Bahia

BAHIA 1988

por Marcelo Mendez

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Era um ano em que nada se esperava, pelo menos nada de novo.

O futebol brasileiro, que havia ameaçado uma melhor organização um ano antes com a Copa União, voltou a ser a mesma bagunça um ano depois. E então o Campeonato Brasileiro de futebol de 1988 só iria acabar em 1989, de quando seriam disputados os mata-matas da competição.

Alheio a toda essa desesperança organizacional, no Nordeste do Brasil um time começou a chamar atenção. Uma equipe que era bicampeã estadual e que já estava meio empapuçada disso. Era hora dessa equipe dar um vôo mais alto, arriscar mais, voar por céus inéditos com toda a proteção de seus orixás.

Hoje, ESQUADRÕES DO FUTEBOL BRASILEIRO tem a honra de contar a história desse time que ousou mudar o mapa futeboleiro do Brasil.

Com vocês, o Bahia, campeão brasileiro de 1988.

E DAÍ?

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No final do jogo que deu o titulo baiano, o tri ao Bahia em 1988, um grande "E daí" ficou estampado na cara de seus torcedores. Um baita time de bola como aquele não poderia mais se contentar com a soberania local. Era a hora de sonhar em dar um voo mais alto e, para isso, o Presidente Maracajá jogou alto e forte; Trouxe Evaristo Macedo, técnico renomado e experiente, para lidar com o objetivo e com as perdas que o elenco teve:

Sidmar, goleiro titular, ficou sem contrato e não prosseguiu no Bahia. Para seu lugar, Ronaldo é promovido. Pereira, o zagueiro e ídolo é negociado com o Grêmio, Zanata com o Palmeiras. Com isso, Evaristo prepara a montagem do novo time que vai ter Tarantini, João Marcelo, Claudir e o experiente Paulo Robson na lateral esquerda. No meio, um Maestro de nome Paulo Rodrigues, Gil Sergipano, Bobo e Zé Carlos. No ataque, os prata da casa Charles e Marquinhos.

A máquina estava pronta, faltava "azeitar"...

A CAMINHADA

O começo teve alguns tropeços parrudos como os dois placares de 3x0 sofridos para Fluminense e Internacional, derrotas surpreendentes como aquela de 1x0 para o Botafogo dentro da Fonte Nova. Mesmo assim, a máquina foi se ajeitando.

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O Bahia conseguiu vencer o Criciúma no sul, o São Paulo, com um baile de bola no Morumbi e um passeio de 5x1 no Santos. Na somatória geral dos pontos no turno, o Bahia termina em terceiro lugar e ia ter que buscar sua classificação, primeiro com um mata-mata dramático com dois empates (1x1 no Recife, 0x0 na Fonte...) e a vaga por melhor campanha. Dali pra frente não tinha mais volta.

O Bahia lutaria pelo caneco.

QUASE LÁ

Com as arquibancadas balançando como um trio elétrico insano e dantesco, 110 mil pessoas se espremeram na Fonte Nova para tomarem primeiro um susto do Fluminense, 1x0 gol de Washington para abrir o placar. Viram o empate numa cabeçada certeira de Bobô e daÍ pra frente já era:

O Bahia amassou o Fluminense e com o placar final em 2x1, após o gol de Gil Sergipano, o time carioca saiu com as mãos para o céu por não ter tomado uns 8 na Fonte.

Festa em Salvador! Bahia na Final.

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Faltava um degrau pra subir.

QUANDO O SEGUNDO CARNAVAL CHEGAR...

O time do Inter era um time forte.

Treinado pelo então jovem Abel Braga, o Colorado contava com Luis Fernando Flores, Taffarel, Luis Carlos Wink, os ótimos atacantes Nilson e Mauricio e toda uma tradição que, no caso do tricolor de aço, já não se fazia há 30 anos, quando o Bahia venceu seu único titulo nacional.

