França

POR QUE GANHOU?

por Idel Halfen

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Ao fim de uma Copa do Mundo costumam surgir as mais variadas teses para se explicar as razões dos resultados. 

Com o intuito de contribuir para as devidas reflexões sobre o tema será apresentado a seguir mais uma análise, a qual tem como linha de raciocínio a busca por algum tipo de correlação entre a representatividade das ligas nacionais e o desempenho das respectivas seleções na Copa do Mundo. 

Essa é a segunda vez que esse tipo de estudo é aqui desenvolvido, na versão passada relativa à Copa de 2014 - https://halfen-mktsport.blogspot.com/2014/07/ligas-versus-selecoes.html, as conclusões extraídas foram: (i) que havia uma “silenciosa” competição entre a liga e a seleção nos países, pois a maior presença de estrelas “importadas” diminuía o espaço para os jovens nativos, prejudicando assim o processo de renovação e surgimento de jogadores;

(ii) que o intercâmbio de jogadores promovia um nivelamento maior entre as seleções.

Para que a leitura não fique muito extensa, ilustraremos nossa análise com uma pequena parte das informações coletadas, mas vale informar que para se chegar às conclusões contidas nesse artigo foi utilizada uma base que contempla dados a partir da Copa de 1970.

Dessa forma podemos observar que desde a Copa de 1998 as ligas inglesas são as que mais “fornecem” jogadores para as seleções que se classificaram para cada edição do torneio. Foram 124 jogadores em 2018 (nove a mais do que em 2014) que defenderam 28 das 32 seleções participantes, sendo que tanto em 1998, como em 2010 e 2018 todo o plantel inglês atuava no próprio país. O 4º lugar agora conquistado foi sua melhor classificação desde 1990 quando ficou na mesma posição, porém, na época a liga com mais “jogadores de Copa” foi a da Itália, cuja seleção foi a 3ª colocada.

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Ainda sobre a Copa desse ano, temos seguindo a Inglaterra como “celeiros” para a Copa do Mundo as ligas dos seguintes países pela ordem: Espanha, Alemanha, Itália – que não se qualificou para o torneio – e França, sobre a qual falaremos a seguir.

A campeã mundial teve sua equipe constituída por seis jogadores que atuavam na Espanha, cinco na Inglaterra, dois na Alemanha, um na Itália e nove no próprio país, ou seja, todos são oriundos das cinco principais ligas europeias.

Mas o que pensar do nível de excelência de seu campeonato, a Ligue 1?

Pelos resultados dos times franceses na última Champions League podemos inferir que a liga não esteja tão bem assim, corrobora para essa suposição o fato de que, depois da França, a seleção do Senegal foi a que teve mais jogadores no citado campeonato e que as seleções que se classificaram do 2º ao 4º lugar tiveram apenas três representantes ali jogando, sendo a que a Inglaterra não teve nenhum.

Uma avaliação menos atenta desses números poderia sugerir de que de nada adianta ter um campeonato com tantos bons jogadores como o inglês, já que a vice-campeã Croácia ficou à sua frente tendo apenas três disputando seu campeonato nacional(dois croatas e um suíço).

Claro que a conclusão não procede, pois a título de contestação poderíamos evocar que foi graças ao elevado número de jogadores atuando em seus gramados que a seleção inglesa conseguiu chegar às semifinais após 28 anos, o que também não seria absolutamente certo, afinal de contas existem inúmeros fatores que podem afetar os resultados da Copa do Mundo.

Assim, diante de tudo que foi analisado, as conclusões que consideramos razoáveis são:
1. O intercâmbio, de fato, contribui bastante para a evolução técnica dos jogadores e consequentemente das seleções, entretanto, é necessário ter em mente que o nível técnico “inicial” dos impactados pela “globalização” difere entre si, o que em outras palavras significa dizer que há também um tempo diferente para se colher os frutos.

2. Apesar de uma série histórica mais ampla proporcionar uma base estatística mais rica, é importante também considerar que a vida útil de um jogador o deixa apto a participar em boas condições de no máximo 4 edições de Copa do Mundo, ou seja, a safra de jogadores é uma variável incontrolável que afeta os resultados.

