Copa América

O DIA QUE JAMAIS ACABARÁ

por Marco Antonio Rocha

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A final da Copa América começou muito, muito antes lá em casa — mais ou menos com uma semana de antecedência, quando meu filho foi convidado para entrar em campo com as seleções de Brasil e Peru. Foi a partir daí que os dias para ele se arrastaram, as noites ficaram mais longas (às vezes em claro).

Mateus tem 9 anos e carrega no olhar o brilho infantil da imaginação. Futebol para ele é tema recorrente, seja nos desenhos que cria, seja nas pouco prováveis escalações de videogame, seja nas idas a São Januário. Mas essa decisão passou a pontuar sua rotina como nenhuma outra partida: no café da manhã se questionava se entraria com Coutinho, na ida para a escola se perguntava se estaria ao lado de Cebolinha, antes de dormir pensava como seria cantar o hino perto de Gabriel Jesus.

No dia da final, estávamos ele, eu e minha mulher às 11h em ponto no portão 3 do Maraca. Era preciso chegar cedo para ensaiar a entrada no gramado, o posicionamento, a saída... Cresci indo ao velho Maracanã e jamais meu coração ficou tão disparado quanto naquela manhã de 7 de julho. De alguma forma me via nele, de todas as formas me realizava nele. Sua emoção era minha, era nossa.

Mariana e eu almoçamos perto do estádio enquanto ele descobria que, a poucos quilômetros de casa, havia uma Disney de sonhos muito mais inimagináveis do que a americana. Lá pelas 15h segui para o plantão no jornal, minha mulher partiu para o Maraca. A esta altura Teteu e outras crianças já sabiam o que deveriam fazer, tinham feito fotos com a mascote e trocado ideia com... Cafu! "Poxa, você jogou muita bola, hein? Ergueu a taça da Copa do Mundo!", elogiou o moleque que nasceu sete anos depois daquele gesto. Naqueles segundos com um craque, ele também era 100% Jardim Irene.

Às 16h50, a TV no trabalho mostra as duas seleções perfiladas no corredor que leva ao campo. Tento espichar a cabeça entre um jogador e outro para encontrá-lo. Passa Alisson, vem Guerrero, seguido por Arthur e Cueva. Por ser alto para a idade, a organização deixou Teteu para o fim, ao lado do peruano Advíncula — que tem nome de algum osso pouco conhecido no corpo humano mas que, desde então, ganhou significado especial. Começa o hino do Peru e o moleque, grande que só, quase esconde o Cueva. Aparece em primeiríssimo plano, sério, concentrado, mas não o bastante para evitar uma indefectível olhadinha de rabo de olho no telão. CR7 ficaria orgulhoso, não mais do que eu...

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A bola rola e sigo trabalhando de ouvido ligado no andamento da decisão. O empate peruano me assusta, mas logo Jesus tranquiliza o coração de pai. Já no segundo tempo, Mari me manda uma mensagem: "Amor, não vamos cedo para casa, não. Estamos sentados perto da mãe do Coutinho. Teteu foi conversar com ela e em poucos minutos havia conquistado a família inteira. Ela disse para ele não ir embora, porque depois do jogo vai apresentá-lo ao filho". Não acreditei, temi que algum problema no meio do caminho jogasse o final (ainda mais) feliz para escanteio.  

Bem depois da entrega da taça, meu telefone toca. Era Teteu, aos prantos: "Pai, eu falei com o Coutinho, conversei com ele, ele fez uma foto comigo. Eu tô muito, muito feliz", disse, entre soluços e sorrisos. Na foto com o ídolo, as lágrimas deixaram o olhar infantil com brilho ainda maior. O menino chorou copiosamente no fim de um dia que jamais acabará.

PIOR COPA AMÉRICA DE TODOS OS TEMPOS

:::::::: por Paulo Cezar Caju ::::::::

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Finalizei a coluna sem saber o resultado de Brasil x Argentina, mas isso pouco importa. Aconteça o que acontecer essa continuará sendo a pior Copa América de todos os tempos. O futebol da América Latina nunca esteve tão nivelado por baixo. Nada se salva. Para mim, sem qualquer ironia, a melhor seleção da competição foi o Japão. Time leve e gostoso de ver! E de garotos, isso, sim, uma renovação! Sem contar que ainda foi prejudicado pelo VAR.