No primeiro jogo na Fonte Nova, também saiu na frente com um gol de Leomir. Mas viu depois disso a Avalanche do ataque Baiano funcionando duas vezes com o craque Bobô. Com o 2x1, o Bahia foi ao Beira Rio com a vantagem do empate e nem com a macumba preparada na entrada do vestiário se intimidou.

Após revisão de Lourinho, torcedor símbolo e Pai de Santo, o despacho no vestiário do Bahia foi removido e da pra dizer que naquela tarde de domingo foi apenas esse o tormento que o Bahia teve.

Jogando de forma firme, convicta e tranquila, o Bahia segurou bem a pressão do time Gaúcho. Teve Ronaldo, o Goleiro, em uma atuação de gala para suportar o 0x0 até o final, até a hora do apito que deu ao Bahia uma das maiores emoções de sua história.

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O Bahia foi campeão brasileiro em fevereiro de 1989, já exatos 30 anos atrás, em meio ao esquenta do Carnaval daquele ano. Dobrou a festa! Em 1989, por conta do timaço do Bahia, dá pra dizer seguramente que a boa terra teve dois carnavais...

Ronaldo, Tarantini, João Marcelo, Claudir, Paulo Robson, Paulo Rodrigues, Gil, Bobô e Zé Carlos, na frente, Charles e Marquinhos.

Esses são os 11 de hoje, no ESQUADRÕES DO FUTEBOL BRASILEIRO

CLAUDINHA PERIGO

por Paulo Oliveira, do site Meus Sertões

No campo de batalha, a mais valente das soldadas transforma o perigo em uma sensação maravilhosa que só quem está dentro do fogo é capaz de sentir. Faísca, chamas e explosões fazem Claudia Regina Damacena dos Santos ganhar mais coragem. Ela se joga no chão, levanta, deixa as bombas explodirem na mão. Os riscos a libertam da dureza dos dias em que não está vestida com a farda do Forte Humaitá, mostrando suas habilidades. É ela que atrai um número maior de fãs no São João da cidade de Barra, na Bahia, às margens dos rios São Francisco e Grande.

Claudinha Perigo, como é conhecida, carrega no peito duas cruzes. Uma delas, presa a um cordão, mandou pintar nas cores verde e amarela, a mesma da Agremiação Folclórica Humaitá, fundada em 1892, e que serviu para unificar a tradição de "comer fogueira" com um evento histórico, a Guerra do Paraguai, onde seus conterrâneos lutaram.

A outra cruz está dentro, perto do coração, e é vermelha. Desde que viu pela primeira vez, pintada em uma caravela em uma camisa preta e branca se apaixonou a ponto de transpô-la para sua alma. E mais tarde para o corpo, tatuando o escudo do Vasco na perna; para o vestuário e para casa, onde exibe lençóis, toalhas e o que mais lembrar o time carioca, que nunca viu jogar em um estádio e não consegue acompanhar na televisão porque o sinal de seu aparelho é fraco.

FORTES E BATALHAS

Para entender melhor a saga de Claudinha é preciso voltar no tempo. O ex-presidente, melhor seria dizer comandante, e mestre fogueteiro do Humaitá, Francisco dos Santos, o Chiota, conta que no século XVIII, Barra celebrava a fartura das colheitas acendendo fogueiras, tradição criada pelos franceses e trazidas para o Brasil pelos portugueses.

Na cidade, os produtos da roça eram amarrados em galhos de árvores, fincados no chão. Em torno deles fazia-se uma fogueira. Quando o fogo derrubava o galho, os organizadores e seus familiares, avançavam para pegar milho, batata-doce, frutas e até dinheiro que estavam presos na ramada. Esta brincadeira era chamada de "comer fogueira".

Paulo Oliveira e Claudinha Perigo

Paulo Oliveira e Claudinha Perigo

Ocorre que alguns espertos passaram a saquear os galhos antes das fogueiras derrubá-los. Desta forma passaram a "comer fogueira no cru". Quando as famílias resolveram se defender, colocando homens com porretes para evitar o furto das prendas, os saqueadores criaram uma estratégia para burlar a segurança: dividiram-se em dois grupos. O primeiro soltava buscapés na direção dos protetores dos galhos, enquanto o segundo pegava os produtos.