3. O modelo de disputa da Copa do Mundo não permite concluir que as equipes vencedoras são aquelas que representam necessariamente os países que têm as melhores estruturas e/ou políticas esportivas. 

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Em resumo, o que podemos tirar de “verdades” sobre as teses e explicações acerca de resultados é que elas são extremamente válidas para a construção de cenários e discussões a respeito, todavia, a quantidade de variáveis incontroláveis, inclusive o dinamismo da sociedade, não permite sequer imaginar que haja uma fórmula mágica de sucesso. 

Contudo, independentemente dessa incerteza preditiva, é fundamental que informações sejam coletadas e analisadas para, dessa forma, se elaborar um planejamento que minimize os riscos de insucesso.
Isso se estende ao mercado de forma geral.

VIVA A DIVERSIDADE!

:::::::: por Paulo Cezar Caju ::::::::

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França campeã, impossível não me emocionar. Fui o primeiro brasileiro campeão mundial a jogar naquele país. Tinha algumas opções, mas escolhi o Olympique de Marselha por ter um clima parecido com o do Rio de Janeiro.

Quando jogava pelo Flamengo e fazia uma excursão na Alemanha, Daniel Stern, fundador do Paris Saint-Germain, e o lendário Just Fontaine, me visitaram na concentração e me convidaram para o PSG, que acabara de subir para a Primeira Divisão. Neguei porque o frio parisiense me assustava. Depois, acabei indo para o Olympique.

Não imaginei que pudesse voltar ao Brasil porque era tratado com muito carinho pelo torcedor, na verdade pelo povo francês em geral. Mas Francisco Horta me convenceu e voltei ao Flu. De qualquer forma me sinto um dos responsáveis por abrir essa porta ao mercado brasileiro. Indiquei Jairzinho, o Furacão, e jogamos juntos. O sucesso foi tanto que o estádio do Olympique precisou ser ampliado para receber mais torcedores.

Aprendi a língua, fiz amigos, como os atores Jean Paul Belmondo e Alain Delon, o tenista Yannick Noah, e o príncipe Albert de Monaco. Colecionei gravuras de Picasso, Monet, Salvador Dali e uma revista de arte fez uma capa com o título “De Paul Cezanne a Paulo César” exaltando a poesia do futebol brasileiro.

Era convidado para os grandes eventos e recentemente fui consagrado com a Legião de Honra, importante comenda do governo francês. Vi muitos imigrantes correndo nas ruas da França. Fugiam da polícia que os impedia de vender suas bolsas “Louis Vitton” nas áreas turísticas.

Guarda Negra

Guarda Negra

Nessa época, apenas dois negros atuavam da seleção, Tresór e Jean Pierre Adams, apelidados pela imprensa de “la garde noir”, a Guarda Negra. Muita coisa mudou de lá para cá, ocorreram avanços na política e a França, com certeza, deve ser a seleção mais miscigenada.

Sobre essa grande variedade de origens, Matuidi, descendente de angolanos e congoleses, disse que a diversidade é uma das belezas da seleção francesa e, por isso, sentia orgulho em representá-la. Matuidi, Griezmann e outros 17 jogadores são filhos de imigrantes ou nasceram em outros países e se naturalizaram. As raízes são as mais diversas: Filipinas, Haiti, Congo, Senegal, Mali, Angola, Guiné, Togo, Mauritânia, Argélia, Camarões, Ilha de Guadalupe, Martinica, Alemanha, Espanha e Portugal. Isso faz bem ao futebol? Para a França fez. E muito!

Não sou historiador e a Croácia também teria seus motivos extra futebol para ganhar o título, mas falo da França por minhas ligações sentimentais. Se pudesse escolher a campeã da Copa seria a Bélgica, que apresentou o futebol mais bonito, técnico e veloz. Entre França e Croácia, a França. Tem muito mais jogadores técnicos e Didier Deschamps se deu ao luxo de não precisar usar todos os seus reservas, alguns muito bons de bola, como Thomas Lemar e Dembelé.

