Inglaterra

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1970 - Brasil 1 x 0 Inglaterra

Protagonistas: Pelé, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, Paulo César, Gordon Banks, Bobby Moore, Bobby Charlton e Francis Lee

por Otávio Leite 

H1.jpg

O maior jogo de futebol de todos os tempos?

Sempre que listas deste tipo são feitas por sites e revistas especializadas, a partida do dia 7 de junho em Guadalajara aparece em primeiro lugar ou nas primeiras posições.

Brasil x Inglaterra, o mais esperado duelo do Mundial desde que foram sorteados os grupos para a Copa do Mundo de 1970, no México.

É o confronto entre os dois últimos campeões do mundo, vencedores das três Copas anteriores (Brasil 58 e 62 e Inglaterra 66).

Ou seja: um domínio de 12 anos.

É uma partida repleta de atrações. De um lado, o Rei Pelé e seus fiéis escudeiros Tostão, Jairzinho e Rivelino. O estrategista Gérson, com lesão muscular, está alijado da batalha. Seu lugar é ocupado pelo jovem e talentoso Paulo César Lima, ainda sem o penteado afro que lhe valeu o apelido de Caju.

H4.jpg

Na outra trincheira, os campeões do mundo são capitaneados por Sir Bobby Moore. Ele comanda uma tropa de nobres de sangue azul, com destaque para o cavaleiros Bobby Charlton, Gordon Banks e Geoff Hurst. Todos campeões do mundo quatro anos antes no gramado sagrado de Wembley, diante de sua rainha.

Mas agora é no México, sob o sol escaldante e o ar rarefeito. Condições não muito próprias para europeus. Pra piorar, a rejeição da torcida mexicana aos campeões mundiais é de 100%.

Campeões também em antipatia e arrogância. Reclamam da comida, do calor, das acomodações, das condições de treino e do comportamento da torcida. E, como suprema ofensa, levaram galões de água mineral da Inglaterra para o México, desconfiados da qualidade e da limpeza do líquido oferecido aos craques britânicos.

É uma atmosfera sufocante que recebe os ingleses nesta tarde no estádio Jalisco, pela segunda rodada do Grupo 3. Ambas as equipes venceram na estreia. A Inglaterra com um magro 1 a 0 sobre a Romênia, e o Brasil com uma impressionante goleada sobre a Tchecoslováquia, de virada, por 4 a 1.

Ao meio-dia, na hora local de Guadalajara, o israelense Abrahan Klein apita para o início do jogo, diante de 66.843 torcedores.

O que vem a seguir é uma das maiores exibições de futebol de todos os tempos, honrando vencedores e vencidos como protagonistas de um momento único na história do esporte mais popular do Planeta.

H6.jpeg

Os campeões do mundo tomam a iniciativa. Com um meio de campo bastante equilibrado, com o trabalhador Mullery e o talentoso Charlton, a Inglaterra controla o modificado setor brasileiro. Rivelino recua para a vaga de Gérson, abrindo passagem para Paulo César na esquerda.

Hurst faz o pivô para o forte chute de Martin Peters, da entrada da área, que para nas mãos seguras de Félix. A fragilidade física do goleiro brasileiro e sua decantada debilidade no jogo aéreo são pontos que certamente serão explorados pelos britânicos.

E quase sai o gol no lance seguinte. Ball vê Félix mal colocado e arrisca um centro alto, da direita. A bola passa totalmente fora do alcance do goleiro brasileiro e por pouco não entra no ânglo oposto. O Brasil tem sorte de escapar.

Mas o mesmo Félix, tão instável pelo alto, mostra arrojo e segurança para mergulhar nos pés de Charlton e evitar que a Inglaterra abra o placar. O Brasil demora a entrar no jogo e oferece muitos espaços aos campeões do mundo.

Mas, quando decide entrar de vez no jogo...

Lee tenta outra vez da direita. Bate forte e Félix pega a bola no centro do gol. O camisa 1 sai rápido com Carlos Alberto, que avança até a linha de meio de campo e faz um extraordinário lançamento de trivela para Jairzinho. O Furacão aposta corrida com Cooper, chega antes e vai no fundo.

H8.jpg

O cruzamento é perfeito e encontra Pelé bem posicionado, quase na marca do pênalti. Mesmo marcado por Labone, Sua Majestade sobe mais alto e acerta uma cabeçada que mais parece um tiro de canhão. Pro chão, como mandam os almanaques que ensinam a arte do bom cabeceio.

A torcida se levanta e prepara o grito de gol. Todos têm certeza de que a bola entrará.
Menos Gordon Banks.

O milagroso goleiro inglês faz um movimento antecipando a trajetória da bola, pula para trás, no chão, e consegue evitar o inevitável. Faz a defesa e bota a bola para escanteio. Um dos momentos mágicos do futebol em todos os tempos. Reverenciada como a maior defesa da história.

Aberto pela esquerda como um verdadeiro ponta, Paulo César entra driblando na área e vai ao fundo. O cruzamento rasteiro na marca do pênalti procura Jairzinho, mas um recuado Bobby Charlton se antecipa e evita a finalização.

H3.png

Sempre explorando as costas de Everaldo, o lateral Wright vai ao fundo e cruza pra trás. A bola encontra Lee sozinho, na entrada da pequena área. O peixinho é perfeito e a cabeçada sai forte, com endereço certo. É a vez de Félix fazer milagre. O goleiro brasileiro mergulha e faz a defesa em dois tempos. Na tentativa de pegar o rebote, Lee acerta o rosto do corajoso goleiro brasileiro com um chute que quase leva Félix a nocaute.

O tempo fecha na área brasileira. Lee tenta se desculpar com Félix, mas Rivelino e Carlos Alberto estão inconformados com a violência da jogada. No lance seguinte, o capitão brasileiro vai à forra e deixa a sola no atacante inglês após o drible em Clodoaldo. O árbitro Klein faz vista grossa e não dá o vermelho ao lateral da Seleção.

