Botafogo

RETRATOS EM PRETO E BRANCO

por Eliezer Cunha

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Longe de mim ser um especialista nos acontecimentos que cercam e constituem as histórias dos times, campeonatos, jogos e jogadores do futebol brasileiro. Mas não posso me furtar de atender as lembranças que se debruçam volta e meia sobre o meu subconsciente. E sendo assim, neste relato, venho demostrar meus questionamentos sobre um dos grandes times do nosso futebol brasileiro. O Botafogo de Futebol e Regatas, isso mesmo, o time alvinegro de tantos craques nacionais.  

Minha idade e os registros disponíveis nos canais de divulgação me permite expor minha perplexidade com a falta de títulos conquistados pelo Botafogo nas décadas de 70 até o final da década de 80, claro que este jejum se encerrou em 1989, num jogo até hoje contestado pelo gol do Maurício. Só lembrando que neste ano o Flamengo foi o rival na decisão do campeonato e tinha em seu comando um grande treinador e uma bela equipe. Mas, isso não vem ao caso.

A história foi construída e o Botafogo se tornou campeão. Voltamos às décadas. Nos anos sessenta, sob comando de Jairzinho e o grande Garrincha, obteve alguns títulos, sendo junto ao Santos de Pelé, os melhores times desta década, temidos por todos. Mas, o que veio após estes anos de glórias? Um jejum de 21 anos sem títulos. E o que me intriga é o fato de que seu elenco, nessas duas décadas posteriores a 60. apresentava jogadores de alto nível como Paulo Cesar, Rodrigues Neto, Brito, Búfalo Gil, Mário Sérgio, Afonsinho, Alemão e até o próprio Jairzinho, um dos heróis da Copa de 1970. E então o que houve? 

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Além disso, posso afirmar que mesmo sem títulos o Botafogo sempre foi uma pedra no sapato de vários grandes times Brasileiro, incluído o meu Rubro-Negro. Lembro que em jogos contra o alvinegro era certo ter sempre algum ponto perdido. Lembrando também que é do Botafogo, junto ao Flamengo, a maior invencibilidade do futebol brasileiro, 52 duas partidas (se não me falham a memória, os dados e as especulações). E a história do futebol pregou um acontecimento no mínimo muito curioso. Foi num jogo em uma tarde de domingo que Renato Sá do Botafogo retirou do Flamengo de Zico a possibilidade de se tornar o time com o maior número de jogos invicto. Sendo também ele, Renato Sá, pelo Grêmio, o responsável por impedir a quebra deste recorde pelo Botafogo. Então o que houve?

Como o título desta resenha sugere, acho que o Botafogo apesar de possuir por sua história vários atletas de primeira, faltou formar um álbum completo, como se formam o de casamento, 15 anos entre outros, ficando apenas resumidas a várias fotografias em preto e branco de glórias espalhadas por estas duas décadas.

BOTAFOGO, 115 ANOS DE GLÓRIAS

por Leandro Costa

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Botafogo, hoje eu preciso falar diretamente com você. Quero te parabenizar pelo seu 115º aniversário. Preciso te dizer o quanto você é importante na minha vida e na de outros milhões de torcedores. Datas especiais nos estimulam a falar o que sentimos e nada melhor do que o dia de hoje para falar de você. 

Nos conhecemos há 39 anos, já vivemos muitas coisas juntos e tenho certeza que muitas outras ainda virão.

Há 115 anos você nascia, fruto da ideia de Flavio da Silva Ramos de fundar um clube de Football. Bendita ideia. O futebol agradece. Você nasceu para brilhar, como sua estrela, que entrou no futebol depois da fusão com o Regatas, em 1942.   

Não imagino minha vida sem você e por isso jamais te abandonarei. Quando todos decretavam seu enfraquecimento eu me mantive sereno pois sei da sua força. Você me enche de orgulho. 