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Essa Copa foi uma vitória do futebol porque as três primeiras mereciam o título e mesmo Didier Deschamps, uma espécie de Dunga francês, curvou-se ao futebol ofensivo. Claro que não surgiu um novo Platini, nem um novo Zinedine Zidane, mas podemos dar mil vivas a essa escola maravilhosa, que encanta o mundo não é de hoje.

Viva, Just Fontaine, Lilian Thuram, Thiery Henry, Marcel Desailly, Cantona, Mbappé, Griezmann e Pogba! Viva o futebol! Viva a diversidade!   

ANÁLISE DA FRANÇA

por Mateus Ribeiro

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A expectativa é grande. Bons nomes não faltam para a França. Alguns são revelações, outros já são realidade. Porém, em 2016, muito se esperava na Eurocopa, e todos se lembram do que aconteceu na final: derrota na prorrogação, dentro de casa, para Portugal, que jogou praticamente a partida toda sem Cristiano Ronaldo. E que me desculpem os jogadores portugueses, mas se a França foi capaz de perder para a Seleção lusitana sem Cristiano Ronaldo, pode se esperar tudo dos Azuis. Inclusive um papelão.

O grupo não é lá dos mais difíceis, o que pode ajudar bastante. É bem verdade que o time tem bons valores, mas a impressão que se tem é que com um pouco mais de "sangue no olho", a França poderá ir longe.

CAMPANHA NAS ELIMINATÓRIAS

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O grupo era difícil, e contava com Holanda e Suécia, lutando por uma vaga direta, e outra na repescagem. A França passou em primeiro lugar, mas para provar que é um time inconstante, goleou a Holanda , mas conseguiu empatar com Belarus e Luxemburgo (com o último, dentro de casa). Foram sete vitorias, dois empates e uma derrota. Boa campanha.

TIME

O time tem boas peças em todos os setores. Lloris é um bom goleiro, e invariavelmente, pratica alguns milagres. A defesa conta com jogadores que são titulares no Real Madrid e no Barcelona. O meio tem o incansável Kanté, que dentre outras coisas, tem a missão de correr por Pogba. Pogba, aliás, que é um dos jogadores mais supervalorizados do planeta, mas que tem seus bons momentos. A questão é saber se ele vai querer jogar bola pro time, ou se vai querer entrar em campo pra desfilar seu novo corte de cabelo.

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Os principais jogadores estão no ataque. Griezmann e Mbappé são dois dos melhores atacantes do mundo nos últimos anos. Além de muita velocidade e raciocínio rápido, possuem um arremate de muita qualidade. Giroud, apesar de bastante contestado, faz lá seus gols. Quem sabe em algum momento importante, a bola não bate na sua canela e decide uma partida, né?

Pelo fato do time ter muita qualidade técnica, podemos esperar um jogo de muito toque de bola, e muita velocidade, já que os citados atacantes estão com todo o gás.

Segue a lista dos convocados:

Goleiros: Aréola (Paris Saint-Germain), Lloris (Tottenham) e Mandanda (Olympique de Marselha)

Defensores: Lucas Hernández (Atlético de Madrid), Kimpembe (Paris Saint-Germain), Mendy (Manchester City), Pavard (Stuttgart), Rami (Olympique de Marselha), Sidibé (Monaco), Umtiti (Barcelona) e Varane (Real Madrid)

Meio-campistas: Kanté (Chelsea), Matuidi (Juventus), N’Zonzi (Sevilla), Pogba (Manchester United) e Tolisso (Bayern de Munique).

Atacantes: Dembélé (Barcelona), Fekir (Lyon), Giroud (Chelsea), Griezmann (Atlético de Madrid), Lemar (Monaco), Mbappé (Paris Saint-Germain) e Thauvin (Olympique de Marselha).

Como a sina da França é ter treinadores polêmicos, algumas ausências na convocação fizeram chover críticas em cima de Deschamps. O nome mais comentado foi o do meio campista Rabiot, do PSG. Além dele, Benzema também não vai. Mas o caso do atacante vai além das questões técnicas, e parece longe de ter um final feliz.

