Dirceu Lopes

MEIO-CAMPISTA

por Rubens Lemos

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Queria ter sido um meio-campista. Queria ser o primeiro convocado e disputado nas peladas e campeonatos de rua contra rua. Desejava saber driblar, controlar a bola em embaixadinhas, igual ao menino que brinca com laranjas no sinal de trânsito à espera de esmolas no sentimento comodista da piedade geral dos motoristas e caronas.

Nunca me meti a fazer nada do que não sei por entender que quem se mete onde não deve, se dá mal, faz errado. Médico é médico. Nenhum leigo pode receitar remédio ou dar diagnóstico. Estrada e prédio é com engenheiro. No jornalismo, não. Todo mundo se mete porque a profissão não se respeita. Qualquer zemané entende de marketing, de estratégia e redação.

Nunca andei de bicicleta, patinete ou dirigi carro. Não sabia e tinha certeza de que minha pele desapareceria de cima dos ossos de tantas quedas que levaria. Sem talento para o meio-campista pretendido, rebatia bolas na defesa e até arriscava toques curtos e medidos, tímidos para quem rasgava as defesas em fintas e danças feiticeiras aterrorizando zagueiros.

Restaram-me algumas ideias e as mãos para teclar em Olivettis, Remingtons e agora em modernos teclados que suportam letras e formulações tortas. Mas é o que ainda consigo. É o meu limite. Todo homem deve conhecer o seu lugar e a sua fronteira.

Não fui um meio-campista, mas sou um adorador dos legítimos, aqueles que sabiam dominar a bola com carícia, olhar o campo do oponente antecipando a jogada, arquitetando o gol na inteligência de um bom poeta, na perspicácia de um criterioso ourives, na afinação do violonista completo.

Então, não aceito boleiro grosso na função que foi de Didi, Gerson, Ademir da Guia, Jair Rosa Pinto, Zizinho, Paulo Cézar Caju, Rivelino, Zico, Sócrates, Dirceu Lopes, Geovani do Vasco, Adílio do Flamengo, Pita do Santos e do São Paulo. E do Rei Potiguar, Alberi.

Boleiro atual é escalado para tarefa nobre com seu futebol remediado. Nem tão pobre e nada exuberante. É limitado, tímido, falta-lhe a sensualidade, o deboche do craque subversivo, desobediente a táticas burras. Boleiro atual não aprende que a timidez é proibida na missão de iluminar uma partida de futebol. Eu não fui um meio-campista. Boleiro atual - exceto Phillipe Coutinho - também não é.

50 ANOS DE GLÓRIA

Ainda sobre a memorável festa de 50 anos da conquista Taça Brasil pelo Cruzeiro, após duas vitórias convincentes diante do Santos de Pelé na final, Sergio Pugliese bateu um papo bacana com personagens importantes daquele título.

Um dos principais responsáveis por parar o poderoso ataque santista, Piazza é considerado por muitos como o verdadeiro "carregador de piano" daquele timaço. Era ele o único homem de meio de campo que ficava na contenção, evitando o combate direto entre os zagueiros e os atacantes adversários.

- Era bom jogar contra o Santos porque era um time muito aberto, que jogava para frente, assim como o nosso. Então, não existia placar de 0 a 0.

Outro personagem importante daquela conquista, Marco Antônio não escondia o orgulho de ter feito parte daquele timaço:

- É uma satisfação muito grande! Espero que a geração que está vindo se orgulhe disso e faça alguma coisa mais ou menos igual ao que fizemos.

Se todo time jovem precisa de um medalhão para proteger a garotada, o Cruzeiro estava mais do que bem servido. Com 1,85m, o grandalhão Procópio não deixava nenhum adversário chegar perto dos cruzeirenses.

- Tive o prazer de jogar em um time muito bom. Eu era um dos mais experientes daquele grupo e pude contribuir com os mais jovens.

Quando a festa se encaminhava para o fim, o narrador Osvaldo Reis, o Pequetito, narrou novamente um dos três gols de Dirceu Lopes no Mineirão, levantou a galera e emocionou o craque celeste!

NARRA, PEQUETITO!

No dia 30 de novembro de 1966, no Mineirão, Cruzeiro e Santos se enfrentaram pelo primeiro jogo da decisão da Taça Brasil e a "Máquina Azul" não tomou conhecimento do adversário, adquirindo uma enorme vantagem para a partida fora de casa. Com uma exibição de gala do craque Dirceu Lopes, o Cruzeiro, que ainda contava com Raul, Procópio, Piazza, Tostão, Evaldo e Natal, aplicou uma goleada de 6 a 2 na equipe de Pelé, Pepe, Zito, Gilmar e Carlos Alberto.

No jogo de volta, mesmo podendo perder por até três gols de diferença, a equipe celeste venceu o Santos por 3 a 2, em pleno Pacaembu, e levantou de forma incontestável a Taça Brasil de 1966!

Na festa de 50 anos da conquista, Osvaldo Reis, o Pequetito narrou novamente um dos três gols de Dirceu Lopes no Mineirão, levantou a galera e emocionou o craque celeste! Imperdível!!!

CRAQUES CELESTES

Junto com o Canal 100, a equipe do Museu da Pelada participou ontem à noite, no Minas Centro, da festa de comemoração dos 50 anos da conquista da Taça Brasil, atual Campeonato Brasileiro, em 66! Grande destaque da final, contra o Santos, de Pelé, Dirceu Lopes bateu um papo emocionante com Sergio Pugliese!

Tendo vestido a camisa do Cruzeiro por 14 anos, o craque elege o título de 66 como o mais importante da sua brilhante carreira! Além disso, Dirceu afirma que jogar na Raposa foi a maior alegria da sua vida.

- Eu não tenho nem palavras pra expressar a felicidade por vestir a camisa do Cruzeiro por esse tempo todo! Devo tudo a esse clube! Jogar no Mineirão com 100 mil torcedores gritando seu nome não tem preço!

Durante o papo, o ex-jogador revelou um episódio divertidíssimo. Enquanto estava concentrado em um hotel de São Paulo, recebeu a visita de Garrincha, que o elegeu como o maior jogador que viu jogar!

- Eu só não desmaiei porque eu estava deitado na cama quando ele chegou! - disse o craque do Cruzeiro.

A ausência na lista dos convocados para a Copa de 70, sem dúvidas, é a maior frustração de sua carreira. Dirceu, no entanto, afirma que suas glórias e conquistas anulam qualquer tipo de decepção.

- Ouvir do Pelé que eu sou o maior jogador da história do Cruzeiro é muito gratificante!