Em 1890, o major-médico Augusto César Torres, barrense que participara da Guerra do Paraguai, assim como os 29 voluntários da pátria,  80 integrantes da Guarda Nacional lotados no município e dezenas de pessoas alistadas à força, testemunhou uma disputa na fogueira da influente família Araújo e comparou o fato a uma batalha:

- Tanto fogo assim, só se viu na tomada do Forte Curuzu.

Dois anos depois foi fundado o clube que ganhou o nome da fortificação. Foi a primeira agremiação a desfilar no dia 23 de junho para celebrar o que considera um marco de resistência histórica: as batalhas que dizimaram a população paraguaia.

Em 1894, surgiu o Humaitá, e em 1905, famílias tradicionais de Barra do Rio Grande criaram o Riachuelo. A quarta agremiação, Avaí, teve vida curta. Os clubes folclóricos adotaram as cores que teriam sido usadas nos uniformes das tropas brasileiras. 

Assim como no futebol, surgiu uma imensa rivalidade por questões geográficas, familiares e por classes sociais. A disputa para ver quem tem maior poder de fogo já fez muitos feridos e, pelo menos, um morto em todos estes anos. No entanto, Barra mantém a tradição

NASCE A PERIGO

Claudinha era uma menina muito levada. Brigava muito e levava a melhor na maior parte das vezes. Ela conta que um dia estava no banheiro e a boneca de uma colega caiu no vaso sanitário. Sabendo que seria acusada de jogar o brinquedo na latrina, saiu correndo e pulou quatro cercas. Até hoje não sabe onde conseguiu impulso para a façanha. O pai da outra guria  então colocou a alcunha que permanece até hoje.

- Perigo é só apelido. É porque eu atentava muito quando era criança, mas graças a Deus em coisa errada não me meto – diz.

Ainda muito jovem passou a torcer pelo Humaitá, agremiação preferida por seus pais Alberto de Jesus dos Santos, seu Betinho, e Maria dos Anjos Damacena dos Santos, que moravam próximo do "forte".

Durante o desfile, as agremiações são divididas em alas. Na frente, a linha de fogo. São de 40 a 120 soldados, vestidos com botas, casacas e calças de brim resistente, luvas de couro e capacetes. Eles carregam latas com, no máximo, 20 buscapés, que precisam ser reabastecidos durante o desfile. Ano passado, só o Humaitá soltou 3.200 fogos, feitos com limalha de ferro e pólvora.

Os buscapés levam entre cinco e sete segundos soltando labaredas. Ao final, explodem. Ao contrário das espadas da cidade de Cruz das Almas, que são soltas no chão por seus cavaleiros, os fogos não podem sair das mãos dos soldados, em Barra.

Após a infantaria, vem a cavalaria (o Riachuelo por se referir a uma batalha naval não tem esta fileira), a fanfarra, a ala das moças representando as heroínas da guerra, pelotões de estudantes e escoteiros e carros alegóricos que homenageiam personagens e fatos históricos. Em 2017, o centenário do Mercado Municipal será lembrado.

Quando decidiu se alistar no Humaitá, há cerca de 25 anos, Claudinha Perigo, 43, optou pela cavalaria. Até que um dia não conseguiu encontrar um cavalo para alugar e passou para a linha de fogo. O Humaitá ganhou a soldada mais valente entre os 200 praças que abrem os desfiles das três agremiações. Perigo já foi chamada para o Curuzu, mas não aceitou integrar as fileiras do rival.

Mesmo com problemas sérios nos joelhos que precisam ser operados, ela se agacha, deita no chão e se movimenta muito, sempre segurando dois buscapés que soltam lâminas de fogo. Já chegou até a colocar um deles na boca, correndo o risco de se ferir gravemente e perder os dentes. Deixou de fazer isto porque a mãe ameaçou tirá-la da tropa. Embora jure só ter feito uma vez, a irmã Marivânia diz que ela se arriscou de novo, recentemente.