De qualquer forma, a França corre por fora, e pode sonhar com algo além das quartas de final (onde parou na última Copa). Resta saber se o time vai negar fogo na hora H, como fez na Eurocopa 2016.

JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

Copa de 1986 - Brasil 1 x 1 França

Protagonistas: Zico, Sócrates, Careca, Júnior, Bats, Platini, Rocheteau e Giresse.

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O mundo precisou esperar quatro anos para assistir a um dos mais sonhados jogos de futebol de todos os tempos.

Brilhantes em 1982, quando foram derrotados pelo pragmatismo de Itália e Alemanha, Brasil e França têm encontro marcado em Guadalajara, no dia 21 de junho, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no México.

Chega a hora do confronto da equipe de Sócrates, Zico e Júnior contra os "Bleus" de Platini, Giresse e Tigana.

No banco, Telê Santana e Henri Michel, dois defensores ardorosos do futebol arte, um estilo de jogo que parece cada vez mais raro pelos gramados do mundo.

As duas equipes já não ostentam a mesma forma de quatro anos antes. Dos craques de 82, Zico está machucado e começa no banco. Sócrates dificilmente terá condições de suportar toda a partida e Falcão e Oscar amargam o ostracismo da reserva. Apenas Júnior e Edinho mostram plenitude física para encarar uma competição tão desgastante. Cerezo, Eder e Leandro ficaram no Brasil.

Mas Telê conseguiu reiventar uma equipe em frangalhos e descobriu uma geração de jovens jogadores comandada pelo exuberante centroavante Careca. Ele tem a companhia no ataque do imprevisível Müller. Na zaga, três talentos brutos: Josimar, Júlio Cesar e Branco. A proteção fica por conta do incansável Alemão e do contestado Elzo.

Pelo lado francês, Platini e Giresse, agora com 34 anos, também sofrem com a parte física. Ainda da turma de 82, Rocheteau, Bossis e Battiston já não são os mesmos. Apenas os fogosos Tigana e Amoros parecem não sentir o passar dos anos. Michel, como Telê, apoia seu time na segurança de Joel Bats e na força dos jovens Fernadez, Stopira e Pappin.

O termômetro supera os 45 graus na tarde quente de Guadalajara. O Brasil se sente em casa, já que jamais perdera um jogo no estádio El Jalisco. 

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Iluminados pelo sol mexicano, Brasil e França começam em ritmo intenso. As duas equipes exibem o fino de seu estilo: trocas de passes, dribles, lançamentos precisos e exuberante técnica individual. 

O Brasil começa impondo seu ritmo. Numa linda jogada, Careca sai da área para buscar a bola e abre espaço para a entrada de Sócrates. O toque é preciso para o Doutor, que mata no peito e bate forte de canhota. Bats, que já começa a se destacar, faz defesa maravilhosa. Sócrates pega o rebote e toca rasteiro para Careca. Bats se joga aos pés do centroavante para fazer nova defesa.

O gol está maduro. E acaba saindo aos 17 minutos. O Brasil troca passes pacientemente no campo da França, até que a bola chega a Josimar. O lateral dá a Júnior que envolve a defesa adversária numa rápida e curta troca de passes com Müller. Quando Battiston e Bossis saem para abafar, o Maestro dá um passe genial para Careca, livre, entrando na área pela esquerda. Nem precisa dominar. O chute é de primeira, no contrapé de Bats: 1 a 0 para o Brasil.

O Brasil está melhor e alguns jogadores têm atuações soberbas, especialmente Sócrates, Júnior e Careca. Do lado francês, Platini está discreto e bem vigiado. O trabalho pesado, por enquanto, está nas mãos de Joel Bats.

A França descobre espaço nas costas e Branco, com Amoros. O lateral cruza forte e rasteiro, Carlos faz a defesa corajosa nos pés de Rocheteau e Júlio César alivia para escanteio.

A pressão pelo empate é grande, mas a França cede espaços para contra-ataques. Num deles, Sócrates faz um lançamento brilhante para Careca na esquerda. O futuro companheiro de Maradona no Napoli bate Bossis na velocidade, vai ao fundo e cruza pra trás. Müller chuta de primeira. A bola vence Bats, mas explode na trave. A França se salva de levar o segundo.

