Geral

NEM SAIU NA FOTO

Por Victor Kingma

Mão de Onça foi um goleiro do interior mineiro que tinha a fama de ser o maior catador de pênaltis que já existiu pelas redondezas. Para alcançar tal façanha ele tinha desenvolvido uma técnica pessoal: ficava parado no meio do gol, encarando fixamente os olhos do batedor. No último instante, quando esse mirava o canto e chutava, o gigante de 1,98m e incrível agilidade, sempre pulava para o canto certo e, invariavelmente, fazia a defesa.

Na decisão do título daquele ano, Mão de Onça tinha tudo para se consagrar mais uma vez: no último minuto do jogo, o seu time, que jogava em casa e pelo empate, segurava o 0 x 0 quando o juiz marcou uma penalidade máxima a favor dos visitantes.

A torcida, que normalmente deveria entrar em desespero, esperava, confiante, mais uma espetacular defesa do seu paredão. Afinal, somente naquele campeonato da liga regional,  ele já havia defendido todos os cinco pênaltis que foram marcados contra o seu time.

Conhecendo a fama do goleiro e querendo surpreendê-lo, o técnico adversário, velha raposa das quatro linhas, mudou o batedor oficial que era o craque e artilheiro do time e colocou para bater o pênalti um desconhecido jogador que estreava.

O novato ajeitou a bola para a cobrança e o arqueiro, imóvel no meio do gol, como sempre, olhava fixamente para ele. Olhos nos olhos... Ninguém piscava no pequeno estádio.  Ele correu, chutou e Mão de Onça se atirou como um felino para o canto direito, mas a bola entrou mansamente no canto esquerdo... GOOOOL!!!   

Enquanto o desolado Mão de Onça se levantava todo empoeirado, o esforçado meia do time visitante era carregado como herói nos braços da sua pequena torcida que, eufórica, entoava:

- VESGUINHO! VESGUINHO! VESGUINHO!!!

REGISTRO DE PATENTES NO FUTEBOL

Por Serginho5Bocas

Riva e seus gols de placa! Esse é inesquecivel!

Se no futebol existisse um órgão nos moldes do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), provavelmente o Brasil seria o líder de patentes. Até que me provem o contrário, foi por essas bandas que se viu pela primeira vez a maioria das jogadas e gols mais espetaculares que o planeta já se encantou.
 
Para começar a conversa vou falar de uma jogada que é mal vista pelos torcedores, mais teve seu maior executor aqui no Brasil, o "chute de bico", especialidade do jogador Feitiço, que sabia tanto desta técnica que até o "sem pulo" era dado com esta parte do pé sem nenhum pudor, segundo o mesmo, para pegar mais força e precisão. Não dá para afirmar que ele inventou as duas jogadas, mais ninguém fez mais gols deste tipo do que Feitiço, atacante do Santos.
 
A famosa "bicicleta", que alguns dizem ter sido inventada pelo desconhecido jogador brasileiro Petrolino de Brito, foi imortalizada e ganhou fama de verdade nos pés do homem borracha, o Diamante Negro ou Leônidas da Silva, que apresentou a jogada em 1932 ainda pelo Bonsucesso. Mas foi na Copa de 1938 que ele deixou todos espantados ao executar a jogada e ter feito um gol anulado equivocadamente.
 
Didi, o mestre, o mister futebol, melhor jogador da Copa de 1958, foi outro que se notabilizou pela classe e categoria e é claro pela sua invenção, a "folha seca". Didi cobrava a falta da entrada da área com um chute em que a bola subia por cima da barreira e caia rapidamente cheia de efeito enganando os goleiros.
 
Rivelino, o "Reizinho do Parque", foi o rei do "elástico", aquela jogada em que ele levava a bola para um lado com a parte externa do pé e quando o adversário se movimentava para o lado indicado, ele trazia a bola de volta com a parte interna, enganando o marcador. Ele mesmo confessa não ter inventado a jogada, mas sim Sergio Echigo, um companheiro de clube. Mas foi Riva, certamente, quem apresentou o lindo drible para o mundo do futebol.

Os três quase gols mais famosos de Pelé na Copa de 1970.

O rei Pelé não ficou famoso por ter inventado uma jogada especificamente, mas sim pelo conjunto da obra, ou seja, porque aperfeiçoou várias delas. A bicicleta do rei era a perfeição, sua cabeçada era primorosa e precisa, desde a subida, depois a testada seca de olho aberto e quase sempre em direção ao chão, dificultando a vida dos goleiros. Entretanto, foi na Copa de 70 que Pelé se superou, exibindo jogadas inéditas, tiradas da cartola, que tiravam o fôlego de quem o via em ação.
 
