Emerson Gaspari

A TAÇA “MUSEU DA PELADA”

por Émerson Cássio Gáspari

Émerson Gáspari

Émerson Gáspari

Todo bom escritor que se aventure a redigir em “realidade alternativa” deve evitar a desculpa óbvia do “sonho” para justificar seu texto, recurso primário ao qual recorremos nas redações escolares, isso quando temos 11, 12 anos e queremos contextualizar algo de mais lúdico no papel. 

Mesmo um escritor barato – feito eu – deve procurar fugir desse recurso tão fajuto.

Pois não é que – ironia do destino – creio que de tanto evita-lo, acabei “sonhando” um novo texto? E ainda por cima, livre das “amarras” do tempo, misturando épocas diferentes num mesmo cenário.

Como boas ideias não devem ser desperdiçadas, vamos a ele, então (e que me perdoem os leitores, mas sonho é algo que não se controla, pois aflora do coração, quando a mente se deixa entorpecer pelo sono).

Quando disse a Sérgio Pugliese da minha ideia de promovermos um torneio de futebol entre os craques oferecendo a taça “Museu da Pelada”, ele achou o máximo: e foi logo ligando para Paulo Cézar Lima, requisitando sua preciosa ajuda nisso e para que convidasse todo o mundo futebolístico que este conhecia. 

PC Caju fez mais que isso: pediu a todos com quem falava, para que também convidassem quem conhecessem; independente da era em que houvessem atuado. Desse modo, multiplicou-se exponencialmente o número de cobras e apareceu gente de todo lugar e época do futebol brasileiro. 

O resultado foi espantoso!

Pugliese idealizava o torneio no Rio, berço do Museu da Pelada. E o companheiro André Felipe de Lima – seu fiel escudeiro e vascaíno também – insistia para que o realizássemos em São Januário. 

- E sem VAR, por favor! – exigia ele. 

Mas bati o pé até o fim, argumentando que esta primeira edição precisava ser em São Paulo, pois foi onde o futebol brasileiro teria oficialmente nascido, trazido pelas mãos de Charles Miller e blá, blá, blá e mais blá, blá, blá. 

Até que afinal “Serjão” cedeu, porém sob as condições de que seria um torneio totalmente raiz – de pelada, mesmo – fazendo jus ao nome da taça em disputa e também que a segunda edição aconteceria impreterivelmente na “Cidade Maravilhosa”.

Topei... e comecei a pensar no local ideal para o evento. 

No Jayme Cintra, estádio do Paulista na minha querida Jundiaí, não poderia ser... seria paixão clubística demais, de minha parte.

Precisava ser na capital. Imaginei-o primeiro no campo do CMTC Clube; uma espécie de versão do “Desafio ao Galo” no século XXI (até para emprestar um ar mais amador ao torneio). Mas desisti, pois precisaríamos de mais espaço. 

Pela mesma razão, descartei o romântico estádio da Rua Javari e quando já aventava a possibilidade de utilizarmos a Fazendinha, no Parque São Jorge, o amigo palmeirense Abílio Macedo interveio: 

- Émerson, não! Precisamos de um território “neutro”... que tal o Pacaembu?

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Maravilha! Além de charmoso, o Pacaembu ainda contava com o Museu do Futebol, que poderia abrir as portas para que o Museu da Pelada promovesse resenhas com todos os seus membros, no dia do torneio. Era ousado, mas precisávamos tentar.

Apanhamos um bonde e lá fomos nós, pedir auxílio a ninguém menos do que Paulo Machado de Carvalho, para que nos ajudasse a viabilizá-lo no estádio que por sinal, leva o seu próprio nome. 

Dr. Paulo, sempre gentil e solícito, nos tranquilizou: 

- Fiquem despreocupados: eu cuido de tudo! – bradou o “Marechal da Vitória”. 

E já foi – ato contínuo – ligando para seus conhecidos políticos: Maluf, Adhemar, Jânio. Em menos de meia hora, estava tudo resolvido: o Pacaembu prontamente liberado para ser usado no evento, o qual deveria consumir o dia todo, sem dúvida. Além disso, aquele simpático empresário ainda responsabilizou-se pelos gastos decorrentes da premiação. Tudo pelo amor ao futebol. 

Pugliese achou por bem pedir ao torcedor que fosse ao estádio, para que contribuísse com doações para os projetos sociais apoiados pelo Museu da Pelada. Nada mais justo, por sinal.

Finalmente chegou o tão aguardado domingo, que coincidia com folga no calendário futebolístico nacional. O estádio ficou abarrotado: devia haver umas cinquenta mil pessoas ao todo, lá.

E embora na “Terra da Garoa”, fomos brindados com um lindo dia de sol. 

Eram tantos craques reunidos, que ficou decidido – a última hora – que o torneio teria três partidas de exibição. Não se disputariam finais: todos seriam premiados. 

A “boleirada” gostou e – no mais autêntico modo peladeiro – os jogadores sentaram-se no gramado, sendo escolhidos um-a-um (a dedo!) pelos “cobrões”. Mas nada de “cariocas x paulistas”, “casados x solteiros”, “negros x brancos”: bairrismos, modismos e racismo ficaram para trás, são coisas superadas por nossa sociedade, hoje mais justa e consciente da importância de todos. E sem violência também, por favor! 

Era tudo muito amador, mesmo: iriam jogar descalços e sem uniformes. Um time vestiria sempre camiseta do Museu, contra outro sem camisa. E bola “raiz”: costurada à mão, pesadona. Sem essas “bexigas” com que jogam nos dias de hoje – frisei. 

- E nada de VAR! - insistiu uma vez mais, André Felipe de Lima. 

Tudo pronto, os dois primeiros times pisaram no gramado. E a pelada começou exatamente às onze da manhã. Um espetáculo lindo de se ver!

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Friedenreich deu a saída, rolando a pelota para Neco, que recuou a Fausto “Maravilha Negra”. Este, com categoria, abriu o jogo na direita para a descida de Zezé Procópio. 

Olhei em volta e vi a multidão nas arquibancadas de olhos vidrados no campo: realmente gratificante. O prélio segue. 

Falta agora de Junqueira em Feitiço, que ia costurando bela tabelinha com Araken Patusca pela meia. Trinta “jardas” de distância. Grané se apresenta para a cobrança: o “canhão 420” toma posição e solta um petardo que explode no travessão da meta defendida por Barbosa (balançando-a, inclusive!) e vai embora pela linha de fundo, deixando os narradores estupefatos, nas cabines de imprensa.

Os alaridos da torcida são constantes. E aumentam, quando Tim domina com exímia categoria e estica um passe para a arrancada empolgante de Romeu Pellicciari: com sua famosa “passada de ganso”, ele deixa o volante Zé do Monte para trás e atira firme para as redes de fora da área, abrindo a contagem. Rojões estouram por todos os lados. Golaço!  

Só que a peleja é lá e cá e ninguém quer ficar atrás no marcador: logo depois vem o troco dos adversários, com Zizinho fazendo uma jogada maravilhosa em cima do zagueiro Nariz, deixando Heleno de Freitas livre para empatar. 

Numa partida dessas o lúdico ocorre a todo instante fugindo às vezes, da luz da compreensão dos mais jovens, não acostumados a práticas mais antigas: como a que ocorre quando Tesourinha faz jogada maravilhosa pela direita e centra na direção de Carlitos. O artilheiro dos gols impossíveis arrisca o chute mesmo sem ângulo e vence o goleiro. Mas Belfort Duarte evita o tento em cima da linha, pois a bola toca em sua mão direita, perdendo-se pela linha de fundo. 

O árbitro Mário Vianna não percebe, assinalando escanteio. Mas o grande Belfort – zagueiro e capitão do time – corre até o juiz e lhe informa que havia sim, tocado na bola. Vianna agradece sua honestidade exemplar e assinala o penal. 

Ao meu lado nas arquibancadas, o amigo André Felipe de Lima não perdoa:

- Tão vendo? Bem melhor que o VAR...

Heleno cobra com força. Mas Marcos de Mendonça defende. O artilheiro se descabela (feito “Gilda”) proferindo xingamentos a tudo e a todos. Acaba sendo gentilmente “convidado a sair” e em seu lugar entra Leônidas da Silva. 

O “Diamante Negro” é ovacionado pela torcida e na primeira bola que recebe pelo alto, num centro do ponteiro Canário, acerta uma bicicleta indefensável na meta guarnecida por Barbosa. 

No intervalo, Veludo entra no posto de Barbosa, enquanto que Marcos de Mendonça dá lugar ao gremista Lara, verdadeira garantia em suas saídas do gol. Vários jogadores da linha também são trocados e os times voltam um pouco modificados para a segunda etapa, pelos seus treinadores Ademar Pimenta e Flávio Costa.

Segunda etapa que começa quente, pois agora o ataque dos “Três Patetas” (Isaías, Lelé e Jair Rosa Pinto) duela contra a linha defensiva “diagonal” de Rui, Bauer e Noronha. A maestria com que Jair, o “Jajá de Barra Mansa” lida com a redonda e executa seus tiros a gol e lançamentos (sempre em “s”) é encantadora. 

Já o clássico Danilo Alvim, o “Príncipe Danilo”, se vê a cometer uma faltinha na intermediária. Na cobrança, Hércules “O Dinamitador” acerta (e derruba) parte da barreira humana. 

A multidão vai ao delírio, extasiada com tantas jogadas “classudas” e incríveis, protagonizadas de parte-a-parte. 

Ademir de Menezes trava uma batalha inglória diante de Domingos da Guia: o “Divino Mestre” não abandona a área, neutralizando a conclusão da maioria de suas belas arrancadas. É um duelo empolgante. 

Bem no finalzinho, Telê Santana, o “Fio de esperança” consegue empatar a partida, num contra-ataque puxado pela direita, antecipando-se ao goleiro e tocando de biquinho, para o fundo das redes.   

Palmas eclodem de todas as partes e os apupos da torcida ecoam junto à bela “concha acústica” do velho estádio.

Entram em campo as equipes para a segunda pelada do dia. 

Ao apito de Armando Marques começa a partida, pouco depois de uma da tarde. Felizmente uma imensa nuvem escura domina parte do céu e providencialmente encobre o sol, durante quase todo o jogo. 

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Gylmar sai jogando com Djalma Santos, que estende um passe para Zito. Este avança e entrega para Pelé, que recua para pegar. De Pelé para Coutinho, para Pelé, para Coutinho. Para Pelé de novo, que atira na saída de Manga, abrindo o marcador. 

Que maravilha! Quantos aplausos para o “Rei do Futebol”!

Pouco depois, é a vez de um impossível Mané Garrincha dar seu show e tirar os adversários para “dançarem”: ele finta dois, três adversários pela direita e cruza rasteiro, para o sempre eficiente Vavá empatar, com um tiro inapelável à queima-roupa, que vence Gylmar. 

Em meio à constelação de craques, o meio de campo parece ser o local preferido para um verdadeiro desfile de jogadas cerebrais. 

Numa delas, Dino Sani intercepta um passe, põe no chão e aciona Ademir da Guia. O “Divino” irrompe pela meia, tabelando com Dirceu Lopes. Jesus! Como jogam bem justos, esses dois! A conclusão do lance passa triscando a trave. 

Já pelo outro lado, o ponto forte são os lançamentos que partem do meio, executados com maestria por Didi, “O Príncipe Etíope” e Gérson. Aliás, o “Canhotinha de Ouro” fala o tempo todo em campo, orienta os companheiros e termina por descolar um passe longo açucarado que deixa PC Caju na cara do gol: é a virada!

Didi procura cadenciar o jogo, ora aplicando seus dribles sonsos, ora invertendo jogadas, utilizando-se de sua habitual “folha-seca”.  

Garrincha sente o joelho e entra Jairzinho em seu lugar.  Na outra ponta está Edu, que acaba de substituir Pinga. Porém, não há tempo para mais nada, pois chegamos ao fim da primeira etapa.  

Um Carlito Rocha preocupado vai ver Mané nos vestiários, mas Mario Américo o tranquiliza, dizendo que ele já está melhor com suas massagens, que não foi nada de mais. Só que o dirigente está sempre preparado e faz Garrincha, Didi e Nilton Santos tomarem as vitaminas que carrega no bolso, para “deixa-los mais saudáveis”, se lamentando pelo fato apenas de que não estejam na concentração botafoguense, onde poderia preparar suas fortificantes “gemadas”.

No período complementar, o espetáculo prossegue.

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O capitão Carlos Alberto Torres trava um duelo duríssimo contra ninguém menos do que o endiabrado Canhoteiro. Num dos lances, o “Capita” encurrala o ponta junto à bandeirinha de escanteio, mas o lépido atacante escapa por um espaço menor do que um lenço, entre seu marcador e a linha de fundo, arrancando aplausos fervorosos da galera.

Já do outro lado, Julinho Botelho dá bastante trabalho para Nilton Santos, mas por enquanto o “Enciclopédia” vai controlando seu setor e levando a melhor, evitando o confronto, na base da experiência e da antecipação.

Os goleiros – eu ia me esquecendo – a essa altura, já são outros: entraram Oberdan no lugar de Gylmar e Castilho no posto de Manga. Além de outros jogadores na linha, escolhidos pelos treinadores Vicente Feola e AymoréMoreira. 

A sorte de Castilho quase vai pro “bebeléu” quando Tostão enfia um passe audacioso para Pelé, pela meia-esquerda. O “Leiteria” deixa o gol e é inapelavelmente driblado com uma ginga de corpo do “Rei”, o qual corre pelo outro lado, perseguindo a bola que cruza a área em diagonal e a chuta, mesmo desequilibrado. A redonda cruza toda a extensão da meta – com Bellini caindo dentro dela ao travar a corrida – e caprichosamente, vai para fora. 

Já Oberdan se vê em maus lençóis e tem que “se virar”, quando Edu e Rivellino tramam linda jogada pela esquerda – com direito a “elástico” de Riva – envolvendo a dupla Mauro e Piazza. Mas o goleiro palmeirense defende o tiro de Edu, agarrando com uma mão apenas e não dando rebote.

Mais gols, apenas no final: primeiro com Tostão, que inteligentemente apenas desvia um rebote na falta cobrada por Pepe bem no cantinho de Castilho e depois, nos instantes finais (acreditem!), Dario, o “Dadá Maravilha” – que acabara de entrar – também deixa o seu, tocando de cabeça de maneira atabalhoada e de costas para as redes, confundindo Oberdan Cattani. 

A galera cai na gargalhada com o lance e a comemoração, porque “Rei Dadá” não faz por menos e vem comemorar no alambrado com os torcedores.

Ao término do jogo, ele é, ao lado de Pelé, o mais assediado pelos repórteres de campo e explica, no imenso microfone que segura Sílvio Luiz, que “não existe gol feio; feio é não marcar gols”.  

Nas cabines de rádio e TV e na imprensa escrita, um show de profissionalismo e competência: Geraldo José de Almeida, Waldir Amaral, Osmar Santos, Luciano do Valle, José Silvério, Pedro Luiz, Fiori Gigliotti, João Saldanha, Mário Filho, José Trajano, Milton Neves, Sérgio Noronha.

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Nelson Rodrigues prefere ocupar uma das cadeiras de honra. Abaixo dele, estão Castor de Andrade e Eurico Miranda, confabulando sabe-se lá o que! 

O sol volta a raiar com intensidade e os apupos da torcida trazem novas equipes a campo.

Já passa um pouco das três da tarde, quando o árbitro Arnaldo César Coelho autoriza o início do derradeiro duelo. Zagallo e Felipão estão à beira do gramado, berrando com seus times, desde o primeiro minuto de jogo. 

O equilíbrio fica mais evidente, desde o início: os espaços estão menores e a marcação, mais acirrada, nesse confronto. A bola parada vira uma arma importantíssima. 

A dupla de ataque Sócrates & Palhinha leva o casal Vicente e Marlene Matheus ao delírio, com suas tabelinhas empolgantes. Do lado de lá, Edmundo e Evair vão mostrando à que vieram: o “Animal” está impossível, hoje. 

Renato Gaúcho faz uma jogada sensacional pela direita e põe na cabeça de Reinaldo, obrigando Dida a fazer seu primeiro milagre. 

Os adversários respondem com uma triangulação infernal entre Zico, Bebeto e Roberto Dinamite, que acaba derrubado na entrada da área. O “Galinho” cobra com perfeição e Leão salva, de ponta de dedos, pondo a escanteio. 

Júnior avança e entrega para Rivaldo, que faz o corta luz, deixando a bola chegar para Ronaldo Fenômeno, que enche o pé, passando muito perto do gol.  