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Se a sorte já se mostrara inimiga do Brasil neste lance, ela deixa claro que os comandados de Telê não podem contar com ela nesta tarde em Guadalajara. A cinco minutos do fim do primeiro tempo, Giresse toca para Amoros. O lateral vê a projeção de Rocheteau nas costas de Branco e faz o passe. O fraco cruzamento do cabeludo atacante desvia em Edinho e atrapalha Carlos, que sai mal do gol e se choca com Stopyra. A bola se oferece para Michel Platini, livre, tocar para o gol vazio e empatar a partida.

Aos 15 minutos do segundo tempo, o calor intenso começa a afetar o rendimento dos jogadores. Júnior faz falta dura em Amoros e cai no gramado sentindo o joelho. A torcida brasileira vê que o time diminui o ritmo e grita pela entrada de Zico.

As oportunidades se sucedem. Careca não alcança o cruzamento de Müller, minutos depois o ponta brasileiro chuta alto sobre o gol de Bats. Na melhor chance francesa, Tigana tabela com Rocheteau, ilude toda a defesa brasileira, invade a área mas tem o chute bloqueado por Carlos. No contra-ataque, Sócrates e Careca tramam uma linda jogada até o Doutor escorar para o tiro certeiro de Júnior. Bats, outra vez, salva a França. A plateia não respira no Jalisco.

E quando a bola passa por Bats, mais uma vez a sorte se mostra ingrata para os brasileiros. O centro de Josimar é perfeito. Careca se eleva sobre os grandalhões Bossis e Battiston e carimba o travessão com uma violenta cabeçada.

A esperança de gol da torcida brasileira se materializa na beira do campo. Aos 25 do segundo tempo, Telê troca a juventude de Müller pela experiência de Zico. Restam apenas 20 minutos, e o Galinho de Quintino, com pernas frescas, pode fazer a diferença numa partida tão equilibrada.

E nunca uma troca pareceu tão acertada. Pouco mais de um minuto depois, Branco rouba a bola na defesa brasileira e arranca para o ataque. Dá a Zico, que devolve num lançamento genial, de trivela. O lateral do Fluminense dribla Bats e é derrubado. Pênalti a favor do Brasil!

A situação não é nova para o Galinho. Na Copa de 78, contra o Peru, ele entrou aos 25 do segundo tempo e marcou de pênalti três minutos depois. A história se repete para o ídolo rubro-negro, que àquela altura da carreira já acumulava mais de 500 gols, muitos de pênalti, uma de suas especialidades.

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Mas, e a sorte? Lembra dela?

O impensável acontece: Zico bate mal, fraco, à esquerda de Bats, muito perto do corpo do goleiro francês, que defende sem grande esforço. Um golpe duríssimo para time e torcida.

A França se inflama. Bossis arranca pela direita e bate forte de fora da área. Carlos faz grande defesa e evita a virada.

A prorrogação parece inevitável. Antes, porém, o Brasil tem duas chances incríveis: Zico tabela com Careca e deixa o centroavante brasileiro na cara do gol. Bats está atento e abafa a finalização. Aos 40, outro milagre do goleiro francês. Ele defende a cabeçada de Zico, à queima-roupa, após o cruzamento de Josimar da direita.

A sorte, definitivamente, abandonou o Brasil.

O jogo é tudo aquilo que sempre se sonhou ao longo de quatro anos. Mas os 30 minutos extras de prorrogação exigem um sacrifício excessivo de corpos cansados e mentes emocionalmente abaladas.

Quando a partida recomeça, Júnior e Giresse, dois dos maiores jogadores de sua geração já não estão mais em campo. São substituídos por Silas e Jean-Marc Ferreri.

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O Brasil tem três boas chances em sequência. O centro de Alemão pela direita desvia em Tusseau e quase engana o goleiro francês. Sócrates cabeceia nas mãos de Bats, que segundos depois se joga para defender o chute cruzado de Branco.