SALGADINHOS SEM ZOAÇÃO

Longe das selfies nos dias de desfile e de convites para mostrar suas habilidades em datas como o Dia do Trabalho, Claudia vende salgadinhos, doces e sucos na porta do centenário Colégio Santa Eufrásia.

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É fácil de ser reconhecida por ostentar dezenas de tatuagens, piercings, cordões e paixões. Não permite que zoem quando o assunto é o Humaitá e o Vasco, cujo escudo carrega tatuado na batata da perna. Também traz no corpo – barriga e mãos - as marcas de cinco queimaduras obtidas na linha de fogo.

Seu sonho é ver um jogo em São Januário e fazer uma exibição com os fogos no estádio que serviu de palco para seus três maiores ídolos. Na ordem: Pedrinho, Romário e Edmundo. Pela equipe cruzmaltina deixa de lado a paciência que cultivou nos últimos anos e, às vezes, discute.

- Por causa do Vasco já me aborreci porque o povo começa a me perturbar. Eu fico de boa, não gosto de zoar ninguém, mas sou danada. Não me provoque!

Em seguida, emenda como um chute certeiro:

- Sou vascaína ganhando ou perdendo; com o time na segunda, na terceira ou na quarta divisão!

Há 15 anos carrega o escudo e está juntando dinheiro para fazer uma Cruz de Malta, embora a mãe diga que não há mais espaço no corpo de Claudinha para tatuagens.

Sua explicação para não torcer por times baianos é bem simples:

- Bahia e Vitória não fazem meu tipo.

O arsenal vascaíno inclui quatro camisas, duas toalhas de banho, lençol, copo e outras pequenas lembranças. Se a família a fez gostar do Humaitá, ela fez os pais, irmã, cunhado e sobrinho se transformarem em cruzmaltinos.

"Sou fanática, Ave Maria. Quando o Vasco perdeu para o Palmeiras, fiquei retada. Quatro a zero não pode, moço. Só fui trabalhar porque não tinha jeito".

Trabalho para Cláudia significa preparar coxinhas, rissoles, pães de queijo, bolo de chocolate, tortas e sucos durante a madrugada. Ir dormir às 3 horas da manhã e sair, pedalando sua bicicleta, às 6h30.

No caminho até o colégio para diversas vezes a fim de atender clientes. Essa batalha diária tem menos graça do que as que são travadas nas ruas de Barra e nos estádios.

ENTRE DELAÇÕES E SIMULAÇÕES

por Zé Roberto Padilha

por Zé Roberto Padilha

por Zé Roberto Padilha

Estamos, desde quarta-feira passada, hipnotizados diante da televisão esperando o momento do presidente da república reagir diante de um empresário corrupto que se vangloria de aliciar juízes, procuradores e de obstruir investigações da Lava-Jato. Não contra a qualidade ou legalidade das gravações, como enfaticamente tem feito. Se ele, que se apossou ilegitimamente do trono republicano, acha tudo normal, e não chama a SWAT, a Interpol ou a Polícia Federal para prender o porta voz daquela carne estragada, o que seria anormal no Brasil? Troco de canal, fecho as obscuras manchetes de domingo e vou assistir Vasco x Bahia pela manhã em busca de algo mais decente.

Pelo WhatsApp recebo fotos dos amigos dos meus netos, Lucas e Miguel, chegando com seus pais a São Januário. A mãe, que as postou, dizia orgulhosa “Tudo pelos filhos!”. Realmente os gêmeos, duas figuras adoráveis, bons de bola e educados, mereciam assistir a um espetáculo, ao vivo, mais decente do que os reprisados incessantemente pela GloboNews.

Aos 23 minutos do primeiro tempo, porém, Kelvin entra em velocidade pela esquerda, cruza no primeiro pau e Luís Fabiano toca de primeira para o goleiro baiano, Jean, realizar uma grande defesa. O jogo prometia, vai valer a pena a viagem dos meninos, imaginei. Mas no lugar de se levantar, o arqueiro baiano lembra dos conselhos que recebeu de uma velha raposa da posição, talvez arqueiro da JBS Futebol Clube: “Após uma grande defesa, permaneça caído. E levante o braço pedindo atendimento mesmo sem ser atingido!”.