O ritmo cai um pouco antes do fim do primeiro tempo, Pelé, marcadíssimo por Mullery, pede pênalti após a disputa de bola com o volante inglês. E Bobby Charlton tenta da entrada da área com um chute forte que não chega a assustar Félix.

Lee abre os trabalhos no segundo tempo com um forte chute da meia-lua. Félix cata sem problemas. Na sequência, Paulo César mostra que já está mais à vontade. Balança na frente de Wright, dribla e bate certeiro, no canto, mas Banks faz ótima defesa e bota pra fora.

Rivelino dá o chapéu em Cooper e toca para Pelé, que faz lindo lançamento para um desmarcado Jair. Esperto e atento, Banks sai da área e evita o gol brasileiro. A resposta inglesa é quase sempre a mesma: Lee nas costas de Everaldo. O ponta dá a Ball que entrega a Charlton. O chute sobe um pouco e não leva perigo ao gol de Félix.

H5.jpg

É hora de mais um milagre de Banks. Rivelino recebe pela meia direita do ataque brasileiro, corta dois adversários com dribles rápidos e arma a canhota mortífera já na entrada da área. O tiro é forte, preciso e bem colocado. Mas o goleiro inglês mostra que porquê é tratado como o melhor do mundo e manda a bola para longe da sua baliza.

Com quase 15 minutos de jogo, Zagallo manda Roberto Miranda aquecer para entrar no lugar do apagado Tostão. A figura do centroavante alvinegro se exercitando na beira do campo desperta o Mineirinho de Ouro.

O camisa 9 recebe o passe de Paulo César pela esquerda do ataque brasileiro e decide partir pra cima da defesa britânica. Com o cotovelo ele evita a chegada de Ball, dá uma caneta em Moore e escapa do carrinho de Wright. Ameça ir para o fundo, mas volta e cruza de pé direito para o outro lado da área. A bola chega na medida para Pelé, que domina com a tranquilidade de um monge, apesar da floresta de pernas inglesas que o cercam. O Rei atrai Mullery, Labone e Cooper, que correm para abafar o chute do camisa 10, mas descuidam da marcação de Jairzinho.

H9.jpg

Um erro fatal. Sua Majestade já tinha o lance todo planificado em sua cabeça. Com um toque sutil, ele estica para o camisa 7. O Furacão domina e bate forte diante da saída arrojada de Banks. Finalmente o goleiro inglês está batido. O Brasil faz 1 a 0 contra os campeões do mundo.

A reação britânica é quase que imediata. Bola parada e chuveirinho na área. Hurst escora para Peters que cai na área e pede pênalti. A sobra chega a Charlton, que dá outro bom chute. A bola desvia em Brito e sai.

Foi o último lance do veterano craque inglês. Exausto, ele deixa o campo e dá lugar ao grandalhão Colin Bell, exímio cabeceador. Sai também o castigado Lee para a entrada de outro centroavante de área, Jeff Astle. A Inglaterra vai para o tudo ou nada. Félix que se prepare.
O Brasil quase aumenta pelo mesmo caminho utilizado para abrir o placar. Desta vez, quem bagunça a defesa britânica pela esquerda é Paulo César. Ele dá a Pelé que atrai os marcadores e abre para Jairzinho entrando pela direita. O chute, dessa vez, sobe e sai.

A Inglaterra começa o bombardeio aéreo e leva vantagem sempre. Félix tem de se virar sozinho contra os grandalhões Hurst, Bell e Astle. Quando o goleiro não sai, Everaldo tenta cortar e protagoniza um dos lances mais ridículos da Copa. Ao tentar bater de direita, fura. A bola bate em sua canela esquerda e sobra para Astle. Sozinho, na marca do pênalti e com Félix batido, ele consegue errar o gol. Inacreditável. A Inglaterra desperdiça sua melhor chance de empatar.

Bell e Cooper tentam de fora da área. Em outra grande chance, o mesmo Bell ganha no alto e escora para Ball, que acerta um poderoso chute no travessão. E a última oportunidade surge em novo chuveirinho. Félix sai atrapalhado e erra o soco. A bola cai para Ball que manda para o gol vazio. Mas a bola sobe demais e sai.

Aberta, a Inglaterra cede espaço para dois contra-ataques brasileiros. Clodoaldo atravessa o campo e toca para Roberto, que chuta rasteiro e forte, obrigando Banks a trabalhar. E no último lance, o Rei mostra sua genialidade. Recebe de Rivelino e, de fora da área, vê o goleiro inglês adiantado. O toque por cima é alto demais e a bola sai.

Não há tempo para mais nada. Klein apita o fim do jogo. Pelé e Bobby Moore trocam camisas. A imagem é clássica, como tantas que ficam deste jogo.

Um vencedor incontestável, com todo o mérito possível. Mas nunca um time derrotado foi tão festejado e exaltado.

Pode haver glória na derrota?

Este Brasil x Inglaterra prova que sim.
 
Ficha do Jogo
 
Brasil 1 x 0 Inglaterra
Estádio: El Jalisco - Guadalajara - 7/6/19770
Público: 66.843
Árbitro: Abrahan Klein (ISR)
BRA: Felix, Carlos Alberto (c), Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo, Rivelino e Paulo Cesar Lima; Jairzinho, Tostão (Roberto) e Pelé. TEC: Zagallo
ING: Banks, Wright, Labone, Moore (c) e Cooper; Mullery, Lee (Astle), Alan Ball e B.Charlton (Bell); Hurst e Peters. TEC: Alf Ramsey
Gol: Jairzinho (60)
CA: Lee

JOGOS HISTÓRICOS

Copa de 1970 - Brasil 3 x 1 Uruguai

 Protagonistas: Pelé, Jairzinho, Tostão, Clodoaldo, Cubillas, Fontes e Mazurkiewicz

por Otávio Leite

k1.jpg

São vinte anos.

No universo do futebol, quase um piscar de olhos.

As lembranças da derrota para o Uruguai, na final da Copa do Mundo de 1950, ainda estão muito vivas nos corações brasileiros.

As cicatrizes estão abertas e expostas.

Uma ferida que nunca para de sangrar.

