológica em todos, mudando o esquema para o segundo tempo, fazendo entrar o gringo Caraballo na linha e sacando o goleiro Edgar, que havia falhado e chorava nos vestiários, promovendo a entrada do arqueiro Vitor. As equipes reiniciaram o jogo a exemplo do segundo tempo: num confronto muito “pegado”, sem darem muito espaço. Aos poucos, o Palmeiras começaria a predominar e Paulinho descontou aos 16 minutos. O grande Mazzola empatou o confronto, com dois gols. Um deles, apanhando rebote da zaga aos 20 minutos e o outro, aos 28, de cabeça: inacreditáveis 5x5; fruto daquela incrível reação.  Mas não parou por aí: Urias – aquele que marcou o primeiro gol – virou o jogo, aos 34 minutos. “Milagre no Pacaembu!” – berrava Edson Leite, ao microfone da rádio. Só que o tal “milagre” durou pouco, pois Pepe (o melhor da partida, lembram-se?) empatou, num raro gol de cabeça, aos 38 minutos. E so-bre-na-tu-ral! Aos 43 minutos, marcou mais um – o da virada definitiva – selando a vitória praiana por 7x6. É bom lembrar que nenhum dos dois foi campeão daquele Torneio Rio-SP: o Vasco seria o campeão e o Flamengo, o vice. Mas o Santos se tornaria em pouco tempo, o maior time do planeta. Quanto aos palmeirenses; os dirigentes, sensíveis ao fato do que eles também haviam jogado, resolveram pagar o bicho, como se fosse uma vitória. Afinal de contas, naquele dia, todo mundo mereceu!

Eram realmente outros tempos no futebol...

JOGOS HISTÓRICOS

1982 – Copa da Espanha - Itália 3 x 2 Brasil

Protagonistas: Falcão, Zico, Sócrates, Cerezzo, Paolo Rossi, Dino Zoff, Bruno Conti e Antognoni.

por Otávio Leite

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A Copa do Mundo de 1982, na Espanha, é uma festa. Reúne uma constelação poucas vezes vista de craques. A Argentina apresenta o jovem estreante Diego Maradona e os veteranos campeões mundiais Kempes, Fillol, Ardiles e Passarella. A Alemanha Ocidental exibe Rummenigge, Paul Breitner e os debutantes Lottar Matthaus e Pierre Littbarski.

Semifinalista em 1978, a Itália mantém a base com Zoff, Antognoni e o indecifrável Paolo Rossi, afastado do futebol após se envolver num escândalo de manipulação de resultados. Mas perdeu seu craque Roberto Bettega antes da Copa. Sem o ídolo da Juventus, ninguém sabe o que esperar da Azzurra.

A França desfila sua elegância com Marius Tresor, Michel Platini, Alain Giresse, Dominique Rocheteau e Jean Tigana. A Polônia tem Lato e Boniek, os africanos Camarões e Argélia apresentam suas armas Roger Milla e Rabah Madjer, respectivamente, e vários outros craques estão espalhados nas demais seleções. Elias Figueroa (Chile), Teofilo Cubillas (Peru), Kenny Dalglish (Escócia), Oleg Blokhin e Rinat Dasaev (União Soviética), o goleiro Jean-Marie Pfaff (Bélgica), Hans Krankl (Áustria), Kevin Keegan e Bryan Robson (Inglaterra) e até o entediado Antonin Panenka, pela Tchecoslováquia, inventor do famoso pênalti “cavadinha”.

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Mas o mundo está extasiado é com o Brasil. O time do quarteto mágico Falcão, Cerezzo, Zico e Sócrates redescobre o futebol arte e atropela seus adversários com um estilo de jogo que parecia morto e sepultado. Visto pela última vez 12 anos antes, nos campos do México, na epopéia que levou à conquista da Jules Rimet.

Comandada pelo mineiro Telê Santana, um ex-jogador de reconhecida inteligência tática nos seus tempos de Fluminense, a equipe brasileira passou os últimos dois anos sendo testada contra as mais fortes equipes do Mundo. Somente contra a campeã europeia, a temida Alemanha Ocidental, foram três jogos, com três vitórias consagradoras.

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Ao todo, foram 36 jogos e apenas duas derrotas. A última no longíquo mês de janeiro de 1981, contra o Uruguai, por 2 a 1, na final do Mundialito, em Montevidéu. A invencibilidade de Telê e seus comandados já dura 24 jogos.

Na Copa, desde a emocionante estreia contra a União Soviética, 2 a 1 de virada, o Brasil vem colecionando grandes atuações. E mostrando evolução a cada jogo. Se as goleadas contra as frágeis Escócia e Nova Zelândia foram meramente protocolares, a lição de futebol contra os campeões mundiais argentinos dá ao Brasil o incontestável status de favorito absoluto à conquista do tetracampeonato mundial.

A euforia é incontrolável. As ruas estão pintadas com imagens dos jogadores, escudos e bandeiras do Brasil, enormes figuras do mascote Naranjito e do Pacheco, uma espécie de torcedor-símbolo da seleção brasileira.

O País inteiro está enfeitado. E otimista. Há muito tempo não se via uma identificação tão grande do torcedor com a sua seleção na Copa do Mundo.

Esse traiçoeiro espírito triunfante entra em campo juntamente com o Brasil nesta tarde ensolarada e abafada em Barcelona para o confronto contra a debilitada Itália que definirá um dos semifinalistas da Copa do Mundo. Ao Brasil, basta o empate, por causa do melhor saldo de gols. Bateu a Argentina por 3 a 1, enquanto a Azzurra venceu por 2 a 1.

A boa vitória contra a Argentina não é suficiente para animar o mais otimista torcedor italiano. A primeira fase horrorosa, com três empates e apenas dois gols marcados deixam uma impressão muito ruim. E um ambiente tumultuado. Jornalistas e jogadores estão em declarado clima de guerra. Há acusações e ofensas pessoais. As coletivas são quase lutas corporais entre os dois lados.

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O Brasil dá a saída no acanhado Estádio Sarriá. A disposição das equipes em campo deixa logo claras as intenções dos treinadores Telê Santana e Enzo Bearzot. Mesmo com a vantagem do empate, o Brasil não abre mão de seu posicionamento ofensivo, com os laterais Leandro e Júnior jogando quase como armadores, sempre no campo adversário.