Agora Cafu desce pela direita e toca para Dener. O craque arranca com vontade e imensa velocidade e é parado na falta, na altura da meia-direita. Éder vai para a cobrança. Tensão no ar. 

O petardo infernal sai ziguezagueando, acerta o ângulo e abre a contagem. Fim do primeiro tempo. 

Durante o intervalo, a galera se entretém com alguns jogadores que não estão jogando, optando por brincadeiras mais descontraídas e abrilhantando o espetáculo: no gramado, Rogério Ceni se alterna entre bater e defender faltas e penais cobrados também por Perácio, Cláudio Cristóvam de Pinho, Zenon, Dicá, Ailton Lira, Neto, Marcelinho Carioca, Djalminha, Paulo Baier, Elói e Mendonça. 

Do outro lado do campo, mais atrações: um grupinho formado por Kerlon “Foquinha”, Baltazar “Cabecinha de Ouro”, Leivinha e Escurinho trocam inúmeros passes aéreos – apenas de cabeça – sem deixarem a bola cair. Próximo a eles, um animado grupo faz farra numa “roda de bobinhos”, só tocando de primeira, na maior categoria: Geraldo Assoviador, Kaká, Robinho, Denílson, Ronaldinho Gaúcho, PH Ganso, Neymar e até mesmo Falcão do futsal e Marta do futebol feminino. 

A criançada vai ao delírio com eles!

Na volta dos vestiários, Marcos entra no posto de Leão e Taffarel no de Dida.  Começa a etapa final do último jogo, com muitas alterações (para variar!) e um monte de caras novas aparece em campo.  

Careca & Muller dão uma canseira em Aldair e Marinho Chagas. Já Leandro evita descer para o ataque, pois precisa conter os avanços de Roberto Carlos pela canhota. A dupla “Casal 20” Washington e Assis vira então, um autêntico show à parte.

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Do outro lado, é Romário e Adriano quem estão “tocando o terror” na dupla de zaga Oscar e Amaral. Eles só não levaram gol ainda, porque jogam com três zagueiros (como Felipão adotou) e Luís Pereira fica como líbero, salvando os lances mais agudos.

As disputas pelo alto entre o “Imperador” e o “Chevrolet” são épicas, ainda mais quando o zagueirão arranca para o ataque, levando o time todo junto.

Por sua vez, o “Baixinho” obriga o clássico Amaral a salvar gols certos por duas vezes, em cima da linha. Por conta disso, Amaral (mesmo sendo zagueiro) acabaria sendo eleito “o melhor goleiro” daquela tarde, numa descontraída brincadeira por parte da imprensa, que o presentearia por fim, com um “Moto-rádio”. 

O espetáculo está terminando; o “Rei de Roma” Falcão apanha uma bola na zaga e elegantemente caminha, conduzindo-a sem sequer olhar para ela. De repente, a entrega no círculo-central, a Mário Sérgio. O “Vesgo” não tem tempo sequer de olhar para um lado e lançar para o outro: é calçado por Dirceu (que ajudava na marcação) e que acaba por cometer uma falta. Aproxima-se a última volta dos ponteiros!  

Nelinho ajeita a bola ali mesmo, no meio de campo e toma imensa distância para bater. Taffarel pede barreira de seis homens, mesmo dali (pode isso, Arnaldo?). 

A pancada de direita é violentíssima, sai fazendo curvas e não dá a mínima chance ao goleiro, furando inclusive as redes. Incrível: é o empate, em cima da hora! Fim de jogo!

A última pelada termina com um público que se levanta e permanece aplaudindo por vários minutos de pé os seus craques. 

Todos os times agora no gramado começam a receber das mãos do Dr. Paulo Machado de Carvalho e de Sérgio Pugliese, as medalhas e taças do “Museu da Pelada”. 

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Finda a confraternização e premiações, parte do público não arreda pé do estádio: é hora da “resenha”, realizada ali pertinho, no Museu do Futebol. 

O público superlota a Praça Charles Miller, prestando especial atenção à descontraída conversa com tantos craques (tendo Sócrates e Caju à frente), comandada por Sergio Pugliese, que conta com a providencial ajuda de alguns membros-voluntários do Museu da Pelada: André Felipe de Lima, Abilio Macedo, Walter Duarte, Daniel Muniz, Émerson Gáspari, entre outros. 

A resenha então se estende preguiçosamente desde o finalzinho da tarde, até altas horas da noite, tirando inclusive a própria Internet do ar e criando um autêntico “colapso digital”, tal a absurda quantidade de acessos de gente que tudo acompanhou – ao vivo, pela TV ou rádio – e que agora se encontra comentando boquiaberto o que viu e que nunca mais irá se esquecer na vida, enfim. 

EXPLICANDO PELÉ ÀS FUTURAS GERAÇÕES

por Émerson Gáspari

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Este texto tem por objetivo maior, esclarecer aos jovens que não puderam ver Pelé jogar ao vivo, o porquê dele ser o maior de todos os tempos e ao mesmo tempo servir como testemunho para que a magnitude de sua obra jamais seja esquecida.

Fiquem tranquilos: não estou aqui para repetir o que vocês já se cansaram de ouvir e ver por aí, como o Tri no México, o milésimo gol e tudo o mais que parte da mídia lhes ensinou a duvidar. Narrarei atuações incríveis dele em jogos desconhecidos por vocês.

Mas como eu ia dizendo, nas redes sociais, por exemplo, é um assombro a quantidade de gente que destila seu veneno contra Pelé.  Em geral, fãs de algum craque atual ou pessoas que insistem em julgá-lo por episódios extracampo, misturando as coisas.

Aqui, neste texto, tratarei apenas do atleta Pelé.

Quanto ao cidadão Edson Arantes do Nascimento; trata-se de um ser humano comum, passível de erros e acertos, como todo mundo. Não focarei neste assunto.  Ponto final.

Saibam também, que possuo o maior respeito por todos os jogadores descritos neste texto e se faço citações, é no sentido de legitimar tudo o que afirmo aqui, apenas.

O propósito é apresentar histórias e informações incomuns, sobre a carreira do Rei.

Comecemos por alguns números: aos jovens que curtem tanto falar em “hat-tricks”, saibam que Pelé já fez “alguma coisa” nesse sentido; sendo oito gols num só jogo, cinco em seis jogos, quatro gols em outros 31 e três gols em 92 oportunidades.

Dos seus 1284 gols, 180 foram de bola parada, sendo 109 de pênalti, 70 de falta e um olímpico. Em três temporadas, superou a marca centenária: em 1959 fez 126 gols, em 1961, 111 gols e em 1965, 106 gols. Só pela Seleção Brasileira, marcou 95 tentos.

São apenas curiosidades, antes de abordarmos assunto mais sério: as comparações!

Sim, porque um dos maiores pecados da humanidadeé o da comparação, já que cada indivíduo é “uno” e como tal, não mereceria ser comparado a outro.

Mas sempre haverá a tentadora e deliciosa ideia de se discutir quem é o melhor.

Só que com Pelé, trata-se de pura blasfêmia.

Vejam os argentinos, por exemplo, sempre à tona, com a velha fixação de possuírem o melhor jogador de todos os tempos.

É bom que eu diga que sempre admirei o futebol argentino. De talento, garra, técnica, disciplina tática, posse de bola e boa transposição do meio para o ataque, além de outras virtudes, que não vem de hoje.Mas na verdade, às vezes, forçam um pouco.

Sejam alegando que devido a II Guerra deixaram de ganhar duas Copas, sejam especulando desde essa época, possuírem o “número um” do planeta.

Isso começou com José Manoel Moreno – ídolo do River Plate “La Máquina” – nos anos 40, mas, sinceramente? Não creio que nosso Zizinho, na época, ficasse atrás.

Mais tarde, inventou-se que seria Di Stéfano,porém o húngaro Puskas, seu parceiro de Real Madrid, me parecia um pouco melhor. Mais espetacular, sem dúvida. Boa parte da crítica mundial inclusive considerava Puskas o maior, até o surgimento de Pelé.

O próprio Puskas, imparcial e humilde, dizia que o melhor jogador do mundo era Di Stéfano, pois se recusava a classificar Pelé como um simples jogador.

Já Cruyff, considerado por muitos o maior craque europeu da história (e grande treinador, também) sempre repetiu quando atleta, que até poderia vir a ser um Di

Stéfano, mas nunca um Pelé, pois ele era o único que ultrapassava os limites da lógica.

Para o companheiro de Pelé no Santos, Pepe, ele sempre foi um extraterrestre, já que as coisas que fazia não cabem na compreensão humana.

Tempos depois, surgiu Maradona. Era de uma habilidade impressionante e para mim, sua melhor fase foi no Argentino Juniors, mas levou azar: aos 17 anos, preterido por Menotti na Copa, perdeu a chance de ser campeão mundial, feito Pelé na mesma idade.Ganhou sozinho o Mundial de 86 e revolucionou o Napoli, nos anos 80.  Só que engordou e prejudicou a carreira com as drogas. Poderia ter sido maior. Não foi.

Costumo fazer analogias entre futebol e boxe; penso que Diego estaria assim, mais para um Mike Tyson, enquanto Pelé se aproximaria do perfil de Mohammad Ali.

Agora, nesse século, o “concorrente argentino” mudou: passou a ser Messi.

Eleito melhor do mundo várias vezes,já viveu dias melhores. Enfrenta a concorrência de Cristiano Ronaldo, enquanto Neymar e agora Mbappé e Salah tentam se aproximar. Mas daí a querer comparar qualquer um deles com Pelé vai uma distância enorme.

Só que, mesmo assim, para Messi desbancar Pelé nessa disputa, bastaria ganhar apenas uma Copa, de modo convincente e decisivo, para que toda a gigantesca indústria marqueteira se incumbisse de promover uma injustiça.

Haverá gente da própria imprensa brasileira defendendo a tese de que ele passou a ser o maior. Até esta última Copa, havia uma meia dúzia escrevendo essa bobagem por aí. Depois do novo fracasso, ficou mais difícil acha-los.

Como a lei da probabilidade aponta para que Pelé e seus contemporâneos partam desse mundo antes que Messi e toda esta nova geração, basta uma Copa,muito marketing em cima e algum tempo. Estará feito o sacrilégio.

Marcar mil gols, por exemplo, ele não precisa. Ainda mais depois que uma revista portenha publicou um “levantamento de gols relevantes”, republicada em todo o mundo e no qual Messi deve superar Pelé, logo. Francamente! 

Um absurdo tão grande quanto uma revista brasileira, que tempos atrás afirmou – com matéria de capa e tudo – ser Roberto Carlos, o maior lateral-esquerdo que já existiu, acima até, de Nilton Santos. Triste! Acho que nem o R6 concordou com isso.

Mas voltemos às eternas comparações com Pelé. E sem patriotada!

Não é porque um seja brasileiro e o outro argentino, pelo amor de Deus!

Mas porque denota que compramos as ideias que chegam de fora, mesmo que absurdas. Vamos dar um exemplo (peço aos flamenguistas que me perdoem).

Zico foi um monstro como jogador, eu diria extraordinário; mas não foi um Pelé. Entendem o que eu quero dizer? Na época do “Galinho” mesmo, não dava pra cravar que ele fosse o melhor do mundo. Naqueles anos 70/80, no Brasil, havia Sócrates, que até me parecia às vezes, ligeiramente superior na criação das jogadas, enquanto Zico era mais decisivo e goleador, sem dúvida alguma. No restante do mundo então, nem se fala: havia Boniek, Rummenigge, Platini, Lato, Falcão. E Maradona.

Hoje a concorrência diminuiu. Só tem Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar e agora, Mbappé e Salah chegando: Iniesta já é carta fora do baralho.

Jogar no Barça hoje em dia, dá mil vezes mais repercussão do que atuar no Santos. Imagine então, no Santos dos anos 50, 60, 70?

Querem a verdade? Cruyff por exemplo, não foi inferior à Messi, mas para a mídia (inclusive a europeia), é como se fosse. A propósito, nessa altura do texto, sou tentado a fazer também o meu ranking pessoal de melhores jogadores de todos os tempos.

Em primeiro lugar, vem Pelé, e nem poderia ser diferente.

A alguma distância, depois dele, está Maradona e colado nele, um seleto grupo, com

Puskas, Cruyff, Beckenbauer, Di Stéfano, Zidane, Garrincha, Yashin, Bobby Moore, Eusébio, Stanley Matthews e no qual estariam entrando o Messi e o Cristiano Ronaldo.

Se não conseguirem, permanecerão no grupo abaixo,maior, com Iniesta, George Best, Gullit, Van Basten, Robin, Neeskens, Kocsis, Zamora, Meazza, Baggio, Rossi, Zoff, Masopust, Liedholm, Beckham, Lato, Platini, Rummenigge, Matthaws, Gerd Muller, Mathias Sindelar, Moreno, Mario Kempes, Hugo Sanchez, Planika, Obdúlio Varella, Manco Castro, Gordon Banks e claro, “Ronaldos”, Romário, Zico, Sócrates, Falcão, Rivellino, Gérson, Tostão, Carlos Alberto Torres, Jairzinho, Zizinho, Nilton Santos, Djalma Santos, Didi, Leônidas da Silva, Friedenreich, entre outros e é neste grupo que Neymar está inserido. 

Claro que tudo isso é muito discutível, pois como disse, é complicado comparar, ainda mais jogadores de posições, países e épocas diferentes e é impossível lembrar de todo mundo. Mas sinceramente, é o que penso a respeito dos maiores craques que este planeta já produziu. Não sou dono da verdade.

E a verdade, é que tenho ouvido muitas bobagens futebolísticas, nestes últimos anos.

Algumas; já contei aqui, no Museu da Pelada: tem aquela do rapaz que insistia que Beletti foi o maior lateral-direito do Brasil de todos os tempos e “sem discussões”. Então, com modos, perguntei se havia ouvido falar de Zezé Procópio, Djalma Santos, Carlos Alberto, Leandro (fazendo de conta que o Cafu, naquela época, não existia).  Diante da negativa, questionei se pelo menos Nelinho ou Zé Maria.  Depois de mais um “não”, respondi, com toda a ironia do mundo que então ele estava certíssimo: “Beletti era mesmo, o maior de todos os tempos”. E sem discussões, como ele queria. 

Aposto que nem mesmo o sensato Beletti concordaria com uma afirmação dessas, até porque sua posição de origem era volante, mudando várias vezes durante a carreira.

Outro torcedor, trintão, insistia comigo que Serginho Chulapa foi muito melhor do que Ronaldo Fenômeno. Concordei: como discutir com quem pensa assim? Prefiro conversar com pedras, elas ao menos não me dizem essas bobagens.

Quando envolve Pelé, a coisa fica ainda pior: um rapazola – não sei se querendo me provocar ou por pura tolice mesmo, vinha sempre ao meu antigo sebo, para afirmar com entusiasmo, que Robinho já havia passado Pelé para trás. Um dia, extasiado por Robinho ter assinado com o Real Madrid (a pedido do Wanderley Luxemburgo, quando trabalhou lá), ele veio dizendo, sério, que “agora sim, Robinho iria arrebentar e talvez fizesse até mais gols do que o Rei”. Preferi responder com uma pergunta:

- Você sabe quantos gols tem Robinho hoje, com pouco mais de 21 anos?

- Não! Quantos?

- Setenta! Exatamente setenta gols, tem Robinho hoje.

- Puxa, que legal! E Pelé, quantos gols tinha feito, com a mesma idade, hein?

- Quinhentos! Aos 21 anos e dez meses, Pelé já havia feito 500 gols pelo profissional.

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O moço arregalou os olhos, ficou em silêncio, aturdido. Minutos depois, saiu de fininho da minha loja, sem se despedir, para nunca mais voltar. Mais um cliente assim – que também fiz questão de perder – era um argentino fã de futebol, que aporrinhava a paciência, fazendo citações agressivas (entre os pôsteres de times na parede da loja, havia um de Pelé). Até que num belo dia, exagerou nas provocações:

“Este não jogou nada! Viveu de mídia! Foi sempre um enganador: tive pena quando vi seu filme, todo editado, cheio de cortes”. E prosseguiu:

“Não jogou nem 10% do que jogou Maradona! Outra mentira inventada, por aqui!”

Ouvi tudo em silêncio, sem nada responder. Quando ele se despediu, disse-lhe apenas:

“Desejo que na próxima encarnação, Deus lhe conceda a dádiva da visão, para que consiga ao menos enxergar futebol direito”. O gringo fez uma cara feia e saiu pisando duro.