Os fantasmas do Maracanã ressurgem neste 17 de junho de 1970 para assombrar os craques brasileiros na semifinal da Copa do Mundo contra o Uruguai, no Estádio Jalisco, em Guadalajara.

Bicampeão mundial como jogador em 1958 e 1962, o técnico brasileiro Zagallo tem um grupo experiente em suas mãos, calejado pelo fracasso de quatro anos antes na Inglaterra. Especialmente o trio de gênios - Gérson, Tostão e Pelé - e o indomável Jairzinho.

Todos amargaram o vexame de Liverpool e a eliminação precoce no Mundial de 1966.

A eles juntam-se outros três jogadores fora de série, de espírito vencedor e talento sobrenatural: Rivelino, Carlos Alberto e Clodoaldo.

Uma seleção de sonhos com atuações sedutoras, como nas vitórias sobre Tchecoslováquia e Inglaterra.

k2.jpg

Do outro lado, a rivalidade, o peso da história, a camisa celeste e um time composto por ótimos jogadores.

Acima de todos, o barrigudinho imprevisível e manhoso Luís Cubilla, um atacante de incontáveis recursos técnicos, grande poder de finalização e conhecedor de todos os truques e catimbas capazes de desestabilizar qualquer adversário.

Lá atrás, solidez defensiva com os duríssimos Ubiñas, Ancheta, Fontes e Montero-Castillo na marcação.

E a Celeste tem ainda o sobrenatural Ladislao Mazurkiewicz no gol.

Até o jogo contra o Brasil, a defesa uruguaia tinha sido vazada apenas uma vez, na derrota para a Suécia. O Brasil, em comparação, com os mesmos quatro jogos, já havia sofrido cinco gols.

A diferença está no ataque. São 12 gols brasileiros contra apenas três uruguaios.

Um fascinante duelo de estilos.

Quando a bola rola, é o Uruguai que se impõe. Em menos de 15 minutos, o lateral Mujica faz três faltas duríssimas em Jairzinho. E Fontes não dá descanso a Pelé. O Brasil esquece de jogar futebol e entra na pilha. Clodoaldo e Carlos Alberto também não aliviam as pernas rivais.

k4.jpg

Nesse cenário favorável, o Uruguai cresce e se aproveita dos erros brasileiros. Félix defende com dificuldade um chute de Fontes pela direita.

Logo aos 19 minutos, Brito tenta sair jogando e erra um passe simples para Carlos Alberto. Morales agradece o presente e abre na direita para a entrada de Cubillas no espaço entre Piazza e Everaldo. Ele domina com a coxa e chuta cruzado. A bola sai fraca, embriagada e tomada por um efeito hipnotizante.

Félix parece que vai defender com facilidade, mas é traído pelo quique, que muda a trajetória. O goleiro brasileiro cai sentado e só observa o estranho gol uruguaio.

Festa de Cubillas e sua curiosa silhueta para um atleta.

Gérson, o cérebro brasileiro, está controlado por Montero-Castillo. Pelé e Jairzinho marcados com violência e Rivelino, sem espaços, já dá sinais de irritabilidade. Isolado entre os zagueiros, Tostão não consegue sair da área e tabelar com seus companheiros. O Brasil está petrificado diante do velho fantasma.

O Canhotinha de Ouro tenta de longe, mas sem perigo, e Pelé chega mais perto com uma boa cabeçada. A pancadaria segue e a Seleção assusta apenas numa bola parada, pela direita. Rivelino bate com categoria, mas Mazurkiewicz faz linda defesa.

k3.jpg

Antes do fim do primeiro tempo, a decisão que muda a história da partida. Gérson recua e troca de posição com Clodoaldo. Dessa forma, chama a marcação para o campo de defesa do Brasil e cria um corredor para os avanços do jovem volante do Santos. Uma cartada de mestre.

A um minuto do fim, a sólida marcação uruguaia está desarrumada com a troca de posições entre os jogadores brasileiros. Quem inicia a jogada é Rivelino. Ele dá a Everaldo, que vê o avanço de Clodoaldo pelo corredor e estica o passe para o volante, já na posição de meia-esquerda.

Aberto pela esquerda, Tostão recebe de Clodoaldo e devolve um passe genial, já na área, para o jovem sergipano de apenas 20 anos. A penetração é perfeita e a finalização ainda melhor. De primeira, de pé direito. Golaço e jogo empatado.

O gol devolve a confiança ao Brasil e deixa os uruguaios abalados. No retorno do intervalo, o público no Estádio Jalisco e diante da TV, em todo o mundo, assiste a uma das maiores exibições de futebol da história das Copas do Mundo. Com direito a um incomparável e inesquecível show solo de Pelé.

Começa com uma arrancada do meio de campo e que só foi interrompida com falta, dentro da área. Pênalti ignorado pelo enrolado árbitro espanhol José María Ortiz de Mendibil, que marca fora. Pelé bate mal e isola, mas na sequência do tiro de meta, o Rei devolve de bate-pronto a cobrança ruim de Mazurkiewicz, obrigando o goleiro uruguaio a uma defesa sensacional. Depois, quem arranca é Jairzinho, que vai no fundo e rola pra trás. Sua Majestade acerta um chutaço que tira tinta da trave.

Pelé continua sendo caçado. E o zagueiro Fontes é seu maior algoz. O Rei está ferido e zangado.

Em forma exuberante, Jairzinho começa o contra-ataque ainda no campo brasileiro e passa a Pelé. De primeira, o Rei ilude a marcação com um toque genial para Tostão, que estica para o Furacão da Copa, já no campo adversário. Com um drible de corpo, em alta velocidade, ele atropela Fontes e toca com muita classe na saída de Mazurkiewicz. Golaço e Brasil na frente.

O uruguaio Cubilla

O uruguaio Cubilla

Num último suspiro da Celeste, novamente com Cubillas, o Uruguai busca o empate. Mujica dá o balão para a área, de longe, e descobre o camisa 7 sozinho, livre da marcação de Everaldo. O atacante, na pequena área, acerta uma cabeçada à queima-roupa, quase no chão. O lance parece indefensável, mas Félix faz uma defesa milagrosa e impede o empate uruguaio. O tão criticado goleiro brasileiro salva a Seleção e torna-se o herói improvável desta semifinal.

