Fluminense

FESTA DO FLUMINENSE

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A equipe do Museu da Pelada foi até as Laranjeiras para celebrar o aniversário de 117 anos do Fluminense e fez questão de convidar os parceiros Dario Batalha e Evaldo Santana para comandar a resenha com grandes ídolos do tricolor.

por Evaldo Santana

Queria agradecer imensamente a equipe do Museu pelo convite de participar da festa do meu time de coração. Fiquei emocionado de encontrar craques de várias gerações e inclusive o Luizinho Índio, que jogou comigo no dente de leite do pavunense. Fui pego de surpresa ao ser convidado para entrevistar o lateral Marco Antônio e o craque Carlos Alberto Pintinho, dois ídolos da época da Máquina Tricolor.

Por fim, a satisfação do meu filho Felipe Santana de participar do evento e conhecer pela primeira vez aas dependências do clube. Outra satisfação foi ver a participação do meu amigo Luiz Angu, o melhor camisa 10 da baixada, na roda de pagode cantando com meu amigo de infância Luizinho indio.

Um dia inesquecível na minha vida!

O ACERVO PRECIOSO DE ORLANDO PINGO DE OURO

texto: Breno Mulinazzi | vídeo e edição: Daniel Plael

Com a ajuda da encadernadora Chris Lee, da Manufatura, e da colaboração de amigos Mauro Magalhães, Luis Fernando, Heraldo Nunes e André Paraizo, a equipe do Museu restaurou o acervo precioso de Orlando Pingo de Ouro, o segundo maior artilheiro da história do Fluminense, e entregou a caixa para Breno Mulinazzi, neto do craque.

Nunca tive muito contato com o meu avô. Ele morreu quando eu era muito novo, então o que eu sei dele, é por meio de historias, geralmente contadas pela minha vó e pela minha mãe. Dessa forma, a experiência que tive com o Museu da Pelada foi muito importante para conhecer o meu avô melhor. Todo o material que eles resgataram estava há muito tempo guardado e eu nem sabia da existência de algumas coisas. Vi contrato, cartões de colecionador, além de fotos que nunca tinha visto antes. Tudo muito bem restaurado e com um acabamento muito bem feito.

Então, eu só tenho a agradecer ao Museu da Pelada, por me permitir vivenciar isso, por preservar todo um passado. Muito obrigado a todos.

MINHA VICIADA GERAÇÃO TRICOLOR

por Zé Roberto Padilha

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Nosso vício começou aos 16 anos. Havia um senhor que comandava o tráfico e ele ficava no meio de um campo orientando como deveriam ser entregues as encomendas. Elas, redondinhas, variavam do número 3, para iniciantes, até o 5, para os adultos. E todas seriam, obrigatoriamente, distribuídas de pé em pé. Não eram traficantes. Eram treinadores. E como tinha campo, tráfico, jogadores e treinadores espalhados com vício de jogar bola.

O que lembro mesmo é que liberavam uma substância, a endorfina, da qual nunca mais deixamos de ser dependentes. Segundo o Google, ela é responsável pelos melhores sentimentos que temos na vida. E eles estão relacionados às atividades físicas. E conclui nosso guia, que se tornou mais rápido no gatilho e venceu o duelo com o Aurélio, se tratar do hormônio do prazer.

Teve um dia, frio e chuvoso, que minha esposa avisou: não vá ao clube se drogar. Morava em frente ao Independência Clube, tive um dia difícil na prefeitura e precisava saciar minha ansiedade em suas águas geladas. 1500 metros depois, cheguei tremendo ao apartamento e fui atirado debaixo de um chuveiro quente tomando um pito danado. Não era mais uma criança, apenas fui acometido da abstinência de quem foi privado da prática do futebol, após 4 cirurgias no joelho, e aconselhado a parar de correr, diante das artroses que se acumulavam sobre dois tornozelos fraturados.

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Nos restou como consolo a natação. E a bicicleta. Com esta última, sai há pouco para ir às águas minerais de Paraíba do Sul pela estrada da Barrinha. Fui tranquilo nos primeiros 10 km e voltava ainda mais hidratado de lá quando uma equipe de ciclistas nos ultrapassou. Pelo equipamento e idade que possuíam, seria mais do que normal ganharem minha posição. Mas meu vício se potencializou quando fui acolhido, no início de tudo, em uma instituição que nos viciou tanto em jogar quanto a vencer: o Fluminense FC. Se somos acolhidos no Íbis FC, os deixaria passar. Mas no tricolor das Laranjeiras, com Pinheiro, Parreira, Sebastião Araújo, Telê Santana e Zagallo aprendemos a buscar e conviver com títulos e vitórias meio século atrás....Ganhar, que vício, era a nossa praia.

Eram 5 ciclistas, tinha uma mulher entre eles, e iniciei a insana caça e só consegui ultrapassar o último, meio fora de forma, na entrada da ponte que dava acesso à minha cidade. Cheguei exausto e pensei às vésperas dos meus 6.7: “Até quando irei viver tal dependência?” Na dúvida, abri uma cerveja Black Princess, estupidamente gelada, na chegada para comemorar o quarto lugar. Que vício mais ultrapassado este, pensei, hoje, perdem e são ultrapassados na tabela tão tranquilamente...