Perdi mais um cliente, mas ganhei minha tranquilidade de volta. Porque cansa ouvir essas coisas, sabe gente? Quanto ouço essas asneiras (e só lhes contei algumas), chego à conclusão que meu ouvido definitivamente virou penico. E a mídia, com essa “babação” em cima do Messi, vem dando sua generosa contribuição para enchê-lo.

Com todo respeito que possuo pelo grande Mané Garrincha (de quem sou fã e farei meu próximo texto, homenageando-o), mas costumo sempre mensurar o grau de conhecimento futebolístico de alguém, quando me diz“Mané foi melhor que Pelé” ou“Pelé não seria nada, sem o Mané” ou ainda: “sem Mané, Pelé não faria tantos gols”. Bem, só pelo Santos, foram 1091 gols. E não me recordo do querido Garrincha ter vestido a camisa do Peixe. Se alguém viu, por favor, me avise.

“Ah, mas o Gérson disse que Garrincha foi o melhor de todos!”, dirão alguns.

Verdade, e ele é um dos caras que mais conhece futebol. Além do craque que foi, dava uma aula de conhecimento, nos comentários que fazia para a TV e eu adorava assistir.

Mas talvez diga isso, por ter levado o maior baile de sua vida, ao ser impelido a marca-lo, naquela célebre final do “Cariocão” de 1962, em que o Botafogo (ou Mané) fez três à zero em cima do Flamengo, deitando e rolando. Ficou o trauma. Depois, ele até foi jogar no Botafogo, ao lado do “Anjo das Pernas Tortas”. Melhor ter um cara desses no seu time, do que enfrenta-lo, como dizia o próprio Nilton Santos, cheio de sabedoria.

Mané foi único. Mas também não era um Pelé. E Messi, muito menos.

É bom que eu diga que não ganho um centavo pra defender o Rei.

Meu compromisso é com a verdade. Apenas isso. Contra fatos, não há argumentos.

Foram 59 títulos em 22 anos de profissão e 1284 gols em 1365 partidas.

Para tecer uma comparação com Maradona, por exemplo, basta lembrarmos que o portenho anotou 345 gols em 695 partidas. Metade dos jogos e um quarto dos gols do negão. Melhor seria compararmos Maradona à Garrincha. Aí sim, daria uma briga boa, equilibrada. Como Maradona, Mané ganhou uma Copa sozinho,a de 1962.

Já Messi, tem média excelente de gols na sua carreira. Computando a Copa de 2018, havia assinalado 618 gols, em 763 partidas. CR7, seu concorrente contemporâneo, fez 658, em 916 jogos. Aliás, o Cristiano Ronaldo tem boas chances de superar Eusébio, que marcou 773 gols em 745 jogos, não acham?

Daqui a pouco, a mídia inventará alguma contagem regressiva, até que Messi “supere” Pelé, nos “tentos válidos”. Nas redes sociais, a campanha por isso e os ataques ao Rei já começaram, com gente dizendo que a lista de Pelé é inflacionada com gols em amistosos de casados contra solteiros, numa prova de total desrespeito.

Fato foi que o Santos disputou inúmeros amistosos pelo planeta, tendo Pelé como atração principal. Se disputasse outros jogos e torneios, não marcaria gols, também? Vocês acreditam mesmo, que se um sujeito como o Rei fosse jogar na Europa, iria ficar sem marcar muitos gols? Não disputaria sempre a artilharia, ao menos?

Ora!  Não considerar gols em amistosos, é uma manobra vil, para diminuir sua marca.

Seria como considerar que todas as lutas de um campeão de boxe, na qual ele não colocou o cinturão em disputa, deveriam ser retiradas de seu cartel. Seria justo?

Mas criar polêmica gera venda de jornal, revista, acessos nos sites. Vende!

Messi conseguiu pelo menos 618 gols, aos 31 anos? Lembro-lhes que Pelé chegou ao milésimo gol, aos 29 anos. A partir daí diminuiu o ritmo; chegou a se aposentar e voltou pouco depois, no Cosmos. Aos 36 anos, estava com 1280 gols.

É, quem sabe um dia, Messi chegue ao nº 1000. Talvez consiga,na mesma idade de Romário. E digo isso sem deboches, pois o “Baixinho” foi outro “monstro” do futebol mundial e ambos merecem meu mais profundo respeito.

Messi sabe ser profissional, é obediente taticamente, talentoso, muito veloz, protege bem a bola e faz parecer fácil fazer os gols que faz. Desequilibra. Lembra aquele personagem, o Sonic correndo, quando parte em velocidade com uma bola dominada.

Recentemente, um internauta ficou argumentando horas comigo, que Messi é o maior jogador “de clube” ao menos, de todos os tempos. Olha, honestamente? Para mim, essa história de “jogador de clube” é um atestado de jogador que não é completo.

É como no automobilismo: nós tivemos na F-3 nos anos 80, uma grande rivalidade entre o Senna e o Martin Brundle, que pareciam ser pilotos parelhos (poucos sabem disso). Mas quando chegou a hora “da onça beber água” na F-1, deu no que deu!

E outra: como ignorar que o Pelé marcou mais de mil gols e ganhou uma pancada de títulos só pelo Peixe, tornando-o mundialmente famoso?

Em Copas então, é brincadeira: Pelé, em quatro edições, marcou 12 gols em 14 jogos, com 12 vitórias, um empate e uma derrota. No tal empate, saiu contundido, com uma distensão, logo no início e na única derrota, foi “caçado” pelos zagueiros portugueses, saindo carregado de campo. Dá pra comparar?

Agora, tirando o comportamento que citei a pouco de Maradona (e que o prejudicou seriamente na carreira) não sou o tipo que fala mal de craque estrangeiro, apontando seus defeitos. E eles sempre os tiveram.

Para alguns, faltava uma boa perna direita, noutros a esquerda. Outros eram lentos, gordos. Outros ainda, fracos no cabeceio ou excessivamente práticos, enquanto que havia também, aqueles que se perdiam em infinitas firulas e malabarismos.  Enfim, todos os candidatos ao posto de melhor do mundo, sem exceção, tinham ou tem defeitos. Que eu não preciso aqui relembrar. Basta pensar e vocês também se lembrarão. De cada um deles.

Com Pelé isso não acontece. Ele era completo e beirava a perfeição. E por causa disso, criaram-se algumas lendas a seu respeito. Algumas falsas, outras verdadeiras.

Uma delas: Pelé seria ambidestro? Não!

Pelé nasceu destro. Ocorre que treinou tanto a perna esquerda, que no final da carreira, já a estava usando melhor do que a direita, conforme ele mesmo diz.

Para comprovar o que digo, lembro a vocês, que batia pênaltis com a direita, certamente por ter mais segurança e precisão nela. Mas creio que se quisesse, poderia cobrar com a esquerda, também, sem maiores problemas.

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Porque o gênio é também isso. É transpiração. E Pelé treinava muito. Soube aprender e se aprimorar. A tal “paradinha” no pênalti, mesmo.

Aprendeu com Dalmo Gaspar, lateral-esquerdo santista, que já a executava antes mesmo de ir para o Santos e foi seu companheiro de quarto na concentração do clube.

Em faltas e lançamentos, ele teve dois mestres à disposição: Jair Rosa Pinto e Pepe.

E aprendeu muito bem, treinando com os dois. Fora as broncas do capitão Zito, que às vezes gritava pra ele, ainda jovenzinho, ao partir na direção errada, num lançamento: “Crioulo burro: é olho pra um lado e bola pro outro”.

Longe de ser racista, Zito tinha o maior carinho por Pelé e apostava nele todas as suas fichas, como o grande craque que logo iria se tornar.  

Outra lenda: Pelé, por ter olhos puxados, teria visão periférica privilegiada e por isso enxergava os companheiros em volta, sem sequer precisar olhar?

Não, de novo! Caso contrário, qualquer seleção oriental levaria sempre vantagem, neste quesito, concordam comigo?

Pelé fora ensinado por seu pai, Dondinho (centroavante do Atlético-MG, que prematuramente encerrou a carreira, devido a uma contusão) à, toda vez que fosse pedir a bola a um companheiro, olhar antes em volta, para decorar o posicionamento dos demais jogadores. Assim, pensava melhor a jogada, antes de recebê-la. Reside aí também, a explicação para o fato dele muitas vezes antecipar as jogadas.

Acredito que o segredo de tudo foi que Dondinho se revelou um excelente professor particular ao ensinar bem os fundamentos ao filho. Por outro lado, não podemos deixar de considerar o diamante que ele possuía diante de si para lapidar, sempre atento e esperto; só podia dar no que deu!

Eu nunca quis Pelé para técnico da Seleção Brasileira, como algumas vezes quiseram fomentar. Ah! Mas na seleção de novos; essa eu pagava pra ver. Imaginem-no ensinando uma leva de garotos talentosos? Teríamos em pouco tempo, não apenas um jogador diferenciado, como hoje em dia: teríamos toda uma seleção diferenciada.

Mais uma lenda a respeito do Rei: Pelé seria fisicamente privilegiado, a ponto de levar vantagem, jogando futebol, naquele tempo? Depende.

Aparentemente, não. De estatura mediana (1,72 m, o que hoje já seria considerado baixo), Pelé possuía detalhes que de fato, faziam alguma diferença, sem que isso chamasse a atenção. No auge da forma, pesava 70 quilos.

Para começar, sua compleição física e engenharia muscular eram formidáveis. Raramente se contundia. Possuía espetacular impulsão e velocidade (o prof. Júlio Mazzei, em 1972, aferiu que aos 31 anos, ele corria 100 metros em 11 segundos cravados, conseguia no salto em altura atingir 1,80 m e no salto em distância, 6,50 m). Isso, calçando chuteiras, sem sapatilhas e piso especiais, usados para melhorar as marcas no atletismo. E olhem que nem levaram isso em consideração, quando o elegeram o “Atleta do Século”, viu?

Às vezes, mesmo um defeito seu, ele tratava de transformar em virtude: Pelé calçava nº 39, sempre teve pé chato e pra que sua chuteira não rachasse, ele usava uma trava, bem no meio dela. Por detalhes como esse, possuía mais equilíbrio que os demais e era difícil de derrubá-lo, naquelas jogadas disputadas, em que aos trancos e barrancos, ele prosseguia e marcava os gols que hoje vocês podem ver em filmagens antigas.

Certa feita, ele ganhou um par de chuteiras emborrachadas europeias, mas não gostou das mesmas, ao calçá-las. E decidiu jogá-las fora. O companheiro Dalmo as herdou e por algum tempo, tornou-se o primeiro atleta no país, a utilizar este tipo de calçado.

Hoje, o craque tem à sua disposição, chuteiras “escaneadas” em seus pés, garantindo leveza e ajuste perfeitos, além de toda uma parafernália de inovações tecnológicas no uniforme, equipamento esportivo, gramado e principalmente, na medicina esportiva.

Além de saltar muito, Pelé havia aprendido com o pai, a arte de cabecear (Dondinho chegou a fazer cinco gols de cabeça numa única partida), posicionando-se no melhor lugar, tomando impulsão, saltando com olhos e braços abertos e girando a cabeça e golpeando a bola com força, procurando direcioná-la.

Quando nada disso é feito, podem ocorrer falhas clamorosas, como aquela bola em que Gabriel Jesus e Fernandinho se atrapalharam sozinhos e que acertou o braço do volante, no gol contra que afundou o Brasil diante da Bulgária, dias atrás.

Eu, que pude ver Pelé ao vivo, já veterano, com mais de 30 anos, posso lhes dizer, como testemunha ocular: parecia que você estava assistindo a um desses vídeos educativos, que ensinam a jogar futebol.

Chegava a ser engraçado, até! Como dar um passe corretamente, executar um drible, uma ginga, um lançamento, dominar uma bola, cobrar uma falta, ajudar a fechar um espaço, escolher a melhor conclusão para o lance, antecipar uma jogada.

A matada de bola dele então era algo simplesmente sensacional!

Aí os mais jovens irão me perguntar: “Mas como assim? Uma simples matada de bola é para tanto?”. Meus queridos: só vendo, só vendo!

A bola podia vir enviesada, quadrada, com força, pelo alto, pingando. Não importava: ele a dominava instantaneamente, sem problemas. É como se a bola obedecesse a seu rei, quando se dava conta de sua presença, entendem o que quero dizer? Colava nele!

Certa vez, num programa de futebol na televisão, alertou Raí para não estufar o peito ao dominar uma bola, evitando assim, perdê-la. Bom moço que sempre foi; Raí agradeceu o conselho, prometendo usá-lo. Curioso, que sendo irmão mais novo de um gênio da bola como Sócrates e tendo um técnico da qualidade de um Telê Santana no banco, não tivesse tido esse fundamento corrigido, antes.

E o sentido de antecipação? Perfeito! Pelé pressentia onde a bola iria cair, não errava o tempo de bola no cabeceio.No drible, usava aquele recurso de tabelar com a perna de apoio do adversário para driblá-lo, quando se encontrava cercado, lembram? Sim, o negão tinha saída para tudo quanto era situação. E fazia isso de modo veloz, com genialidade e precisão notáveis.

Como Sócrates, antevia uma jogada e possuía visão absurda do campo de jogo, mas tinha muito melhor condicionamento físico e era mais completo, sem dúvida.

Era feito Zico, um elemento definidor de jogadas, mas driblava com maior velocidade e batia com a mesma precisão usando os dois pés, além de cabecear melhor.

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Possuía o mesmo faro de gol e arranque de Romário, porém, maior força física e variedade de dribles e jogadas que o Baixinho. 

Seus “rushes” lembravam os de Ronaldo Fenômeno, mas ele marcava mais gols, se contundia menos, cabeceava melhor e ainda cobrava faltas com maestria.

Como Neymar, possuía enorme impetuosidade ao encarar adversários e invadir a área, mas além de melhor porte físico, fez mais gols e ajudava a marcar com mais empenho.

Diante dos craques de seu tempo ou não, dá pra dizer seguramente: se não era o melhor em determinado fundamento, estava sempre entre os melhores.

Talvez Baltazar “Cabecinha de Ouro” tenha sido o maior cabeceador da nossa história. Leivinha, Escurinho e Jardel sempre são lembrados, nessa hora. E Pelé, idem.

O Brasil teve excelentes cobradores de falta, como Jair Rosa Pinto, Didi, Pepe, Nelinho, Zico, Zenon, Neto, Marcelinho e muitos outros. E Pelé está entre eles.

Tivemos meias cerebrais, que armavam, pensavam o jogo, feito Zizinho, Gérson, Rivellino.  Ou meias audaciosos, que arrancavam em velocidade e só paravam dentro do gol, o ponta-de-lança, como Romeu Pellicciari, Ademir de Menezes,  Ademir da Guia, Dener. E em ambos os casos, também Pelé.

Nosso país teve jogadores habilidosos aos montes, que sabiam dar espetáculo, como Garrincha, Canhoteiro, Manoel Maria, Renato Gaúcho, Denílson, Ronaldinho Gaúcho, Dener, Robinho, Neymar e outros tantos, mas sem esquecermos o “Rei do Futebol”.

O “país do futebol” sempre teve artilheiros até dizer chega: Romário, Zico, Roberto Dinamite e até craques mais folclóricos, como Dadá e Túlio “maravilhas”. E quem é o maior em gols, dentre todos eles? 

Até a bicicleta, jogada mais arriscada e plasticamente mais bonita, teve em Leônidas da Silva seu mestre e em Pelé, seu legítimo sucessor.

Parece piada, mas Pelé, não contente em ser tão bom na linha, ainda abusaria indo em algumas poucas partidas, para o gol. Isso mesmo: o Rei “quebrou o galho”, em jogos nos quais algum goleiro precisava sair, a poucos minutos do fim, num total que, somado, dá 55 minutos debaixo das traves. Pois adivinhem quantos gols tomou, mesmo com os adversários sabendo que ali não havia exatamente um especialista? Nenhum! E olhem que ele chegou a praticar umas três ou quatro defesas de relativa dificuldade, se somadas essas atuações. Quer dizer: Pelé não “brincava nas dez”, ele “se virava nas onze”. Seus concorrentes ao trono conseguiriam fazer o mesmo?

É engraçado, porque o DNA pode ou não, ter algo a ver, nessas horas. O Edinho, filho do Rei, até foi bom goleiro no Santos. Já o irmão de Pelé, Zoca, não foi feliz quando tentou atuar na linha, apesar de ter um bom passe. Coisas que não se explicam. Mas cabe uma reflexão: não deveria ser nada fácil querer atuar, sendo parente do “Rei do Futebol”, porque a imprensa e o público colocavam uma pressão enorme, em cima.