No meio isolado em que vivem e se postam, onde antigamente mal nascia grama, chama-se “O pulo da raposa!”. No lugar do escanteio, ou da rápida reposição de bola, a TV é obrigada a reprisar toda a defesa, várias vezes, enquanto durar a paralisação. E ela acaba imortalizada ao conceder aos goleiros replays apenas destinados aos artilheiros. E indo para a galeria do G10.

Pouco adianta, neste momento complicado do nosso país, tirar as crianças da sala para não assistir aos maus exemplos dos nossos políticos. Existem várias muralhas desabando fora dele, em campo, sob o menor impacto com o centroavante adversário. Mas e quando os tiramos da cama e os levamos cedo para São Januário a procura de bons jogos e belos exemplos?

Com um cigarro Vila Rica às mãos, nosso canhotinha de ouro, Gérson, então tricampeão mundial, afirmou certa vez em um comercial: “O negócio é levar vantagem em tudo, certo?” Errado. O Vasco ganhou por 2x1, amenizou a crise, mas deve ter sido difícil, na viagem de volta, Leonardo e Olivia explicarem para seus meninos novos gestos ilícitos privados tomados em causas públicas, como a do Jean, que logo se levantou após seus 30 segundos de simulação.

Então, meus goleiros, dar logo sequencia ao jogo e não simular a queda é um exemplo que precisa ser dado neste momento em que o nosso país precisa levantar rápido, sair jogando com ética e pegar a corrupção no contra ataque.

ZÉ CARLOS FEZ DO BAHIA O MAIOR DO BRASIL EM 88

por André Felipe de Lima

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

Hoje, 20, é aniversário do Zé Carlos, o meia-atacante decisivo para o Bahia na conquista do bicampeonato brasileiro de 1988.

Zé Carlos teve uma infância difícil e começou a trabalhar aos 13 anos para ajudar a família: "Tenho o orgulho de dizer que passei fome, mas nunca mexi em nada de ninguém, nunca apelei para a marginalidade. Sempre acreditei na honra e no trabalho honesto. É isso que procuro ensinar para as escolas de futebol em que atuo.”

O ingresso no futebol foi tarde. Zé tinha 18 anos, quando o juvenil do Tricolor de Aço baiano o acolheu após uma peneira com mais de mil garotos. Tiro certeiro dos olheiros do Bahia. O rapaz, embora muito magrinho e com quase 1,80m, era bom de bola pra chuchu. Em 1985, foi peça fundamental para o título estadual de juniores. Para não o dispensarem, fazia exercícios contínuos pendurado no travessão para tentar ganhar musculatura. Nem precisava disso. Zé batia um bolão. Após a boa fase na base do Bahia, já entre os profissionais, foi tricampeão baiano e, a maior de todas as conquistas, campeão nacional, em 1988.

O rapaz bom de bola fez tanto sucesso que o treinador da Seleção Brasileira, Sebastião Lazaroni o convocou para amistosos contra Arábia Saudita e Portugal, em 1989.

Com todo aquele futebol, não há dúvida: os Orixás sempre deram uma força bacana para o craque e ídolo Zé Carlos. Axé, mestre! E, claro, feliz aniversário!



 

TONHO VÉIO

por Tom Correia

As derrotas consecutivas de um carpinteiro heptacampeão

Tonho Véio

Tonho Véio

A tarde é de sábado, o tempo é de chuva. Operários buscam abrigo nos tratores estacionados à beira do campo de São Brás, limite entre o bairro da Federação e o Vale das Muriçocas, periferia de Salvador. A prefeitura está recapeando a pista da avenida Sérgio de Carvalho, que atravessa toda a comunidade, embutida numa baixada que começa na Vasco da Gama. Há mais de uma década, serviços de grande porte não eram vistos na região. Eleições municipais serão realizadas em quatro meses. Deve ser coincidência.