E a Itália, que precisa de gols, mostra-se cautelosa. Bruno Conti e Graziani recuam para marcar Leandro e Júnior, enquanto Gentile vira a sombra de Zico por todo o campo. Os meias de destruição Tardelli e Oriali recebem ajuda extra do craque Antognoni para tentar anular a movimentação constantes dos armadores brasileiros.

A Itália ataca primeiro. Cabrini estica para Tardelli, que cruza para Paolo Rossi. Já na área, o atacante fura diante do gol. Nada parece ter mudado. É o mesmo Paolo Rossi da primeira fase. Um fantasma em campo. Uma caricatura do atacante dinâmico e goleador de quatro anos antes, no Mundial da Argentina.

Mas, subitamente, tudo muda. Aos 8 minutos, Bruno Conti recebe na intermediária, pela direita, passa por Cerezzo, dá um drible em Éder e vira o jogo de trivela para a subida de Cabrini no lado esquerdo. O lateral domina e avança por um corredor sem ser importunado por Leandro, que apenas observa o cruzamento, sem fazer nada para impedir a jogada.

O passe é preciso e encontra Paolo Rossi quase na pequena área, observado a muita distância por um displicente Luizinho. Sem precisar sair do chão, o Bambino d’Oro apenas escora de cabeça e abre o placar para a Itália. A Azzurra, sem fazer força e contando com os erros do Brasil, abre o placar em Barcelona. E quase faz o segundo no ataque seguinte. Mas o chute de Graziani vai alto demais e sai.

O impacto acorda o Brasil. Serginho e Zico trombam e a bola acaba sobrando limpa para o centroavante brasileiro. Livre, diante de Zoff, ele dá um chute horroroso, de pé direito, e manda pra fora a primeira grande chance brasileira.

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Em quatro minutos, Sócrates restabelece o que parece ser a ordem natural das coisas. Leandro bate o lateral no campo de defesa brasileiro para o Doutor. O ídolo do Corinthians, com suas passadas largas, cruza o meio de campo e dá a Zico, que tem Gentile no seu cangote. Num movimento de craque, o Galinho gira o corpo, livra-se do seu carrasco e dá uma enfiada brilhante para Sócrates, que invade a área entre Scirea e Oriali. O Doutor domina e levanta a cabeça indicando que vai fazer o cruzamento. Quando Zoff tenta se antecipar ao centro, o camisa 8 faz uma jogada de gênio e bate rasteiro entre o veterano goleiro e a trave. Golaço. Tudo igual no Sarriá.

Mas aos 25 minutos do primeiro tempo, o céu volta a cair na cabeça dos brasileiros. Valdir Perez sai jogando com Leandro, que domina no peito com classe e toca para Cerezzo. Displicente e absolutamente confiante no posicionamento mais do que decorado de seus companheiros, ele atravessa uma bola perigosa entre Falcão, Luisinho e Júnior. Nenhum deles vai na bola. Pior: Paolo Rossi percebe a oportunidade, se antecipa, rouba a bola e toca forte na saída de Valdir Perez. Gol da Itália. Novamente um erro brasileiro dá a vantagem aos rivais.

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Em desvantagem, o Brasil é forçado a atacar. Começa uma blitz interminável na entrada da área italiana. Já com cartão amarelo, Gentile não economiza recursos ilícitos para conter Zico. Numa inversão da jogada do gol brasileiro, Sócrates vê a penetração do Galinho na área e toca. A camisa 10 fica nas mãos do implacável marcador italiano. E mesmo rasgado, o brasileiro ainda consegue finalizar para a boa defesa de Zoff. Pênalti claro ignorado pelo árbitro israelense Abrahan Klein, que ainda passa pelo constrangimento de ver Zico exibir a camisa em trapos para provar a irregularidade do lance. Foi o último ato do primeiro tempo.

O segundo tempo começa com um massacre brasileiro em busca do gol de empate.

Falcão tem a primeira chance, com um chute cruzado pela direita que tira tinta da trave. Depois, é Cerezzo que recebe de Sócrates, por trás da zaga italiana. Mas Zoff sai bem e consegue abafar o toque do craque mineiro.  A melhor chance é de Serginho. Júnior dá uma cavadinha para a área e encontra a cabeça de Cerezzo. O camisa 5 escora para Serginho, que perde no alto para Collovati, mas fica com a bola. Ao tentar fazer o mais difícil, um toque de calcanhar na pequena área, se atrapalha e permite a chegada de Zoff, que tira a bola de perto do seu gol.

Conti perde uma boa chance em jogada individual pela esquerda, mas o gol brasileiro está maduro. Falcão tenta a primeira, de pé direito. O chute é forte, mas pega Zoff bem colocado no meio do gol. A defesa é segura. Mas nem mesmo o veterano italiano é capaz de impedir o gol de empate, aos 23 minutos do segundo tempo.

Júnior avança pela esquerda e quebra para o meio. Estica um bonito passe de trivela para Falcão, do outro lado do campo, na entrada da área. Ele domina e corta para a esquerda. Quando Cerezzo corre para a direita, Tardeli, Cabrini e Scirea acreditam que o Rei de Roma fará o passe e seguem o camisa 8 brasileiro. Em vez disso, Falcão vê o corredor a sua frente e solta a bomba de canhota, no ângulo, sem chance para Dino Zoff. A explosão de euforia no rosto do craque brasileiro é uma das grandes imagens da Copa.

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O Brasil domina o jogo e tema classificação garantida com o empate. Quem acredita na força da Itália? Paulo Isidoro entra no lugar de Serginho e ainda perde uma chance, outra vez negada por Zoff. Faltam pouco mais de 15 minutos para o fim do jogo. É hora de tocar a bola e esperar o desespero dos italianos.

Graziani faz grande jogada pela esquerda, se livra de Leandro e toca para Paolo Rossi desmarcado na área. Diante apenas de Valdir Perez, o carrasco erra a finalização e perde a chance de retomar a vantagem no placar. O Brasil segue cometendo erros. Cerezzo concede um córner infantil quando tinha a bola dominada. Bruno Conti bate de perna esquerda, alto, e Sócrates rebate. A bola fica viva na entrada da área e cai no pé esquerdo de Tardelli, que dá um chute fraco e torto em direção ao gol. A defesa brasileira se adianta para deixar o ataque italiano impedido. Mas Júnior não sai e dá condição de jogo a Rossi e Graziani. De primeira, de pé direito, Rossi dá um chute à queima roupa, indefensável para o hesitante Valdir Perez. Outro erro brasileiro, o terceiro gol da Itália. O terceiro de Paolo Rossi. Invisível nos primeiro jogos, ele renasce para o mundo em grande estilo.