Seu quase gol num chute do meio de campo contra a Tchecoslováquia foi fantástico, seu drible sem bola no goleiro do Uruguai foi fenomenal, espetacular e ainda contra o mesmo Uruguai, Mazurcwieviski bate o tiro de meta e sem deixar a bola bater no chão, Pelé devolve de voleio, obrigando o goleiro a uma defesa inesperada. Sem falar da cabeçada de manual que obrigou a Banks fazer a maior defesa da Copa de 1970. Até quando Pelé não fazia o gol era belo, o criador e suas criaturas podem ser vistas no Youtube.

Semifinal do Brasileirão de 76, golaço de Falcão tabelando de cabeça.

Tivemos ainda a felicidade de ver o surgimento de uma das mais belas jogadas conjuntas do futebol, a "tabelinha", que teve em Pelé e Coutinho sua mais famosa combinação de todos os tempos. Os dois enfileiravam adversários com suas tabelas em alta velocidade e eram tão parecidos fisicamente e em termos técnicos que confundiam qualquer defesa. Falcão e Escurinho também fizeram uma "tabelinha" histórica na semifinal do brasileiro de 1976 contra o Atlético Mineiro, coisa de almanaque.

Zico explica seu gol "escorpião".

Sócrates consagrou a jogada de "calcanhar", até gol ele marcou desta forma, era uma saída inteligente para as situações mais difíceis. Zico, seu grande parceiro, já no final da carreira fez um gol "escorpião", uma "chilena" com o corpo paralelo ao solo, pelo Kashima Antles. Lance que seria quase impossível contar para um cego, como bem definiu o uruguaio Eduardo Galeano.

Perfil de Kaneco, o inventor do drible conhecido como " lambreta" .

Bater na bola de "três dedos", de "rosca" ou mesmo de "trivela", provavelmente foi Nelinho que "patenteou" a jogada de mestre. Imprimia uma qualidade na batida, que misturava força e efeito sem precedentes, enlouquecendo os goleiros pelo mundo afora. Neste quesito, no entanto, tivemos ainda dois vice-reis: Eder e Marcelinho Carioca não deixaram a desejar.
 
E quem é que não lembra da "lambreta" que Kaneco, o ponta do Santos, imortalizou e é copiada até hoje como um dos mais sensacionais dribles do futebol, que o diga o cracaço Falcão do futebol de salão.

Vestindo a camisa do Real Madrid, Zidane aplica seu drible característico.

Vestindo a camisa do Real Madrid, Zidane aplica seu drible característico.

No exterior, para não dizer que não falei das flores,  vale citar a "cavadinha" de Panenka da Tchecoslováquia que valeu título na final da EuroCopa de seleções de 1976, bem copiada por Djalminha e Loco Abreu mais recentemente. Destaca-se também a a "carretilha" ou em francês "roulete" de Zidane e o antológico gol "olímpico" feito de uma cobrança de córner direta, que o craque sérvio Petkovic adorava realizar. Dizem que um jogador argentino chamado Cesáreo Onzari fez o gol na celeste uruguaia logo após eles terem conquistado o ouro nas Olimpíadas, daí a fim de ironizar os rivais uruguaios, surgiu o nome de batismo da jogada.
 
Foram muitas as jogadas inventadas sem que pudéssemos conhecer o autor de cada proeza, belas artes como o famoso "drible da vaca" que pontas e laterais adoravam utilizar pelos flancos dos campinhos de pelada e o que falar então da plasticidade de um belo "lençol" ou da suavidade de uma "caneta"?
 
Muitas foram as jogadas maravilhosas que fizeram o futebol brasileiro se distinguir no mundo com sua arte peculiar, que encantou as mais exigentes plateias e por este motivo deixou um legado aos fãs do futebol arte em todo o mundo. Mas por incrível que pareça, tem muito brasileiro tentando desvirtuar nossas raízes, mas estou certo que eu e muita gente resiste bravamente, defendendo esta escola maravilhosa e fundamental para a pratica do bom futebol.
 
Daí o motivo desta singela homenagem a este esporte que sou apaixonado e não canso de admirar, mesmo que em outras praças...

JOCA, O CRAQUE INFALÍVEL

Por Victor Kingma, de Minas Gerais

Finalíssima de campeonato no interior mineiro e o time da casa precisava desesperadamente da vitória. O empate daria o título ao arquirrival.

Para piorar as coisas, um problemão: Joca, o grande craque da região, o Pelé da época, muito gripado, não podia jogar. A pedido do técnico, fica no banco de reservas, apenas para intimidar o adversário.

Rola a bola e o jogo é tenso, fechado, nada de oportunidade de gol para nenhum dos times. Já no finalzinho, o técnico, em desespero, chama o Joca e pede:

- Vai pro sacrifício, meu craque! É tudo ou nada. Só você pode nos salvar!