Alemão tem a primeira boa chance do segundo tempo. Quase como lateral, ele invade a área pela direita e bate forte. Pela enésima vez, Bats salva a França de levar o gol.

As pernas pesam. Especialmente para Sócrates e Platini, que não exibem mais o mesmo vigor e lucidez. No entanto, são eles os protagonistas dos dois últimos lances de perigo da partida.

Platini, num genial toque de primeira, deixa Bellone sozinho de frente para o gol. Carlos sai no desespero e faz a falta no atacante francês. Em vez de cair, Bellone segue cambaleando para tentar o gol consagrador. Elzo, que acompanhava o lance, chega a tempo e rouba a bola. Platini vai a loucura e grita com o árbitro romeno Ioan Igna, que dá vantagem e deixa o jogo seguir.

A bola vai até Careca, que se livra da marcação e tira um centro rasteiro, perfeito para Sócrates. Sozinho na pequena área e diante do gol vazio, o Doutor sente o peso do cansaço e erra a bola. Incrível. Inacreditável. Inexplicável.

É o último ato de um espetáculo magnífico. Futebol arte em seu estado mais puro. Sem vencedor, mas ainda em busca de um classificado. É hora dos pênaltis. Como superar o trauma causado pelo erro de Zico no tempo regulamentar? E como suplantar o incrível Bats nessa tarde iluminada em Guadalajara?

O começo é o pior possível para o Brasil. O exausto Sócrates chuta sem tomar distância. Bats pega sem dificuldade a bola alta a sua direita. Na sequência, Stopyra, Alemão e Amoros acertam suas cobranças. Chega a vez de Zico. Num estilo nunca visto, um tenso Galinho de Quintino bate com força, sem chance para Bats.

Bellone converte a cobrança seguinte. O capitão Edinho cerca o árbitro e reclama de irregularidade no lance. A bola bate na trave e sai, mas toca nas costas do azarado Carlos e volta para o gol. Não adianta chiar.

Branco faz o seu e toda a França já comemora quando Michel Platini beija a bola antes da sua cobrança. Repetindo Zico, o especialista francês erra da marca do pênalti e devolve às esperanças ao Brasil. Se Júlio César fizer, a partida está empatada.

Será que sorte, enfim, está ao lado da seleção de Telê Santana?

Aos 23 anos, o zagueiro do Guarani exibe nesta Copa a tranquilidade de um veterano. Botou o ex-capitão Oscar no banco e já desperta interesse dos gigantes europeus. Com a calma que vem caracterizando suas atuações, ele bate firme e com força. A bola explode na trave, à direita de Bats, e sai para muito longe.

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Não, a sorte não abandonou o goleiro francês.

E a esperança brasileira morre nos pés de Fernandez, que converte a última cobrança e classifica a França para uma nova semifinal contra a Alemanha.

Mais uma vez, o futebol arte brasileiro cai nas quartas de final de um Mundial. Desta vez, ao menos, para uma equipe que ama e respeita o jogo bonito. No dia seguinte, a revista esportiva “Onze”, uma das principais da França, estampa a seguinte manchete: “Um classificado, a França. Um vencedor, o futebol”.

A seleção se despede invicta do México. Com um gosto amargo na boca, mas de cabeça em pé, com uma nova geração capaz de recolocar o Brasil no topo do futebol mundial.

Foi a última vez que Zico e Sócrates disputaram uma partida oficial pela seleção brasileira. Da geração de 82, Cerezo, Eder, Falcão, Leandro e Edinho também nunca mais foram convocados. Foi também a última vez que Telê Santana dirigiu a Amarelinha. O fim de uma era de gênios e craques.