Sem preleção, o técnico da Portuguesa distribui as camisas laranja de verdes listras horizontais que não combinam muito com os calções e os meiões vermelhos. Cada conjunto do único uniforme está espalhado no chão, debaixo das árvores plantadas no lado oposto do campo. O adversário do dia é o Juventude B, que também se prepara num local próximo. A Lusa do Vale vem de duas derrotas seguidas, a última delas frente ao Juventude A: um humilhante 6 a 1.

Na véspera das partidas, Tonho Véio, 54, sempre fica ansioso e sonha com resultados. Dessa vez estava otimista, a profecia fora favorável. Sonhou com a vitória do time que fundou em 1998 após a dissolução do mítico Esperança, dos grandes Orlando e Milton, Luisinho e Osmar, Dinho e Everaldo. A equipe chegou ao heptacampeonato da Liga batendo um a um como se fosse uma máquina húngara de fazer gols, um papa-títulos da Vila Belmiro.

O céu se fecha e grossos pingos d’água se precipitam sobre o campo de terra batida onde os jogadores da Portuguesa se abraçam, formando um círculo. Um padre-nosso e uma ave-maria precedem um grito de guerra apoiado por aplausos. Todos aguardam pelo início de mais uma rodada da competição disputada por 14 equipes. Ninguém espera mais pelo final da temporada do que Tonho. Lá se vão dez anos desde o último troféu de campeão. Para ele não importa.

- Não bebo, não gosto de festa. Esse time é a minha alegria, o futebol é a minha ‘baixa’, é o que me deixa de coração espantado - se declara com o forte sotaque trazido de São Gonçalo dos Campos, terra natal, 108 quilômetros interior baiano adentro.

O árbitro aciona o apito. Léo, Décio e Rogério; Paulo Bau, Valdir e Cláudio; Pereira, Vado e Adriano. O time escalado pelo homem negro, grisalho, franzino e de estatura mediana é formado em sua maioria por moradores do Vale. São eletricistas, carregadores, pedreiros, vendedores de material de construção, porteiros e metalúrgicos que, durante setenta minutos, esquecem o desemprego. Os biscates são a alternativa de sobrevivência. Mesmo sem conseguir criar chances claras de gol, a Portuguesa domina as ações. O Juventude B se defende, rifando a bola, sem organizar um contra-ataque consciente.

Léo, o jovem cego do olho esquerdo, é um goleiro calado e ‘semi-ótico’. Veste-se quase todo de preto, involuntariamente buscando inspiração no lendário Aranha Negra. Aos 22 minutos, numa saída equivocada do zagueiro Décio, Jairo rouba a bola e toca para Isaías marcar Juventude 1 a 0. Tonho Véio agita-se na beira do campo. O semblante acusa o golpe. Rugas bem marcadas aparecem na testa. Sua voz rouca é descompensada, desprovida da modulação ideal: de perto é alta demais; a meia distância, quase inaudível. Seus trajes de diretor técnico são a representação espontânea de um Luxemburgo ao contrário: camisa de empresa de ônibus para a Operação Carnaval 2007, calça jeans de barra dobrada e sandálias havaianas verde-pálido. 

Ele acende o primeiro Hollywood de uma série de cinco. A partida é renhida. Não há poesia ou lirismo, apenas prosa endurecida. Botinadas concretas produzem um som rascante do atrito de canela contra canela. Raça e força de homens rudes suplantam os escassos instantes de técnica, quase todos saindo dos pés de Pereira, o camisa 10 da Portuguesa. Ele distribui a bola utilizando um bom repertório de dribles, lançamentos e passes precisos. Seu único pecado é não finalizar as jogadas que inicia. É o intocável do time. Não recebe reprimenda ou orientação por parte do comandante.

Tonho tem 30 anos de experiência como carpinteiro, ofício aprendido na época em que trabalhou como servente ao chegar à capital baiana, em 1974.

- Trabalho ‘fichado’ em obra, mas agora estou desempregado aí porque as empresas estão chiando por causa desse negócio de idade! - justifica-se.