E o nosso herói entra em campo, aos 41 minutos do segundo tempo. Aos 44, em um contra- ataque, o ponta direita Fumaça vai ao fundo e cruza: Joca mata a bola no peito, tira o beque da jogada e dispara...

A torcida se levanta, os locutores enchem os pulmões para gritar gooool!...

De repente, os refletores do estádio se apagam... Ninguém consegue ver a conclusão do lance... Pânico geral, somente cinco minutos depois as luzes começam a voltar... Em meio à confusão, a bola sumiu.

E, afinal, o que aconteceu?

Sereno e impassível, o juiz se dirige para o centro do gramado...

Os repórteres o cercam:

- O que foi, seu juiz?

E ele, com toda a segurança:

- GOL!

Mas ninguém viu a bola entrar após o chute do Joca, argumentam os repórteres atônitos e os adversários enfurecidos...

E o juiz, com a maior calma:

- Vocês que acompanham futebol sabem muito bem:

“DALI, O JOCA NÃO PERDE!”

O PAREDÃO SOCIAL

Por Zé Roberto

O sonho de pegar no gol da seleção brasileira de futebol e vencer no BBB tem levado os candidatos negros ao mesmo destino: até permitem suas inscrições nos campeonatos e no programa, como a justificar o sistema de cotas, mas nenhum deles sobrevive ao paredão social. Todos são eliminados. É o padrão eugenia de qualidade, que chega às bancas com a nova edição de Mein Kampf, de Adolf Hitler, e está exposto na Revista O Globo, deste domingo, que traz a foto de 64 pessoas, entre colunistas, entrevistados. Todos eles são brancos. Até nas charges. Este clareamento social eliminou, já há algum tempo, as chances de Thaís Araújo e Lázaro Ramos serem protagonistas das novelas das 9. E que só manteve no ar aquela moça do tempo no Jornal Nacional porque o tempo fechou nas redes sociais e poderia alagar de vez o Projac.

Foto: Vipcomm

Foto: Vipcomm

Não assisto o BBB, mas por uma passada do controle remoto percebi que por lá a cota foi cumprida. Não sei se já foi excluído, como o Jefferson, goleiro do Botafogo, há anos o melhor em atividade no país, que encontrou seu paredão: Dunga. Um pouco antes, o Flamengo já se livrara do Felipe, e o trocou por uma Muralha. E lá, em Belo Horizonte, não foi oferecido ao goleiro Bruno até hoje a delação premiada concedida ao Delcídio. Mas Delcídio, como os três goleiros convocados por Dunga para enfrentar o Uruguai, são brancos.

Dunga nasceu, jogou e treinou no Rio Grande do Sul seu único time profissional: o Internacional. Nenhum outro estado lutou tanto em nossa história para se separar do país. Enquanto éramos dependentes e governados por uma Regência Trina, em 1835, Bento Gonçalves com a braçadeira, camisa 10, proclamou por lá a República de Piratini. O povo gaúcho, no limite entre as colonizações espanholas e portuguesas, cresceu com cidadania e orgulho divididos.  Mas entre a Patrícia, torcedora do Grêmio, e o Aranha, o goleiro negro do Santos, na dúvida, melhor se livrar da herança tecida nas lavouras, nos engenhos, nos campos de futebol. E trataram de vender o rapaz.

Foto: EFE

Foto: EFE

Nem mesmo Getúlio Vargas, que sucedeu o café-com-leite no cardápio cívico do poder, mas jamais retirou o Brasil do prato principal, conseguiu ser tão bairrista e nomear para a seleção nacional os goleiros do Internacional e do Grêmio ao mesmo tempo. São outros brasileiros em farrapos, desta feita com chuteiras, não com armas, fragilizados a defender fronteiras éticas, morais, sem seu principal guardião os ataques uruguaios. 

A VARADA FATAL

O parceiro Marcelo Migliaccio publicou em seu bacanérrimo blog Rio Acima essa crônica sobre o triste fim de um goleiro guloso. Claro, pedimos para tirar uma casquinha no Museu e ele cedeu. 

 

por Marcelo Migliaccio

Um amigo meu está sendo procurado por homicídio. Deu-se o seguinte:

A turma sempre se reunia para jogar peladas nesses campos do interior, esses que têm mais areia do que grama, balizas arqueadas e redes furadas. Porteiros, garçons, contínuos, motoristas, na maioria nordestinos, saíam da Zona Sul em ônibus furrecas alugados na base da vaquinha. Suas mulheres e namoradas iam junto, algumas levando crianças. O velho jogo de camisas tinha um cheiro insuportável de roupa suada, mal lavada e que não secou direito. Dizem até que era por isso que o time colecionava mais derrotas que vitórias: os jogadores corriam prendendo a respiração o que, segundo as leis da física e da biologia, é incompatível com um bom desempenho atlético. Mas o "time dos paraíbas", como era conhecido pelos playboys do bairro, nunca deixava de se divertir.