No mais, seleções envelhecidas, como a do Chile e Uruguai, ruins como a da Argentina, e sem sal como a do Brasil. Vendo os semblantes de Messi e Phillippe Coutinho tenho a impressão que estão clamando por ajuda aos deuses do futebol. “Nos tire daqui, nos livre dessa mediocridade!!!”, Kkkkkk!! Ninguém pensa, são bandos em campo. O Brasil tem a obrigação de ganhar essa Copa América porque joga em casa e os adversários são abaixo da crítica. Já imagino Tite comemorando como um louco! Se até em goleada contra Honduras ele vibra imagine se vencer uma Copa América!

E o Thiago Silva, nosso capitão, dizendo que o Messi é o melhor da história!!!! Mesmo que o zagueiro não tenha visto Pelé jogar é importante, pela memória do bom futebol, seu nome ser sempre citado. A verdade é que essa geração não está nem aí para Pelé e Garrincha, nunca devem ter lido nada sobre os dois e muito menos sobre os campeões de 58. Talvez por isso considerem o Arthur um cracaço. A imprensa também o considera o último biscoito do pacote. Outro dia ouvi um “estatístico de mesa redonda” apresentar números para comprovar sua eficiência: de seus últimos 50 passes errou apenas dois, algo assim...Kkkkkk!!!! Peraí, isso beira o ridículo.

Sou totalmente favorável aos passes bem trocados, mas passes de metro e meio não deveriam ser contabilizados. Arthur faz lançamentos maravilhosos? Arthur dribla? Arthur sabe cabecear? Arthur faz gols regularmente? Arthur é apenas mais um jogador endeusado por esses comentaristas que nunca viram uma bola na vida!

Se vocês, jogadores, não leram a última coluna de Joaquim Ferreira dos Santos vale uma busca. Percam um tempinho, desmarquem o horário com os tatuadores, maquiadores e cabeleireiros e leiam um texto que exalta o drible e a pureza do futebol. Não sei quanto foi Brasil x Argentina, mas torço para que Phillipe Coutinho e Messi tenham feito uma partidaça! Jogadores como eles me enchem os olhos. Torço pela vitória do bom futebol. Não posso aplaudir uma seleção brasileira acovardada, recheada de volantes caneludos.

Não posso aplaudir uma seleção argentina que depende apenas do brilho de Messi. O Brasil é o único país do mundo que ainda consegue descobrir jogadores de qualidade regularmente. O problema é que eles sofrem uma lavagem cerebral, são moldados em fábricas de gesso, ganham um passaporte europeu e viram robôs. “Estou marcando, professor Tite!”, “Estou desarmando, professor Tite!”, “Dei um carrinho, missão cumprida, professor Tite”, Kkkkk, peraí, robôs por robôs prefiro assistir “Perdidos no Espaço”.    

A PELADA DOS IMIGRANTES

texto: André Mendonça | vídeo: Guillermo Planel |
fotos: Marcelo Tabach | edição de vídeo: Daniel Planel

Se o Barcelona conta com o melhor trio sul-americano do mundo, o MSN (Messi, Suárez e Neymar), a pelada dos imigrantes, no Aterro do Flamengo, reúne os sul-americanos mais receptivos e alegres do planeta. A poucos dias do início da Copa América, a equipe do Museu da Pelada foi conferir o futebol dos gringos e o resultado não poderia ser melhor. Com um clima bastante festivo, a rapaziada deu uma aula de cordialidade, com direito a churrasco de primeiríssima qualidade, acompanhado do picante molho chileno Pebre (tomate, coentro, alho, pimenta, salsinha, cebola e sal).

Após a chuva impedir, por duas vezes, o encontro do Museu com a famosa pelada dos imigrantes, finalmente o dia chegou. Ansiosa, nossa equipe apareceu no campo 8 do Aterro bem antes das 21h (hora marcada para a bola rolar). O primeiro peladeiro a chegar foi o peruano Ruben, o Rubinho, às 20h50. Vestindo a tradicional camisa do Peru, com o número 9 de Guerrero, o professor de matemática da UERJ abriu um grande sorriso ao reconhecer nossa equipe, dando indícios de como seríamos tratados naquela noite.

Confira a resenha divertidíssima com os gringos

Aos poucos, os outros peladeiros começaram a chegar. O curioso é que há espaço para todos na pelada e a conhecida rivalidade dos clássicos sul-americanos é deixada de lado. A cada lance mais ríspido, um pedido de desculpa e um aperto de mão. Assim foi do início ao fim da pelada que conta com peruanos, chilenos, colombianos, argentinos, brasileiros, uruguaios, bolivianos, equatorianos e até espanhol e francês.