Ficha do Jogo

Brasil 1 (3) x 1 (4) França

Estádio: El Jalisco - Guadalajara – 21/6/1986

Público: 65.000

Árbitro: Ioan Igna (ROM)

Gols: Careca (17) e Platini (41)

Pênaltis: 0:0 Sócrates (salva Bats), 0:1 Stopyra, 1:1 Alemão, 1:2 Amoros, 2:2 Zico, 2:3 Bellone, 3:3 Branco, 3:3 Platini (fora), 3:3 Júlio César (fora), 3:4 Fernandez

BRA: Carlos, Josimar, Júlio César, Edinho e Branco, Alemçao, Elzo, Júnior (Silas) e Sócrates, Müller (Zico) e Careca. TEC: Telê Santana

FRA: Bats, Amoros, Battiston, Bossis e Tusseau, Fernandez, Tigana, Giresse (Ferreri) e Platini, Rocheteau (Bellone) e Stopyra. TEC: Henri Michel

CA: Edinho

 

JOGOS HISTÓRICOS

por Otávio Leite

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França 3 (4) x 3 (5) Alemanha Ocidental

Protagonistas: Michel Platini, Alain Girrese, Jean Tigana, Marius Trésor, Karl-Heinz Rummenigge, Paul Breitner e Harald Schumacher.

Poucas vezes na história da Copa do Mundo a oposição entre estilos foi tão gritante quanto em 1982, na Espanha.

De um lado, a romântica escola do toque de bola envolvente, jogadores talentosos e criatividade em detrimento da rigidez tática. Os principais representantes desta turma eram o Brasil de Zico, Falcão, Cerezzo e Sócrates, e a França de Platini, Giresse, Tigana e Trésor.

Do outro, a opção pela destruição em vez da construção, a marcação implacável e a cega obediência tática de equipes como Itália e Alemanha Ocidental.

No dia 5 de julho, em Barcelona, o mundo chorou a queda do Brasil diante da Itália.

Três dias depois, França e Alemanha Ocidental pisaram o gramado do Estádio Sanchéz Pizjuan, em Sevilha, para disputar uma das mais fantásticas partidas de futebol de todos os tempos.

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Os alemães são taticamente obedientes, possuem uma defesa duríssima e apostam no seu conjunto. Mas é preciso reconhecer também que têm armas poderosas no seu elenco: o genial Paul Breitner, comandante do meio de campo, o jovem e rápido Pierre Littbarski, a dupla de tanques no ataque – Horst Hrubesch e Klaus Fischer - e o superlativo Karl-Heinz Rummenigge. Um craque fora de série, mas que por causa de uma séria lesão muscular não começa a partida. Fica no banco como arma para uma eventual emergência.

Os franceses desta quentíssima noite em Sevilha estão muito longe do hesitante grupo que começou a Copa perdendo de 3 a 0 para a Inglaterra.

Confiantes e com o apoio da torcida espanhola, eles encantam com o envolvente meio de campo formado por Michel Platini, Jean Tigana, Alain Giresse e Bernard Genghini, e fazem disparar os corações dos torcedores com as arrancadas e os dribles dos habilidosos Didier Six e Dominique Rocheteau.

E é o talento de Breitner, campeão mundial em 1974, que abre a defesa francesa para o primeiro gol alemão, logo aos 17 minutos de jogo. Ele arranca pelo meio e dá a Fischer, que é bloqueado por Ettori. No rebote, Littbarski acerta um chute preciso, da entrada da área: 1 a 0.

Liderados por Platini, os franceses assumem o controle do jogo e começam a cercar a área alemã em busca de espaço. Giresse põe a bola na cabeça de Platini. “Monsieur Plus” não toca para o gol, preferindo passar para Rocheteau melhor posicionado. Já quase na pequena área, o cabeludo é agarrado por Bernd Försterquando ia finalizar. Pênalti e chance para Platini empatar. O camisa 10 é preciso: 1 a 1.

Antes do fim do primeiro tempo, o mesmo Platini quase marca num belíssimo chute de fora da área após jogada de Rocheteau. A bola tira tinta da trave de Schumacher.

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O goleiro alemão – que não é parente do piloto de Fórmula 1 – vira protagonista no início do segundo tempo, mas não por conta de defesas espetaculares. Logo aos 5 minutos, Platini faz lançamento espetacular para Batiston, que fica sozinho diante de Schumacher. O goleiro sai da área e aplica uma voadora criminosa no peito do meia francês, que cai desacordado no gramado.