Você é mesmo diferente, Botafogo. Diferente em tudo, não é um clube comum. As emoções são sempre potencializadas. Torcer por você é uma afirmação de personalidade, coisa de quem tem opinião própria, fibra e raça. Passamos juntos por muitas dificuldades e nos mantivemos firmes com a certeza de que dias melhores chegariam. Hoje vivemos um momento de esperança e futuro à altura do seu passado.

Você é arte, como um drible de Garrincha. 

Emoção, como um gol do Possesso Amarildo. 

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Talento, como a canhota de Gérson.

Classe, como um chute de Didi.

Supersticioso, como Zagallo.

Impetuoso, como as arrancadas do Furação Jairzinho.

Corajoso, como Roberto Miranda. 

Diferenciado, como Paulo César Caju.

Sarcástico, como uma cavadinha do Loco Abreu. 

Singular, como um gol do Túlio Maravilha. 

És, acima de tudo, eterno como Nilton Santos.

Botafogo, curta seu dia! Seja muito feliz. A sua felicidade é a minha e de tantos outros que também te amam. Você é verdadeiramente especial para mim. Parabéns, Fogão!!

TÃO LONGE, TÃO PERTO

por André Luís Oliveira

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O aniversário de meu filho João Pedro está chegando. João escolheu o futebol como tema de sua festa. O time e as cores do Barcelona. Ele é palmeirense em São Paulo e BOTAFOGO no Rio. Assiste aos jogos do Verdão, vibra e torce pra valer, mas pouco sabe os nomes dos "craques" do Palestra. Fernando Prass, Dudu e para por aí.

Interessante que ele não tem o mesmo fervor de torcedor pelo Barça, mas os seus ídolos jogam lá, os icônicos Messi, Suárez e companhia. O "vínculo" é imediato, proporcional à frequente exposição dos mesmos nas mídias esportivas e anúncios de publicidade.

Quando eu tinha a idade do João, os jogadores não trocavam de times como acontece hoje, tão pouco eram negociados com frequência para o exterior, pelo menos não antes de construir uma história dentro de um clube em seu país. Por conta disso, sabíamos as escalações dos times para os quais torcíamos e gradativamente íamos nos identificando com este ou aquele jogador.

A construção do ídolo era lenta, a relação fã/ídolo ia se estreitando pelas ondas dos rádios, nas épicas narrações de Osmar Santos, Jorge Cury, Fiore Giliote... Waldir Amaral narrava: "Lá vai o BOTAFOGO transando pela direita...Peri da Pituba cruzou... pulou Mendonça de cabeça... é gol! Goooollll...Mendonça, camisa número 8, indivíduo competente, o Mendonça!!! O " Menino do Rio abre o placar de cuca legal!!!"

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Assim, ouvindo os criativos jargões dos narradores íamos elegendo nossos ídolos no futebol. Nas peladas, nos jogos de botão, escolhíamos nossos ídolos para nos representar. O flamenguista brincava de fazer de conta que era o Zico, enquanto o vascaíno retrucava: "Que Zico, que nada, eu sou o Dinamite." E até o botafoguense há tempos sem comemorar um título, orgulhava- se de sua estrela solitária: " Eu sou Mendonça, o " menino do Rio"

Sim, tai o meu maior ídolo no futebol. Mendonça! Jogava muito, um meia armador artilheiro, estilo elegante, uma raridade! Contemporâneo de Rivellino, Zico, Falcão e companhia, nunca disputou uma Copa do Mundo, azar da Copa do Mundo.

Mendonça nunca colecionou títulos e isso faz dele um ídolo muito singular, mais interessante, pois mesmo sem a chancela de títulos no currículo, figura entre os maiores jogadores da gloriosa história do BOTAFOGO, na companhia de Garrincha, Nilton Santos, Marinho, PC Caju... Foi muito legal também quando Mendonça veio jogar em São Paulo, na Portuguesa, Palmeiras e Santos. Pude assistir vários jogos dele no Canindé, Pacaembu e Morumbi, além de jogos contra o Bafo e o Pantera, aqui em Ribeirão.