O desespero agora volta ao lado brasileiro. Além da Itália, o relógio é inimigo. Aberta e desorganizada, a equipe de Telê permite perigosos contra-ataques da Azzurra. A três minutos do fim, Rossi recebe pela direita e dá atrás a Oriali. O meia encontra Antognoni live, na área, que toca para marcar o quarto gol. Felizmente para os brasileiros, o auxiliar erra de forma grosseira e assinala impedimento inexistente do craque italiano.

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No último suspiro, Éder bate falta pela esquerda. O cruzamento é preciso e encontra a cabeça de Oscar. O zagueiro dá praticamente um tiro de canhão, no canto baixo, certamente indefensável. Mas não para Zoff. Não neste dia mágico. Mostrando uma agilidade notável para um homem de 40 anos, ele mergulha e faz a defesa milagrosa da partida. A bola para em cima da linha. Zico e Sócrates erguem os braços. Pedem gol. Mas a bola está nas mãos do gigante italiano.

É o fim para a mais celebrada seleção brasileira desde a conquista do tricampeonato mundial no México, 12 anos antes. A derrota revela um time de ataque sedutor, mas de defesa hesitante e pouco combativa. As vitórias camuflaram diversos defeitos, como a fases ruins de Serginho e Luisinho, a insegurança de Valdir Perez e a vulnerabilidade defensiva pelos lados do campo.

Do outro lado, a Itália já não parece tão ruim quanto antes. Zoff é um dos melhores goleiros do mundo. A duríssima zaga tem o implacável Gentile, o rebatedor Collovati e os talentosos Scirea e Cabrini, uma dupla capaz de ser titular em qualquer seleção da Copa. O completo Tardelli e o brilhante Antognoni dominam o meio de campo, auxiliados pelo batalhador Oriali e o pelo habilidoso Bruno Conti. Na frente, o renascido Paolo Rossi e o esforçado Graziani. Um time entrosado e equilibrado, que faz a partida de sua vida neste 5 de julho em Barcelona.

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É uma derrota difícil de engolir. Até hoje, o legado desta seleção é celebrado em todo o mundo. Será que realmente valia a pena abrir mão de atacar com talento e criatividade em nome de reforçar a marcação e fechar os espaços? Abdicar de suas convicções e do DNA ofensivo do futebol brasileiro em troca da glória conquistada com pragmatismo e prudência?

São perguntas que ficam para a eternidade. Assim como os gols de Zico, o calcanhar de Sócrates, a elegância de Falcão, a mobilidade de Cerezzo e o ritmo do maestro Júnior. Imagens mágicas de um futebol de sonhos. O futebol que o Brasil jogou em 1982, na Copa do Mundo da Espanha.

Ficha do Jogo

Itália 3 x 2 Brasil

Estádio: Sarriá - Barcelona - 5/7/1982

Público: 44.000

Árbitro: Abrahan Klein (ISR)

BRA: Valdir Perez, Leandro, Oscar, Luisinho e Júnior; Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico; Serginho (Paulo Isidoro) e Éder. TEC: Telê Santana

ITA: Zoff, Gentile, Scirea, Collovati (Bergomi) e Cabrini; Tardelli, Oriali, Antognoni e Conti; Rossi e Graziani. TEC: Enzo Bearzot

Gols: Rossi (8, 25 e 74), Socrates (12) e Falcão (68)

CA: Gentili e Oriali

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1954 - Hungria 4 x 2 Brasil

Protagonistas: Didi, Julinho, Castilho, Hidekguti, Kocsis e Czibor

por Otávio Leite

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Transmitida ao vivo pela TV para os principais centros urbanos da Europa, a Copa do Mundo de 1954, na Suíça, mostra, pela primeira vez a milhões de torcedores, o talento sobrenatural dos craques húngaros, a coragem dos bicampeões uruguaios na defesa do título, a superação dos alemães e a irresponsável anarquia dos jogadores brasileiros.

Absurdamente talentosos, mas igualmente indisciplinados e frágeis emocionalmente.

O trauma de 1950 ainda está bem vivo e assusta. A ordem é esquecer e superar à tragédia do Maracanã. No elenco que está na Suíça, apenas Bauer e Baltazar estiveram em campo quatro anos antes com a camisa branca.

Sim! Até isso mudou: a cor agora é amarela, escolhida num concurso que mobilizou o Brasil.

Mas as ausências de Zizinho, Danilo, Ademir e Jair não fazem do Brasil um time frágil e inferior tecnicamente. A geração que está na Suíça é uma das mais talentosas do Mundial, rivalizando com a Hungria de Puskas e Kocsis e o Uruguai de Schiaffino, Ghiggia e Obdulio Varela.

No gol está o fantástico Carlos Castilho, ídolo do Fluminese e reserva de Barbosa em 1950. As laterais são ocupadas por dois jovens de talento excepcional, dois Santos: Nílton e Djalma. O xerifão Pinheiro é o pilar da defesa. À frente da zaga, brilha a força do veterano Bauer e o gênio sobrenatural do príncipe Didi. Baltazar é um goleador esforçado e ótimo cabeceador, mas tem ao seu lado o incomparável Júlio Botelho, o Julinho, criado no Juventus e consagrado na Portuguesa.

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O ponta é justamente o grande destaque brasileiro nas duas primeiras partidas da Copa, a goleada de 5 a 0 sobre o México e o empate em 1 a 1 com a Iugoslávia.

A confusa comissão técnica chorou o empate, sem saber que o resultado classificava o Brasil para as quartas de final. Jogadores tensos, arrasados por acreditarem na eliminação, se veem agora diante do maior desafio da Copa: ter de encarar a poderosa Hungria no mata-mata.

Campeã olímpica em 1952 e dona de uma invencibilidade que já dura quatro anos, a Hungria ostenta um recorde de 23 vitórias e quatro empates até o início da Copa do Mundo. Até a partida contra o Brasil, são dois jogos, com duas impressionantes goleadas: 9 a 0 na Coreia do Norte e 8 a 3 sobre a Alemanha Ocidental.