A pelada foi fundada há seis anos, só com chilenos. Eles sempre se reuniam e perceberam que tinham uma paixão em comum: o futebol. Com o passar do tempo, o chileno Moisés, um dos fundadores do futebol dos imigrantes, foi incluindo outros peladeiros na brincadeira, até tornar a pelada internacional. Moisés, aliás, se mostrou polivalente e foi o grande destaque da brincadeira, mesmo sem entrar em campo. Com dores na perna, por conta de uma pancada na última pelada, o chileno foi o responsável pela narração carregada de emoção, pelas entrevistas na beira do gramado e também pela preparação do churrasco de alto nível, ao lado do compatriota Alejandro.

Os churrascos são organizados todo fim de mês, com parte da mensalidade. O que mais chama a atenção é que cada peladeiro desembolsa apenas cinco reais por semana e, além do churrasco mensal, também sobra dinheiro para uma viagem no final do ano, com direito a churrasco, piscina e, obviamente, muito futebol.

Organizador disso tudo, Moisés se mudou do Chile, em 1986, por conta da ditadura militar seu país, na época governado pelo general do Exército Augusto Pinochet. No Brasil, além de ter fundado a pelada internacional, o vascaíno de coração é dono de dois salões de beleza.

Com muita animação, o chileno, que atua como atacante, chegou à pelada com todos os apetrechos para a realização do churrasco e um rádio portátil que entusiasmava o ambiente sintonizado na banda mexicana Control Machete.

E falando em música, Jose Avila, o “Gato”, é o jogador mais velho da pelada. Com 60 anos, o chileno ganhou esse apelido por causa da semelhança com o vocalista Gato Alquinta, da banda chilena Los Jaivas. O experiente peladeiro joga no ataque e, mesmo com as dores no joelho, aliviadas por uma joelheira, costuma marcar presença na brincadeira e dar trabalho aos marcadores.

Sebástian fala muito! Tem muita categoria, é gente boa, mas vive reclamando dos companheiros.
— Ruben / Peru

Outro atacante que não dá sossego aos defensores, porém bem mais novo, é o uruguaio Sebástian. Estilo fanfarrão, o peladeiro de cabelos longos e loiros, parecido com o craque Forlán, chegou elétrico ao campo 8 do Aterro, prometendo muitos gols e falando que era um dos melhores da pelada. O peruano Ruben, no entanto, já havia nos alertado sobre o comportamento irreverente do uruguaio.

– Sebástian fala muito! Tem muita categoria, é gente boa, mas vive reclamando dos companheiros.

O polivalente Moisés também comentou sobre a postura de Sebástian.

Ele ganhou o Troféu Limão, prêmio ao jogador mais chato da pelada. Não para de falar um segundo!
— Moisés / Chile

– Ele ganhou o Troféu Limão, prêmio ao jogador mais chato da pelada. Não para de falar um segundo! – entregou, sob gargalhadas.

Mas cá entre nós, toda pelada precisa de um fanfarrão desses. A profissão de Sebástian não poderia ser outra: palhaço. Brincalhão, o uruguaio, que veio ao Brasil fazer mestrado em artes cênicas há 11 anos, divertiu a equipe do Museu e os amigos peladeiros rirem do início ao fim do encontro.

Provando a sua categoria, Sebástian foi o autor do primeiro gol da pelada. Aproveitando uma cobrança de escanteio, o marrento atacante colocou a bola no fundo da rede e gritou para os que esperavam do lado de fora:

– Vou fazer no mínimo seis hoje!

Vou fazer no mínimo seis hoje!
— Sebástian / Uruguai

Apesar de terem faltado dois gols para cumprir a promessa, o uruguaio exibiu um futebol que justificava a sua marra, lembrando o baixinho Romário.

Além dos gringos, a pelada também conta com os brasileiros Luciano, Pedro e Guilherme, publicitário nascido em Goiás, que não troca a pelada dos imigrantes por nada. Convidado pelo amigo espanhol Ivar, o brasileiro disse que se sente muito bem na brincadeira.

– Não conheço a noite carioca da sexta-feira. Estou sempre jogando aqui. Uma vez a pelada rendeu tanto que eu cheguei em casa de madrugada – lembrou.

Não conheço a noite carioca da sexta-feira. Estou sempre jogando aqui. Uma vez a pelada rendeu tanto que eu cheguei em casa de madrugada
— Guilherme / Brasil

Na arquibancada, acompanhando o futebol e saboreando o churrasco, estavam presentes as mulheres do boliviano, estudante de moda, Redín, e do cirurgião plástico colombiano Ariel. O primeiro contou ainda com a presença do carismático filho, que posou para as lentes do fotógrafo Marcelo Tabach ao lado do pai.

Após muita resenha, a equipe do Museu deixou o local por volta das 23h30. O animado churrasco dos imigrantes, no entanto, estava longe de acabar e o volume do rádio de pilha só aumentava! Que festa!