A TAÇA DE CRISTAL

por Zé Roberto Padilha

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Nielsen Elias foi um grande goleiro. Chegou em 1968 às Laranjeiras com 16 anos. E foi ficando junto comigo, Abel Braga, Marinho, Rubens Galaxe, Silvinho e Marco Aurélio até 1975. Ganhamos muitos títulos, perdemos outros e nos tornamos grandes amigos. Mas o que nos chamava a atenção era a sua dificuldade de jogar na linha. Não sabia driblar, chutava mal, tinha mesmo que ser goleiro. E que goleiro. Nos treinos recreativos divertia a gente jogando de centroavante. O gol não era mesmo a sua praia. Em compensação lá, debaixo de paus, vi poucos arqueiros parecidos.

Dezoito anos depois nos reencontramos nas Laranjeiras. Era o treinador de goleiros dos profissionais e eu técnico dos Juniores. E ao vê-lo bater bola com o Wellerson, fiquei impressionando: já chutava tão bem ou melhor que o treinador profissional, que era nada menos que o Edinho. Nielsen se aprofundou neste fundamento, essencial para sua nova profissão e importante nos dias de hoje na vida de um grande goleiro.

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Foram dezoito anos, não seis meses. É neste exíguo tempo que o Fernando Diniz quer exigir que aquele cara ruim de bola, que desde criança, por falta de habilidade com os pés, foi convidado a ir para o gol e usar as mãos, se adapte ao seu sistema de jogo. E saia jogando com os pés. O resultado? São obrigados a fazer o que não sabem.

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E os treinadores, como o do Bahia, orientam seus Gilbertos para dar o bote. Uma vez perdida a bola, não há cobertura. Eles, os goleiros, são nossas ultimas fortalezas.

Não culpem nossos goleiros tricolores. Esta nova função precisa ser repassada, em Xerém, aos treinadores de goleiros dos infantis, juvenis e juniores. Iniciar tal jogada pelos profissionais, é como entregar nas mãos de seu neto, de 3 anos, uma taça de cristal inglesa que pertenceu a seus avós. Como em toda bola atrasada pelos zagueiros tricolores, vamos ficar rezando na sala para que eles não a deixem cair.

O TIC TAC TAMBÉM É FILHO DE XERÉM

por Zé Roberto Padilha

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Sei, como jornalista e estudante de História, o trabalho que dá pesquisar rastros e pegadas sobre qualquer ação humana realizada no passado. Os arqueólogos que o digam. Pior, só mesmo quando você é quem construiu a Pirâmide e está vivo observando a memória frágil do futebol encobrindo-a. E entre deixar que cada vez mais a nossa construção tática se afunde, e sejamos taxados de vaidosos, até prepotentes, ou retirar cada pó que encobre nosso trabalho tático, o 55 Reversível, optei em lutar, três décadas após sua concepção, por sua autoria. O Pep Guardiola que nos perdoe e não durma esta noite sob o fog londrino. E o Fernando Diniz que se orgulhe de ter criado depois um sistema parecido. O que importa é mostrar a vocês que o Tic Tac, bem como Pedro e o João Pedro, é também filho de Xerém.

Ao começar nossa carreira de treinador por lá, em 1987, sentimos que nossos atletas, 80% deles vindos do Futsal das Laranjeiras, tomavam um susto com as dimensões do seu novo campo de ocupação. Hábeis, talentosos e acostumados a atuarem próximos uns dos outros, levavam um enorme tempo para se adaptar. E o campeonato carioca infantil estava chegando e começaria o julgamento do nosso trabalho. Então, criamos três quadras de futsal dentro do campo demarcadas por duas linhas intermediárias. E treinamos sua ocupação ordenada à exaustão. Na quadra do meio, era obrigatório dar dois toques na bola.

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Deu tão certo que levantamos os títulos infantis, em 87, o juvenil, 89, e editamos um fascículo naquele ano denominado “Tríplice Ocupação com Dupla Função”. Segundo nossos atletas, “era uma toqueira danada para cima dos adversários não tão compactados.” Em 90, com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, apoiado pelo professor Ivan Cavalcanti Proença, editamos o livro “55 Reversível”, sistema tático de futebol. E o lançamos em uma palestra no Salão Nobre do Fluminense FC.

E quando esta talentosa geração alcançou os juniores, e encantava Telê Santana nos treinamentos coletivos com sua posse de bola, um diretor do clube, o ex-árbitro Walquir Pimentel, pagou do próprio bolso o salário do mês dos funcionários e atletas. Numa sociedade cada vez mais capitalista, se tornou um semideus nas Laranjeiras e passou a receber de volta passes dos atletas. Surgira ali o diretor empresário no lugar do diretor amor à camisa e....o sonho terminou. Fui dispensado e poucos jogadores foram aproveitados. Era melhor trazer o Bobô, do Bahia. E Juninho e Macula, do Bangú. Estavam há algum tempo no mercado, dava para negociar. Quanto aos meninos e seu treinador, melhor esperar ou dispensar.

Hoje, quando o time do Fluminense realiza no Maracanã o que sepultaram lá atrás, em Xerém, Paulo Alexandre, nosso ponta que se tornou professor e escritor, Cadú e Leonardo, que foram campeões em 95, nos ligam e postam sua indignação. “Professor, nós fazíamos isto lá atrás!” E eu, antes tarde do que nunca, que já lutei pelas Anistia, Diretas Já e saio às ruas por Lula Livre!, resolvi lutar pela autoria da própria obra. Que, acima do nosso amor pelo clube, é tricolor. O Tic Tac, acreditem, também é um filho talentoso e esquecido de Xerém.