No entanto, a fácil vitória sobre os violentos alemães abre uma cicatriz profunda no time húngaro. O capitão, ídolo e craque Ferenc Puskas deixa o campo machucado, vitimado pelas botinadas alemães. Sem o seu camisa 10, será que a Hungria conseguirá manter seu poderio ofensivo contra os fortes brasileiros?

A Hungria não é apenas o gênio de Puskas. O goleiro Grosics é reconhecido com um dos melhores do mundo, assim como os atacantes Sandor Kocsis e Nandor Hidegkuti, e o armador Josef Bozsik, uma espécie de estrategista dentro de campo. Taticamente, é um time perfeito.

O Brasil de Zezé Moreira tenta se modernizar. Já não usa mais o velho sistema britânico WM com cinco homens na frente apenas voltados ao ataque. E os laterais deixaram de ser meros marcadores de ponta para se tornarem peças ofensivas na construção das jogadas.

O público diante da TV e os quase 40 mil torcedores no modesto Wankdorfstadion, na pacata cidade suíça de Berna, com pouco mais de 100 mil habitantes, prepara-se para assistir aquele que promete ser um fantástico duelo de estilos e escolas. O primeiro grande jogo deste Mundial.

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O Brasil surpreende e tem a primeira chance. Depois de receber de Didi, Julinho inicia uma arrancada irresistível. Deixa pelo caminho quatro defensores rivais, até que a bola chega a Humberto Tozzi na entrada da área. O chute é forte, mas no meio do gol. Fácil para o ótimo Grosics.

Uma das principais características deste time húngaro é decidir o jogo logo nos primeiros minutos. Fizeram isso contra a Coreia e contra a Alemanha Ocidental. E não é diferente contra o Brasil.

Aos 4 minutos, Hidegkuti chuta forte já dentro da grande área, a bola bate em Nílton Santos e volta para Pinheiro. O zagueiro se enrola ao tentar sair jogando e perde a bola para Hidegkuti que chuta novamente, à queima-roupa. Castilho faz uma defesa excepcional, mas a bola continua viva na área brasileira e vai até Kocsis. Corajoso, Castilho se joga aos pés do artilheiro e evita o gol, mas Hidegkuti pega o rebote e enfim marca o primeiro gol.

O jogo fica ainda mais tenso. Numa disputa de bola no meio de campo, Didi chega a rasgar o calção de Joszef Toth, que segue jogando, mesmo com o uniforme esfarrapado.

Com o campo encharcado pela tempestade da manhã, a Hungria quase aumenta após a cobrança de escanteio. Castilho sai e dá um tapa na bola, que cai nos pés de Hidegkuti. O atacante bate para o gol, mas Djalma Santos salva em cima da linha.

Três minutos após o primeiro gol, a Hungria aumenta numa de suas jogadas características. Hidegkutidá dá um balão para a área em busca de Kocsis. O artilheiro entra no vão entre Pinheiro e Djalma Santos e cabeceia sozinho, no contrapé do grande Castilho. A defesa brasileira pede impedimento. Começa a bronca contra o árbitro britânico Arthur Ellis.

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O jogo é de altíssimo nível. Numa repetição do segundo gol, Bozsik põe a bola na cabeça de Kocsis. Desta vez, Castilho está atento. O Brasil responde com Julinho. Ele sai enfileirando a defesa até que é interceptado. A bola volta para Djalma que põe na área. Índio briga com a zaga e consegue finalizar com perigo. Grosics defende. Depois, Didi e Toth tentam de fora da área, mas não levam perigo.

O Brasil enfim diminui. Índio invade a área pela direita e é atropelado por Buzanszky. Pênalti, marca o árbitro inglês. Djalma Santos bate forte, a direita de Grosics, aos 18 minutos do primeiro tempo.

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Antes do intervalo, Pinheiro ainda salva em cima da linha após o Kocsis desviar levemente de cabeça o cruzamento de Toth e enganar Castilho. Em outra grande jogada, Julinho encara a marcação de Zakarias e toca para Didi. A defesa salva, mas a bola volta para Julinho, que em vez de cruzar, emenda um tiraço de trivela da direita. A bola vai baixa, rente a trave, obrigando Grosics a fazer grande defesa.

No último lance, Joszef Toth disputa a bola com Didi, mas sente uma fisgada na coxa esquerda. A partir daí, segue em campo fazendo fuguração na ponta direita. O Brasil agora tem a vantagem de um homem a mais, apesar de ainda estar atrás no placar.

É um primeiro tempo sublime, com jogadas de extrema classe de alguns dos mais talentosos jogadores do futebol do Planeta.

O segundo tempo começa equlibrado, porém, com um ingrediente que ainda não tinha sido notado no primeiro: a violência. Especialmente por parte dos instáveis jogadores brasileiros. Antes da partida, no vestiário, os craques de camisa amarela tiveram de ouvir inflamados discursos de cartolas sobre honra, patriotismo e até combate ao comunismo. Um ambiente inflamado, pronto para explodir ao menor sinal de tensão com os craques húngaros.

Djalma e Pinheiro são os mais brutos. E Nílton Santos o mais instável. Com a bola no pé, Índio tenta de canhota, de fora da área, mas Grosics agarra sem susto. Do outro lado, Castilho pega no meio do gol a bomba de Kocsis.

Aos 15 minutos, o lance que provoca o desequilíbrio no time brasileiro. Acossado por Kocsis, Pinheiro escorrega e põe a mão na bola. Arthur Ellis, muito próximo à jogada, não hesita e marca pênalti, diante dos atônitos brasileiros. Lantos bate forte, no ângulo. Castilho se estica todo, mas não consegue evitar o terceiro gol húngaro.

A partir daí, o jogo descamba de vez para a violência. Em vez do embate técnico entre sul-americanos e europeus, o que a TV mostra é uma verdadeira batalha campal. A primeira em um jogo de Copa do Mundo. A primeira vez que craques deixam a bola de lado e resolvem partir para a briga.

Começa “A Batalha de Berna”.