O jogo já vai acabar e o Uruguai tenta uma pressão final. É hora de o Rei mostrar quem manda. Primeiro, ele comanda o contra-ataque pela esquerda. Atrai a marcação de Ubiñas e Ancheta e rola a bola macia para a "patada atômica" de Rivelino. O chute é forte, venenoso e sem chance para Mazurkiewicz: 3 a 1. O Brasil é finalista.

Mas o solo do Rei ainda está longe de terminar. Ele tem contas a acertar e quer marcar o seu gol. Primeiro, numa disputa de bola, acerta uma cotovelada no rosto de Fontes. Malandramente, cai simulando ter sido agredido. O confuso juiz dá falta do uruguaio.

E, nos acréscimos, cria o lance mais genial da história das Copas do Mundo. Ao ser lançado por Tostão, sem tocar na bola, faz uma finta de corpo no desesperado Mazurkiewicz, já na meia-lua da área. Com o gol vazio, Sua Majestade bate quase sem ângulo. Mas a bola, caprichosamente, sai.

k5.jpg

Não é gol, mas nem precisa. O lance já está marcado para a eternidade. Não existe a perfeição absoluta. Se a bola entrasse, talvez este golaço ficasse escondido nas gavetas da história como mais um dos tantos marcados pelo Rei.

Pelé guardou o seu último gol em Copas do Mundo para a grande final contra a Itália. Na Cidade do México, o Brasil bate a Azzurra por 4 a 1 e conquista o tricampeonato mundial. Um jogo tranquilo e sem grandes sustos. Mas a verdadeira final daquela Copa, pelo menos para os brasileiros, aconteceu quatro dias antes, contra o Uruguai. A tão esperada vingança do Maracanazo de 1950.

Ficha do Jogo

Brasil 3 x 1 Uruguai

Estádio: Jalisco - Guadalajara - 17/6/1970

Público: 51.261

Árbitro: Ortiz de Mendibil (ESP)

BRA: Felix, Carlos Alberto (c), Brito, Piazza e Everaldo; Clodoaldo e Gerson; Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. TEC: Zagallo

URU: Mazurkiewicz, Ubiña (C), Ancheta, Matosas e Mujica, Fontes, Cortés, Montero-Castillo e Maneiro (Espárrago); Cubilla e Morales. TEC: Juan Hohberg

Gols: Cubilla (19), Clodoaldo (45),  Jairzinho (76) e Rivelino (90)

CA: Carlos Alberto, Fontes, Maneiro e Mujica

 

 

 

 

 

TÉCNICOS DE SEIS PAÍSES DIFERENTES COMANDAM A PREMIER LEAGUE

por Pedro Redig, de Londres

comandantes.png

A guerra dos técnicos é um show à parte na Premier League. Os seis melhores estrategistas de seis países diferentes comandam os seis times que estão no G6 – no alto  da tabela.

São eles: o catalão Pep Guardiola campeão com o Manchester City, o português José Mourinho do Manchester United, o alemão do Liverpool, Jurgen Klopp, o argentino Mauricio Pochettino do Tottenham, o italiano Antônio Conte do Chelsea e finalmente o francês Arsène Wenger do Arsenal. Os seis brigaram a maior parte do campeonato pelas seis melhores posições que garantem presença nas prestigiadas Champions League e Liga Europa.

Vamos agora a um perfil de cada um:

guardiola.jpg

Guardiola, 47 anos, não pode nem deve ser chamado de espanhol. O catalão foi multado pela Premier League por usar uma tarja amarela em solidariedade a líderes catalães que buscam autonomia de Madrid. Pagou a multa e continuou usando.

Em Manchester, o obstinado técnico armou o melhor time do campeonato que bateu recordes de pontos e gols marcados e faturou o título com cinco rodadas de antecedência.

Guardiola aplicou no City a mesma receita de excelência dos times que dirigiu antes como Barcelona e Real Madrid: pressão no alto do campo, posse e circulação da bola tipo 'bobinho' e jogo sempre saindo da defesa.

A contratação do goleiro Ederson foi peça-chave no quebra-cabeça do City. Guardiola queria um goleiro para sair com a bola no mesmo estilo do alemão Neuer, que ele comandou no Bayern de Munique.

Ele apostou em outros jogadores, como Kyle Walker, o ala que trouxe do Tottenham. Muitos jogadores melhoraram o desempenho individual e o melhor exemplo é Leroy Sané, o ponta esquerda alemão do City que merece ser considerado entre os melhores do mundo.

Gabriel Jesus teve as suas chances e marcou gols importantes mas ainda tem muito que aprender. Guardiola é o melhor professor e o City o clube ideal para o brasileiro no momento.

Diante de tantos elogios, é bom não esquecer que o City perdeu a quarta-de-final para o Liverpool, acabando com o sonho de Guardiola de vencer a Champions League.

mou.jpg

José Mourinho, 55 anos, é um queridinho da mídia na Inglaterra. Tudo que ele fala vira manchete. Mas o português de Setúbal volta e meia aparece rabugento e confrontando repórteres nas entrevistas. De bom humor, ele é até engraçado.

Mourinho tem fama de ser um técnico cauteloso e a torcida acha que falta audácia e uma atitude mais positiva no jeito do time jogar.  Os 'diabos vermelhos' querem a volta dos bons tempos de Alex Ferguson quando dominavam tudo.

O rival City tem mais dinheiro por causa dos ricos donos em Abu Dhabi, mas o United também investiu contratando Paul Pogba por R$400 milhões. Mourinho tem tido uma relação complicada com o meio campo francês que poderá deixar o clube na próxima temporada.