A faixa etária dos seus jogadores situa-se entre os 23 e os 42 anos; a escolaridade é baixa, poucos concluíram o ensino médio. Dentre todos, só o dono do time conheceu os brejos, as hortas e a lama que invadia as primeiras casas do Vale das Muriçocas, construídas no final dos anos 70 à base de mutirões. Conheceu também as valas de esgoto a céu aberto que atraíam quantidade absurda de insetos, o que deu origem ao nome do lugar.

Falta a favor do adversário. “Excelença, vamo olhá diretcho!”, Tonho contesta, num dos poucos momentos em que tenta intervir. Acompanhando os lances de perto, o árbitro criterioso até seria discreto se não fosse pelo moicano, o brinco e as tatuagens. Vagas orientações táticas são recebidas com indiferença. A voz rouca e débil do líder parece não chegar aos ouvidos dos dez comandados, que lhe pediram para não xingar durante os jogos. O cessar-fogo do boca-suja começara há duas rodadas, há duas derrotas.

O time ressente-se do primeiro gol e cede espaço ao Juventude, que cresce. Aos 28, numa jogada despretensiosa, Jairo domina na entrada da área e coloca de chapa, no canto. Léo, caladão, aceita. 2 a 0. Tonho não sabe quanto tempo ainda resta do primeiro tempo: ninguém da equipe trouxe relógio. Ele passa a mão no rosto, enfia o dedo no nariz, no ouvido. Acende um novo cigarro e abre um papel amarrotado que envolve as carteirinhas dos jogadores. Escolhe uma delas e dirige-se à mesa da comissão, preparando mudanças.

Tonho Véio não possui religião e nem precisa dela para falar diretamente com o seu Deus. Na ‘Muriçoca’, as opções para quem busca consolo espiritual são variadas. Os templos católicos, protestantes e afro religiosos convivem lado a lado abocanhando, cada um, de acordo com seus ritos, a fatia de fiéis provedores. Na barraquinha do Pai Helinho, localizada no trecho comercial mais ativo da Sérgio de Carvalho, folhas de descarrego são vendidas aos que necessitam recarregar as energias, mudar o rumo das coisas que estão dando errado na vida. No Terreiro de Dona Boneca, trabalhos podem ser encomendados para que caminhos sejam abertos à prosperidade. 

Ele não apela para macumba. Quer vencer na bola, de preferência jogando bonito, como na época em que regia o Esperança. O padrão amarelo e preto que aniquilava os rivais como se fosse o Ypiranga dos anos 20, o Peñarol três vezes campeão do mundo. No intervalo, o técnico-carpinteiro faz três alterações de uma só vez. Alguns questionam, mas respeitam a decisão. Ele queima mais um Hollywood ao mesmo tempo em que afirma não entender a atuação do time. A falha de Décio ocasiona sua substituição.

- É o melhor zagueiro que nóis tem, mas vou colocá outro. Testá logo aquela miséra ali… se não prestá, não vem mais…

A temporada 2008 foi aberta há dois meses*. Até dezembro, quando o novo campeão do Vale será conhecido, grande quantidade de barro ainda deverá ser extraída das chuteiras utilizadas no campo de São Brás. Cada turno é dividido em dois grupos de sete equipes, das quais as quatro primeiras colocadas se classificam para as fases seguintes até a decisão em jogo único. A Portuguesa não avançaria caso o campeonato fosse encerrado após o 3 a 1. Ao invés de estudar estratégias ou posturas táticas que revertam o panorama do time na competição, o Véio Tonho prefere acreditar no “Imponderável de Almeida” rodrigueano.

- Quando eu xingo, meu time ganha… vou voltar a xingá de novo e eles vão ganhá… - sentencia, enquanto se despede com algumas ferramentas na mão, pronto para assentar a milionésima fechadura, a milionésima porta.

Jogadores da Portuguesa do Vale posam para foto antes da partida

Jogadores da Portuguesa do Vale posam para foto antes da partida

*texto publicado originalmente no blog Caverna do Escriba em 2008.