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Num lance de meio de campo, Índio entra forte e derruba Hidkguti. Na sequência, Djalma Santos sofre falta duríssima de Mihaly Toth e precisa de atendimento médico. A confusão se instala quando fotógrafos brasileiros correm para registrar o lateral brasileiro. Temendo a invasão de campo, policiais suíços cercam e tentam afastar os jornalistas. Surge então um empurra-empurra que envolve até comissão técnica e o banco brasileiro.

Quando o jogo recomeça, os ânimos estão ainda mais exaltados. Um dos poucos com a cabeça no lugar, Julinho recebe de Didi, corta dois adversários e, da entrada da área, acerta um chute maravilhoso de trivela, de pé direito, no ângulo oposto de Grosics. Indefensável, golaço. O Brasil ainda sonha com a classificação.

Os lances duros seguem. Na dividida, Didi e Hidegkuti deixam as solas e as travas. Os craques começam a trocar a bola pelos pontapés. Czibor derruba índio e depois pisa no atacante brasileiro. Longe da bola e dos olhares do árbitro, Índio se vinga e acerta o húngaro com uma forte cotovelada que o leva a nocaute.

Aos 25 minutos, dos dois maiores craques de seu tempo, Nílton Santos e Bozsik partem para briga. Arthur Ellis manda a dupla para o chuveiro mais cedo.

Com um jogador a mais por causa do machucado Joszef Toth, o Brasil segue pressionando em busca do empate. E quase chega ao gol com Humberto, que se livra de Lantos e chuta forte na trave. A Hungria escapa por pouco.

Mas a melhor oportunidade brasileira surge da combinação de seus dois melhores jogadores. Julinho, mais uma vez, encara os defensores húngaros e descobre Índio chegando, de frente para o gol. A zaga corta e a bola se oferece para Didi. De fora da área, o craque do Fluminense acerta um chutaço indefensável. Caprichosamente, a bola bate no travessão e sai.

O time brasileiro desmorona a dez minutos do fim, com a expulsão de Humberto Tozzi após uma tesoura em Kocsis. Os brasileiros reclamam muito. Novamente em igualdade numérica de jogadores, a Hungria volta a controlar o jogo. E a dois minutos do fim, Czibor avança pelo espaço deixado após a expulsão de Nílton Santos e cruza na medida para Kocsis marcar o quarto gol da Hungria e acabar de vez com as ilusões brasileiras.

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O apito final é a senha para o início da festa húngara e também para o começo da pancadaria. Enquanto os jogadores húngaros celebram com a torcida, jornalistas brasileiros, jogadores e comissão técnica envolvem-se numa curiosa briga com policiais suíços que tentaram evitar que o árbitro Arthur Ellis fosse agredido.

Na entrada dos vestiários, uma garrafa é atirada e abre a testa de Pinheiro. Na confusão, acusam Puskas de ter jogado o objeto em direção aos jogadores brasileiros. Fora do jogo, o craque húngaro tinha descido ao campo para festejar e acabou envolvido na briga.

Voam cadeiras e mais garrafas. Socos, tapas, pernadas, empurrões e agressões de todos os tipos nos acessos ao túnel. Zezé Moreira, armado com as chuteiras de Didi, invade o vestiário rival e acerta a cabeça do técnico e também ministro dos Esportes húngaro, Gustav Sebes.

A Hungria vence o jogo e vai à semifinal contra o Uruguai. O Brasil, eliminado, ainda precisa amadurecer muito para pensar em voltar a lutar pelo título. Mas o trauma de 50 e as lições da Batalha de Berna ajudam a formar a mentalidade vencedora que levará o Brasil à conquista do Mundial quatro anos depois, na Suécia.

Ficha do Jogo

Hungria 4 x 2 Brasil

Estádio: Wankdorfstadion - Berna - 27/6/1954

Público: 39.882

Árbitro: Arthur Ellis (ING)

HUN: Grosics; Buzánszky, Lantos, Lóránt e Zakárias; Bozsik (c) e M.Tóth; Kocsis, Hidegkuti, Czibor, J.Tóth. TEC: Gustav Sebes

BRA: Castilho, Djalma Santos, Pinheiro e Nílton Santos; Brandãozinho, Bauer e Didi; Julinho, Humberto Tozzi, Índio e Maurinho. TEC: Zezé Moreira

Gols: Hidegkuti (4), Kocsis (7), D.Santos (18), Lantos (53), Julinho (65) e Kocsis (88)

CV: Bozsik, N.Santos e Humberto

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1970 - Brasil 1 x 0 Inglaterra

Protagonistas: Pelé, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, Paulo César, Gordon Banks, Bobby Moore, Bobby Charlton e Francis Lee

por Otávio Leite 

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O maior jogo de futebol de todos os tempos?

Sempre que listas deste tipo são feitas por sites e revistas especializadas, a partida do dia 7 de junho em Guadalajara aparece em primeiro lugar ou nas primeiras posições.

Brasil x Inglaterra, o mais esperado duelo do Mundial desde que foram sorteados os grupos para a Copa do Mundo de 1970, no México.

É o confronto entre os dois últimos campeões do mundo, vencedores das três Copas anteriores (Brasil 58 e 62 e Inglaterra 66).

Ou seja: um domínio de 12 anos.

É uma partida repleta de atrações. De um lado, o Rei Pelé e seus fiéis escudeiros Tostão, Jairzinho e Rivelino. O estrategista Gérson, com lesão muscular, está alijado da batalha. Seu lugar é ocupado pelo jovem e talentoso Paulo César Lima, ainda sem o penteado afro que lhe valeu o apelido de Caju.

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Na outra trincheira, os campeões do mundo são capitaneados por Sir Bobby Moore. Ele comanda uma tropa de nobres de sangue azul, com destaque para o cavaleiros Bobby Charlton, Gordon Banks e Geoff Hurst. Todos campeões do mundo quatro anos antes no gramado sagrado de Wembley, diante de sua rainha.

Mas agora é no México, sob o sol escaldante e o ar rarefeito. Condições não muito próprias para europeus. Pra piorar, a rejeição da torcida mexicana aos campeões mundiais é de 100%.

Campeões também em antipatia e arrogância. Reclamam da comida, do calor, das acomodações, das condições de treino e do comportamento da torcida. E, como suprema ofensa, levaram galões de água mineral da Inglaterra para o México, desconfiados da qualidade e da limpeza do líquido oferecido aos craques britânicos.