O tal crime aconteceu em Friburgo, acho. O adversário dos "paraíbas" era o time de um cunhado do Chico Sola, zagueiro voluntarioso que ganhou o apelido porque, certa vez, atuando descalço, deu um chute em falso e a sola do seu pé literalmente se desprendeu, como acontece com um sapato velho. Mas o Chico nem assim abandonou o prélio, tingindo toda a sua grande área com o vermelho do próprio sangue. O time perdeu, claro, e o apelido ficou.

Depois de uma viagem com muita batucada, chegaram a Friburgo já triscados. Duas garrafas de pinga foram derrotadas no trajeto. Katinha, um baixinho que jogava de ponta direita, era o mais empolgado.

– Hoje vou arrebentar, tô sentindo.

Tinha esse apelido por causa de um ponta-direita baixinho que jogava no Vasco naquela época.  Fora das quatro linhas, Katinha bebia que nem gente grande, só que não tinha muita resistência ao álcool e dava muita alteração. Era o tipo de bêbado chato. Na volta da excursão anterior, só parou de perturbar no ônibus quando foi nocauteado com um saco de chuteiras que devia pesar uns 50 quilos. Metido a galã com seu bigodinho bem cuidado, vivia mostrando a foto da mulher, que parecia ser uma gata. Nunca ninguém o viu com ela pessoalmente, desconfio que só tinha a foto na carteira...

Chegaram cedo, por volta das nove horas e o cunhado do Chico Sola deu as boas vindas à galera visitante. Lá pelas onze e meia, começou a ser servida uma farta feijoada. Daquelas completas... rabo, pé, orelha e o escambáu. E tome cerveja, e tome cachaça. Por volta das cinco, depois de alguns já terem dormido o sono dos justos, foram todos para o campo. O time da Zona Sul com o surrado e irrespirável uniforme vermelho e os donos da casa de verde.

O jogo foi meio ruim de ver, como aliás sempre acontecia. Era mais um programa humorístico que um espetáculo esportivo. Furadas, caneladas, choques de cabeça, muita reclamação e muita gargalhada, principalmente da torcida. A galera, aliás, não arredava pé, já que o isopor de cerveja fora estrategicamente colocado embaixo da pequena arquibancada. Tinha cunhada, avó, priminho e agregado torcendo a valer. Quando Katinha pegava na bola, era uma festa. Elétrico, ele tentava todo o seu repertório de jogadas, que incluía dribles esquisitos e um chute potente mas sem direção nenhuma. 

O empate de 2 a 2 estava bom pra todo mundo quando o juiz, um coroa que usava óculos fundo de garrafa, cismou de apitar um pênalti para os visitantes. Depois de muita discussão e ameças de agressão física, a marcação foi confirmada. Katinha, cheio de autoridade, tomou a bola para si.

– Eu sofri a falta, eu vou bater!

No gol, estava um tal de Pedrão, que ostentava uma tremenda barriga, turbinada ainda mais naquele dia com quatro inacreditáveis pratos de feijoada. Mastigando um fiapo de grama, Katinha tomou distância. Firmou os lábios pra cima espremendo o bigode para dentro do nariz e respirou fundo. Então, correu e deu seu chute mais potente, que ele mesmo apelidara de "varada". Mirou no canto mas acertou no meio do gol, onde Pedrão havia permanecido já que mal conseguia se mover de tão cheio de feijão e cerveja. A bomba explodiu bem na boca do estômago, e o goleiro tombou para trás. A torcida inicialmente caiu na risada mas, quando viram que era sério, fez-se um silêncio sepulcral no campo de várzea.

– Liga pro 190! 

Vou poupar o leitor de descrições detalhadas, mas o fato é que Pedrão não se levantou mais.

No mesmo instante, a pequena torcida e os outros 21 jogadores saíram atrás do pobre Katinha como se ele tivesse feito aquilo de propósito.

– Você matou o cara, porra!

– Pega!

Katinha fugiu em disparada pelo matagal que circundava o campo e nunca mais foi visto. Nem em Friburgo, nem em seu emprego no Rio, nem em lugar nenhum. Até hoje é procurado por homicídio culposo. Pombas, Katinha era chato, mas daí a...

O pobre Pedrão foi enterrado com honras. Evitou a derrota com a própria vida. 

E nunca mais serviram feijoada antes das peladas dos paraíbas, que agora procuram um novo ponta-direita.