A constatação é a de que Pelé, de fato, não foi o melhor em tudo. Mas foi o mais completo. E isso o aproximava da perfeição.

Pelé chegava a ser perfeito em campo, em vários jogos seguidos. Se não fazia mais, é porque era um só e o jogo se faz com 22 no gramado. Por melhor que você seja, existe muita gente em volta, também.

Por outro lado, mesmo repleto de adversários ao redor, nenhum possuía a qualidade do maior jogador de todos os tempos, por melhor que fosse ou por mais que se esforçasse. Alguns técnicos quebravam a cabeça, bolando um esquema para pará-lo. Certos zagueiros então, não dormiam direito, na véspera de marca-lo.A Itália (que organizou o jogo dos cinquenta anos dele, inclusive), talvez tenha sido o país que mais se esforçou nesse sentido. No Milan dos anos 60 ressuscitaram o líbero, função que havia sido criada em 1938 pela Seleção da Suíça, justamente para deixar um zagueiro na sobra e assim, anular Pelé, quando ele rompia a linha de zaga.

 O escolhido para a tarefa foi o grande zagueiro Trapattoni. Pois sabem o que o negão fazia? Chutava a bola contra o pé de apoio do zagueiro e a pegava mais à frente, fazendo tabelinha na perna do adversário. Trata-se de uma jogada arriscada, sem dúvida, porque obriga saber em qual parte do corpo do inimigo a bola deve bater, para ricochetear numa posição favorável, para você. Pelé a realizava com frequência.

Já o zagueiro Burgnich, incumbido da tarefa de marca-lo na final de 70, procurou fazer a função de “carrapato”. Pois Pelé subiu muito mais do que ele num cruzamento e de cabeça, abriu o caminho do Tri, naquele dia. E Burgnich dizia a todos, depois da partida, admirado: “Achei que ele fosse de carne e osso como eu, mas me enganei”.

Outro marcador dele numa final que sofreu assim – porém sueco e na Copa de 1958 – foi o zagueiro Sigge Parling, que declarou, após ter perdido o título de goleada, em casa: “Depois do quinto gol, senti vontade de aplaudi-lo em campo”.

Vocês entendem agora o tamanho da minha indignação ao ver essa turma comparando outros craques com ele?

Mas deixemos esse assunto um pouco de lado, por enquanto.

Porque, como havia prometido, irei lhes contar histórias (e não “causos”) que ele protagonizou nos gramados, mas a TV não registrou, nem se encontram escritas por aí. Algumas; fruto de leituras minhas e outras, de depoimentos idôneos, acima de qualquer suspeita, de quem o viu ou o enfrentou, acabando por testemunhar toda a realeza e magia que o homem tinha nos pés. 

Numa delas, nos anos 60, o Palmeiras “da Academia” contava com um de seus mais famosos marcadores, Waldemar Carabina, para pará-lo. Mas oque se viu foi um show do Rei em campo. Primeiro, invadiu a área, esquivando-se de um pênalti que seria cometido pelo zagueiro e ainda chutou-lhe a bola contra a própria perna estendida e apoiada no gramado, antes de fuzilar o goleiro Valdir de Moraes.

Pouco depois, falta para o Santos em dois lances, na entrada da área. Barreira de seis

homens. Pelé e Pepe, na bola. O juiz apita e o Rei vem correndo, feito um raio – após pisar na bola – e invade a área, passando ao lado da barreira, que se desmancha, pois os adversários saem em sua perseguição. Esqueceram-se por um instante, de que a bola, já tocada e praticamente no mesmo lugar, estava toda à disposição de Pepe, que vinha de trás e acertou “aquela” bordoada no gol, graças à barreira aberta.

São “tempos românticos” como se diz hoje em dia, meus caros, mas a vida era dura do mesmo jeito ou até mais. Ainda mais no futebol do antigo interior paulista.

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Ao menos, como torcedor estoico do Paulista de Jundiaí, o que posso dizer é que contra Pelé, não sofremos tanto, pois meu clube só chegou à “Primeirona” em 1969. Então, não deu tempo, embora jamais tivéssemos vencido o Santos, com ele no time.

Até hoje o recorde “oficioso” de público no Jayme Cintra, é o de sua estreia contra nós, na vitória santista por 2x1 (02/3/69).  As bilheterias registraram 22.540 pessoas, mas estima-se que tenham entrado 28 mil. Todo mundo queria ver Pelé ao vivo.

Certa feita, meu pai estava em viagem de negócios em Presidente Prudente e viu num cartaz, que o Santos iria se apresentar lá, no dia seguinte. Não teve dúvidas: pediu à telefonista uma ligação para Jundiaí e avisou minha avó, que não tomaria o trem à noite: iria pernoitar ali, para assistir à partida e voltaria apenas na noite seguinte.

Comprou o ingresso e não se arrependeu, por ter assistido ao vivo, o que considerava ser o “maior gol de Pelé”, entre tantos. Segundo meu pai, o Santos ficou preso na marcação e Pelé não encontrava espaços na defesa adversária. Mas, na única chance que teve, fez valer o ingresso: num contra-ataque, Mengálvio dominou uma bola no meio-campo, enquanto o Rei disparou em direção à área, espremido por dois zagueiros mais altos. Então veio um lançamento longo, alto, pelas costas deles.

Pelé, ainda na corrida, salta e com sua impulsão, supera os beques. Mas a bola vem curta e parece que vai acertar-lhe a nuca. Então, ocorre o inusitado: curvando-se para trás, em pleno “voo”, Pelé recebe a bola que desce rolando, colada naquele corpo envergado e numa fração de segundos, ele troca de pé e fuzila de direita, antes de tocar o solo. Dá sorte: ela passa entre as pernas do goleiro, que saía para a defesa.

Espetacular! E meu pai não via a hora de voltar para casa, para contar o gol que havia presenciado, aos amigos.

E olhem que ele não viu poucas vezes Pelé ao vivo em campo, não: pegava o trem para São Paulo constantemente para assistir partidas do Rei na capital, nos antigos Pacaembu do tempo da “concha acústica”, Palestra Itália, Canindé, Fazendinha e até Morumbi, ainda no “primeiro anel”. Detalhe: isso, mesmo sendo um corintiano roxo!

Outra história bacana ocorreu durante o tabu de onze anos sem vitórias no Paulistão, que o Santos de Pelé impôs ao Corinthians. O Timão, aliás, foi quem mais levou gols do Rei em sua carreira: foram 50 tentos, ao longo de 48 partidas. 

Em 1962, cinco anos depois de iniciado, o jejum já incomodava os corintianos. Tanto, que o presidente do clube exigiu que o clássico marcado para o dia 04 de novembro, diante do Santos, em São Paulo, fosse disputado no acanhado estádio da Fazendinha, no Parque São Jorge, para pressionar o adversário e os 27.384 torcedores que se espremeram ali – em sua maioria – não deu tréguas à equipe santista.

Quando Cássio abriu a contagem para o Timão – aos 16 minutos do segundo tempo – iniciou-se um verdadeiro carnaval. Foi quando surgiu uma falta para o Peixe e Pelé cobrou, pegando mal na bola e atirando para longe. Recebeu uma sonora vaia dos torcedores, que o provocavam.

Então, fez aquele seu costumeiro gesto, como que a dizer pra torcida “esperem um pouco que vocês vão ver”. E não deu outra: aos 21, deu passe para Coutinho empatar. E aos 35 minutos, marcou o segundo, indo comemorar no alambrado, junto à torcida adversária, que atirou toda a sorte de objetos no gramado, incluindo um peixe morto. Alguns sustentam que ali nasceu o gesto de socar o ar, na comemoração de um gol, imortalizado por ele. Nada disso: ele “nasceu” num gol marcado diante do Juventus, após dar quatro chapéus em sequência, na Rua Javari (02/8/59).

Mas isso pouco importa.

Como também não importou o estar juiz “engavetado” e querer evitar a derrota do Noroeste em Bauru, diante do Santos, na época do  “ataque dos três Pês”, que contava com Pagão, Pelé e Pepe. O time da casa até abriu a contagem, com um gol impedido.

O Santos empatou. Só que o juizão arrumou também um pênalti pro Norusca, que convertido, encerrou o primeiro tempo em 2x1. Mas no segundo... Meu Deus! Na etapa complementar, o Santos empatou novamente e pressionou muito em busca da vitória, até que o “fenômeno” ocorreu.

Escanteio para o Santos. Pepe cobra na área e Pelé, de cabeça, desempata o jogo. Mas o árbitro impugna o tento, dizendo não ter autorizado ainda a cobrança. Volta o lance.

Pepe repete a cobrança: Pelé – sensacional – marca (de novo!) de cabeça. Pois creiam: na maior cara-de-pau do mundo (não havia TV transmitindo, nem haviam inventado o VAR), o juiz, alegando que a bola estava fora do quarto-de-círculo, volta a anular, o que acaba por levar a um tremendo bate-boca no gramado.

Afinal, após bom tempo perdido com reclamações – sua autoridade, o juiz – autoriza pela terceira vez a cobrança. Pepe levanta a bola na área. E Pelé – inacreditável – marca (pela terceira vez seguida) de cabeça. O jogo terminaria 4x3 para o Santos.

Honestamente? Acho que quantas vezes o juiz anulasse, o negão faria o gol de cabeça!

Hoje, com toda a tecnologia de transmissão disponível, um lance desses não ocorreria e um juiz assim, iria para uma “geladeira” daquelas. Mas naquela época...

Pelé tinha que lidar com certas animosidades, quando ia jogar contra determinados adversários. No caso do Noroeste, havia uma rixa, devido ao fato dele ter atuado pelo jovem time do Baquinho, quando garoto (do BAC – Bauru Atlético Clube), rival do Norusca. E também por ter atuado pelo Noroeste antes do profissional, em três partidas, em 1956, mas o pai, auxiliar técnico do time, contaria com a ajuda do treinador e compadre Waldemar de Brito, para levá-lo para o Santos, naquele ano.

É bom lembrar que o garoto Pelé já era “sobrenatural”, quando atuava no Baquinho, pelo qual jogou no infanto-juvenil, recém-criado. Em sua segunda partida, enfiaram 21x0 no São Paulo, com ele fazendo sete gols. Em 33 partidas, o time marcou 148 gols e já era o campeão, seis rodadas antes do fim do torneio. Adivinhem quem era o responsável maior pela proeza?

Como recompensa, fizeram em São Paulo, a preliminar de ADA x América/SP.  Antes de pisar no gramado, Pelé saiu do estádio para comprar amendoins e foi barrado na volta, por um segurança que não acreditava que ele era um jogador-mirim. Resultado: o “penetra” fez seis gols na goleada sobre o Flamengo da Vila Mariana, por 12x1.

Nem é preciso dizer que no ano seguinte eles seriam bicampeões, né?

Se na infância já era assim, a coisa não se modificaria muito, com Pelé já veterano. 

Com o tempo, ele aprendeu a se valer da picardia para se defender ou levar seu time à vitória. Às vezes simulava ser agarrado para cavar um penal, noutras, devolvia com esperteza, a violência que praticavam contra ele.

Foi assim com um alemão chamado Geiseman, que chegou ao Brasil dizendo que iria parar Pelé, num jogo de sua seleção contra a nossa, no Maracanã. E durante o jogo, “baixou o sarrafo” no Rei. Até que, numa de suas entradas desleais, Pelé entrou firme na dividida também e o alemão teve a perna quebrada. Algo tão discreto e sem maldade, que a arbitragem considerou como um lance comum, de disputa de bola.

Outro caso foi com o jogador Fontes, que na Copa de 70, após derrubar Pelé, fingiu pedir desculpas apenas para pisá-lo, no chão. Lembraram o lance parecido ocorrido com Neymar nessa última Copa? Com o Rei a solução foi diferente: minutos depois, o mesmo uruguaio entrou com tudo nele, mas levou uma sutil e violenta cotovelada na cara que o árbitro, além de não perceber, ainda apitou falta contra o Uruguai.

Pelé era assim, quando necessário: sabia impor respeito.

Nem mesmo o VAR talvez conseguisse flagrá-lo, quando colocava algum árbitro que o perseguia, contra a torcida. Armando Marques foi um que sofreu com isso. Enquanto o advertia chamando-lhe a atenção em campo (pelo nome próprio, inclusive) Pelé fingia aceitar a bronca passivamente, de cabeça baixa. Mas na verdade se aproveitava disso para provocar, resmungando que ele não teria coragem de expulsá-lo, isso sem que os torcedores notassem.  Imaginem o que aconteceu no dia em que o juiz puxou o vermelho, aparentemente sem motivos? Ele nunca mais o expulsou, depois disso, pois o público não entendia nada e se revoltava contra a arbitragem.

Assim como se revoltou demais na Colômbia, durante um amistoso em que Pelé foi injustamente expulso, pelo Santos. Não houve jeito: o público não parou de vaiar e começou a arremessar objetos no gramado. Até que Pelé retornou ao campo, com o árbitro sendo providencialmente substituído por um dos bandeirinhas. Quer dizer: o juiz foi “expulso” indiretamente, por Pelé. Só que o juizão (um ex- pugilista), que agrediu Lima e depois acabou agredido por alguns jogadores no meio da confusão e expulsara o Rei por engano, registrou um B.O. e parte da delegação santista teve que passar a noite na delegacia. Incrível, não?

Aqueles corpos negros, vestindo imaculadamente a camisa branca santista, causavam realmente confusão. Coutinho, após um mau jeito no pulso que lhe exigiu usar uma bandagem ali, continuou usando-a por um bom tempo, para diferenciá-lo de Pelé e a imprensa, assim, não se enganar quanto à autoria dos gols que ele e Pelé marcavam.

Mais uma história interessante ocorreu num jogo no Morumbi, apenas quatro meses antes dele se despedir do Santos, numa partida diante do São Paulo, pelo Brasileirão de 1974, na noite de 02 de junho. O tricolor vencia e num ataque santista, a bola foi lançada muito à frente para Pelé. O goleiro Waldir Peres ficou com a bola e deixou-a no chão, antes de repor em jogo, gritando e orientando a zaga, primeiro.

Lentamente, Pelé ia deixando a grande área sem tirar os olhos da bola, tendo a escolta do zagueiro Samuel, este de costas para Waldir. Subitamente, Pelé corre na direção do goleiro, como se ele tivesse perdido a bola e passa ao lado do pobre Samuel que, infantilmente, o agarra pela cintura, derrubando-o. Ao juiz só restou marcar pênalti e ao zagueiro reclamar muito, ao ver que o goleiro estava com a bola em suas mãos.

É essa sagacidade de saber fazer as coisas, que falta hoje ao craque brasileiro, numa Copa, por exemplo. Nem mesmo o VAR teria como anular um penal desses.

Às vezes, a torcida adversária pegava tanto no seu pé, que ele gesticulava. Geralmente estendia a mão direita num sinal de “esperem um pouco que vocês vão ver” (e viam mesmo!). Noutras, era o puro deboche de um jovem obrigado a enfrentar tudo: a violência em campo, gramados medonhos, clima hostil, arbitragens tendenciosas.

Exemplo desse deboche ocorreu em Piracicaba (10/12/61) contra o XV, cuja torcida passou a persegui-lo, após o “Nhô Quim” virar o jogo no primeiro tempo, depois dele ter aberto a contagem.

Nem é preciso falar muito: na etapa final foi um “chocolate”, com incríveis arrancadas e tabelinhas diabólicas com Coutinho. Quando o Santos marcou o último e completou a goleada de 7x2, a torcida inconformada, começou a vaiá-lo. Ele, que saía do bolo de jogadores comemorando o gol, passou a mão no cotovelo, como que dizendo para os torcedores: “é dor-de-cotovelo”. Compreensível: tinha apenas 21 anos.

Três dias mais tarde, nova goleada – desta vez em cima da Ferroviária de Araraquara – em plena Vila Belmiro por 6x2 (dois gols do Rei), daria o título por antecipação daquele campeonato ao Santos. Fechando a campanha, no jogo seguinte, um 4x1 no São Paulo.

Tentar pará-lo na violência, geralmente dava resultado contrário, também.

Vítor, ex-jogador do São Paulo, confessou certa vez, que três jogadores combinaram bater nele, uma vez cada, durante um clássico. Pelé saiu de maca, para alívio geral. Só não contavam que ele fosse voltar pro segundo tempo e com raiva, passasse a invadir a área pelas pontas, sempre na diagonal. Placar final: São Paulo 3 x 6 Santos (03/9/61).

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O mais incrível talvez seja o fato de que Pelé fazia tudo isso numa frequência absurda, pois o Santos precisava disputar seus campeonatos, intervalando-os com inúmeras excursões por todas as partes do planeta, numa carga excessiva de jogos e viagens. 