É uma atmosfera sufocante que recebe os ingleses nesta tarde no estádio Jalisco, pela segunda rodada do Grupo 3. Ambas as equipes venceram na estreia. A Inglaterra com um magro 1 a 0 sobre a Romênia, e o Brasil com uma impressionante goleada sobre a Tchecoslováquia, de virada, por 4 a 1.

Ao meio-dia, na hora local de Guadalajara, o israelense Abrahan Klein apita para o início do jogo, diante de 66.843 torcedores.

O que vem a seguir é uma das maiores exibições de futebol de todos os tempos, honrando vencedores e vencidos como protagonistas de um momento único na história do esporte mais popular do Planeta.

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Os campeões do mundo tomam a iniciativa. Com um meio de campo bastante equilibrado, com o trabalhador Mullery e o talentoso Charlton, a Inglaterra controla o modificado setor brasileiro. Rivelino recua para a vaga de Gérson, abrindo passagem para Paulo César na esquerda.

Hurst faz o pivô para o forte chute de Martin Peters, da entrada da área, que para nas mãos seguras de Félix. A fragilidade física do goleiro brasileiro e sua decantada debilidade no jogo aéreo são pontos que certamente serão explorados pelos britânicos.

E quase sai o gol no lance seguinte. Ball vê Félix mal colocado e arrisca um centro alto, da direita. A bola passa totalmente fora do alcance do goleiro brasileiro e por pouco não entra no ânglo oposto. O Brasil tem sorte de escapar.

Mas o mesmo Félix, tão instável pelo alto, mostra arrojo e segurança para mergulhar nos pés de Charlton e evitar que a Inglaterra abra o placar. O Brasil demora a entrar no jogo e oferece muitos espaços aos campeões do mundo.

Mas, quando decide entrar de vez no jogo...

Lee tenta outra vez da direita. Bate forte e Félix pega a bola no centro do gol. O camisa 1 sai rápido com Carlos Alberto, que avança até a linha de meio de campo e faz um extraordinário lançamento de trivela para Jairzinho. O Furacão aposta corrida com Cooper, chega antes e vai no fundo.

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O cruzamento é perfeito e encontra Pelé bem posicionado, quase na marca do pênalti. Mesmo marcado por Labone, Sua Majestade sobe mais alto e acerta uma cabeçada que mais parece um tiro de canhão. Pro chão, como mandam os almanaques que ensinam a arte do bom cabeceio.

A torcida se levanta e prepara o grito de gol. Todos têm certeza de que a bola entrará.
Menos Gordon Banks.

O milagroso goleiro inglês faz um movimento antecipando a trajetória da bola, pula para trás, no chão, e consegue evitar o inevitável. Faz a defesa e bota a bola para escanteio. Um dos momentos mágicos do futebol em todos os tempos. Reverenciada como a maior defesa da história.

Aberto pela esquerda como um verdadeiro ponta, Paulo César entra driblando na área e vai ao fundo. O cruzamento rasteiro na marca do pênalti procura Jairzinho, mas um recuado Bobby Charlton se antecipa e evita a finalização.

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Sempre explorando as costas de Everaldo, o lateral Wright vai ao fundo e cruza pra trás. A bola encontra Lee sozinho, na entrada da pequena área. O peixinho é perfeito e a cabeçada sai forte, com endereço certo. É a vez de Félix fazer milagre. O goleiro brasileiro mergulha e faz a defesa em dois tempos. Na tentativa de pegar o rebote, Lee acerta o rosto do corajoso goleiro brasileiro com um chute que quase leva Félix a nocaute.

O tempo fecha na área brasileira. Lee tenta se desculpar com Félix, mas Rivelino e Carlos Alberto estão inconformados com a violência da jogada. No lance seguinte, o capitão brasileiro vai à forra e deixa a sola no atacante inglês após o drible em Clodoaldo. O árbitro Klein faz vista grossa e não dá o vermelho ao lateral da Seleção.

O ritmo cai um pouco antes do fim do primeiro tempo, Pelé, marcadíssimo por Mullery, pede pênalti após a disputa de bola com o volante inglês. E Bobby Charlton tenta da entrada da área com um chute forte que não chega a assustar Félix.

Lee abre os trabalhos no segundo tempo com um forte chute da meia-lua. Félix cata sem problemas. Na sequência, Paulo César mostra que já está mais à vontade. Balança na frente de Wright, dribla e bate certeiro, no canto, mas Banks faz ótima defesa e bota pra fora.

Rivelino dá o chapéu em Cooper e toca para Pelé, que faz lindo lançamento para um desmarcado Jair. Esperto e atento, Banks sai da área e evita o gol brasileiro. A resposta inglesa é quase sempre a mesma: Lee nas costas de Everaldo. O ponta dá a Ball que entrega a Charlton. O chute sobe um pouco e não leva perigo ao gol de Félix.

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É hora de mais um milagre de Banks. Rivelino recebe pela meia direita do ataque brasileiro, corta dois adversários com dribles rápidos e arma a canhota mortífera já na entrada da área. O tiro é forte, preciso e bem colocado. Mas o goleiro inglês mostra que porquê é tratado como o melhor do mundo e manda a bola para longe da sua baliza.

Com quase 15 minutos de jogo, Zagallo manda Roberto Miranda aquecer para entrar no lugar do apagado Tostão. A figura do centroavante alvinegro se exercitando na beira do campo desperta o Mineirinho de Ouro.

O camisa 9 recebe o passe de Paulo César pela esquerda do ataque brasileiro e decide partir pra cima da defesa britânica. Com o cotovelo ele evita a chegada de Ball, dá uma caneta em Moore e escapa do carrinho de Wright. Ameça ir para o fundo, mas volta e cruza de pé direito para o outro lado da área. A bola chega na medida para Pelé, que domina com a tranquilidade de um monge, apesar da floresta de pernas inglesas que o cercam. O Rei atrai Mullery, Labone e Cooper, que correm para abafar o chute do camisa 10, mas descuidam da marcação de Jairzinho.

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Um erro fatal. Sua Majestade já tinha o lance todo planificado em sua cabeça. Com um toque sutil, ele estica para o camisa 7. O Furacão domina e bate forte diante da saída arrojada de Banks. Finalmente o goleiro inglês está batido. O Brasil faz 1 a 0 contra os campeões do mundo.