Mourinho vai certamente promover mudanças e 'arrumar a casa' do jeito que ele gosta. A próxima missão é também a mais difícil – recuperar a supremacia do futebol inglês do campeão City.

klopp.jpg

Jurgen Klopp, 50 anos, é daqueles simpáticos alemães sempre com um largo sorriso e uma gargalhada forte. Ele fez o nome no Borussia Dortmund, o time da animada torcida da 'muralha amarela'.

Klopp trouxe este espírito guerreiro para Anfield, um dos templos sagrados do futebol mundial, levando os jogadores de braços dados para saudar a torcida no final dos jogos.

Ele também é famoso por gesticular muito na área técnica numa animação contagiante. Às vezes, Klopp não se contém e se joga nos braços da torcida!

O alemão perdeu Philippe Coutinho no meio da temporada mas conseguiu dar a volta por cima. O atual ataque com Mo Salah, Roberto Firmino e Sadio Mané tem sido mais eficiente do que nos tempos do brasileiro que foi para o Barça.

Salah já chegou à marca de 40 gols na temporada incluindo todas as competições e tem tudo para ser eleito craque do atual campeonato inglês.

Klopp também cuidou da defesa, trocando o goleiro e contratando o zagueiro holandes Virgil Van Dijk por R$330 milhões. O Liverpool de hoje está mais forte do que nunca e pode sonhar alto depois de eliminar o Manchester City da Champions League. 

pochettino.jpg

Mauricio Pochettino, 46 anos, comanda o Tottenham há quatro anos. Argentino com dupla nacionalidade espanhola, foi zagueiro central em clubes como Espanyol e Paris St-Germain.

Pochettino veio do Southampton onde supervisionou uma eficiente divisão de base. Trouxe esta confiança em novos jogadores para o Tottenham e revelou talentos como Harry Kane e Dele Alli.

Agora, depois de garantir o clube na elite européia, dizem que gigantes de outros países como Real Madrid estariam de olho nos três. O Tottenham simplesmente não pode perder os craques e o treinador que vem fazendo o sucesso do clube.

Ainda por cima, o clube tem um estádio novo de R$3,5 bilhões e meio para encher. Não é vendendo o seu melhor talento que o Tottenham vai conseguir sucesso. É bom lembrar que Luka Modric e Gareth Bale saíram do Tottenham para o Real Madrid. 

conte 3.jpg

Antônio Conte, 48 anos, divide o jeito passional de Klopp mas é um latino típicamente italiano. Gosta muito do 'teatro' na beira do campo e também divide as comemorações com os fãs.

Ele armou o time num 3-4-3 mas o nível dos artilheiros deixa a desejar. A melhor prova disso é que nem Alvaro Morata, nem Oliver Giroud conseguem emplacar como titulares. O brasileiro Willian teve uma ótima temporada mas Eden Hazard ficou abaixo do nível que ele costuma atingir.

David Luiz não teve a mesma sorte e foi encostado por desavenças com o técnico. Um terceiro brasileiro, Kenedy (ex-Fluminense) se deu bem porque foi emprestado pelo Chelsea e está brilhando no Newcastle, cotado como alvo de grandes clubes.

Conte foi leal como jogador, ficando treze anos na Juventus - e mais três como técnico. Mas agora todo mundo acha que, seguindo os rompantes dele e do dono do clube Ramon Abramovich, o italiano vai embora do Chelsea depois de duas temporadas. 

wenger.jpg

Arsene Wenger, 68 anos, é um francês que revolucionou o futebol inglês com novas técnicas de treinamento, dieta e o fim do culto à bebida no futebol.

Ele está no Arsenal desde 1996 – há 22 anos! Conquistou três titulos da Premier League. O último foi o mais especial porque o time onde atuavam Gilberto Silva e Edu ganhou a temporada 2003-2004 invicto.

Conhecido como 'professor', Wenger fala várias línguas e descobre jogadores graças a grande rede de olheiros espalhada pelo mundo.

O Arsenal sempre lutou entre os quatro primeiros mas a desclassificação para a Liga dos Campeões pela segunda temporada seguida é um sinal de que o time precisa revigorar.

Depois de tanto tempo, existem dúvidas de que Wenger seria o nome ideal para estas mudanças. O goleiro Petr Cech já não é o mesmo dos tempos do Chelsea e a defesa também precisa melhorar.

Jogadores como Theo Walcott e Alex Oxdale-Chamberlain deixaram o clube e o grande reforço foi a chegada do artilheiro Pierre-Emerick Aubameyang. 

A impaciência do clube e da torcida chegou ao limite e o decano dos técnicos ingleses revelou que não vai mais comandar o time na temporada que vem. Wenger finalmente deixa o Arsenal depois de mais de duas décadas. 

tec.jpg

Este panorama não poderia terminar sem incluir Sam Dyche considerado por muitos o melhor técnico da temporada inglesa, na frente do 'príncipe' Guardiola.

Aos 46 anos, o inglês levou o Burnley a brigar com o Arsenal pelo sexto lugar e uma vaga na Liga Europa. Foi o único time capaz de ficar perto do seis grandes. 

O sucesso do Burnley mostra que no meio de tantos gigantes, os fracos também são fortes.  

JOGOS HISTÓRICOS

2002 – Brasil 2 x 1 Inglaterra

Protagonistas: Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo Fenômeno, David Beckham, Michael Owen e David Seaman

por Otávio Leite

Na conquista do tricampeonato mundial, Brasil e Inglaterra fizeram partidas históricas.

Em 1958, único empate da fantástica seleção que levaria o título mundial dias depois, na Suécia. Foi também o primeiro 0 a 0 na história das Copas do Mundo. O forte ataque brasileiro parou nas mãos do goleiro McDonald.

b1.jpg

Quatro anos mais tarde, vitória brasileira por 3 a 1 e o bicampeonato no Chile. Garrincha destruiu uma forte seleção britânica formada por jovens como Bobby Moore e Bobby Charlton, futuros campeões mundiais em 1966.

E na mais famosa partida da história - talvez o maior jogo de todos os tempos -, a maravilhosa seleção de 1970 bateu os campeões mundiais pelo apertado placar de 1 a 0. O gol, uma obra de arte que começou com Tostão, passou pela genialidade de Pelé e culminou com o chute certeiro de Jairzinho, longe do alcance do extraordinário Gordon Banks.