A sequência de partidas gerava preocupações e pode ser sentida num diálogo entre o presidente da CND, Mendonça Falcão que procurava explicar, quando questionado pelo presidente da República Jânio Quadros, sobre o que se passava com o craque.

Mendonça confidenciou que Pelé estava com a clavícula fora do lugar, um tornozelo inchado, um dedo do pé quebrado e que mesmo assim, não parava de jogar.

Jânio então mandou preparar a “Lei das 72 horas”. Não adiantou: o Santos passaria a entrar em campo, para “jogos-treinos” (que de fato não eram). Não por maldade, mas uma dura realidade do futebol brasileiro na época, pois os clubes tinham que manter os seus plantéis, pagando bons salários e premiações e essa era a única solução.

Mesmo assim, seria impossível imaginar que Pelé não fosse assediado com propostas milionárias tentadoras. Vários clubes europeus tentaram seduzi-lo, sem sucesso.

Em 1961, o presidente Jânio, preocupado com a evasão de atletas para o exterior, enviou um memorando à Mendonça Falcão, manifestando toda a sua preocupação com o fato, bem como o assédio a Pelé e que o mesmo causaria enfraquecimento na seleção campeã mundial, o que não interessava ao país. Pedia providências.

No fim, acabaria por declarar Pelé como “tesouro nacional”, para justamente impedir que ele deixasse o Brasil. É mole ou querem mais?

Imaginem se Jânio fosse presidente, nos dias atuais? Isso dá uma dimensão de que o problema de exportarem nossos craques já existia. E suscita aqui, mais uma questão:

Quanto valeria o passe de Pelé, com essa “indústria futebolística” que temos, hoje? 

Pelé tem inúmeras histórias ocorridas ao longo de sua história. Tantas, que seria preciso uma enciclopédia, para contar todas, com riqueza de detalhes.

Aqui, neste texto, opto por relembrar as menos conhecidas ou mesmo desconhecidas, para não cansar os mais velhos com repetições e obrigar os mais novos a pesquisarem fatos mais relevantes, fáceis de serem encontrados numa Internet, por exemplo.

Há tamanha quantidade de partidas dele verdadeiramente sensacionais, perfeitas, que fica impossível de se eleger a melhor. Poderia ser, por exemplo, a final do Mundial Interclubes, diante do poderoso Benfica de Eusébio & Cia., em que ele simplesmente “destruiu” o adversário com três gols empolgantes. Tanto, que o juiz da partida não resistiu e cumprimentou Pelé, após a marcação de um deles.

Havia mesmo árbitros tão extasiados pelo seu futebol, que se rendiam e por um momento se esqueciam de sua tarefa ali em campo. Num deles, ocorrido contra o América de São José do Rio Preto, Pelé deu um chapéu dentro da área num zagueiro e emendou com um lindo chute que passou pelo goleiro, acertando o travessão, quicando sobre a linha e voltando para o campo de jogo. E não é que o juizão deu o gol? O engraçado é que os jogadores adversários o cercaram, reclamando e ele respondeu que “o lance do Pelé foi tão bonito que merece ser gol!”.

Mas voltemos às tais partidas, que poderiam ser escolhidas como a de sua melhor atuação em campo: que tal o jogo dos oito gols que marcou em cima do Botafogo/SP?

Ou o dos 7x1 em cima do Guarani, com quatro gols dele e a conquista antecipada do Paulistão/58? Dá pra elencar aqui, os 3x0 sobre o Vasco na final do Torneio Rio-SP de 1959 e também os 5x1 impostos ao Bahia, na decisão da Taça Brasil de 1961.

O que dizer então das finais nas Libertadores de 63 e 62, quando ele derrotou o temível Boca Juniors em “La Bombonera” ou o Peñarol por goleada?

Nesse confronto com os uruguaios, a propósito, um dos zagueiros o agarra com tamanha força, por trás, para impedir um contra-ataque, que lhe rasga completamente o calção e ele é obrigado a trocá-lo ali mesmo, no meio de campo, protegido por um “biombo” humano improvisado pelos próprios companheiros de equipe. 

Outra atuação memorável: a da conquista da Taça Brasil de 62, com os 5x0 diante do Botafogo de Garrincha! Ou que tal os impiedosos 5x1 em cima do Barcelona, em 1959 em pleno Camp Nou? Aquele foi o ponto de partida para as tantas excursões que fizeram do Santos, o clube brasileiro que mais partidas realizou, fora do país.

Talvez ainda, quem sabe, a vitória por 5x2 diante da perigosa França, na Copa de 1958, quando ele marcou três vezes, aos 17 anos, pela Seleção Brasileira.

Em visita ao “Museu Pelé” em Santos, pude ver um de seus gols, numa dessas partidas “históricas” do Rei: foi no Torneio Exagonal do Chile, em 16/1/65, no qual o Santos encarou nada menos que a Seleção da Tchecoslováquia, vice-campeão mundial, com Masopust e tudo. Ele marcou um gol por cobertura no goleiro Schmueker, que merecia ser imortalizado numa tela. Depois, acertou um petardo de fora da área e por fim, saiu driblando todo mundo e fechou o placar em 6x4 para os santistas que, claro, ficaram com a taça. Até hoje muito chileno considera essa, a maior partida realizada no país.

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Enfim, são muitas candidatas e não dá, definitivamente, para se chegar a um consenso. Porque Pelé, em várias oportunidades, simplesmente não parecia humano. 

Às vezes – como Ali no boxe – fazia as coisas acontecerem segundo sua vontade, como se fosse um Deus.

Se provocassem nele a ira então, podiam esperar pelo troco, dobrado. Ou mais do que dobrado, como fez com o Botafogo, daqui de Ribeirão Preto, onde resido e coletei uma série de depoimentos a respeito. 

O “Pantera” tinha bom time no Paulistão de 1964, treinado por Oswaldo Brandão. Mas cometeu um erro fatal e foi surrado impiedosamente por Pelé e sua turma.

No primeiro turno, em Ribeirão, o Santos – desfalcado de Pelé – perdeu por 2x0 e o adversário e sua torcida quiseram dar “olé” na equipe. Não sabiam com quem mexiam.

No jogo do segundo turno, precisamente em 21 de novembro, na Vila Belmiro, Pelé – já sabendo de tudo – resolveu vingar os companheiros: fazia gols sem parar e corria para ir buscar a bola no fundo das redes, para recomeçar logo a partida.

Numa dessas vezes, teria dito aos adversários: “Agora vocês vão se ferrar, aqui!”.  No primeiro tempo, marcou cinco gols. No segundo, mais três. Com os oito gols, assumiu a artilharia daquele campeonato. O placar foi de notáveis 11x0.

Botafoguenses como o lateral Carlucci, nem gostam de relembrar a partida: “Depois daquele jogo, acabei sendo emprestado ao Atlético Goianiense, porque me acharam verde, ainda”. Já o artilheiro Antoninho, se diverte com as lembranças: “Entrei pra história, porque acabei dando a saída nada menos do que doze vezes, naquela partida”, ri. Quanto ao goleiro Machado, apesar de aparentemente assustado pelos três gols de Pelé nos minutos iniciais – o que talvez explique o gol olímpico que sofreu de Pepe, em seguida – acabaria eleito o melhor em campo pelo lado do Botafogo, por fazer defesas que impediram um desastre ainda maior.

Pelo lado do Santos, não é preciso dizer quem foi eleito o melhor em campo, certo?

Sobrou para o técnico Oswaldo Brandão, que antes do confronto teria dito que “Pelé não era mais o mesmo”. Após a goleada, acabou demitido, indo treinar o Corinthians. Pois adivinhem quem ele encararia duas semanas depois, num clássico? Exatamente! Imaginem o que aconteceu? Outra “sova” daquelas: o Timão até jogou bem, mas sucumbiu diante de Pelé, que fez quatro gols, enquanto Coutinho marcava outros três, em pleno Pacaembu. No último gol, a dupla literalmente “passou por cima” da zaga adversária. O placar foi de 7x4 e Brandão acabou assistindo seus times tomarem doze gols do Rei, num intervalo de duas semanas. Quatro no Corinthians, oito no Botafogo, equipe que levou quarenta gols do Rei Pelé, se somados todos os confrontos.

Já o rival Comercial/SP, teve experiências menos traumáticas. Uma das razões, a presença daquele que Pelé citou certa vez, como um de seus melhores marcadores: Píter “Rocha Negra”. Zagueiro “classudo”, que jamais ficou no banco ou foi expulso, ele conquistou a amizade do Rei, porque não apelava nem dava pontapés.

“Mas o homem corria muito; eu perdia dois, três quilos por jogo, de tanto suar. Sei que consegui anulá-lo por umas cinco, seis partidas. Já nas outras, não teve jeito, mesmo”, recorda-se Piter, que confessa sua “fórmula”: “Eu ficava de frente para ele, com as pernas não muito abertas (pra evitar ‘caneta’) e só olhava a bola, pois ele era como o Garrincha. Se olhasse pros seus movimentos, você era induzido à acompanha-lo e acabava fintado”.  

O lateral-direito daquele time, Ferreira, sintetizou o que era Pelé, num único lance: “Jogávamos em casa e Pelé puxou um contra-ataque, passando pelo zagueiro Jorge, arrancando pelo meio. O Píter foi nele e tomou entre as pernas. Eu, que deixei a lateral para dar cobertura, percebi que a bola ficou mais para mim: corri na diagonal e me atirei nela, com as pernas abertas, para “rapar” a bola. Quando percebi, estava caído, sentado, sem ela. Pelé – não sei como – deu um jeito de tocá-la antes, dando um “drible da vaca” (que eu nunca havia levado), sem que eu sequer percebesse ele passar pelas minhas costas, numa velocidade absurda. Ao olhar de lado, vi apenas a bola batendo na rede pelo lado de fora (por sorte!) e o goleiro passar uma ‘senhora’ bronca em todos, dizendo que nós ‘não pegávamos o homem’. Mas pegar de que jeito?”, finaliza, com um largo sorriso no rosto.

E olhem que este problema da velocidade dele, podia ser sentido por todo zagueiro. Ninguém menos do que Bobby Moore, após um amistoso no Maracanã em 1965, relatou, ao descrever um lance da partida: “Ele avançou e o encurralei junto à bandeira de escanteio, pensando que iria desarmá-lo; mas de repente, me vi sozinho: ele me deixou lá, parado e foi embora, com a bola e seu talento devastador para outro lado; a rapidez com que fez isso até hoje me deixa intrigado... como conseguiu?”.

Deixei para a parte final deste texto, o depoimento de um jogador, que por ser minucioso, oferece um retrato perfeito da dificuldade em se marcar o Rei, em campo.

Rodarte foi um centroavante que chegou a participar inclusive de um treino, formando na linha de frente da Seleção Brasileira ao lado de Garrincha e Pelé, pouco antes da Copa de 58. Nessa época atuava no Palmeiras, mas depois jogou por vários clubes, inclusive no Juventus, onde viveria essa história.

“O técnico Homero, do Juventus, bolou uma marcação especial para conter Pelé, no complicado compromisso diante do Santos, na Vila Belmiro. Treinamos a semana toda o posicionamento defensivo: eu viraria volante e ficaria de costas para ele, colocando a mão na sua cintura constantemente (como no basquete) para me assegurar de que ele continuava ao meu alcance, mesmo sem olhá-lo. Atrás do Pelé, quase que o ‘encoxando’ ficaria o Hidalgo. Dois passos atrás dele o Milton Buzzeto, na cobertura. As ordens eram claras: se ele passasse por nós, que o estávamos ‘ensanduichando’, era pro Milton baixar o sarrafo mesmo; dar na ‘medalhinha’, sem dó, parando-o na falta. 

Tudo certo, logo no início do jogo, Zito veio com a bola até o círculo-central, vendo a melhor alternativa de jogada e ouço do banco a voz de Homero: ‘Rodarte, olha a marcação!’. Até olhei para trás, conferi o Rei nas minhas costas, prensado entre eu e o Hidalgo e vi, inclusive, a cabecinha do Buzzeto, atento. Tudo sob o controle, portanto.

Um instante depois, Zito abriu um lançamento para Pepe na esquerda, que começou a descer. Nisso, vem uma tremenda bronca de Homero, lá do banco: ‘Rodarte, seu filho da p...! Eu falei pra você colar nele e não deixar passar!’.

Foi daí que me virei e não pude acreditar: Pepe estava cruzando pra área e Hidalgo feito bobo, olhando pra mim, perplexo. Pelé havia escapado da nossa marcação tripla, estando à quase quarenta metros de nós, saltando na área, tendo Buzzeto e Clóvis a acompanha-lo. Como se fosse numa câmera lenta; vi os zagueiros subindo muito, aparentemente, no controle da situação. Porém, quando atingiram o ponto mais alto, começaram a descer, quando a bola se aproximava. Nisso, vem surgindo a cabeça de Pelé por trás, que se choca violentamente contra a bola, enviando-a para o fundo das redes e abrindo a contagem, para delírio da torcida. Não foi um dia fácil pra gente!

Prova disso, é que, ainda naquele jogo, ele aplicou em nós, também um ‘drible de boca’, ou seja; num lance de ataque, na entrada da nossa área e diante de quatro adversários a marca-lo; eu, Dario, Milton e Hidalgo, de repente ele parou com a bola nos pés, falseou um passe na esquerda e gritou: Pepe! Mas passou mesmo, foi para o Coutinho, livre na direita, assim que ameaçamos perseguir o Pepe, que sequer participou (fisicamente) da jogada”, conclui Rodarte.

Entendem porque ele fazia coisas que a nós, pareciam impossíveis?

Pelé foi tão grandioso que sua história se funde à vezes, com a de outros jogadores.

Caso do lendário Jair Bala, cujo apelido se deve a uma bala alojada em sua coxa; fruto de um tiro acidental disparado por um funcionário do Flamengo, em uma brincadeira. Quando foi jogar no Botafogo, ele e Jairzinho causavam certa confusão nos treinos, por terem o mesmo nome e Gérson, ao gritar “Jair”, completava, após os dois olharem juntos: “é o da bala!”. Acreditem ou não, com o tempo acabou ficando Jair Bala.

Jair foi para o Santos onde virou “reserva de luxo” de Pelé, entrando também em várias partidas, pra jogar lado-a-lado com ele. Viveu de perto toda a sua angústia em busca do milésimo gol e que tirava a tranquilidade do Rei.

Rei que geralmente era calmo e que, quando levantava assoviando, no dia de um jogo, era certeza para os companheiros de que a peleja já estaria ganha.

Até que, na partida frente o Bahia (antes do histórico jogo com o Vasco, no Maracanã), aquele em que o zagueiro Nildo foi vaiado pela própria torcida após evitar o que seria o milésimo – Jair entrou em campo no lugar de Abel, na etapa final.  Aos 43 minutos, ele e Pelé iniciaram uma tabela pela meia-esquerda, envolvendo a defesa contrária.

Jair rolou para Pelé na entrada da área, que ao invés de invadi-la e driblar o arqueiro, preferiu chutar com o peito do pé. O goleiro Jurandir conseguiu espalmá-la para o alto, na direção de Jair, que vinha chegando e emendou numa meia-bicicleta espetacular, bem no ângulo. Um golaço! Quando o Rei correu para cumprimenta-lo – ainda caído ao solo – foi surpreendido por Jair que disse, dando-lhe um tapinha na orelha: “Negão, agora sossega, que eu já marquei o milésimo gol pra você!”. Surpreso, Pelé caiu na risada.  Essa partida ocorreu no dia 16/11/1969.

Perdoem-me por fugir um pouco do foco, mas isso serve para ilustrar a importância que ele sempre teve também entre os companheiros de profissão. Seu milésimo gol (contra o Vasco) acabaria sendo comemorado pela maioria dos jogadores em campo, naquela noite no Maracanã e na sequência, ele deixaria o gramado, sendo substituído justamente por Jair Bala.

Os que com ele tiveram oportunidade de atuar, sempre falam a respeito de seu jeito bacana, humilde, avesso a estrelismos e acima de tudo, um bom parceiro fora dos gramados. E melhor ainda, dentro dele.

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Pelé era tão genial, que mesmo sem querer, obrigava os companheiros a ficarem mais atentos, para entenderem sua velocidade de raciocínio em campo e acompanha-lo nas jogadas.

Assim, talentosos craques fizeram duplas memoráveis com ele: no Santos, sem dúvida, as melhores tabelinhas foram com Coutinho. A dupla “Pelé-Coutinho” fez “gato e sapato” de muitos adversários. Pelé marcou 1091 gols e Coutinho, outros 370, lá.