A reação britânica é quase que imediata. Bola parada e chuveirinho na área. Hurst escora para Peters que cai na área e pede pênalti. A sobra chega a Charlton, que dá outro bom chute. A bola desvia em Brito e sai.

Foi o último lance do veterano craque inglês. Exausto, ele deixa o campo e dá lugar ao grandalhão Colin Bell, exímio cabeceador. Sai também o castigado Lee para a entrada de outro centroavante de área, Jeff Astle. A Inglaterra vai para o tudo ou nada. Félix que se prepare.
O Brasil quase aumenta pelo mesmo caminho utilizado para abrir o placar. Desta vez, quem bagunça a defesa britânica pela esquerda é Paulo César. Ele dá a Pelé que atrai os marcadores e abre para Jairzinho entrando pela direita. O chute, dessa vez, sobe e sai.

A Inglaterra começa o bombardeio aéreo e leva vantagem sempre. Félix tem de se virar sozinho contra os grandalhões Hurst, Bell e Astle. Quando o goleiro não sai, Everaldo tenta cortar e protagoniza um dos lances mais ridículos da Copa. Ao tentar bater de direita, fura. A bola bate em sua canela esquerda e sobra para Astle. Sozinho, na marca do pênalti e com Félix batido, ele consegue errar o gol. Inacreditável. A Inglaterra desperdiça sua melhor chance de empatar.

Bell e Cooper tentam de fora da área. Em outra grande chance, o mesmo Bell ganha no alto e escora para Ball, que acerta um poderoso chute no travessão. E a última oportunidade surge em novo chuveirinho. Félix sai atrapalhado e erra o soco. A bola cai para Ball que manda para o gol vazio. Mas a bola sobe demais e sai.

Aberta, a Inglaterra cede espaço para dois contra-ataques brasileiros. Clodoaldo atravessa o campo e toca para Roberto, que chuta rasteiro e forte, obrigando Banks a trabalhar. E no último lance, o Rei mostra sua genialidade. Recebe de Rivelino e, de fora da área, vê o goleiro inglês adiantado. O toque por cima é alto demais e a bola sai.

Não há tempo para mais nada. Klein apita o fim do jogo. Pelé e Bobby Moore trocam camisas. A imagem é clássica, como tantas que ficam deste jogo.

Um vencedor incontestável, com todo o mérito possível. Mas nunca um time derrotado foi tão festejado e exaltado.

Pode haver glória na derrota?

Este Brasil x Inglaterra prova que sim.
 
Ficha do Jogo
 
Brasil 1 x 0 Inglaterra
Estádio: El Jalisco - Guadalajara - 7/6/19770
Público: 66.843
Árbitro: Abrahan Klein (ISR)
BRA: Felix, Carlos Alberto (c), Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Rivelino e Paulo Cesar Lima; Jairzinho, Tostão (Roberto) e Pelé. TEC: Zagallo
ING: Banks, Wright, Labone, Moore (c) e Cooper; Mullery, Lee (Astle), Alan Ball e B.Charlton (Bell); Hurst e Peters. TEC: Alf Ramsey
Gol: Jairzinho (60)
CA: Lee

JOGOS HISTÓRICOS

Itália 2 x 1 Bulgária

Protagonistas: Roberto Baggio, Paolo Maldini, Demetrio Albertini, Hristo Stoichkov, Emil Kostadinov e Nasko Sirakov

por Otávio Leite

Falta pouco para o apito final no Parque dos Príncipes, em Paris. França e Bulgária empatam em 1 a 1 e o resultado classifica a forte seleção dos craques Pappin, Cantona, Deschamps e Ginola para o Mundial de 1994, no Estados Unidos.

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É a volta da França, ausente da Copa do Mundo de 1990, na Itália. Melhor do que ter de aturar a Bulgária, que já disputou cinco Copas e, até agora, não conseguiu uma vitória sequer. São 16 jogos, com seis empates e dez derrotas. Ou seja: ninguém mais quer saber dos historicamente retrancados e carrancudos búlgaros.

Mas os búlgaros são valentes. Perseguem a vitória improvável. Já arrancaram o empate e buscam a virada histórica. E o inesperado acontece já nos acréscimos: Emil Kostadinov, atacante pelo lado do campo, rápido e goleador, marca o gol que elimina a França e garante a viagem da surpreendente Bulgária para curtir o verão no ano seguinte nos Estados Unidos.

Quando a Copa começa, tudo parece como sempre. Na estreia, derrota categórica por 3 a 0 para a fortíssima Nigéria dos imensos Yekini e Amokachi. Mais uma para a conta...

O jogo seguinte, contra a débil Grécia, é sob medida para dar aos búlgaros o gostinho de uma vitória. E ela vem numa pelada de muitos gols: 4 a 0, com dois de pênalti do até então apagado Hristo Stoichkov.

Ao que tudo indica, a despedida da Bulgária tem dia e local marcados: 30 de junho, em Dallas, contra a Argentina de Maradona, Batistuta, Redondo e Caniggia.

Mas, nos dias anteriores ao jogo, o escândalo de doping abala a Argentina. O maior craque do Planeta nas duas últimas décadas, Diego Maradona, está suspenso do Mundial. Um verdadeiro coquetel de susbstânicas proibidas é encontrado na sua urina. Enfraquecida pela ausência do seu camisa 10, a Argentina cai por 2 a 0. Stoichkov e o grandalhão Sirakov marcam os gols que dão à Bulgária a classificação à fase seguinte.

Nas quartas de final, o empate em 1 a 1 – gol de Stoichkov - e a vitória nos pênaltis despacham o México, que conta com o maciço apoio de sua torcida e o forte calor americano como aliado. O grande desafio vem nas oitavas de final. A esta altura, ninguém mais despreza a Bulgária. Nem mesmo contra a forte Alemanha, campeã do Mundo em 90 e agora unificada.

E a zebra reaparece no Giants Stadium, em Nova Jersey. Gols de Stoichkov e Letchkov eliminam a poderosa seleção de Klinsmann, Matthaus e Voeller.

Inacreditável!

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Os eternamente derrotados búlgaros estão a um jogo de decidir o título mundial. E pela frente, nada menos que a poderosa Itália de Roberto Baggio, Franco Baresi e Paolo Maldini, entre outros.