Agora, 32 anos depois, o Brasil já tetracampeão reencontra a Inglaterra na tarde ensolarada de Shizuoka, no Japão, para mais um confronto decisivo. As duas equipes jogam pelas quartas de final da Copa do Mundo de 2002, a primeira realizada no continente asiático.

Não há, neste Mundial, um encontro tão estrelado quanto este. São craques consagrados e midiáticos dos dois lados.

Pelo Brasil, o destaque absoluto é o trio formado pelos "três erres": o renascido Ronaldo Fenômeno, o imprevisível Rivaldo e o jovem Ronaldinho Gaúcho. Eles são muito bem escoltados pelos incansáveis laterais Cafu e Roberto Carlos.

A armada da Rainha chega ao Japão com todos os holofotes e flashes voltados para David Beckham, o Spice Boy.

dupla 2.jpg

Quatro anos mais maduro, ele quer esquecer o Mundial da França, quando ao cair na provocação de Diego Simeone, acabou expulso e viu seu país ser eliminado pela Argentina.

A primeira parte do seu roteiro pessoal da redenção já está cumprida: um gol seu derrotou a Argentina e ajudou na eliminação dos carrascos de 98.

Ao lado de Beckham, o artilheiro Michael Owen - uma espécie de equivalente inglês do nosso Ronaldo, inclusive nas lesões -, o ruivo volante Paul Scholes e a sólida defesa formada por Sol Campbell e Rio Ferdinand, até então o zagueiro mais caro da história. No gol, o confiável veterano David Seaman.

Brasil e Inglaterra vêm cumprindo trajetórias diferentes até este encontro. O time de Felipão patinou nas Eliminatórias, com quatro técnicos diferentes, mas vem brilhando no Mundial, até aqui. Venceu seus quatro jogos, com a incrível média de 13 gols marcados. Já a equipe comandada pelo sueco Sven-Goran Eriksson sobrou nas Eliminatórias, dando-se ao luxo de golear a Alemanha, fora de casa, por 5 a 1. Já na Copa, derrotou a Argentina, mas tropeçou contra Suécia e Nigéria, vencendo bem a Dinamarca, por 3 a 0, já na fase de mata-mata.

b4.jpg

Todo de azul, o Brasil apresenta outra novidade: o inexperiente e quase desconhecido Kleberson ganha a vaga de Juninho Paulista. Mais fôlego e ocupação dos espaços no meio de campo. E também mais liberdade para a dupla Rivaldo-Ronaldinho Gaúcho.

O início é morno, mas a iniciativa é brasileira. Ronaldinho Gaúcho começa se engraçando pela direita e sofre falta. Roberto Carlos tenta soltar a bomba, mas o primeiro chute a gol do jogo desvia em Sol Campbell e sai. Aos 18, Ronaldo dribla Scholes e Butt, tabela com Rivaldo e chuta fraco, sem grande problema para Seaman. 

Quatro minutos depois, a Inglaterra dá seu primeiro ataque perigoso. E, por incrível que pareça, consegue logo seu gol. O lateral Danny Mills estica para Emile Heskey, que dá um balão em busca de Owen. O passe não é bom e vai na direção de Lúcio, que acompanha o atacante inglês. Todo atrapalhado, o zagueiro erra o domínio. A bola bate em sua perna direita e se oferece para Michael Owen, que domina, invade a área e toca com tranquilidade na saída de Marcos.

O Brasil reage com Ronaldo Fenômeno, que atropela Ashley Cole pela esquerda da defesa inglesa, mas chuta nas pernas de Seaman. O jogo melhora e a Inglaterra chega duas vezes. Na primeira, aos 27, Beckham bate de fora da área, mas a bola sai alta demais. Três minutos depois, Heskey ganha de Lúcio e cabeceia por cima do gol. Na sequência, Roberto Carlos bate cruzado e a bola vai na rede pelo lado de fora.

O primeiro tempo já vai acabar e a Inglaterra cozinha o jogo. Rio Ferdinand dá um balão para o campo de defesa brasileiro, onde Beckham e Gilberto Silva brigam pela jogada. A bola corre e o inglês pula para evitar a dura dividida com Roberto Carlos e Roque Júnior. Ronaldinho Gaúcho recolhe a bola ainda no campo brasileiro e inicia uma arrancada fantástica. Deixa Scholes pra trás e encara Ashley Cole. Com uma pedalada desequilibra o lateral e se livra de Sinclair. O zagueiro Campbell é obrigado a largar a marcação de Rivaldo para dar combate ao Gaúcho. Erro fatal. Com um passe medido, o camisa 11 brasileiro deixa o craque pernambucano em condições de bater para o gol. Rivaldo se equilibra, dá um chute preciso e extremamente bem colocado, no canto, à direita de Seaman. Golaço!

Com calma e bola no chão, o Brasil consegue o empate e impede que a Inglaterra vá para o intervalo vencendo por 1 a 0.

Na volta, o Brasil tem novamente a iniciativa do jogo. Logo aos 3 minutos, Kleberson sofre falta pela direita, na altura da intermediária inglesa e junto à linha lateral. Edmilson bate rapidamente para Ronaldo, mas como a defesa britânica está desmobilizada, o árbitro mexicano Rizzo Ramos manda voltar e cobrar somente após a autorização.

Bem que os ingleses teriam preferido que o árbitro tivesse deixado o jogo correr.

Ronaldinho bota a bola debaixo do braço e toma posição para cobrar. O amigo Cafu passa ao seu lado. Ele lembra então de um alerta que ouviu do capitão brasileiro antes da partida: o goleiro inglês gosta de jogar adiantado. Em 1995, quando estava no Zaragoza, da Espanha, Cafu viu seu time ser campeão da Recopa ao derrotar o Arsenal, de Londres, por 2 a 1. O gol da vitória foi marcado pelo espanhol Nayim, de cobertura, por cima de um adiantado David Seaman.