Sem demonstrar qualquer remorso, Schumacher nem olha para sua vítima, enquanto os jogadores franceses se desesperam e cobram algum tipo de punição ao goleiro alemão. “Achei que estava morto”, diz Platini, horrorizado com a violência da agressão. Battiston perde três dentes, sofre concussão cerebral e dá lugar ao zagueiro Lopez.

A Alemanha se aproveita do abatimento francês e quase marca com o ex-decatleta Briegel, que para nas mãos do irregular Ettori, e com Fischer e Littbarski, que furam na mesma jogada diante do gol após o cruzamento de Breitner.

A França se reorganiza e começa atropelando na prorrogação. Logo aos 2 minutos, o gigante Marius Trésor faz um gol de linha de passe ao emendar, de voleio e da marca do pênalti, o cruzamento de Girrese da direita.

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Seis minutos depois, a França engata um contra-ataque precioso. A bola vai de Rocheteau a Platini e depois a Six. O ponta espera a aproximação de Giresse e recua com precisão. O baixinho acerta um chutaço de trivela no canto, de pé direito, sem defesa pra Schumacher.

Com 3 a 1 no placar e pouco mais de vinte minutos por jogar, quem acreditaria na Alemanha?

Jupp Derwal manda a campo sua arma secreta. E logo faz efeito. Quatro minutos depois de entrar na partida, Rummenigge arranca pelo meio, tabela com Littbarski e se antecipa a Janvion e Ettori para diminuir o placar.

Inteiro em campo contra os exaustos franceses, o craque lembra que nunca devemos subestimar os alemães. A jogada do gol de empate, seis minutos depois, começa com ele, que busca a bola no meio de campo e toca para Bernd Förster. O lateral passa a Littbarski, que vai ao fundo e dá um balão para a área. O gigante Hrubesch voa e escora de cabeça, mas a bola chega atrás de Fischer. O artilheiro faz então um movimento acrobático e, de meia-bicicleta, marca um golaço para empatar.

Exaustos, os dois times se arrastam até a disputa por pênaltis. Pela primeira vez desde 1930, uma partida de Copa do Mundo é decidida neste sistema.

E, nesse momento, o vilão da noite transforma-se em herói. Schumacher defende as cobranças de Six e Bossis e garante a vitória e a classificação da Alemanha para a grande final contra a Itália.

Pela segunda vez no Mundial da Espanha, o “Futebol Arte” cai diante do “Futebol Força”.  Torcedores de todo o mundo terão de se contentar com o anticlímax da final entre Alemanha Ocidental e Itália.

O sonhado duelo entre Brasil e França fica adiado por quatro anos. Estes dois países amantes do futebol bem jogado, de toques, dribles e muitos gols ainda escreverão uma fantástica história de rivalidade nos Mundiais futuros.

Mas que dá uma tristeza não ter assistido ao Brasil x França na grande final do dia 7 de julho de 1982, no Santiago Bernabéu, em Madri, ah... isso dá.

Que jogo o mundo perdeu!

Ficha do Jogo

Alemanha Ocidental 3 (5) x 3 (4) França

Estádio Sánchez Pizjuan - Sevilha - 8/7/1982

Público: 63.000

Árbitro: Corver (HOL)

ALE: Schumacher, Stielike, K.H.Förster e B.Förster, Kaltz (C), Dremmler, Breitner, Magath (Hrubesch) e Briegel (Rummenigge), Littbarski e Fischer. TEC: Jupp Derwal

FRA: Ettori, Amoros, Janvion, Trésor e Bossis, Tigana, Genghini (Battiston, López), Giresse e Platini (c), Rocheteau e Six. TEC: Michel Hidalgo

Gols: Littbarski (17), Platini (26), Tresor (92), Giresse (98), Rummenige (102) e Fischer (108)

Pênaltis: 0:1 Giresse, 1:1 Kaltz, 1:2 Amoros, 2:2 Breitner, 2:3 Rocheteau,

(2:3) Stielike (salva Ettori), (2:3) Six (salva Schumacher), 3:3 Littbarski,

3:4 Platini, 4:4 Rummenige, (4:4) Bossis (salva Schumacher), 5:4 Hrubesch

 

CA: B.Förster, Giresse e Genghini