Por aí, já se tem uma noção do que eram capazes de fazer juntos, no time praiano.

Pelé tivera antes a companhia de Pagão – centroavante de estilo clássico – em seus primeiros anos de Vila Belmiro. Após Pagão e Coutinho, outro bom artilheiro que jogou com ele na equipe peixeira, foi Toninho Guerreiro, único jogador pentacampeão paulista consecutivo da história, inclusive.

Na Seleção Brasileira, seu maior parceiro foi Garrincha, com quem compôs uma dupla invencível, que ganhou 35 jogos e empatou cinco, dos quarenta que disputou. Outro grande companheiro foi Tostão, de quem chegaram a duvidar que pudesse jogar com Pelé. A genialidade dos dois mostrou que isso era perfeitamente possível.

Mesmo no finalzinho da carreira, ainda brindaria o público com lances memoráveis, como em 19/6/73, um ano antes de se aposentar pelo Santos, quando marcou dois gols – e o único olímpico de sua carreira – na vitória de 4x0 sobre o Baltimore Bays. 

Como se não bastasse, ainda substituiu o goleiro Cláudio, que acabou se contundindo naquele jogo. A torcida americana foi ao delírio!

A mesma torcida americana que parecia não acreditar no que via, em 19/6/77, exatamente quatro anos depois, quando Pelé, atuando agora pelo Cosmos de Nova York na liga norte-americana, marcou um gol do meio de campo, diante do Tampa BayRowdies. E também deu show nesse jogo, marcando os três gols da vitória de sua equipe, por 3x0. Estava feito o gol que não havia conseguido na Copa de 70, diante da Tchecoslováquia. 

Em 22 anos de carreira, ele atuou na verdade, ao lado de várias gerações de craques, ao longo do que se convencionou chamar de “Era Pelé”.

Na Seleção, jogou primeiro naquela que teve Djalma Santos, Bellini, Nilton Santos, Didi, Garrincha, Vavá, Amarildo, Zagallo. Depois, esteve ao lado de Piazza, Gérson, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Paulo Cézar Caju.

No Santos, mais ainda: na primeira geração, esteve ao lado de Jair Rosa Pinto, Formiga, Del Vecchio, Urubatão, Ramiro, Vasconcelos, Tite, Pagão.  Na segunda, com Gylmar, Lima, Dalmo, Zito, Mauro, Calvet, Almir, Mengálvio, Dorval, Coutinho, Pepe. Na terceira, teve parceiros como Clodoaldo, Carlos Alberto, Joel, Toninho Guerreiro, Edu, Rildo, Ramos Delgado, Cejas, Abel, Manoel Maria, entre outros. Alguns aqui citados participaram de mais de uma geração, é bom deixar claro.

Vocês estão entendendo queridos, porque com Pelé não pode haver comparações?Daí a intensão deste texto: a de que vocês tomem consciência da grandiosidade de Pelé e se tornem um agente multiplicador de sua história. Pelé é um patrimônio futebolístico nacional e mundial e compete a nós, brasileiros, preservarmos sua memória.

Muito menos aceitar o que parte da mídia dissemina por aí, tentando passar Pelé para trás e endeusando qualquer novo craque que surge na praça, representando vendas, publicidade, dinheiro, como se fosse o maior de todos os tempos.

Por isso, me dirijo em especial aos jovens, nessa cruzada para defender Pelé. Compartilhando esse texto com o maior número de pessoas que vocês puderem, ao menos. E depois, se tiverem interesse, procurem na literatura esportiva, conheçam outras histórias, as quais eu propositalmente, não contei aqui, porque nós, mais velhos, já as conhecemos, enquanto parte de vocês ainda não teve esse prazer.

Pesquisem por aí, sobre o “Gol de Placa”, o “Gol na Rua Javari”, o “Milésimo Gol”. Assistam com atenção, aos vídeos dele na Internet, sobretudo os golaços na Copa de 1958 e os lances geniais, na de 1970. Nunca viram o DVD “Pelé Eterno”?

Pois ele é obrigatório, para dar uma visão mais completa do que estou lhes falando.

A falta de patriotismo nos leva às vezes, a relativizar nossos ídolos, coisa que em geral não ocorre em outros países. Vejam por exemplo, a devoção com que os argentinos cultuam Maradona, com direito a exageros, como a fundação de uma “Igreja Maradoniana”. Mas fazem isso por paixão, por respeito. Cultua-se sua enorme importância como jogador; como ídolo. Não o julgam por sua conduta pessoal.

Pelé é um ídolo que nunca morrerá, mas deve preservar-se inalterada a grandeza de sua incomparável carreira. No exterior mesmo, me parece muitas vezes haver para com ele, mais respeito e noção do que este homem representou para o mundo da bola.

Dias atrás, logo após a final da Copa na Rússia, uma revista especializada lá da Europa trouxe uma edição especial com as 50 melhores histórias das Copas do Mundo.

Com Pelé, na capa, é claro!

O brasileiro mais famoso do planeta, em nossos mais de 500 anos de história, merece no mínimo, o mesmo culto à sua memória, que seus principais rivais possuem, em seus respectivos países.

Sobre ele, muito se falou ou se escreveu e para encerrar, gostaria aqui de relembrar algumas frases a seu respeito.

Primeiro, uma definição perfeita do poeta maior, Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Pelé 1000”, de 20/10/69:

“O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé”.

Já o escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, impressionado com sua desenvoltura aos 17 anos, o descreveu assim, quando o viu pela primeira vez, antes da Copa da Suécia e de nosso primeiro título mundial, em sua crônica “A Realeza de Pelé”, de 08/3/58:

“... dir-se-ia um rei, não sei Lear, se Imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor...”.

O jornalista, técnico e comentarista João Saldanha, que inclusive foi treinador de Pelé em 1969 na Seleção Brasileira, fez uma analogia interessante sobre ele:

“Pelé é um fenômeno da natureza; só assim você explica um Pelé, um Picasso, um Neruda, um Chopin, um Da Vinci”.

Outro jornalista memorável, Armando Nogueira, dizia brincando que:

 “Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola”.  

O jornal londrino “SundayMirror” admirado com seu desempenho, o descreveu assim:

“Pelé nunca será superado, porque é impossível haver algo melhor do que a perfeição; ele teve tudo: físico, habilidade, controle de bola, velocidade, poder, espírito, inteligência, instinto, sagacidade”.

A respeito do homem com quem se casou, sua ex-esposa, Rose Cholby, disse:

“Às vezes deliro e digo para mim mesma que estive casada com uma estátua viva”.

Quanto a mim, humildemente arrisquei uma definição sobre a origem de Pelé, quando elaborava um texto, certa vez:

“E Deus, em sua infinita e divina sabedoria, ao concluir o mundo no sexto dia, deu-lhe também a bola, para com ela romper com todo o silêncio que se apoderara de sua obra; porém, vendo-a tão inerte e silenciosa, como que não tendo vida, decidiu-se por conceder-lhe um rei, para que assim se espalhasse alegria e encantamento aos quatro cantos da Criação”.  Gostaram?

Sabem meus queridos, não posso deixar de certa maneira, de considerar Pelé um Deus, na medida em que ele provocava “o diabo” na defesa adversária.

Daí me entristecer tanta bobagem dita por aí, tanta sandice. Já tentaram rebaixar Pelé e seus feitos de todas as formas possíveis e imagináveis. Há listas que o contabilizam com 757 gols e até (creiam!) 290. Alguém aí acha, em sã consciência, que daria pra sustentar uma fraude tão grande por várias décadas, de que um jogador com menos de 300 gols foi o “Rei do Futebol”?

Quando me perguntam sobre como seria uma partida entre Pelé e seu maior rival, Maradona, digo para que leiam meu texto (inclusive publicado aqui no Museu da Pelada): “A Copa Virtual de Todos os Tempos”. Nela, ambos se defrontam numa incrível final e tem que decidir o jogo nos pênaltis.

Na vida real, aconselho que vocês se divirtam assistindo à “caneta” que o Romário deu em Maradona, na Copa América de 1989. Pra que vou discutir a majestade de Pelé contra súditos que passaram por esses vexames?

Parte deste texto foi escrito originalmente em um 1º de outubro, (mesmo dia em que ele encerrou a carreira) e não consigo deixar de me lembrar, todo santo ano, do dia em que ele se despediu e os gramados do mundo inteiro perderam esta magia tão grande.

Com o passar do tempo, não apenas meu amor pelo futebol foi crescendo, mas também minha admiração por Pelé. Tanto, que recentemente me tornei membro da ASSOPHIS por causa dele.

Peço desculpas a todos, pelo tamanho deste artigo, mas (por favor) compreendam que ele acabou ficando proporcional à dimensão de Pelé, na história do futebol mundial.

Fiz questão de que este meu décimo texto publicado aqui no Museu da Pelada, fosse uma singela homenagem ao maior camisa dez que já existiu.

Um “dez” tão importante, que revolucionou a própria posição, fazendo com que este número passasse a ter um peso diferente na camisa, em relação às outras, no mundo do futebol, até hoje.

Então minha gente, é isso!

Eu poderia ficar aqui contando mais partidas e jogadas do Rei, indefinidamente. Que interrompeu guerras (para que o vissem jogar) protagonizou histórias sensacionais, rivalizando em popularidade com papas, presidentes, ídolos pop, atuando muitas vezes até, em causas humanitárias e diplomáticas.

Que acabou sendo celebrizado inclusive, pelos gols que perdeu na Copa de 70. Que fez gols assim e assado, em muitas outras histórias curiosas, interessantes e até divertidas, às vezes. Eu poderia mesmo ficar. Mas não ficarei.

Porque amanhã – a não ser que alguma contusão séria comprometa sua carreira ou ele não ganhe Copa alguma – a mídia vai inventar que Messi (ou outro craque qualquer, que chegar com pinta de usurpar-lhe a coroa) foi melhor do que Pelé. Paciência!

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Eu, de minha parte, vou dormir com a consciência tranquila, por não me deixar levar por interesses puramente comerciais, marqueteiros. Ninguém influencia minha opinião, muito menos rege o que eu penso.

E o que eu penso, sinceramente, é que sou muito grato a Deus, por ter tido a feliz oportunidadede viver num tempo em que ainda me foi possível ver Pelé jogar.

“ETERNO 7X1”

por Émerson Gáspari

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Gostaria de começar pelo fim. De um período sublime, de alegrias, vitórias, craques maravilhosos, futebol bonito. O qual durou 44 anos e cinco títulos mundiais, nos tornando conhecidos, temidos e admirados mundialmente.

Mas isso foi entre 1958 e 2002 e esse tempo agora parece existir apenas para os saudosistas. Alguns deles, feito eu, que não se conformam com a mediocridade futebolística exibida há tempos, pela Seleção Brasileira.

Analisar o que ocorre, exige um olhar mais profundo e abrangente.

Comecemos pela velha teimosia de “europeização” do futebol brasileiro.

Em Copas passadas, já tivemos de tudo: técnico apregoando futebol-força, copiando esquemas defensivos, usando três zagueiros, extinguindo pontas. Uma série de invencionices tidas como evolução e que por estarem em voga no Velho Continente, logo se tornavam “coqueluche” (para usar um termo da minha época) por aqui.

Mas depois do penta, a coisa ficou mais séria e nosso futebol só fez regredir.

Seleções formadas exclusivamente por brasileiros no exterior, atletas saindo de baciada, técnicos partindo para se aprimorar lá fora, mídia destacando futebol europeu, campeonato brasileiro por pontos corridos e muitos casos de corrupção.

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Pior: a formação do atleta em escala industrial, tirando do jovem criatividade e irreverência, prendendo-o a modelos de fora, onde drible é recurso raro e obediência tática se sobrepõe a talento. Estatura e físico valendo mais que ginga e picardia. O progresso ceifando campinhos de várzea, substituindo-os por escolinhas de futebol que ensinam o “evoluído” modelo europeu. O maldito modelo europeu.

Estão matando a essência do futebol brasileiro. Seria como tirar um índio de seu habitat natural e impingir-lhe a usar sapatos, terno, celular, óculos, como se isso fosse o correto. Ao perpetrar na cabeça do brasileiro que deva se comportar em campo como o europeu; tolhemos seu talento nato, engessando nossos times e selecionados.

Não foi diferente nessa Copa. Estava na cara que seria assim!

Em 2010, após o fracasso da Seleção de Dunga, me perguntaram em qual lugar eu achava que o Brasil iria terminar no Mundial seguinte. Cravei: “Terceiro”.

Após a “Família Scolari” apanhar em casa de 7x1 dos alemães e de 3x0 dos holandeses, nem isso. Acabamos em quarto lugar, mesmo.

A desculpa esfarrapada na época para isso foi a contusão de Neymar.

Pois me repetiram a pergunta, questionando-me sobre 2018. Cravei: “não passa do quinto jogo!”. E não é que acertei em cheio, dessa vez?

Agora, já me questionaram novamente, em relação a 2022 e sabem o que respondi?

“Prefiro nem dizer!”. Porque sinto que não vem coisa boa por aí.

E olhem que fazer previsão quatro anos antes envolve uma série de coisas a serem analisadas e ninguém – muito menos eu – tem bola de cristal, por mais que entenda de futebol. Só que a experiência nos dá conhecimento e certa segurança ao afirmar isso.

Não se trata de pessimismo: gostaria de estar aqui, afirmando que jogamos bem, ganhamos o hexa merecidamente e que nosso futuro é muito promissor. Mas não é.

E quando vejo torcedores “nutelinhas” (para usar uma gíria deles, agora) pedindo continuidade nesse trabalho, respaldados por uma mídia que defende Tite como se fosse nosso salvador, aí sinto que estamos realmente perdidos.

Essa mídia que a partir de 1980, quando os craques começaram a deixar o país, passou a transmitir futebol italiano, espanhol, inglês, francês, alemão, javanês e virou as costas para os times do interior, para os estaduais que foram minguando, desde então. 

E o torcedor? Preferiu assistir jogos na poltrona, abandonou a arquibancada e deixou os filhos serem induzidos a torcerem por clubes estrangeiros. O torcedor está cego!

Tanto, que não percebe que seus programas de futebol foram invadidos por uma leva de outros esportes e até por games! E quando a mídia fala de futebol, então...

Muitas matérias rasas, sem profundidade, até mesmo na imprensa escrita.

Ao invés de cobrirem uma partida, agora elegem um “personagem” alheio e gastam tempo com ele. Ou soltam pérolas do tipo: ...“em Oeste, Oeste 0 x 2 São Caetano”.

Durante as Copas, só piora: é repórter que não domina o assunto futebol e erra três vezes um mesmo termo ou é flagrado ao celular, quando chamado no “link”. É repórter que fica nervosinho, quando questionado pelo nível fraco das perguntas em coletivas. Ou comentarista “médico” afirmando, enquanto Neymar saía de maca sem mexer as pernas após uma joelhada nas costas, que não era grave, que ele treinaria normalmente e iria enfrentar a Alemanha sem problemas. Locutor que desconhece impedimento e até aquele que precisa transmitir jogo quase afônico. 

Matérias dantescas como das cocadas ou das coxinhas com nomes de jogadores, a do cabelereiro do ídolo, a da precária higiene nos banheiros dos trailers dos turistas na Copa ou ainda, sobre quantos assovios o treinador deu no Mundial.

Nunca vi tanta gente deslocada, despreparada e diria até, excessiva numa cobertura. 

A cobertura virou circo. Dos horrores. E o torcedor não enxerga isso.

Prefere ver batida de tambor nos intervalos ou comentários de “experts” em futebol, como cantoras, atores, dançarinas, modelos...

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Saudades das crônicas de Nelson Rodrigues e João Saldanha. Das narrações de Geraldo José de Almeida ou Luciano do Valle. De uma mesa-redonda com Armando Nogueira e Orlando Duarte. Quem viveu essa época sabe bem do que estou falando.

Mas voltemos ao cerne da questão: essa geração “7x1” e a filosofia que insistem em querer manter, levando nosso futebol à ruína.

E não é só o nosso: o futebol sul americano de uma maneira geral, está assim.

A Argentina não ganha uma Copa desde 1986 e nenhum torneio importante desde 1993. O Uruguai não vence o Mundial desde 1950, aqui no Brasil.

Já se foi o tempo em que a Copa mostrava alternância de campeões, entre Europa e América do Sul. Nesse século, o trio exportador de “pé-de-obra barata” só obteve um título com o Brasil (2002), um vice com a Argentina (2014) e um quarto lugar com o Uruguai (2010). Em 2018, ninguém beliscou nada. Estamos em processo de “corrosão”.