Dito e feito: Seaman estava três passos à frente da linha de gol. Ronaldinho chutou de longe, um tiro alto e com muito efeito. A bola passou por cima do goleiro britânico e se alojou caprichosamente no ângulo oposto. Gol. Golaço. O estádio está incrédulo. Uma obra de arte ou um golpe de sorte? Para Ronaldinho Gaúcho isto não faz diferença. A bola entrou. Na comemoração, aponta para Cafu como se já soubesse o que iria acontecer.

A Inglaterra sente o golpe. Não reage e vê o Brasil controlar o jogo. Roberto Carlos experimenta de longe. Novamente na rede pelo lado de fora. Aos 10 minutos do segundo tempo, a partida parece decidida. É quando Ronaldinho Gaúcho assume novamente o protagonismo.

r10.jpg

Na dividida com Mills, o craque brasileiro entra forte demais, de sola, e acerta o lateral britânico. Não tem conversa: cartão vermelho. Desesperado, ele leva as mãos à cabeça e arregala os olhos. Sorri nervoso. Não acredita no que acaba de fazer. Do campo é levado direto para a sala do antidoping, onde aguarda o fim do jogo solitário, sem ver ou ouvir nada do que está acontecendo nos 35 minutos restantes de partida. É torturado pela ideia de que a sua expulsão pode motivar a virada inglesa e causar a eliminação da seleção brasileira.

O Brasil dá então uma fantástica demonstração de absoluto controle de bola. Com um a menos, diante de uma equipe recheada de jogadores experientes e decisivos, faz o tempo passar sem sofrimento. Sem sustos.

triste.jpg

David Beckham tenta cavar um pênalti, ignorado pelo árbitro. Na melhor chegada, Mills chuta de canhota, mas a bola sobre muito. A Inglaterra decide apelar para o velho balão na área. Campbell e Butt têm suas chances. A bola não entra. O tempo passa e o Brasil garante a tão sonhada vaga na semifinal, contra a Turquia.

A história se repete. Como nas Copas de 58, 62 e 70, o Brasil conquista o título depois de deixar a Inglaterra pelo caminho. Na última imagem, o vencido Beckham entrega sua camisa ao vencedor, Roberto Carlos. No ano seguinte, estarão juntos no galáctico Real Madrid. A grande final que vale o pentacampeonato é contra a Alemanha, no dia 30 de junho, em Yokohama. Um outro jogo para a eternidade e uma outra história de um tempo em que o futebol brasileiro dominava o mundo.

Ficha do Jogo

Brasil 2 x 1 Inglaterra

Estádio de Shizuoka - 21/6/2002

Público: 47.436

Árbitro: Rizzo Ramos (MEX)

BRA: Marcos, Edmílson, Roque Júnior e Lúcio; Cafu (C), Gilberto Silva, Kléberson e Roberto Carlos; Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo (Edílson). TEC: Luiz Felipe Scolari.

ING: Seaman, Mills, Ferdinand, Campbell e Ashley Cole (Sheringham); Butt, Scholes, Sinclair (Dyer) e Beckham (C); Owen (Vassel) e Heskey. TEC: Sven-Goran Eriksson.

Gols: Owen (12), Rivaldo (45) e Ronaldinho Gaúcho (50)

CA: Scholes e Ferdinand

CV: Ronaldinho Gaúcho

JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

Copa de 1990

Inglaterra 3 x 2 Camarões

Protagonistas: Roger Milla, Thomas N’Kono, François Oman-Biyik, Gary Lineker, Paul Gascoigne, Peter Shilton e David Platt.

r1.jpg

Aos 38 anos, Roger Milla já pode se considerar um ex-jogador de futebol.

Após uma gloriosa carreira em clubes franceses e o reconhecimento mundial como craque e, talvez, o maior jogador africano da história, ele curte uma pré-aposentadoria tranquila na paradisíaca Ilha de Reunião, no Oceano Índico, jogando eventuais partidas pelo Saint-Pierroise.

Mas um telefonema de Paul Biya, o presidente da República de Camarões, provoca uma mudança radical nos seus planos.

O convite presidencial para se despedir oficialmente do futebol jogando a Copa do Mundo de 1990, na Itália, pelos Leões Indomáveis, jamais poderá ser recusado.

É mais que uma questão de honra. É agora uma questão de Estado.

cama.jpg

E lá vai o veterano artilheiro, com seu cartel de 63 jogos e 37 gols pela seleção nacional, reforçar a equipe de Camarões no Mundial.

Primeira equipe africana a superar a fase de grupos de uma Copa do Mundo, Camarões contraria todas as expectativas. Já na abertura da competição, com uma atuação valente e surpreendente, derrota por 1 a 0 a então campeã do mundo, a Argentina, de Diego Maradona e Claudio Caniggia.

Depois, com dois gols de Milla, passa pela Romênia de Gheorghe Hagi por 2 a 1, garantindo a classificação às quartas de final.

Ah, mas esse time indisciplinado taticamente e sem experiência não vai mais longe do que isso...

j2.jpg

Então, com mais dois gols de Milla, bate a Colômbia de Higuita, Rincón e Valderrama por 2 a 1.

A esta altura, ninguém mais duvida do poder dos africanos.

Não são apenas um surpreendente grupo de talentosos jogadores. Tornam-se os queridinhos de todos os amantes do futebol arte.

Órfãos de um estilo de jogo que parece ter sido sepultado após a Copa de 1982, na Espanha.

O prazer pelo drible, a jogada de efeito, o chute de trivela são mais importantes que o comprometimento tático com a marcação, a destruição ou o jogo coletivo.

E com essa receita, os africanos já não são mais olhados como azarões nesta noite quente de verão em Nápoles.

No Estádio San Paolo, que tantas vezes viu Maradona brilhar, Camarões tem pela frente o seu mais pesado desafio: a Inglaterra, do artilheiro Gary Lineker.