Aliás, quando chegou no futebol Paulista, Mendonça desmentiu a máxima de que jogador carioca não vingava no Campeonato Paulista. Mendonça jogou mais tempo em São Paulo do que no Rio, mesmo jogando pela Lusa foi artilheiro e convocado para a Seleção em uma Copa América. É meio louco, quando digo pro meu filho que o meu ídolo nunca foi campeão. Fica difícil pra ele entender.

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Voltando aos tempos de Mendonça no BOTAFOGO, como ele mesmo dizia: " Eu não sou um jogador do BOTAFOGO, eu sou torcedor do BOTAFOGO. " De fato, era mesmo, pois rejeitou inúmeras propostas de outros grandes clubes e permaneceu em seu clube de coração, pois queria dar a volta olímpica pelo Fogão. Não deu, mas Mendonça conseguiu muito mais... conseguiu manter uma geração de torcedores fiéis ao BOTAFOGO mesmo sem a sustentação de um título.

Sim, pois sobretudo para as crianças que não curtem muito esse lance de sofrer no esporte, Mendonça era uma luz no final do túnel. Nesta época, o orgulho do botafoguense que não tinha títulos para ostentar, era ter Mendonça em suas fileiras. O botafoguense ia ao Maraca só pra ver o "Menino do Rio" e seu futebol refinado.

Um dia meu filho João vai saber a distinção entre celebridades e heróis. Talvez com a ajuda de Joseph Campbel que diz em " O poder do mito": " ... o objetivo último na busca do herói ( diferente da celebridade) não será, nem evasão, nem êxtase, pra si mesmo, mas a conquista da sabedoria para servir aos outros."

Messi e Neymar são grandes craques da linhagem das celebridades, enquanto Mendonça foi craque pertencente à linhagem dos heróis. Assim foi feito: Mendonça serviu ao BOTAFOGO com a dignidade de um herói. Não é à toa que dois torcedores resolveram homenageá- lo escrevendo um livro: " Mendonça do Botafogo". Um livro independente, publicado na raça. Parabéns, Roberto Botafogo e Ícaro Vinicius. Eu entrei na " roda" com o objetivo de retribuir ao meu ídolo um pouco do muito que recebi dele. Certamente minha infância não teria a mesma graça sem um ídolo.


MENDONÇA, A ESTRELA SOLITÁRIA

por Luis Filipe Chateaubriand 

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No final dos anos 1970 e início dos anos 1980, o meia atacante Mendonça, que morreu ontem, era o único jogador de qualidade técnica elevada do Botafogo carioca e, por isso mesmo, o único ídolo da torcida alvinegra. 

Uma das características de seu excelente futebol era o chute preciso. Finalizava com as duas pernas com precisão, a curta ou a longa distância. 

Outra característica de seu excelente futebol eram os passes e lançamentos, precisos tanto a perto como a longe. 

Mais uma característica do craque eram os dribles, audazes, maliciosos, insinuantes!

A fera também correspondia nos cabeceios, precisos, angulares, certeiros. 

E o monstro ainda tinha visão de jogo privilegiada, enxergando à frente de seus pares. 

Como uma andorinha só não faz verão, Mendonça não conseguiu dar um título ao Botafogo. Assim, seguiu seu rumo para terras paulistas - Portuguesa, Palmeiras, Santos. Sempre encantando as torcidas com seu futebol de rara beleza.

Sua carreira ficou eternizada por um golaço que fez, jogando pelo Botafogo, contra o Flamengo, em jogo pelo Campeonato Brasileiro de 1981. Terceiro gol de uma vitória de 3 x 1, no final do jogo, eliminou o rival e colocou o alvinegro nas semifinais. Um drible humilhante em Junior, que está procurando a bola até hoje, concluindo para o gol.

Na época, passava a novela “Baila Comigo”, em que Tony Ramos interpretava magistralmente dois irmãos gêmeos. Como, no golaço, Mendonça botou Junior para dançar, e o rival rubro-negro dançou, este ficou conhecido como “O Gol Baila Comigo”. Genial!

Mendonça morreu. Mendonça é eterno!

Luis Filipe Chateaubriand acompanha o futebol há 40 anos e é autor da obra “O Calendário dos 256 Principais Clubes do Futebol Brasileiro”. Email: luisfilipechateaubriand@gmail.com.