A Itália segue o roteiro de sempre.

Vem crescendo de produção na etapa decisiva do Mundial. Depois de uma primeira fase medíocre, com um empate, uma derrota e uma vitória, e a classificação no saldo de gols, a Squadra Azzurra atropela seus adversários na fase de mata-mata, sempre guiada pelos pés mágicos de Robby Baggio, “Il Divino”. Faz os dois na vitória contra a Nigéria, por 2 a 1, e demonstra sangue gelado para marcar o gol decisivo contra a Espanha, após driblar Zubizarreta e tocar com imensa categoria, quase sem ângulo, a dois minutos do fim.

O Giants Stadium é o palco deste confronto de gigantes. Stoichkov esbanja confiança. Ele tem ao seu lado um time forte e unido, que se conhece muito bem. O baixinho Balakov e o calvo Letchkov preparam as jogadas para o trio ofensivo, com Stoichkov, Sirakov e o herói de Paris, Kostadinov.

A Itália vem jogando no limite de suas forças. Baggio, invariavelmente, termina as partidas exausto. Frágil fisicamente, ele sofre ainda mais com o calor impiedoso do verão americano. Ao seu lado, um meio de campo formado por Albertini, Berti, Dino Baggio e Donadoni, jogadores versáteis e inteligentes, capazes de marcar com força e mostrar talento na criação. Seu companheiro de ataque é o esforçado, porém medíocre, Pierluigi Casiraghi.

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Prevendo que sua equipe não terá pernas para suportar 90 minutos e talvez uma prorrogação sob o sol, Arrigo Sachi adianta a marcação e sufoca a Bulgária no seu campo de defesa. A tática se mostra perfeita e Baggio comanda um início de jogo irresistível.

São praticamente 30 minutos de pressão absoluta, sem sofrer sustos do forte ataque búlgaro. Aos 20 minutos, Donadoni bate o lateral para Baggio. O craque domina na entrada da área, passa por Iankov e Houbtchev e chuta colocado, à esquerda de Mihailov. Um golaço com a marca do ídolo da Azzurra.

Quatro minutos depois, Albertini chuta de fora da área e acerta a trave. Na sequência do lance, o mesmo Albertini tenta cobrir o goleiro Mihailov, que se estica todo e manda a bola a escanteio. A Bulgária está atônita e não consegue trocar três passes no campo de ataque.

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A Itália aumenta aos 25, novamente com Baggio. Albertini desta vez prefere o passe ao tiro. Dá uma cavadinha para Baggio, que se infiltra entre os zagueiros, evita o grandalhão Trifon Ivanov e chuta rasteiro, no canto direito. Dois a zero e parece que a Itália vai golear a Bulgária.

Aos 28 é a vez de Casiraghi, livre, perder a chance de aumentar o placar. Balakov assusta aos 36 com um chute forte de canhota e por pouco não diminui. E aos 41, Maldini quase marca de cabeça.

Um minuto depois, na sua primeira boa trama de ataque, a Bulgária encontra o gol. Sirakov faz uma espécie de “slalom” na defesa italiana, entra driblando, livra-se de Maldini e Costacurta e acaba derrubado por Pagliuca quando prepara o chute para marcar.

O sumido Stoichkov bate com categoria, à direita de Pagliuca, e põe a Bulgária novamente no jogo. É o sexto gol do camisa 8 búlgaro na Copa, que mantém uma briga particular pela atilharia com o seu companheiro de clube no Barcelona, o Baixinho Romário, destaque da seleção brasileira neste mesmo Mundial.

No segundo tempo, o calor de 35 graus produz efeitos nocivos para as duas equipes. As pernas italianas estão excessivamente desgastadas, mas os búlgaros não encontram força para reagir. A melhor chance é aos 10 minutos, na cabeçada de Sirakov que desvia em Costacurta e sai.

Baggio cai exausto. Com fortes dores musculares, ele deixa o gramado substituído pelo veloz Signori e passa a ser dúvida caso a Itália consiga a vaga na final.

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O lance que poderia mudar a história da partida acontece aos 24 minutos do segundo tempo. Kostadinov entra na área e ganha a disputa com Costacurta. Acintosamente, o zagueiro italiano bota a mão na bola e corta o lance. Os búlgaros se desesperam. Stoichkov e Kostadinov cercam o árbitro. Mas o pênalti não é marcado.

A Bulgária não encontra forças para reagir. Cansado, Stoichkov dá lugar a Genchev. Herói em Paris, Kostadinov também é substituído, por Yordanov.

Não há mais tempo para um novo milagre. O último ficou nos gramados da França.

Mas, espera aí... alguém falou em França?

O árbitro é francês!!!! Joel Quiniou...

E o que Stoichkov acha disso?

“Deus estava do nosso lado, mas o juiz é francês”, esbraveja o craque após o jogo. E lembra a histórica noite da classificação búlgara para o Mundial.

“A França não está jogando nessa Copa por nossa causa”, diz, encontrando a explicação para a não marcação do pênalti de Costacurta e a eliminação da surpreendente seleção da Bulgaria.

Roberto Baggio agora luta contra o tempo para se recuperar dos problemas musculares e liderar a Squadra Azzurra em mais um final de Copa do Mundo. É a quinta dos italianos. E pela frente, outro tricampeão mundial: o forte time brasileiro, mais tradicional adversário e algoz da final de 1970, no México.

Apenas um sairá do Coliseu, de Los Angeles, com a faixa de tetracampeão.

Ficha do Jogo

Bulgária 1 x 2 Itália

Estádio: Giants Stadium - Nova Jersey - 13/07/1994

Público: 74.110

Árbitro: Joel Quiniou (França)

BUL: Mihailov; Ivanov, Iankov e Tzvetanov; Houbtchev, Kiriakov, Letchkov e Balakov; Kostadinov (Yordanov), Sirakov e Stoichkov (Guentchev). TEC: Dimitar Penev

ITA: Pagliuca; Benarrivo, Costacurta, Maldini e Mussi; Albertini, Dino Baggio (Conte), Berti e Donadoni; Roberto Baggio (Signori) e Casiraghi. TEC: Arrigo Sacchi

Gols: Roberto Baggio (20 e 25) e Stoichkov (43)

CA: Kostadinov, Letchkov, Iankov, Costacurta e Albertini