Os três precisam de medidas para proteger seu futebol, diante do poder financeiro que impulsiona o europeu. Talvez reivindicarem à FIFA, a proibição de transferência de atletas antes dos 21, 23 anos. Fere princípios do cidadão? Estudemos alternativas que possam legalmente chegar perto disso. O que não podemos é ter casos como o de Messi, desde os 14 anos na Europa e que jamais atuou pelo campeonato argentino.  

Precisamos criar fórmulas que nos possibilitem ter um campeonato como o mexicano, rico, com média de 40 mil pessoas por jogo, com seus principais jogadores atuando lá. Não dá mais pra permanecer como está!

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É feito a Seleção Brasileira, meus queridos: não dá mais para usarmos o modelo que está aí. Não deu certo. Não comecemos em cima do que fracassou, até para que isso não se torne um “eterno 7x1” para nós. Se profeta eu fosse, diria ao torcedor: “não vos iludis com falsas promessas, lembra-te dos que entregaram regiamente seu suor e sua alma para nossa glória e desse modo, nosso campo não se fará terra devastada”.

Primeiro tivemos a invasão dos “professores de educação física”, como sempre cita o PC Caju. Depois, veio a “escola gaúcha”, que está aí. Nada contra, ela até nos deu o penta e somos gratos por isso. Mas não dá mais. Precisamos recuperar a essência do futebol brasileiro, resgatar nossas origens, jogar como sabíamos.

Não adianta o “coach” afirmar que não irá tirar o drible e a criatividade de um jogador, se todos os outros jogam engessados, no padrão europeu. Onde já se viu prender o centroavante feito pivô, apenas para abrir espaços para quem vem de trás, gente?

“Ah! Mas o Tostão fez isso em 70”, dizem imprensa e a torcida, ensaiadas. Tá! Serginho fez o mesmo em 82 e lembram no que deu? Querem comparar os dois com Tostão?

“Mas o Tite tem crédito, a Seleção evoluiu, só perdeu dois jogos!”. Tá! Dunga também e vocês acham que com ele o time evoluiu? Além do mais, evoluir em relação aos 7x1 é quase que uma obrigação. Pior ou igual a aquilo, não seria possível.

“Mas ganhamos as Eliminatórias com um pé nas costas!”, cheguei a ouvir por aí.

E ela lá serve de parâmetro para Copa do Mundo? Por acaso a das Confederações, na qual goleamos a Espanha na final em 2013, serviu de parâmetro para a Copa, no ano seguinte? Ou mesmo a conquista da medalha de ouro em 2016, nas Olimpíadas?

Um monte de torcedores faz coro com a imprensa esportiva, pedindo que o Tite fique porque sabe montar um grupo, e é um bom “gestor de pessoas”, usando para isso, sua costumeira verborragia. Oras, precisamos é de um treinador, não de um gestor!

Sabem o que ocorre? É que depois dos tais 7x1, ninguém queria segurar a “batata quente”. E o Dunga e depois o Tite seguraram. Tiveram méritos, mas já tiveram suas oportunidades. Passou! Repetir Tite dará frutos parecidos com a repetição de Dunga.

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No caso do Tite, ele chegou respaldado pelos bons resultados à frente do Corinthians, não há dúvidas. Porém, nem assim impediu o vexame dessa Copa, já que o selecionado foi mal convocado e acabou ficando mal escalado.

Mas como não apanhamos de goleada, muita gente diz “tudo bem”. Tudo bem?

Pois é aí que está: o que mata é também essa visão tacanha de que a Copa é antes de tudo um evento e que não dá pra ficar ganhando sempre; há concorrentes diretos que às vezes merecem mais, além do que o futebol mudou, não podemos comparar com o de antigamente e blá, blá, blá...

Você ouve esse tipo de comentário o tempo todo. O torcedor-comum mudou.

Hoje, nos jogos de Copa, é o tal de ficar na arquibancada olhando não para o campo, mas para o telão, esperando os 90 minutos, para ser focalizado por três segundos e aparecer para o mundo todo. Dane-se a Seleção!

Na saída dos estádios, não tem um que esboce para a reportagem, um mínimo de conhecimento e noção do que foi a partida. É só fantasia, gritaria, histeria.

Então virou evento bonitinho, colorido, com abertura e encerramento impecáveis, elitizado, preços de ingressos nas nuvens e cuja maior atração do Mundial não é um craque ou seleção: é o VAR (árbitro de vídeo), cuja participação foi crucial na decisão.

Perdeu? “Tomemos uma cerveja, porque daqui a quatro anos tem mais... são 32 seleções e uma taça só!” É muito conformismo ou pura cegueira mesmo, minha gente!

Em 2006 deu Itália; em 2010, Espanha; em 2014, Alemanha e em 2018, França.        

Ou seja: todas, seleções europeias. Se fosse mesmo só um simples evento, porque seleções asiáticas ou africanas, por exemplo, não conseguem vencê-lo, também?

Entenderam o discurso pronto e sem noção, que está na cabeça de muito torcedor?

Estamos aceitando entrar no “segundo escalão” do futebol mundial, naturalmente.

Se antes sucumbíamos perante seleções que chegavam à final ou eram campeãs, agora aceitamos derrotas para seleções sem tanta tradição e ainda pedimos a continuidade desse trabalho. À que ponto nós chegamos!

Hoje, perdermos por 2x1 para a Bélgica é evoluir em relação aos 7x1 da Alemanha, bem como ver a Argentina ir embora do Mundial antes de nós já parece ser suficiente. 

Será que não sabem que se por um lado o fato de nos tornarmos pentacampeões foi devido ao nosso talento nato para o futebol, por outro lado, isso também se deveu a nossa intensa cobrança, essa vigilância feroz que o torcedor costumava exercer?

Escolher um técnico para a Seleção era quase tão importante quanto eleger um presidente. Hoje, isso mudou. Tanto, que explodiu o número de chatos jogando a culpa da alienação política brasileira em cima do futebol. Se soubessem que o próprio futebol está repleto de torcedores alienados...

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Aliás, aumenta cada vez mais o número de pessoas que não gostam de futebol, no país. Por uma série de razões. E essa indiferença, essa falta de “vigilância”, também levou a Seleção a ficar mais distante do torcedor. Parece mais um produto.

Como não se cobra, não se chega a treinadores melhores, a jogadores melhores, a resultados melhores, a dias melhores. Não se respira mais futebol por aqui, como antigamente, compreendem? Estamos deixando de ser o “país do futebol”.

Qual o mal de querer ganhar sempre? O basquete americano é assim e alguém reclama dos títulos que eles ganham, por acaso? Pelo contrário!

“Ah, mas estávamos mal acostumados” disseram, dia desses, numa dessas análises bestas, querendo nos conformar diante da derrota. Pois eu respondo: estamos é nos acostumando mal, agora.

Acostumamo-nos com a corrupção no futebol, com o êxodo dos jogadores, com a falta de estrutura e administração melhores, com uma seleção que não representa de fato, o legítimo futebol brasileiro e que não levanta mais uma Copa, sequer.

Se não vencermos a próxima, igualaremos o recorde de tempo sem conquistarmos um Mundial, sabiam? Não, a maioria não sabe. Nem quer saber. Estão todos conformados.

E o “eterno 7x1” continuará se repetindo pelos anos que virão a continuarmos assim, podem ter certeza.  Essa Seleção nada mais é, que uma releitura da de 2014, com um discurso mais bem ensaiado, apenas.  Senão, vejamos:

Daniel Alves, Thiago Silva, Marcelo, Paulinho, Fernandinho, William, Neymar...

O Dani Alves foi cortado por contusão, ok. Mas qual desses aí, veteranos da Copa anterior, realmente desequilibrou a favor do Brasil, na hora “H”?

Não lhes parece que a Seleção de Felipão chorava demais e que a de Tite também não passava segurança emocional? Muitos defenderam o choro de Neymar, nosso principal ídolo, bem no meio-de-campo, ao apito final de uma partida ganha e de primeira fase. “Ah, mas foi porque ele voltou de contusão”.

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Lembro que Pelé também chorou assim, mas não no meio-de-campo e sim no peito de Gylmar, junto dos companheiros. E tinha apenas dezessete anos. Mesmo assim, só depois de derrotar os donos-da-casa, em plena final da Copa da Suécia, algo inédito até então, para nós. Também vinha de uma contusão (quase foi cortado), entrando só no terceiro jogo, precisando classificar o Brasil.

E quanto a aquelas quedas todas em campo? Ou mesmo a reação, quando foi pisado por um mexicano, ao lado do gramado? As próprias redes sociais que achincalharam tanto Neymar, também relembraram Pelé em 70, quando revidou uma pisada dessas, com uma cotovelada na cara de um uruguaio, sem que o juiz percebesse.

Hoje tem “árbitro de vídeo”, eu sei, mas aquela reação dele não iria ajudar em nada. Como não ajudou. A imagem do jogador que cai e simula só se amplificou e pior: acaba ficando visada pela arbitragem. Neymar saiu menor dessa Copa, do que entrou.

Entendo que o atleta queira se proteger da violência em campo. Mas para isso já existe arbitragem. E também, não custa tocar mais a bola, ao invés de prendê-la. Lembro que Rivaldo, por exemplo, padecia desse mesmo mal, mas se corrigiu, com o tempo.

Só que a Seleção cometia erros absurdos, também. Corria, mas ao chegar ao ataque, parava, aguardando o adversário se recompor, pelo menos com duas linhas de quatro, atrás da bola. Daí começava aquela lenta inversão de jogadas, que não redundava em nada, pois os espaços já estavam blocados.

Onde estavam as jogadas ensaiadas para surpreender o adversário? E os exímios cobradores de falta que sempre tivemos? Aquelas jogadas rápidas pelas pontas?

“Ah, mas hoje o futebol mudou”. O futebol não mudou: piorou!

Diminuíram o campo, tiraram peso da bola, melhoraram o gramado e a condição física do atleta, para que o jogo ganhasse mais intensidade. Ok! E daí, qualquer cabeça-de-bagre joga, basta ter físico para isso. É basicamente fechar espaço, destruir e correr.

Queria só ver se com gramados enormes como o antigo Maracanã e talvez até, dez de cada lado (como já cansou de sugerir Beckenbauer), não voltariam as boas jogadas, os lançamentos, o drible.

Hoje, aqui no Brasil, o goleiro dá um chutão e a bola vai cair no círculo central, onde o zagueiro adversário a “chifra”. Ela viaja uns dez metros e é novamente golpeada de cabeça pelo volante da outra equipe. Daí então, perdendo altura, é disputada por dois ou três ao mesmo tempo e o juiz vai logo parando o jogo, arrumando uma falta, porque senão, ninguém põe a bola no chão, minha gente!

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Gentil Cardoso era um treinador que brincava sempre com os jogadores perguntando-lhes do que era feita a bola. Respondiam-lhe que era de couro. Daí ele questionava de onde vinha o couro. “Da vaca”, diziam os atletas. “E do que é que a vaca gosta?”

“De grama”, era a resposta. E por fim, vinha o ensinamento: “Então minha gente, vamos colocá-la onde ela gosta de ficar: na grama, rasteirinha, rasteirinha...”.

Outra coisa que me deixa indignado: hoje, jogar pelos lados do gramado e cruzar, significa o lateral descer para o ataque e dez passos depois da linha do meio-campo, mandar aquela bola abaulada e lenta, na direção da meia lua, onde dois, três zagueiros já a esperam de frente, para rebatê-la de cabeça. Ora, isso é jogo de europeu!

No meu tempo, o ponta chegava ao fundo, olhava para a área e centrava geralmente para trás, pegando o atacante melhor posicionado chegando de frente para o arremate e os beques tendo que girar o corpo e ficando em situação de inferioridade. Depois inventaram que o ponta deveria trabalhar com o lateral ou o meia, pra facilitar a tarefa, num “overlapping” ou triangulação.  Até que hoje, virou isso!

Na partida contra a Bélgica, teve comentarista falando no intervalo – quando a vaca, aliás, já havia ido para o brejo – que “tinham que entrar pelo meio, de qualquer jeito”.

Meu Deus! Perdoai-os ó Pai, porque eles não sabem o que dizem!

Como vamos tentar abrir um time blocado lá atrás, com oito, nove atletas, entrando pelo meio? Pior é que foi o que se viu! Aquela confusão danada, bola estourando na zaga por todo lado. “Ah, mas era um paredão vermelho!”. Tá! E você vai ficar batendo contra a tal parede – como ficaram mesmo – até o fim do jogo? Façam-me o favor!

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Daí, a cada chance de gol desperdiçada, era aquele velho gesto de mãos na cabeça, cara de desespero, palavrão sendo pronunciado, jogador se atirando em campo após errar um chute cara-a-cara. Isso é equilíbrio emocional?

A Bélgica jogou a partida seguinte contra a França, foi derrotada e não se viu isso, ao menos não com a mesma intensidade.  Seria porque os europeus são mais frios?

Não, é porque esse tipo de atitude não impacta positivamente o grupo no decorrer de uma partida difícil. Só aumenta o desespero coletivo, todos já sabem disso. Fica até parecendo que cada jogador brasileiro tenta se livrar da culpa, agindo assim, como que se dissesse ao público: “Olha, eu tentei tudo, fiz meu máximo, mas não deu, não tenho culpa!”. Querem saber a verdade? Todos tem parcela de culpa no time, a começar pelo nosso treinador.

Desde o final do ano passado, já convivíamos com algumas convocações erradas, que destoavam das primeiras que o Tite fez, quando assumiu o cargo.

Com uma equipe montada tão boa para checar jogadores em qualquer parte do planeta, deveria ter se lembrado de olhar os daqui do Brasil, também.

Alisson foi bom goleiro, mas não conseguiu produzir um único milagre em campo, no Mundial. O belga Courtois produziu o seu, no final do jogo, naquela bola do Neymar.

Aqui no Brasil, cansei de ver Marcelo Grohe e Vanderlei operando milagres. Custava testá-los? Que tal se levássemos os três e fizéssemos um revezamento nos primeiros confrontos da primeira fase, com a promessa do treinador de efetivar o titular apenas a partir das oitavas-de-final?

Aposto que o rendimento seria melhor e todos achariam justo, poder participar. Do modo como foi o Cássio não pôde fazer nada e o Éderson só pôde empurrar o Tite, derrubando-o, naquela comemoração de gol estapafúrdia, que virou piada mundial.

Já passou da hora dos goleiros reservas terem a oportunidade de jogar ao menos uma partida de primeira fase. Ou se confia neles, ou não se convoca. Ninguém na equipe deve se sentir tranquilo e absoluto na condição de titular. Mesmo o craque do time. 

A marcação por zona da defesa sempre foi outra coisa errada. Dos seis gols tomados pela Seleção, com Tite, cinco haviam sido de bolas aéreas. Foi um defeito que não se corrigiu no Mundial.

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Sabendo que iria enfrentar uma Bélgica com grandalhões no ataque, porque não escalou Marquinhos, que era titular, ficando – que seja – momentaneamente com três zagueiros na área? Se ele confiava em Geromel, porque não o testou como titular, aproveitando assim, seu zagueiro mais alto para o jogo aéreo do adversário?

São perguntas que ficarão sem resposta, até porque não vi ninguém questionando Tite quanto a isso.

“Ah, mas o Thiago Silva não comprometeu”. Claro! E nem deveria, já que foi sua terceira Copa do Mundo, sabiam disso? Não, né?

Também ninguém lembrou que Fernandinho (ao lado de David Luiz) foi considerado culpado pela derrota de 7x1 diante da Alemanha, em2014. Não se deve crucifica-lo, mas entregar-lhe a responsabilidade de substituir Casemiro me pareceu demais. 

Na virada, o rapaz ficou marcado. Falhou nos dois gols, marcando o primeiro contra e não parando a jogada, no segundo. Fez lembrar Felipe Melo em 2010: ele e Júlio César se atrapalhando no primeiro gol dos holandeses, numa falha dupla: um errou a bola, enquanto o outro a cabeceava, marcando contra.

Pois foi numa falha dupla que se deu no primeiro gol belga: a bola veio na área, num ponto onde Gabriel Jesus e Fernandinho subiram sozinhos, numa tola disputa de bola.

“Ah, mas foi uma fatalidade”. Foi? Então me respondam como é o fundamento de um cabeceio: o correto não é subir de frente para a bola, com os olhos bem abertos e golpeá-la com a testa, direcionando-a para onde se deseja? Foi o que se viu no lance? Não, né? Mas, apesar disso, não se justificam os ataques – sobretudo os racistas – que Fernandinho recebeu. Porque, apesar das falhas, não foi o principal culpado.