BOTAFOGO 1989

por Marcelo Mendez

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O ano de 1989 foi o ano do Bragantino na minha vida.

Meu Palmeiras voando, 23 partidas invictas para dinamitar o final dos 13 anos sem títulos que amargávamos. Eis que num sábado à tarde aparece um tal de Bragantino, metendo um 3x0 inapelável nos nossos sonhos e então já era; Mais um ano de fila.

Talvez por isso eu tenha me solidarizado com o time de hoje, aqui em ESQUADRÕES DO FUTEBOL BRASILEIRO.

Para acabar com 21 anos de sofrimento, vamos voltar para 1989 para encontrar o Botafogo que tirou o alvinegro da fila.

O Fogão 89 

As paixões de Seo Emil

A segunda metade dos anos 80 marca a fase mambembe do futebol Brasileiro.

A CBF quebrada, os times à míngua, estádios vazios, os campeonatos deficitários que eram uma zona em seus regulamentos e tudo de pior pela frente. Um horror. O Botafogo, que não vencia títulos desde 1968, era uma dessas equipes vitimadas por aquela bagunça.

Ao longo da década dá para dizer que o Botafogo teve um ano bom, 1981, quando foi garfado no Morumbi contra o São Paulo, pela semifinal do Campeonato Brasileiro. Dali pra frente, só derrocada. O Clube tinha sua sede em Marechal Hermes em plenas ruínas. Não tinha estádio para jogar, lugar pra treinar, material de treinamento, nada. Uma desgraça só.

Eis que chega então um homem, sua loucura e seu intrínseco amor pelo Fogão, para mudar isso. Emil Pinheiro chega e então, a luz que havia no fim do túnel ganha uma força considerável... 

Botando a Casa em Ordem

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Da maneira como foi possível, Seo Emil mete a mão no seu bolso para resolver os problemas urgentes do Botafogo. Paga os funcionários, estrutura minimamente o departamento de futebol, traz o técnico Valdir Espinosa e então, vai às compras e monta um time forte.

Paulinho Criciúma, Mauricio, Luizinho, Carlos Alberto, Wilson Gottardo e Mauro Galvão se juntam ao ótimo lateral Josimar e ao eficiente Marquinhos para formar uma base sólida que vai classificar o Botafogo no Campeonato Carioca daquele ano. O time chega à decisão e então começa a noite que vai lavar a alma Botafoguense... 

A maior das noites 21...

Muito já foi dito daquele 21 de junho de 1989 nesses 30 anos.

Na arquibancada no Maraca, entre as 56 mil pessoas que pagaram ingresso, Botafoguenses ilustres como Zagallo, Saldanha, Afonsinho, Beth Carvalho e tantos outros corações. Dá pra dizer que o Flamengo tinha uma seleção, com Zico, Leonardo, Andrade, Bebeto, Renato Gaúcho, Jorginho. Mas os olhos da poesia não estavam nestes, naquela noite.

Foi Mazolinha que virou verso...

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Saído do banco para arrancar pelo lado esquerdo do ataque botafoguense, o camisa 14 foi ao fundo do campo com o mesmo afã o qual um adolescente virgem vai atrás do seu primeiro beijo na boca. Nada o pararia. Nenhum mortal seria capaz de interceptar aquele cruzamento que por magia, chegou até Mauricio.

Quando o ponta, com a lendária camisa 7 do Fogão, empurrou a bola e Leonardo para o fundo das redes, o que se viu no Maracanã foi o encanto voltando de onde jamais poderia ter saído. Era o título, era a vitória, era glória.

Ricardo Cruz, Josimar, Gottardo, Galvão, Marquinhos, Carlos Alberto, Luizinho, Mauricio, Gustavo e Paulinho Criciúma são os 11 que formaram a base que fez esse, entre tantos times lendários do Botafogo, entrar para a história do nosso futebol.

É de direito, portanto, sua vaga em ESQUADRÕES DO FUTEBOL BRASILEIRO.