O time treinado por Bobby Robson é um exemplo de superação nesta Copa. 

ing.jpg

Depois de uma primeira fase horrorosa, chegou longe graças à subida de produção de alguns jogadores decisivos, como Lineker, o armador Paul Gascoigne, o veterano goleiro Peter Shilton, e o talentoso meia David Platt, autor do gol solitário contra a Bélgica e que levou a Inglaterra a Nápoles neste noite.

Sem o peso da tradição, camisa ou qualquer tipo de responsabilidade, Camarões começa melhor.

Numa linda combinação, M'Fede toca de trivela para Cyrille Makanaky, na meia lua da área. De calcanhar, dá um leve toque que deixa François Oman-Biyik sozinho diante de Shilton. O chute é forte, mas explode nas mãos do goleiro, que sai para abafar. No rebote, M'Fede bate de canhota, de longe. A bola raspa a trave direita.

j1.jpg

Dominante no meio de campo, o canhoto Louis M'Fede tem mais duas boas chances de abrir o placar com chutes que passam bem perto do gol de Shilton. 

Mas é a velha fórmula britânica que se prova mais eficaz neste início de jogo. Os africanos têm mais a bola, porém, erram ao dar espaço para que os ingleses trabalhem. E, aos 25 minutos, Stuart Pearce recebe de Terry Butcher, escapa da frouxa marcação de Thomas Libiih e vai ao fundo, pela esquerda. O cruzamento é de almanaque. Preciso. David Platt, de frente para o gol, cabeceia forte, sem chances para o fenomenal Thomas N'Kono. A Inglaterra, do seu jeito característico, sai na frente na eliminatória.

Antes do fim do primeiro tempo, o mesmo Thomas Libiih que havia falhado no gol inglês quase empata de cabeça, após centro da esquerda de Benjamin Massing.

No intervalo, a torcida em Nápoles e o mundo todo diante da TV perguntam: onde está Milla?

O velho leão surge então na beira do campo. Como um espírito dominante, a sua presença inunda o estádio, parece intimidar os ingleses e encher seus companheiros de confiança. 

Os africanos retomam o controle da partida. Aos 15 minutos, uma envolvente troca de passes encontra Milla na área, que se deslocara para receber pelo lado direito. Com uma inebriante ginga, ele engana Gascoigne, que dá o bote errado no corpo da fera: pênalti. O gigante Emmanuel Kundé bate forte e empata.

j3.jpg

A esta altura os ingleses estão apavorados com o balé dos africanos em campo. E o gol da virada não demora a sair. Quatro minutos depois, Eugene Ekékérecolhe a bola no meio e toca para Milla. O Rei Negro ameaça partir pra cima de Mark Wright, que hesita e evita o combate. Erro fatal: com espaço para trabalhar, Milla sente a chegada de Ekéké e dá um passe milimétrico para o companheiro, que toca de forma sutil, por cima de Shilton. Golaço. 

Mas os ingleses não tiveram boa vida para chegar até Nápoles. Por que então se entregariam assim tão facilmente?

Gascoigne, Gazza para os hooligans, recebe a bola já na saída de jogo e estica um passe genial para Platt. De frente com N'Knono ele toca pra fora, rente à trave. Os soldados da Rainha não estão mortos.

A sete minutos do fim e com a bola teimando em não entrar, é hora de apelar para o que os Ingleses sabem fazer melhor: cruzamento alto na área. Depois do rebote, a bola sobra justamente para Gary Lineker. Esse tipo de jogador que sempre parece farejar onde ela vai cair. De frente para o gol, ele é derrubado por Benjamin Massing. Pênalti. Com o sangue frio de quem já havia marcado sete gols em Copas do Mundo, Lineker chuta forte e manda N'Kono para o outro lado: 2 a 2. A prorrogação se aproxima.

Os primeiros minutos mostram os africanos melhores. Milla, Oman-Biyik e Makanaky ameaçam o gol de Shilton, mas já não exibem a mesma potencia física do tempo normal de jogo.

No último minuto da primeira parte, Gascoigne recolhe a bola no seu campo, avança e faz outro lançamento milimétrico, desta vez para Lineker. Solitário, o artilheiro invade a área, mas é derrubado por N’Kono. Novo pênalti. E novamente o maior goleador inglês na história dos Mundiais tem uma chance. Como sempre, não falha e põe a Inglaterra na frente outra vez.

Os guerreiros africanos estão batidos. Não conseguem mais produzir chances. Milla sente o peso dos anos. Se irrita, discute com o árbitro e leva o cartão amarelo. O jogo está perdido. Os ingleses vencem e garantem a vaga na semifinal contra a Alemanha Ocidental. Estão sorridentes, exaustos e emocionados.

Mas a história, mais uma vez, fica ao lado dos derrotados. Roger Milla, N’Kono e Oman-Biyik não saem cabisbaixos ou humilhados. Eles comandam a volta olímpica em Nápoles e arrebatam corações por todo o mundo.

Como a Hungria, em 1954, a Holanda, em 1974, e o Brasil, em 1982, eles simbolizam o que há de melhor nos gramados da Itália.

As boas lembranças da Copa do Mundo de 1990 não são muitas: os gols de Totó Schillacci, as defesas de Goycoechea, o ímpeto de Klinsmann...

E, principalmente, a alegria inocente e quase infantil do baile dos craques africanos a cada gol marcado pela República de Camarões.

Um momento inesquecível para quem ama o futebol bem jogado.

Ficha do Jogo

Inglaterra 3 x 2 Camarões

Estádio: San Paolo - Nápoles - 1/7/1990

Público: 55.205

Árbitro: Codesal (MEX)

 

ING: Shilton (c), Walker, Butcher (Steven) e Wright, Parker, Waddle,

Platt, Gascoigne e Pearce, Lineker e Barnes (Beardsley). TEC: Bobby Robson

 

CAM: N'Kono, Ebwelle, Massing, Tataw (c) e Pagal, Kunde, Libiih, M'Fede

(Ekéké) e Makanaky, Maboang (Milla) e Omam-Biyik. TEC: Valeri Nepomnyashchi

 

Gols: Platt (25), Kunde (63), Ekéké (65), Lineker (83 e 105)

CA: Pearce, Massing, Milla e N'Kono