Todos deveriam saber quem foi o maior responsável por isso. E não querer perpetuá-lo no cargo, como estão querendo fazer, agora.

A própria Seleção me pareceu uma simbiose das anteriores, unindo a insegurança na bola aérea de 2010, com a falta de combatividade pelo meio, de 2014.

E muitas vezes, as coisas não mudaram dada a teimosia de seu treinador.

Senão, como explicar sua resistência em escalar Douglas Costa, precisando abrir a zaga adversária? Não deveria ter começado jogando? Notaram como a equipe agrediu mais, com ele em campo? Faltou tempo para que ele pudesse ajudar a decidir. Ou o dedo do técnico, dizendo pra Neymar cair pelo setor, para dois habilidosos juntos fazerem o “um-dois” em cima do marcador. Sim, porque ao contrário do que sugeriu o tal comentarista, entrar pelas pontas é mais fácil do que pelo meio, todo congestionado.

Mas a teimosia tinha que chegar aos limites. E Gabriel Jesus foi a maior delas, sem dúvida. O atacante era uma opção válida para os jogos das Eliminatórias, quando saía em velocidade no contra-ataque, tabelando com Neymar. Não parado ali na frente.

No final das contas, não marcou gol algum, nem prendeu a dupla de zaga belga atrás. Quando Firmino entrou em campo, ao menos o time adversário se preocupou mais.

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Tínhamos que ter entrado com Firmino e Douglas Costa desde o início. Ou assim que levamos o segundo gol, aos trinta minutos, pelo menos. A Bélgica podia ter ampliado, no primeiro tempo. Esteve mais próxima disso, do que nós, de diminuirmos o placar. Mas cadê treinador que tenha peito para fazer duas alterações antes do intervalo, reconhecendo que errou; gente? Tá pra nascer no futebol brasileiro! Sempre foi assim.

Se nem o Felipão fez isso, quando levamos “um saco” dos alemães, com cinco tentos em menos de vinte minutos, porque o Tite iria fazer, não é mesmo?

Oras, façam-me o favor! Se Paulinho não estava bem, porque insistir com ele, obrigando William a jogar aberto pela ponta? O tal “foguetinho” não teria sido mais útil pelo meio, em sua posição original?  Lutou muito, mas produziu pouco, por ali.

Perdido na ponta me fez lembrar o Bernard “alegria nas pernas” de Felipão, em 2014.

Se o esquema privilegiava Neymar, porque deixa-lo centralizado, fazendo com que trombasse com Philippe Coutinho? O Neymar que queríamos era aquele aberto pela ponta, veloz e insinuante, abrindo as defesas adversárias com apetite, do passado.

Não esse parado, diante de uma zaga já postada, sem ter cacoete de camisa 10 para resolver. No frigir dos ovos, um acabava atrapalhando o outro.

Notem que Coutinho jogou melhor nas duas primeiras partidas e depois sumiu nas duas seguintes, enquanto Neymar justamente melhorou nas duas últimas, após estar sumido nas duas primeiras. A imprensa creditou isso exclusivamente a ele estar voltando de contusão. Mas para mim, além disso, contou muito o fato de ambos estarem mal posicionados, quase que sobrepostos em campo, num mesmo espaço.

Será que ninguém enxergava isso, que os dois estavam se espremendo por ali e que a marcação adversária ficava facilitada, além do jogo não fluir, porque se concentrava muito ali, ainda mais quando Marcelo descia?

Agora, convocar Fred, Taison e mais uma meia dúzia, era dar ao time, a certeza de que faltariam opções no banco, quando fosse necessário. O próprio Renato Augusto só se salvou, por acertar uma cabeçada de rara felicidade. Por mim, não teria ido, também.

E pensar que tanta gente boa ficou por aqui, no Brasil!

Vanderlei, Marcelo Grohe, Marcos Rocha, Rodriguinho, Luan...

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Dava para ter testado os meninos Arthur, Pedrinho e Paquetá. Ou até ver como seria com um jogador mais experiente no meio, pra melhorar a qualidade do passe, como o Hernanes, que salvou o São Paulo do rebaixamento, recentemente.

Notem que não há nenhum craque, entre os que eu citei. Até porque, eles estão desaparecendo do futebol brasileiro. E do mundial. Senão, Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar já teriam decidido ao menos alguma das Copas que disputaram. Agora surgiu o menino Mbappé e tome compará-lo a Pelé. Hoje é muito marketing, gente!

Enfim: precisamos urgentemente, retomar nossa vocação de jogarmos no ataque, pelas pontas, com um camisa dez raiz, com bola no chão.  Temos que retornar às nossas antigas características: do drible, da ginga, da malícia, do futebol atrevido, moleque, ofensivo. Dos gols.

Voltar a fazer os gringos se preocuparem em como é que irão conseguir parar os nossos dribles e não ficarmos nos preocupando tanto com a bola aérea deles.

Deixar esquemas rígidos e invencionices europeias de lado e recuperarmos nossa identidade futebolística, tão descaracterizada nessa década medonha.

O Brasil possui uma nova leva de jovens treinadores, cheios de vontade e talento.

Por que não se pensa em uma comissão de três, quatro treinadores, como na NBA, por exemplo? Ilusão? Ilusão é o Tite dizer que olhava para o banco e só via “feras”.

Estivesse vivo e o sábio João Saldanha estaria rindo, porque quando ele chamou seus jogadores assim, estava se referindo a Pelé, Gérson, Riva, Jairzinho, Tostão...

Mas conduzir a Seleção Brasileira é algo que envolve muita responsabilidade, eu sei.

O fardo é pesado para apenas um. Por isso, apenas responsabilizo Tite, mas não o condeno, apesar das minhas críticas. Condeno sim, é esse discurso de continuidade, esse “status quo” que se instalou na Seleção Brasileira.

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Enquanto isso, a França se sagra bi em 2018, com gol de bola parada, gol contra e até ajuda do VAR. O goleirinho francês quis driblar o croata dentro da área e deu vexame. Quanta emoção! Alguém me acorde na hora de começar o desenho, por favor.

O predomínio europeu aumenta cada vez mais no torneio e as coisas ficarão mais difíceis, com 48 seleções. A Copa se torna, a cada edição, mais desinteressante para o torcedor brasileiro, que hoje anda preferindo até o Mundial de Clubes.

Falta perceber que o futebol não deveria ser “show business”, muito menos jogador se tornar “astro pop”. Que o futebol nacional vive um momento quase lúgubre, isso sim!

Enquanto a massa torcedora admira a beleza que foi o evento na Rússia e discute por aí a importância do “VAR”, os gringos nos passam cada vez mais para trás, garantidos também, pelo discurso de continuidade desse futebol brasileiro, que está aí.

Quanto a mim, só me resta continuar como um solitário torcedor gritando no meio do deserto contra esse tipo de coisa, enquanto o coração saudosista não se esquece das gerações de craques que um dia, nos deram as glórias do pentacampeonato mundial: Gylmar, Djalma Santos, Bellini, Nilton Santos, Didi, Garrincha, Pelé, Gérson, Carlos Alberto, Jairzinho, Tostão, Rivellino, Romário, Bebeto, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e outros; num tempo em que o Brasil dominava o mundo com a magia de seu futebol, a qual o Museu da Pelada não se cansa de relembrar.

LEMBRANÇAS DE UM TEMPO ESQUECIDO

por Émerson Gáspari

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Minhas lembranças remontam ao ano de 1895, quando nasci em São Paulo. Tenho, portanto, 123 anos. Nessa data tão especial para mim, pouca gente se recorda e ninguém me cumprimenta ou mesmo me agradece pelo fato de eu ainda estar vivo.

Essa legião de egoístas parece ocupada demais, com o nariz enterrado num celular durante o dia e a barriga encostada numa mesa de bar, tomando cerveja entre amigos, à noite. E são milhões deles. Mas não parece haver uma viva alma neste país tão bonito, que se interesse pela minha história, meu passado, minhas lembranças.

Desse modo, não me resta alternativa - a não ser eu mesmo – de recordar tantos momentos inesquecíveis que proporcionei a todos esses egoístas e a milhões de outros, que já se foram sem terem tido a consideração de me agradecerem por tantas emoções desfrutadas.

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Poucos prestigiaram meu nascimento, sob a batuta de Charles Miller, no confronto Gas Works Team x SP Railway Team. Mas aos poucos, fui me tornando popular e os momentos incríveis, se sucedendo, aos montes. Como em 1919, no campo da Rua Paissandu , onde o goleiro Marcos de Mendonça defendeu um penal e três rebotes em seguida, dando o  tricampeonato ao Flu, diante do Mengo. Naquele mesmo ano e defendida pelo mesmo Marcos, a Seleção Brasileira derrotou – jána segunda prorrogação da final (de 150 minutos!) de um jogo extra – aos uruguaios, com um gol de Friedenreich, dentro do estádio das Laranjeiras abarrotado.

Saibam que sequer rádio havia para informar aos torcedores que não estavam presentes e o boca-a-boca era o meio utilizado para espalhar a notícia. Ou os jornais. Mas a paixão que eu despertava em vocês já era única, incomparável, nesta época tão longínqua.

Momentos sublimes como o primeiro gol de bicicleta de Leônidas pelo São Paulo, em cima do Palestra Itália, em 1942. Ou polêmicos, como o gol de cabeça de Valido, diante do Vasco, que resultou no primeiro tricampeonato do Flamengo. Também polêmicos foram muitos personagens, nesses anos todos: Heleno, Almir, Edmundo... todos craques! Aliás, craque é o que mais produzi no país: que nação teve um driblador como Garrincha? Na final do Cariocão de 62, ele destruiu o Mengo de Gérson, que preferiu jogar ao lado dele, no Botafogo. Mesma providência tomada antes, pelo “Enciclopédia” Nilton Santos. E olhem que Nilton era um monstro capaz marcar um atacante de costas, pela sombra projetada no gramado ou tirar uma bola da poça d’agua na maior categoria, pisando nela e aproveitando o “empuxo”. Igualzinho Didi, que tirava o “ponto de gravidade” da pelota, ao cobrar uma falta com sua “folha-seca”.

Está difícil para os mais novos? Não entendem direito o que lhes conto? Perguntem aos velhos torcedores: eles decerto se lembrarão desses monstros sagrados e de outros como Zizinho, o “Mestre Ziza”. Meu Deus! Só numa terra abençoada para eu criar craques desse naipe. Pena que seu povo despreze tanto a memória, a história e desconheça fatos e pessoas.

O que dizer do Santos de Pelé & Cia, então? Jesus! Beirava o inacreditável: até hoje muitos não creem que o clube parou guerras, dominou o mundo e revelou o maior jogador de todos os tempos; Pelé. Não! Muitos brasileiros, ao contrário, preferem eleger um craque “modinha” do exterior, desfilando toda sua ignorância futebolística.

Tem jovenzinho que não acredita que aquele Santos, em 58, venceu o Palmeiras no Rio-SP, por 7x6. Ou que Pelé certa feita, em Bauru, marcou três vezes um gol de cabeça, em escanteios cobrados em sequência por Pepe, até que o juiz desistisse de anulá-los. Simples assim!

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Desdenham dos mil gols do Rei! Duvidam que Mané  jogasse o que jogou, tendo uma bacia deslocada seis centímetros, um joelho virado para dentro e outro para fora. Que Djalma Santos cobrasse laterais, jogando bolas que cruzavam toda a grande área. Que Domingos da Guia, o “Divino Mestre”, tenha sido o único jogador campeão consecutivamente no Brasil, Uruguai e Argentina. E era um zagueiro... “o” zagueiro.

Que Jair Rosa Pinto disparasse bombas que faziam curvas em “S” (como as que o Arsenal levou na sacola em 49, quando voltou pra Inglaterra, após desembarcar invicto no Rio). Que para Dino Sani, não houvesse “bola quadrada”: do jeito que viesse o passe, a bola seria dominada e posta no chão, tranquilamente; daí saindo viradas de jogo ou lançamentos diagonais perfeitos. Pobres incultos! Quando é que os torcedores de hoje irão se interessar em saber quem foi Carlito Rocha no Botafogo? Belfort Duarte no América? Lara no Grêmio? Julinho Botelho na Portuguesa? Rivellino no Corinthians? Dirceu Lopes no Cruzeiro? Ou que Castilho amputou parte de um dedo para participar de uma decisão pelo Flu? Ou ainda o que foi aquele Bahia de 59? E o Atlético de Reinaldo? Será que lhes passa pela cabeça que o Bangu já foi vice Brasileiro, que o Amériquinha já foi grande; que Ponte, Guarani, Portuguesa, América-MG viveram épocas áureas? Que clubes “pequenos” como Ferroviária, Bragantino, Paulista, Santo André, São Caetano, Americano e muitos outros já tiveram lindas conquistas no passado? Imaginam o que possa ter sido o Paulistano, bem como sua excursão por gramados franceses?

Como podem acreditar que o Botafogo, com mais três jogadores “enxertados” por Zagallo, vestiu a camisa da Seleção e deu uma surra na Argentina em 68, com o quarto gol de Jairzinho sendo marcado após 52 passes consecutivos, tendo a participação de todos os brasileiros no lance, sem que os gringos sequer conseguissem tocar na bola?

Ao invés de lerem e aprenderem que conquistamos o penta em 32 partidas invictas, preferem dedicar seu tão precioso tempo colecionando figurinhas da Copa, repleta de...estrangeiros?!

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Hoje temos em vídeo, gols maravilhosos registrados nos últimos 40 anos. Como o de Dinamite, no último minuto, pra cima do Fogão em 76, naquele chapéu cinematográfico.  Ou os de Romário, despachando o Uruguai e classificando a Seleção para a Copa de 94. E os de Zico pelo Flamengo, à frente de um esquadrão que conquistou o Mundial sem dar chances ao Liverpool.

Às vezes, o “imponderável” (como escreveriam Nelson Rodrigues ou João Saldanha) se dava numa simples aposta, como quando Nelinho chutou uma bola por sobre o Mineirão. Ou mesmo num treino do Verdão, quando Leão defendeu de bicicleta (e com a canhota!), um toque de Toninho, que o estava encobrindo (pena que sem registro).

Mas dá pra assistir como foi maravilhoso aquele esquadrão do Guarani de 78, o Inter de Falcão, o Timão do Dr. Sócrates, a Seleção de Telê de 82. A inigualável conquista do tri, em 70.

Mas não! Os torcedores de hoje preferem relembrar que o Brasil tomou de 7x1 da Alemanha em casa e que isso foi um vexame “maior” que o da Copa de 50, no “Maracanazzo”. Pergunte a eles se ao invés disso, procuraram assistir em taipe, aos três minutos iniciais da estreia de Pelé e Garrincha diante da URSS, em 58. Ou se sabem que essa dupla jamais foi derrotada, em 40 jogos pelo escrete canarinho. A preferência deles é outra: usar camisas de clubes europeus!

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Sabem tudo de Messi e CR7, mas não imaginam que Nilton Santos, Garrincha e Pelé tem escalação garantida em qualquer seleção mundial de todos os tempos que se forme no exterior. Um gol de bicicleta de Cristiano Ronaldo é celebrado com “perfeição humana”, mas desconhecem que Leônidas da Silva e Pelé cansaram de fazer gols assim.

Capaz de não acreditarem também, que no Corinthians do IV Centenário, havia um artilheiro chamado Baltazar, que fez mais gols de cabeça do que qualquer um desses “deuses”, que a mídia repercute e amplifica. Certamente desacreditarão que no Pacaembu, aliás, havia uma charmosa concha acústica, que o ingresso era barato, e a torcida, mais presente e pacífica.

Hoje é “arena multiuso”, “chuteira dourada”, “bola científica”, graminha sintética, torcedores com camisetas caríssimas, games de última geração. Ah!... Quanta saudade dos tempos românticos, no qual torcedores pintavam bandeiras e camisetas, para irem ao estádio!

Bolas costuradas à mão, nada de “frescuras” nos uniformes. Todo garoto que se prezava, jogava bem uma pelada em chão de terra batida. Ou pelo menos, deixava a imaginação fluir com seus jogos de botão, cujas escalações pouco mudavam, de uma temporada para outra.

É por essas e outras que ando convalescendo por aí: esvaziado de craques, mal administrado, sem a mesma credibilidade de antes, desde os tais 7x1. É por isso que eu, pobre futebol brasileiro, vou vivendo praticamente das lembranças que um dia meu glorioso passado produziu, na cabeça de uma meia dúzia de saudosistas abnegados.